domingo, 31 de maio de 2009

Um desastre anunciado (*)

Em 16 de agosto do ano passado, nesta coluna (que espero que continue a ser lida por muita gente), fiz uma análise das nuvens negras que encobriam a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, sob o título “Uma Universidade na Linha de Tiro”. À época, a Assembléia Legislativa estava discutindo a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que determinava os gastos públicos para 2009. Foi quando aflorou na mídia estadual a situação de risco sobre o futuro acadêmico da UEMS.

Desde a sua criação, esta universidade estadual sempre esteve a mercê de interesses políticos, chegando a ponto de, num certo momento, se falar até em seu fechamento. Porém, considerada um patrimônio dos sul-mato-grossenses, muitas vozes se levaram em sua defesa, e esta idéia estapafúrdia caiu no esquecimento. Em contrapartida, os legisladores em sua defesa estabeleceram na LDO a exigência de um percentual de gastos vinculado à arrecadação estadual, permitindo não somente a sua manutenção como também possibilidades de expansão.

No entanto, “na calada da noite” como dizia um velho político corumbaense, na proposta orçamentária então discutida na Assembléia Legislativa, não foi incluída nenhuma rubrica de gastos obrigatórios para a Universidade Estadual. Esta omissão, que poderia ser corrigida pelos deputados, passou tranqüilamente pela Comissão de Constituição, Justiça e Redação, aliás, o fórum adequado para solucionar a situação, e a LDO foi aprovada. Como era de se esperar, um novo calvário estava à espreita da UEMS.

Decorrido 9 meses após aqueles acontecimentos, novamente a situação aflitiva da UEMS aparece nas páginas dos jornais. Contando com 8 mil alunos e atingindo a sua abrangência em 15 municípios, esta universidade assumiu um papel social altamente significativo para as comunidades do interior. Dos 20 cursos em pleno funcionamento, alguns podem fechar por falta de recursos. A expectativa de retração do atual estágio de desenvolvimento da UEMS traz como consequência uma intraquilidade generalizada para os pais, filhos e, principalmente, para docentes que, mesmo concursados, temem o espectro do desemprego. É preciso, isso sim, uma mobilização da sociedade sul-mato-grossense para que não haja mais prejuízos ao ensino universitário estadual e à educação de modo geral.

Porém, como penso que bom senso neste momento é “caldo de galinha”, que não faz mal a ninguém, este impasse financeiro provocado por esta distorção política vai provocar uma saudável discussão sobre os rumos que deve seguir a UEMS, para um lado ou para outro. Como a educação deve estar em continuado processo de expansão e transformação, é obvio, que as instituições não devem permanecer imutáveis. E, portanto, está na hora de redefinir o papel e os destinos desta Instituição Superior sem, contudo, descaracteriza-la.

Por fim, uma Universidade não significa apenas formação em nível superior. Além de capacitação técnica e profissional ela produz desenvolvimento através das atividades de ciência e inovação tecnológica. Se Mato Grosso do Sul quer se um estado forte, é preciso cuidar e expandir a UEMS para que ela seja a nossa USP ou nossa UNICAMP.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 31 de maio de 2009.

domingo, 24 de maio de 2009

O trenzinho que saiu dos trilhos (*)

Sonhos para uns, nostalgia para outros, depois de uma longa espoliação histórica, o Trem do Pantanal deslizou pelos antigos trilhos da Noroeste. Não falo que voltou porque muita água ainda passará sob a ponte, ou melhor, sob os trilhos. Correndo nos seus acanhados trilhos que cortavam o Pantanal, com a ligação de Campo Grande à Porto Esperança em 1914, o trem da Noroeste esteve intimamente ligado à história e à construção de Mato Grosso do Sul. Porém, a insensibilidade e a ganância dos homens, ligadas unicamente aos interesses do mercado e da defesa do Estado Mínimo (pilares do neoliberalismo) e não aos interesses da sociedade como um todo, levaram ao desmonte e a privatização de instituições estatais. O país perdeu, o estado endividou-se, os serviços essenciais ficaram com preços proibitivos, a população pagou o “pato”, mas muita gente encheu as suas “burras”. Parece até anacronismo falar sobre esse passado que não volta mais, mas como sou teimoso, continuo a falar. O caso da Noroeste é emblemático, pois todos nós saímos perdendo.

No entanto, quem viveu este período jamais esquecerá o balançar e os apitos “daquele velho trem”, como registrou uma belíssima canção regional. Sem romper este cordão umbilical nasceu o “trem do pantanal”. Entendo até que esta proposta é superação de um peso na consciência de uma geração que não soube, ou não teve condições de preservar o velho trem da Noroeste.

Sou um dos defensores deste evento, porém, não posso deixar de fazer algumas considerações. Em primeiro lugar houve um equívoco em denominar, como propaganda, “a volta do trem do Pantanal”, pois não se retorna o que, historicamente, não existe mais. O trem da Noroeste, como existiu, transportando cargas e passageiros, já faz parte do passado da região. Este novo trenzinho, que fez uma recente primeira viagem, tem uma nova concepção de utilização. Como diz um velho ditado, é “a volta dos que não foram”. Em fim, a utilização da palavra “volta” é complicada e induz às pessoas desavisadas a nostalgia de resgatar algo que não será efetivado.

O segundo ponto de preocupação é o batismo de trem do “Pantanal”, que induz a pensar que o passageiro usufruirá das belezas naturais (exaustivamente divulgadas pela mídia) que, na verdade, não serão mostradas por uma razão muito simples: o trem do Pantanal não corta o Pantanal nesta primeira etapa. O término desta viagem, na cidade de Miranda, demonstra que as grandes planícies alagadas ficaram de fora do projeto.

Esta primeira viagem, com autoridades que incluiram os presidentes do Brasil e do Paraguai, mostra o perigo da utilização de uma propaganda enganosa. O presidente Lula, com sua verve conhecida, chegou a dizer: “serei o garoto-propaganda do Pantanal no mundo”, que ele, na verdade, não viu. Também chegou a prometer que no próximo ano o trenzinho do Pantanal chegará a Corumbá. Será? Pobre cidade de sonhos perdidos, pois espero que não demore 40 anos, como no passado foi o tempo de implantação dos trilhos entre Porto Esperança e Corumbá. Que o diga o presidente da ALL (América Latina Logística) Bernardo Hess, que em recente entrevista, jogou água fria na possibilidade do trenzinho do Pantanal chegar a Cidade Branca a curto espaço de tempo.

Outras perguntas que não podem calar sobre a questão da segurança dos usuários e turistas, aliás, nem o próprio presidente da ALL conseguiu uma explicação plausível. A empresa não explicou até agora quantos dormentes foram trocados, trilhos revisados, além dos trabalhos de conservação das velhas obras de arte. Além disso, ninguém também explicou porque este trem, com poucos vagões, não ultrapassa a velocidade de 30 kilômetros por hora, tornando a viagem um tormento aos passageiros. Até o velho trem da Noroeste desenvolvia maior velocidade, e olhe, com a infraestrutura de 1914. Será que maior velocidade provocará a saída do trenzinho de seus trilhos? Num primeiro momento, segundo um mote da novela, foi um fato “auspicioso”, agora a realidade é mais dura e as críticas já começaram a aparecer. Discursos na Assembléia Legislativa dos deputados da oposição chegaram até a afirmar que o próprio presidente da república foi enganado por este danado trenzinho...

Ainda é tempo de fazer um planejamento conseqüente para o uso desta ferrovia, não provocando uma indesejável propaganda negativa e contrária aos interesses de Mato Grosso do Sul. Senão, será mais um trem a perder os trilhos da história.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 24 de maio de 2009.

domingo, 17 de maio de 2009

Uma reforma indecorosa (*)

Sou um militante partidário e isto significa que sou filiado a um partido político. Com isso defendo que a melhor participação numa sociedade democrática é trilhar um envolvimento com uma agremiação partidária. Mas, neste momento, encontro-me numa encruzilhada terrível, pois a classe política está com a sua imagem no fundo poço. As notícias que extrapolam o belo prédio do Congresso Nacional, hoje alimentam mais as páginas policiais do que as colunas políticas. E quando se pensa que já se viu de tudo em termos de promiscuidade da classe política, novas denúncias vêm abalar os já combalidos alicerces na nossa pobre democracia. E tudo isso na mais singela impunidade.

Acho que vou mudar de profissão para produzir e vender em Brasília “óleo de peroba” e vou ficar rico. Os exemplos estão aí para serem vistos e repudiados. Com esse tipo de gente o que fazer para recuperar a moralidade política neste país? O castigo seria derrotá-los nas próximas eleições. Mas é aí que mora o perigo.

A corrupção virou uma coisa corriqueira e banal, e até sinônimo de esperteza e inteligência. Esta hidra espalhou-se por todo o país, como uma erva daninha que atinge até o menor dos agentes políticos. Mas nesta discussão, fico apenas no que está acontecendo no Congresso Nacional.

Um exemplo de grande repercussão nos últimos tempos foi o caso conhecido como “mensalão”, onde muitos “representantes do povo” lambuzaram-se com o dinheiro sujo da corrupção. Foi muito barulho e, infelizmente, pouca condenação. Porém, a imprensa investigativa não permitiu o esquecimento deste “imbróglio”. Pelo contrário, não deu tréguas a estes contraventores e as denúncias começaram a aparecer aos borbotões. Parece, no entanto, que os políticos não aprendem e continuam a desafiar a opinião pública. A lista é longa, como os casos de aluguel de jatinho, do uso indevido de telefones celulares, da baixaria do uso de empregadas domésticas com verba oficial, e das propriedades milionárias omitidas por diretores, etc., etc., etc.

Um outro exemplo gritante foi o caso do deputado Sérgio Moraes, relator do processo contra o também deputado Edmar Moreira, aquele que construiu um castelo em Minas Gerais avaliado em mais de 25 milhões. Pois bem, este cara de pau não viu nenhuma razão para cassar o seu colega, dizendo que estava “se lixando para a opinião pública”. Entendo que ele também deveria ser cassado por falta de decoro parlamentar.

Agora veio a vergonhosa história da utilização de passagens aéreas, que políticos bonzinhos (com o nosso dinheiro) repassavam para parentes, namoradas e figurinhas inomináveis. Foi, sem qualquer escrúpulo, a mistura do público com o privado. Até parlamentares “acima de qualquer suspeita” usaram deste expediente como se fosse uma ação de normalidade e de direito de propriedade. Isso tudo está enxovalhando uma história cheia de estadistas que pela sua honestidade engrandeceram a política brasileira.

Porém, é de assustar que ao desenrolar de qualquer crise, talvez para desviar a atenção da população, esses mesmos políticos (muitos deles na alça da mira da justiça) recorrem as já desgastadas propostas de reformas. Depois, como é corriqueiro, ao passar a fase aguda da confusão política, não se fala mais em nenhuma reforma. No entanto, a idéia de uma pseuda reforma política vem colocar em risco a democracia brasileira (pelo menos é a que temos) e um tremendo retrocesso na vida brasileira. É um acinte e deve ser repudiado por todos.

Este arremedo de reforma tem dois pontos, que são verdadeiras malandragens partidárias. O primeiro ponto propõe que o financiamento das campanhas eleitorais dos partidos políticos fique a cargo do Tesouro Nacional, ou seja, do dinheiro do cidadão, independente de sua concordância ou não. É no mínimo falta de pudor aprovar tal proposta. Porém, o pior vem depois. É a proposta de extinguir a escolha do eleitor por um candidato. Isso mesmo. Seria feita uma lista fechada de deputados e vereadores pelo partido e o cidadão somente votaria na sigla partidária, sendo eleitos os primeiros da lista. O eleitor não votaria mais em seu candidato preferido, impedindo a renovação partidária e elegendo somente os “donos” dos partidos. É o retorno da política da Velha República (1889-1930) e do velho e carcomido coronelismo. E o que é pior, tornando cativos os mandatos dos atuais parlamentares.

Apesar de todos os nossos limites e do desânimo que acomete a sociedade civil, não podemos esmorecer. Por isso, é preciso, ao menos, ficar de olho neles!

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 17 de maio de 2009.

Uma epidemia muito louca (*)

A nova epidemia de gripe que vem se espalhando pelas mais diversas partes do mundo está assustando a todos e com muita razão. Pode ser controlada, mas também pode provocar uma mortandade assustadora. Só o tempo dirá o que vai acontecer. O que tranqüiliza é saber que as autoridades sanitárias e de saúde, dada a sua gravidade, estão atentas em todos os países e tomando medidas de controle e monitoramento. É o que se vê pelos órgãos de imprensa.

Vejo com atenção o posicionamento das autoridades brasileiras, primeiro esclarecendo a opinião pública (contrariando a clássica postura de esconder fatos desagradáveis) e, em segundo, tomando também medidas enérgicas de controle e se preparando com a produção de estoques de remédios. Isso significa mesmo que o mundo está à frente de um grande perigo. É a tal globalização que estreita caminhos e contatos.

De início, houve um grande equívoco. Um “espírito de porco” chamou esta epidemia de “gripe suína” e virou uma porcaria para os porcos que passaram a ser os vilões da história, apesar dos desmentidos dos pesquisadores.Com medo, por desinformação, as pessoas deixaram de consumir a carne suína. Adeus feijoada e pururuca dos sábados. Os criadores de suínos também começaram a passar apertados com a queda imediata do consumo desta saborosa carne. Em vista disso, a Organização Mundial de Saúde, que começou sofrer pressão inclusive de organismos da própria ONU ligados a agricultura e à alimentação, passou a denominar da gripe com o seu nome científico: influenza AH1N1. Porém, o apelido já pegou e os porcos estão pagando o pato.

No entanto, o tempo vem, o tempo vai, e a história da humanidade vem sendo permeada por epidemias, muitas delas provocando grandes mortandades. Tudo isso, registrado em textos antigos mas que se perderam no limbo da história.

No século XIV, a Europa sofreu uma tragédia deste tipo sem precedentes. Foi a peste bubônica, conhecida como Peste Negra por provocar bolhas escuras de pus e sangue, fome e febre alta, onde morreu mais de 1/3 da população. Nos navios vindos do Oriente, essas sujas embarcações trouxeram em seus porões milhares de ratos contaminados com uma bactéria mortal. As pulgas desses roedores encarregaram-se de contaminar os seres humanos. O clima era propício a uma contaminação com as cidades em condições sanitárias precárias, esgoto a céu aberto (as pessoas jogavam pelas janelas baldes de excrementos acumulados) e lixo acumulado nas ruas.

Mas a grande pandemia, já no século XX, ficou conhecida como a Gripe Espanhola, entre 1918 e 1919, e atingiu a Europa e as Américas provocando a morte de acerca de 50 milhões de pessoas (calcula-se que a gripe atingiu 50% da população mundial). Os primeiros casos apareceram nas trincheiras das tropas francesas, britânicas e americanas durante a Primeira Grande Guerra. No Brasil estima-se que 300 mil pessoas foram contaminadas. No sul de Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul) o vírus influenza (da gripe espanhola) chegou até Corumbá, pelos navios que subiam o rio Paraguai a partir da foz do Prata. Aliás, o porto corumbaense sofreu muitas epidemias provocadas pelo tráfego de navios que abasteciam a região. Para registro, entre os anos de 1867 a 1920, Corumbá foi atingida por 35 epidemias.

Nos anos de 1957 a 1958 foi a vez da Gripe Asiática que teve origem no norte da China, atingindo em todo o mundo mais de um milhão de pessoas. Foi outra pandemia terrível e eu fui um dos que sobreviveram a este terrível mal, quando morava no interior de São Paulo (senão não estaria aqui escrevendo nesta coluna). Era uma febre muito alta que provocava alucinações (os antigos diziam que o doente estava “variando”), muita dor de cabeça e perda de sangue pelo nariz. Lembro que por falta de remédios específicos, fui tratado com comprimidos analgésicos e chá de alho, e que, em frente à minha casa passavam cortejos fúnebres.

Assim, vieram outras epidemias e mais recentemente a gripe viária, que se espalham com rapidez pela facilidade de comunicação. Felizmente a mortalidade é bem maior hoje, em termos proporcionais. A ciência e a tecnologia na medicina evoluiu muito nas últimas décadas, mas os riscos de pandemias são ainda enormes. Em último caso, voltaremos ao chá de alho e ao terço.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 10 de maio de 2009.

terça-feira, 5 de maio de 2009

O belo Antônio (*)

Na década de 60 do século passado um polêmico filme fez sucesso nas mais diversas partes do mundo. Era um filme italiano, numa época em que a produção cinematográfica da Itália rivalizava com a americana. Não me lembro o nome do seu diretor, mais sei que o artista principal, de muito sucesso na época, era o galã Marcelo Mastroianni. O tema era, para os padrões de hoje, ingênuo, mas naquele tempo chocou a sociedade conservadora e foi alvo de discussões em todos os setores da sociedade. Porém falava-se baixinho, para as crianças não ouvirem. E por crianças, nos anos sessenta, entendia-se os menores de 18 anos....

O filme contava a história de um jovem muito bonito, charmoso e rico, alvo de suspiros das moças casadoiras, que era um partidão, como se dizia naqueles tempos em que se amarrava cachorro com lingüiça. Entretanto, apesar de todos os seus predicados, o moço não “funcionava”. Pois é: o moço era atraente, mas impotente. E todo o filme girava em torno da solução deste problema. Parece bobagem, até porque hoje a pílula azul resolve essa questão, sem maiores discussões e isso deixou de ser um problema.

Lembrei-me deste filme para falar sobre um sinaleiro existente na avenida Mato Grosso. Parece loucura, mas meus leitores hão de me compreender.

Esta avenida virou um intenso e confuso corredor de carros que se pode ver pelo vai-e-vem em direção ao Parque do Poderes e pelo avanço de condomínios pelas bandas do Sóter. Isso sem contar que a facilidade de adquirir automóveis, nos últimos anos de farra de financiamentos (com prestações a perder de vista), provocou um inchaço no trânsito de toda a cidade, diga-se de passagem, até com engarrafamentos e buzinaços.

Oh! que saudades eu tenho da aurora da minha cidade (me perdoem os parnasianos), quando os carros eram poucos e os pedestres transitavam sem riscos pelas ruas principais. Agora, a administração municipal está preocupada em resolver o caos do trânsito e, infelizmente, os pedestres que se danem. Tudo que é “melhorado” é sempre em benefício dos automóveis, incluindo aí os novos semáforos que foram espalhados em cada cruzamento da Mato Grosso.

Porém, transitar por esta avenida virou um teste de paciência e de coragem, em especial, quando o incauto pedestre ousa atravessá-la. O que mais chama a atenção é a multiplicação de trogloditas que acham que sabem dirigir e que pela sua má educação (que me perdoem a suas famílias nem sempre culpadas), falta de cidadania e até de caráter insistem em fechar os cruzamentos. E vai reclamar, para ver o que acontece: você ouve os maiores e mais baixos impropérios e gestos de, no mínimo, mau gosto.

A instalação de novos semáforos, como por exemplo no cruzamento da rua José Gomes Domingues com a Mato Grosso, representa uma solução sensata, ainda que não seja a melhor, permitindo a passagem de pedestres e de carros, desde que, é óbvio, cada um respeite a sua vez. Isso veio facilitar a minha vida, porque eu passo por estas vias todas as manhãs, com o meu cachorro Barão, meu companheiro de caminhada. Compro o jornal na banca que fica próxima a esse cruzamento e, um dia destes, experimentei a ferocidade e a irresponsabilidade dos motoqueiros. Sou um velhinho aposentado, mas sou ligeiro e pulei rapidamente com o meu cachorro na calçada. Fiquei com algumas escoriações e um baita de um susto.

Como era de se esperar, o sinaleiro segurava o fluxo dos carros vindos do Parque dos Poderes em direção ao centro, provocando um pouco de movimento, que em alguns horários específicos aproximava-se de um engarrafamento. Esse é o preço pago por disciplinar o trânsito e permitir que todos tenham a sua vez de passar pela avenida, incluindo os que estão a pé.

Lamentavelmente, alguns motoristas poderosos e nervosinhos, impacientes com a existência do sinaleiro, até porque tem outro na esquina da avenida Ceará, reclamaram junto ao poder competente (?) e o sinaleiro da rua José Domingues foi imediatamente desativado.

Assim, voltou o caos e o salve-se quem puder. É uma pena ver, mais uma vez, a insensibilidade dos especialistas (?) em trânsito, que sobrepõem a rapidez do fluxo de automóveis sobre a segurança dos transeuntes que andam por aquela via. Além do mais, correr prá que? Campo Grande não é tão grande assim, e podemos desfrutar de uma vida mais calma e sem stress para irmos de casa para o trabalho e vice-versa.

Pois é, volto agora ao Belo Antônio. É nele que penso toda manhã quando passo nesse cruzamento para comprar meu jornal e me deparo com o semáforo do cruzamento da José Domingues com a Mato Grosso. Ele está lá, novo, bonito, mas não funciona...

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 03 de maio de 2009.

A copa é aqui. Será? (*)

Tenho acompanhado com muito interesse a proposta de Campo Grande sediar jogos da Copa do Mundo de Futebol que ocorrerá no Brasil. O primeiro passo foi uma tentativa de envolver a população nesta disputa como se fosse uma questão de orgulho regional. Assim, houve uma grande mobilização pública para recepcionar os representantes da FIFA e da CBF. Também, numa jogada de marketing, tentou-se vincular Campo Grande ao Pantanal com resultados imprevisíveis. Isso porque, na verdade, o Pantanal fica muito distante da capital e desconfio que uma propaganda deste tipo não tenha vida longa. O curioso é que muita gente que ficou arrepiada e contra a proposta da mudança do nome do estado para “Estado do Pantanal”, agora gritava em plenos pulmões “o pantanal é aqui”. Como o tempo muda.

Apesar de não saber quais os times que poderiam jogar aqui (que não sejam os piores), espero que a campanha obtenha sucesso, pois o resultado seria muito compensador. Como tal evento exigirá grandes investimentos, essa “dinheirama” deve ser distribuída pelos diversos setores de prestação de serviços sul-mato-grossenses. Assim espero. No entanto, parece que o clima de euforia vem arrefecendo. De qualquer maneira vamos aguardar os acontecimentos torcendo para que haja sucesso, mas com cuidado para que “politiqueiros” não assumam a paternidade desta festa popular.

Neste quadro, não posso deixar de comentar o jogo entre o Corinthians e o Misto, no Morenão, pela Copa do Brasil. Sem dúvida, foi uma verdadeira festa popular. Quem não foi ao campo perdeu uma rara oportunidade de ver uma contagiante alegria, com milhares de pessoas pulando e cantando, como se está acostumado a admirar pelos canais de televisão. Mas nem tudo foram flores, o que permite fazer algumas considerações de interesse coletivo. Sobretudo por ser o Morenão peça fundamental para sediar uma das sedes da Copa do Mundo. Porém, o que se viu foi uma situação muito preocupante e que depõe contra esta campanha, criando uma fama negativa sobre o estádio.

Em primeiro lugar, havia apenas uma entrada para os torcedores que, aos milhares, adquiriram espaços na arquibancada descoberta. Será que é assim que está começando o planejamento sobre a Copa do Mundo? Outro aspecto foi o estado lamentável do gramado com defeitos e buracos que prejudicaram os jogadores de ambos os times. Convenhamos, isto já poderia ter sido resolvido. Parece que os responsáveis estão esperando os resultados da escolha da Fifa para começar os investimentos e reformas. Não acredito que este seja o melhor caminho para conquistar uma vaga. Além disso, sem qualquer explicação, o estacionamento de carros não ficou aberto ao público, ficando os torcedores que foram com seus carros a mercê dos famigerados “guardadores”. Por sorte havia uma ostensiva ação da policia militar que inibiu em grande parte os “amigos do alheio”.

Mas, o que mais chamou a atenção foi a irresponsabilidade ocorrida ao término do jogo. Milhares de torcedores que saíram das arquibancadas descobertas caíram em um corredor, com luzes queimadas e apenas uma saída aberta. Isso mesmo, existia apenas uma saída. Era um funil que poderia ter provocado, caso houvesse algum tumulto, uma tragédia de consequências inimagináveis. Nem os dirigentes nem a polícia estavam ali para coordenar esta lamentável situação. Será que esta irresponsabilidade será positiva para a vinda da Copa? É claro que não.

Mas, o que mais me chateou foi ouvir a divulgação do público pagante em torno de 14.599 pessoas, quando a imprensa toda falou em mais de 20.000 pessoas. Não sou matemático, mais fiquei com a pulga atrás da orelha. Esta fama de desencontros na prestação de contas das rendas no Morenão já se espalhou pelo Brasil afora. Com certeza, esta situação não é uma propaganda positiva para a escolha de Campo Grande para ser uma das sedes da Copa do Mundo.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 26 de abril de 2009.

Olha do trem aí...gente! (*)

Desde as primeiras décadas do século passado, o trem, então denominado Noroeste do Brasil, foi parte integrante e atuante da história de Mato Grosso. Cortando os sertões de São Paulo e adentrando por Mato Grosso os trilhos chegaram primeiro à Campo Grande. Depois deram uma guinada à oeste, atravessando os desafiadores pantanais, com expressiva mortandade de trabalhadores, interligando finalmente, em 1914, a região de Porto Esperança, às margens do Rio Paraguai. O restante do trajeto foi completado, subindo o rio com cargueiro e transporte de passageiros, até o Porto de Corumbá.

Esta interligação comercial que coincidiu com a deflagração da Primeira Guerra Mundial provocou de forma irreversível a transformação histórica de toda esta região mato-grossense. Primeiro por que Corumbá perdeu o “bonde da história”, pois os trilhos foram inaugurados na cidade somente em dezembro de 1952. Neste período, mesmo mantendo um comercio fluvial, o porto foi perdendo o seu brilho como eixo importador e exportador fronteiriço. As cidades que ficaram ao redor dos trilhos ganharam com a ampliação de população e de atividades comerciais. Portanto, falar sobre a história da região representa dar amplitude e significado maior ao andar lento e aos apitos das locomotivas e com eles a convivência de gerações e gerações de mato-grossenses.

Apesar de uma prestação de serviços nem sempre eficiente, a Noroeste do Brasil foi um símbolo emblemático de sobrevivência da região. Os seus vagões, barulhentos, mas reservados em seus segredos, testemunharam alegrias, tristezas, amores apaixonados e roubados (em suas cabines mal cheirosas), os famosos bifes à cavalo servidos com cerveja quente, só para citar algumas lembranças sentimentais.

Depois veio o turbilhão do neoliberalismo e com ele a defesa do chamado estado mínimo. O resultado deste desvario foi a privatização dos bens públicos que no caso desmontou a importante malha fluvial brasileira. O país perdeu um patrimônio incalculável, mas teve gente (sempre os mesmos) que encheu as “burras” com o dinheiro que evaporou simplesmente.

A tragédia que se abateu sobre a Noroeste do Brasil foi maior pelo fato da firma americana, que arrematou este espólio ferroviário, era segundo a imprensa uma empresa falida e não colocou nenhum centavo neste “grande” negócio. E o que é pior, obteve dinheiro público que jamais foi ressarcido. Foi um período de sucateamento e de depauperação deste patrimônio histórico e cultural. O que restou desta aventura criminosa, quando não tinha mais nada a sugar, foi passada para frente. Também, como se fosse uma questão de vida ou de morte, foram também tirados os trilhos que cortavam a capital, Campo Grande. Há pouco tempo atrás, como uma prioridade para trazer uma das sedes da copa do mundo para a cidade, aventou-se a construção de um metrô de superfície, para facilitar o transporte na época dos jogos. Será que vão recolocar os trilhos no centro da cidade? Sei não, ou melhor, sem comentários.

Agora está revivida a idéia da implantação do “Trem do Pantanal”, entre a capital e a cidade de Miranda. Antes de tudo, quero dizer que sou a favor deste evento cultural. Porém, não posso abrir mão do meu direito à reflexão e à crítica. Primeiro, o trajeto proposto está longe de ser significativo para a apresentação do Pantanal, quando o trecho real para uma vista da região pantaneira, concentra-se justamente entre Miranda e Corumbá. Segundo, o mais sensato seria fazer uma etapa de ônibus, trecho Campo Grande-Piraputangas, e complementado, que é o trecho mais importante, Pitaputandas-Miranda (almoço)-Corumbá. Mas, do jeito que está proposto, pode virar um trem fantasma.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 19 de abril de 2009.

Flanelinhas: no limiar da contravenção (*)

Uma situação desagradável e constrangedora para usuários de veículos acontece em quase todas as ruas das grandes cidades e tornou-se um flagelo no país. É a ação de extorsão e impunidade disfarçada de “economia informal”. Pode parecer, à primeira vista, politicamente incorreto criticar quem está procurando um ganho extra com alguma atividade remunerada, considerando a atual situação de crise econômica e a assustadora onda de desemprego. Porém, é inaceitável existir um “trabalho” que violenta os direitos dos cidadãos comuns usuários das ruas.

Refiro-me a essa praga que se alastrou, por pura omissão do poder público, que são os guardadores de carros, também chamados de “flanelinhas”. A grande maioria desses guardadores de carros, usufruindo o espaço público como estacionamento privado, exerce uma atividade no limite da criminalidade e usa a intimidação e o medo dos motoristas para garantir a “taxa” por cada veículo “guardado”. O cidadão dá um troco, não para ter a segurança de seu carro preservada dos ladrões convencionais, mas para não ter seu veículo danificado ou “aliviado” pelo próprio flanelinha. E olha que, em alguns casos, não é troco não. É uma taxa bem salgada, pois esses meliantes estabelecem a sua própria tabela de preços. Basta ver o que acontece em dia de jogo no Morenão, quando vem jogar aqui grandes times do país.

Assim, medo, insegurança e impunidade não permitem que o cidadão reaja e se negue a pagar pelos serviços dos flanelinhas. Imagine, então, a situação das mulheres ao enfrentar tal pressão. Com certeza, a maioria cede de pronto ao pagar, para não ter seu carro roubado, riscado e danificado de diversas formas.

O contribuinte, que já está entulhado de impostos e taxas, transformando-se em “sócio” do governo, também amplia suas contribuições quando adquire um veículo: seguro obrigatório, seguro particular do carro, IPVA, taxas das “zonas azuis”, pedágios e outros mais. Mesmo assim, nada o preserva do achaque dos guardadores de carro.

No centro da cidade de Campo Grande, a administração municipal também descobriu uma forma engenhosa de por a mão no bolso do contribuinte com os paquímetros, a pretexto de provocar uma rotatividade dos carros ali estacionados e desafogar as ruas. O que espanta é que, mesmo pagando por este estacionamento público, não há por parte da municipalidade nenhuma garantia contra roubos e danos. A lei que criou os tais paquímetros, que é uma prestação de serviço público, deveria também ter criado como contrapartida mecanismos de proteção do usuário. Relegado à sua própria sorte, nesta região central, o motorista ao estacionar seu carro, após registrar com uma chavinha o tempo de espera no paquímetro, logo ouve uma voz chamando “tio, posso olhar o seu carro?”. E você vê um tremendo marmanjo, maior que você, com um estranho sorriso. Muitos são verdadeiros “armários”. O que fazer? Eu geralmente concordo que meu carro seja “olhado”. Quando eu retorno, agradeço o “espertinho” mas não pago pelo “serviço”. Acho que qualquer dia desses vou “levar o troco”. Até hoje, só fui xingado (pobre da minha mãe!). Não sei qual será a minha reação diante de uma situação dessas.

Também, o sul-mato-grossense que se atreve a visitar a Expogrande, aliás um dos maiores eventos anuais do estado, fica totalmente desprotegido da intimidação (uma forma de violência) e dos achaques dos guardadores de carros e dos estacionamentos improvisados nas redondezas da Acrissul. É feito um verdadeiro cinturão de várias quadras em torno do evento, de modo a só permitir estacionar quem pague R$ 10,00 por vaga. Foi, sem dúvida, um roubo descarado, que prejudicou em muito a frequência deste importante evento. E o que é pior, não vi nenhum carro policial na região para proteger o cidadão comum. Talvez, por isso, ocorreram tantos roubos, vandalismos e arrastões.

Creio que esse e outros tipos de trabalho informal, em vez de aliviar a crise e possibilitar uma alternativa de emprego e renda aos desempregados, acabam mesmo é criando diversos tipos de contravenção, infelizmente tolerada pelas autoridades e pelos cidadãos que vivem sob a pressão da impunidade e do medo. E isso só agrava a crise, jogando nas costas do cidadão, que paga impostos pesados, mais um ônus: o de ter que absorver a crise social.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 12 de abril de 2009.

Quem vai pagar o PAC? (*)

Apesar de ter sido subestimada pelo governo, classificada como “marolinha”, a atual crise financeira vem arrastando tudo o que vê pela frente, como um assustador “tsunami”. A crise está tão feia que tem gente pulando como gato em teto de zinco quente. O próprio prestígio do presidente Lula já está sentido seus efeitos com quedas sucessivas, como vêm demonstrando as últimas pesquisas de opinião. A cada instante, o governo toma medidas para o seu enfrentamento, injetando dólares na ciranda financeira, prorrogando o IPI dos carros, isentando impostos do setor da construção civil, aumento o imposto dos cigarros. Mas, infelizmente, o desemprego continua aumentando, empresas fechando e, epa!, a corrupção viva e sem dar trégua.

Outra medida governamental que chama muita a atenção, pois a princípio parece ser uma coisa bem vinda, é o lançamento do Plano Nacional de Habitação. É mais um PAC, desta vez, chamado de Minha Casa, Minha Vida, com a estratosférica proposta da construção de um milhão de casas. Quem vai pagar este PAC a história é quem dirá, mas o “pato” com certeza será o povo brasileiro, como sempre.

Porém, o plano provocou certa estranheza ao não definir o tempo de duração, ou melhor, propõe a construção de um milhão de casas sem definir em quanto tempo. É um plano com começo e sem fim. Pode então parecer que, ao não definir o tempo de duração do plano governamental, o próprio governo sabe que lançou um programa de construção que não concluirá. O que é pior, afinal, não se sabe quantas casas Lula conseguirá construir no período de vigência de seu mandato. Por isso, espero que este programa não esteja focado somente para as próximas eleições.

Na verdade, qualquer família tem como sonho, ou objeto de desejo, a obtenção da casa própria. Agora, mais do que nunca, o governo vai trabalhar com o sonho dessas pessoas. Estou torcendo para dar certo, pois não se pode admitir que as esperanças de muitos sejam frustradas. Pois bem, a construção de casas, em grande escala, vai diminuir (e não acabar) o brutal déficit habitacional, promovendo uma desejada injeção financeira na economia interna e, consequentemente, estímulos à geração de empregos. Mas nem tudo é cor-de-rosa.

O primeiro passo será a formalização de parcerias entre governo federal, estadual e prefeituras para a escolha de local das construções, compra de terrenos geralmente distantes dos centros e sem infraestrutura, como luz, água, transporte, saúde, só para citar os mais visíveis. E quem vai pagar a conta? As prefeituras que estão falidas pela queda brutal dos repasses do FPM?

A grande verdade, pelo que passa a imprensa oficial (ou pela chamada chapa branca), o próprio governo não tem clareza de como colocar em prática um plano tão ambicioso, que deverá ser formatado com novos estudos. Talvez por isso o programa Minha Casa, Minha Vida causou de imediato tanto alvoroço e desabou em seguida num mar de críticas. Sem perder o direito à crítica, continuo a torcer para que o programa seja um sucesso sem uso eleitoreiro.

Porém, fiquei temeroso ao ouvir a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, de maneira não convincente explicar o referido projeto. Pareceu não ter clareza e firmeza no que estava dizendo. Lembrei-me, com horror da ministra Zélia Cardoso de Melo, no governo Collor, tentando explicar perante uma nação estupefata o inexplicável confisco da poupança. Não, de novo não!

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 05 de abril de 2009.

Uma riqueza sul-mato-grossense (*)

Cheguei em Corumbá em 1971 e fiquei maravilhado com a sua natureza esplendorosa e seu conjunto arquitetônico histórico marcante. Além disso, fiquei extasiado ao degustar uma variedade de peixes de sabores diferenciados e deliciosos. A piscosidade do rio Paraguai, sem igual, que alimentou por centenas de anos a população ribeirinha, hoje já não aguenta mais tanta agressão e depredação. Foi-se o tempo em que, às margens do casario do porto, conseguia-se pescar com facilidade grandes e belos exemplares de muitas espécies. Mas o rio Paraguai é teimoso e continua resistindo ao “vai e vem” de suas enchentes. Creio que seus peixes, de sabor sem igual, são produtos de suas águas cheias de pedras, calcárias e nem sempre barrentas.

Foi ali que pela primeira vez tive a sensação gostosa de saborear um copo de caldo de piranha com uma pimentinha brava. A impressão do boteco do João Piranha não foi das melhores, mas a sua fama de cozinheiro encheu de coragem o jovem professor universitário, recém chegado de São Paulo. Valeu a pena. A partir de então, este pescador de lambaris e tilápias paulistas que vos fala, começou a saborear pintados, dourados, pacus, e outras maravilhas.

Mais tarde passei a frequentar locais obrigatórios de “comilanças” em outras peixarias, como o Ceará, o Lambari do Nelson, infelizmente não mais existente, e a emblemática peixaria do Lulu, com uma comida e tempero insubstituíveis. Nessas lembranças não poderia deixar de mencionar do Mestre João, já falecido, que inventou o prato nacionalmente famoso “Peixe a Urucum”. Ir a Corumbá e não adentrar as velhas portas da peixaria do Lulu é como ir a Roma e não ver o Papa. Assim, sempre que retorno à histórica Corumbá, não perco a oportunidade de fazer um verdadeiro périplo pelos restaurantes locais.

Isso não quer dizer que somente o rio Paraguai apresenta uma piscosidade invejável. Na verdade, Mato Grosso do Sul é uma região privilegiada pela abundancia e qualidade de suas águas, como por exemplo, as bacias do Miranda e do Aquidauana que são também verdadeiros paraísos naturais e com peixes de dar água na boca.

Recentemente estive em Aquidauana por ocasião da inauguração da Base de Pesquisas Históricas e Culturais das Bacias dos Rios Aquidauana e Miranda, num prédio da década de vinte, adquirido e restaurado pela UFMS. Foi neste prédio que se encontrou abaixo do piso uma escada e um túnel. A explicação sobre este intrigante buraco está a cargo de pesquisas realizadas por professores de História e de Arqueologia da unidade da Universidade Federal local.

Como em Corumbá, quando se vai a Aquidauana não se pode deixar de “bater ponto” numa peixaria conhecida como Amarelinho, às margens do rio e do lado da cidade de Anastácio. É um rústico imóvel próximo a bela e histórica ponte que liga os dois municípios. Neste local é oferecida uma peixada única, sem comparação. São servidos inúmeros pratos com peixes variados, fritos, ensopados, à milanesa, caldo de piranha e outras iguarias. O singular desta peixaria, é que os peixes são apresentados ao cliente sob a forma de rodízio. Explico melhor: enquanto o cliente aguentar, os garçons continuam servindo. Vale a pena sair de Campo Grande e almoçar na “princesinha do pantanal”. Creio mesmo que a Fundação de Cultura do estado deveria promover o tombamento como patrimônio imaterial do cardápio o Amarelinho aquidauanense.

A riqueza maior de Mato Grosso do Sul reside, sem dúvida, na prodigiosa natureza de seu território, de seus rios e de seus peixes. Todavia, a minha maior preocupação, que creio ser de muitas outras pessoas, é com a sustentabilidade das bacias fluviais pantaneiras, visto que a degradação ambiental e o manejo inadequado dos seus recursos naturais andam a passos largos.

Os danos ambientais no Pantanal já são grandes e alguns, irreversíveis. Porém, para mim, seria também uma perda irreparável não poder mais saborear a peixada maravilhosa do Amarelinho acompanhado de uma cerveja bem gelada, sentindo o aroma e a brisa que vem do rio ali ao lado.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 29 de março de 2009.

O carteiro e sua bicicleta (*)

O carteiro da minha rua é um sujeito muito simpático, educado, amigo e sempre sorridente. Na parte da tarde é o seu horário de entregar correspondências, quando as têm. Caso contrário passa em frente da minha casa com sua “bike” em alta velocidade. Faça sol, ou chuva, lá está ele de uniforme, chapeuzinho azul e uma mala cheia das diversas correspondências. Sempre quando posso procuro conversar com ele. Pois bem. É um amigo que visita a rua todos os dias e a minha casa quando tem alguma coisa a entregar. Por falha minha não sei o seu nome.

Nos tempos atuais e de dificuldades, a função do carteiro também sofreu profundas modificações em seu universo de atuação. A sua tarefa existe desde os tempos remotos, algumas com simbologia marcadamente histórica. Lembro quando estudei história antiga, o episódio contado como lenda que após um combate dos atenienses com os persas, um soldado de Atenas foi encarregado de levar a notícia do resultado e para isso correu aproximadamente 40 km. Cumpriu a sua árdua tarefa, mas exausto caiu falecido. Deste extraordinário feito resultou, como referência, a mais importante modalidade de competição nas Olimpíadas dos tempos modernos – a Maratona.

Levar notícias importantes é uma missão nobre. Antigamente, era mesmo muito difícil. Em Mato Grosso, as cidades do sul, bem antes da divisão, lá pelos idos de 1900-1920, os habitantes da fronteira recebiam cartas e notícias pelos correios do Paraguai. Era mais fácil as cartas navegarem pelo Atlântico, margearem a costa e depois penetrarem o estuário do Prata, para depois subirem o rio Paraguai até Corumbá, do que atravessar as estradas intransitáveis e perigosas dos sertões de S. Paulo e Goiás.

Desse modo, o carteiro sempre encurtou distâncias, trazendo notícias de parentes distantes ou correspondências amorosas entre outras. Era comum as pessoas ficarem nos portões à espera de notícias, alegres ou tristes, trazidas pelos carteiros que passavam a ser um elemento indispensável da comunidade. O carteiro era esperado com ansiedade e alegria, na maioria das vezes.

Nos tempos atuais, foi colocado nas costas deste servidor o peso de ser um cobrador. É através dele que chegam as mais perversas cobranças de luz, água, telefone, impostos e taxas, só para relatar as mais singelas. Notificações de multas de trânsito, carnês do IPTU, do IPVA, boletos bancários, enfim, todo tipo de cobranças. Mas não é só isso.

Tradicionalmente, os cachorros são os piores inimigos dos carteiros. Alguns sofrem para entregar as cartas, sobretudo quando as casas não possuem as caixas de correio de forma acessível e segura ao carteiro. Não é o meu caso. Meu cachorro até faz festa para o carteiro, decerto por que o confunde com o entregador de pizza, que ele adora. A pizza, não o entregador. Mas, o carteiro, mesmo sendo meu amigo, olha sempre desconfiado pro meu cachorro que, apenas por curiosidade, pesa mais de 60 quilos e parece mais um bezerro.

Apesar das contas, sofridas para serem pagas, o carteiro, meu amigo, é bem-vindo e sempre me lembro de um filme maravilhoso que assisti e que revejo, quando passa na TV: O Carteiro e o Poeta.

Para quem não o viu, está perdendo uma rara oportunidade de ver um filme sensível e bem feito. Trata-se da história, mais ou menos verídica, do poeta Pablo Neruda que, banido de seu país pela feroz ditadura militar que tomou conta do Chile após 1973, foi morar numa cidadezinha italiana, à beira do mar. A cidade tinha correio, mas de tão pequena, não tinha carteiro. Porém, para atender ao seu novo morador ilustre, que ocupou uma casa no alto de um morro com vista privilegiada para o mar, foi nomeado um carteiro dentre os moradores locais, especialmente para entregar a farta correspondência de cartas e livros que Neruda recebia com regularidade. E ele tinha o privilégio de usar uma velha bicicleta para subir uma ladeira íngreme. A convivência e a amizade do carteiro com o poeta é o tema principal do filme e o seu momento mais alto é quando o carteiro pede ao poeta para lhe ensinar a fazer poesia. Não vou contar mais, para que aqueles que não viram o filme possam deliciar-se com o enredo.

Por isso, quando vejo todos os dias o carteiro e sua bicicleta passar pela minha rua, penso em poesia....

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 22 de março de 2009.

Eu sou Ronaldo! (*)

Existe uma história sobre um general romano chamado Crasso que foi encarregado de esmagar uma revolta de escravos na Roma antiga. O que Crasso queria como tática de combate, era a cabeça do líder, o famoso Spartacus. Mas Crasso foi infeliz e ficou na história como sinônimo de erro estúpido: ele simplesmente perguntou à massa de escravos enfurecida diante de sua legião, quem era Spartacus. Um escravo adiantou-se e respondeu: eu sou Spartcaus! Em seguida, um a um repetiu o gesto e a frase diante dos soldados incrédulos com a estupidez de seu comandante e com a solidariedade e identificação dos escravos com o seu líder.

Extrapolando os limites da História para o mundo do futebol, e tornando-se alvo das atenções da imprensa no Brasil e também em outros países (em especial na da Europa), um atleta tem demonstrado um exemplo de luta, resistência e superação. Refiro-me, é óbvio, ao jogador Ronaldo que, apesar de ser aclamado de “fenômeno”, é aqui tratado, como deve ser, como um ser humano com todas as suas virtudes e defeitos.

Poucos jogadores na história do futebol passaram por tantas alegrias e ao mesmo tempo por tantas agruras como este atleta. Com uma trajetória futebolística impressionante, ceifada por graves contusões, que pareciam impedi-lo de retornar aos campos de futebol, chegou, por vezes, até o fundo do poço. Superando todas as expectativas, e contrariando os que não acreditavam em seu retorno, conseguiu renascer das cinzas e como “fenix” passar novamente a brilhar no que mais gosta de fazer — jogar futebol. Isso sem contar a sua eterna luta contra a balança.

Saindo ainda jovem do país e já apresentando um belíssimo futebol, foi para a Europa e tornou-se um dos mais importantes e queridos jogadores da atualidade. Considerado por três vezes o melhor jogador do mundo, responsável por vitórias importantes na seleção brasileira, inclusive heroi em copa do mundo, também foi crucificado em outros embates, como foi (nem quero pensar) da sediada na França.

Agora, após um ano na busca de recuperação de sua última e terrível contusão, está de volta aos gramados. Só que agora nos gramados brasileiros e vestindo a camisa de um time de massa, que conta com uma das maiores torcidas do país, conhecida como “um bando de loucos”. Mesmo sem estar em plena forma física, Ronaldo tem demonstrado, com seus primeiros gols e a nova camisa corintiana, o quanto ele é diferencial em relação à mediocridade que predomina nos campos de futebol deste país. Indagado por um repórter sobre seus gols marcados, apenas respondeu que fazia gols por não ter medo de errar. Ele faz parte de um seleto grupo de gênios com o pé na bola, a exemplo do excepcional Garrincha.

Isso tudo, porém, não deixa de ser a história de um homem que sempre esteve no lugar certo na hora certa. Mesmo assim, a sua vida, separando o seu lado profissional do pessoal, continua conturbada e até mesmo complicada. Ele tem consciência disto, expondo publicamente em entrevistas que o seu lado pessoal não diz respeito a ninguém, ironizando os bisbilhoteiros de plantão, demonstrando não ter a pretensão de transformar-se em exemplo para ninguém. Assim, com palavras simples, em suas entrevistas, deixa grandes lições de vida. É um menino humilde, que quer viver com alegria trazida pelos campos de futebol e pelos palcos da vida. O resto é apenas inveja e maledicências.

O reencontro do Ronaldo com um bonito futebol, já esquecido por muitos (inclusive pela dita seleção brasileira), trouxe uma alegria geral e contagiante independente da cor do time abraçado pelos torcedores brasileiros. É o que se viu nos canais de televisão nos últimos dias. Nunca alguém poderia imaginar santistas, sãopaulinos, flamenguistas, gremistas e demais torcedores brasileiros, inclusive e principalmente palmeirenses, assistindo aos jogos do Corinthians com uma especial atenção.

Ele é simplesmente um brasileiro, teimoso e perseverante que insiste em continuar apesar de todas as adversidades. Enfim, um vitorioso que driblou a pobreza e o perverso destino da expressiva maioria do povo brasileiro.Lembrando Euclides da Cunha no clássico “Os sertões”, o brasileiro é acima de tudo um forte.

Por fim, fica uma certeza: se Ronaldo é forte e vitorioso, não pela sua conta bancária, mas pela sua determinação, humildade e liderança, cada um de nós gostaria de dizer hoje, como o papel heróico e histórico dos escravos, “eu sou Ronaldo!”.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 15 de março de 2009.

E o carrinho foi para o brejo (*)

Para uma situação muito feia e difícil existe um ditado popular que a define: “a vaca foi pro brejo”. Não sei quem foi o inventor, mas não deixa de ser uma expressão curiosa e explicativa. Tomo então a liberdade de usá-la, com uma substituição, para exprimir um acontecimento preocupante nesses tempos bicudos.

É a crise batendo nas nossas portas. Coitado do consumidor que acreditou que este terremoto na economia internacional entraria no Brasil como uma “marolinha” presidencial. Isso faz lembrar uma antiga comediante de TV que, com sotaque americano, referia-se à ingenuidade do brasileiro com um refrão que ficou famoso, dizendo “como o brasileiro é bonzinho”. Era uma forma jocosa de dizer que o brasileiro era trouxa e que acreditava em tudo.

O tempo passou, mas não a ingenuidade (a de sempre acreditar nas coisas boas) do brasileiro. Estimulados pela propaganda e pela facilidade de conseguir empréstimos bancários, consumidores em larga escala concretizaram o sonho de conseguir um carro novo, desfazendo-se de seus carros usados, como parte inicial do empréstimo. O que eles não previam é que a tal “marolinha” chegariam às suas garagens, vindo em ondas o aumento do desemprego e o alto custo do dinheiro emprestado. Mesmo com as prestações a perder de vista, esses compradores começaram a ficar impedidos de cumprir seus compromissos.

Como é bem sabido que os bancos não estão aqui para perder dinheiro (basta ver seus balanços anuais publicados na imprensa), começou um festival de tomada dos carros dos incautos consumidores. De fato, a inadimplência atingiu seu maior nível nos sete últimos anos. É claro que os bancos nada perdem, pois além de receber parte dos empréstimos e altos juros ainda ficam com os carros para serem vendidos novamente em leilões altamente lucrativos. Já os compradores... Bem, perdem as prestações já pagas, o seu carro novo e, o que é pior, já não mais possuem seus velhos carros. Segundo informações públicas, nos últimos meses, mais de 75.000 carros já foram tomados pelos bancos, pela inadimplência de seus clientes. Parece, infelizmente, que esta onda vai demorar a passar. O jeito é se fingir de morto e torcer para não ser também atingido.

Para Roberto Troster, da consultoria Integral Trust (Folha de S. Paulo, 27.02.09), “as pessoas estão se endividando no cheque especial e no cartão de crédito para pagar outras dívidas. Isso só agrava o problema da inadimplência”. A situação é grave e precisa de imediato novas e rigorosas medidas corretivas por parte das autoridades governamentais para impedir o aumento da crise e a evolução de suas consequências. É bom lembrar que tudo começou nos EUA, no setor imobiliário com uma especulação desenfreada. No começo a situação foi subestimada e em pouco tempo revelou-se uma avassaladora bomba de efeito retardado e que se espalhou por todo o mundo. A cada hora, novas notícias assustadoras sobre crises, falências e desempregos aparecem na imprensa, provocando cada vez mais intranqüilidade aos trabalhadores e suas famílias. O caso mais recente, com graves consequencias para a economia brasileira, foi a demissão em massa dos empregados da Embraer, aliás, mito do orgulho e da patriotada nacional. E Mato Grosso do Sul não conseguiu ficar blindado perante o avanço da crise, com um aumento visível do espectro do desemprego, com fechamento de firmas, falências, e um assustador “cano” aos fornecedores, em especial, no setor agropecuário.

Neste rastilho de pólvora, estado e município começam a sofrer as agruras impactantes na arrecadação fiscal, que tendem a cair ladeira abaixo. Como sempre, quem vai pagar o “pato” serão os trabalhadores. Por fim, a vaca para o brejo... ou será a boiada toda?

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 08 de março de 2009.

Cadê o meu saquinho de papel? (*)

Muitas décadas atrás um produto veio facilitar a vida do consumidor. Foi uma revolução nos costumes. Foi, porém, uma invenção que emporcalhou todo o hemisfério: o plástico e seus derivados. O produto invadiu as nossas casas e nossas vidas, nos mais diversos produtos e utensílios. Mas fico aqui apenas nos saquinhos de plástico utilizados em todas as atividades comerciais. Sem outra utilidade, após o seu uso imediato, milhões deles são jogados nos lixões da vida.

De início, e mesmo depois, os setores industriais voltados para a sua produção “esqueceram” (será que é isso mesmo?) de alertar a humanidade que tais produtos demoravam centenas de anos para degradar-se. Isso mesmo. Encheram e continuam enchendo as “burras” de dinheiro sem considerar o prejuízo provocado ao meio ambiente com seus produtos. Esta avalanche de sacos plásticos quase cabou com a utilização de um concorrente precioso: os velhos saquinhos de papel.

À época, um dos grandes argumentos para desprezar a utilização de saquinhos de papel era que a sua matéria prima saía das florestas nativas. De fato era o que ocorria. Hipocritamente, porém, o desmatamento continua até hoje e por outras razões. Por outro lado, a tendência atual é ampliar áreas de plantio de produtos renováveis, a exemplo do eucalipto, inclusive em terras degradadas e improdutivas. Portanto, está salvo de críticas dos ambientalistas o velho e bom saquinho de papel.

Enquanto isso foi desenvolvida uma política, que entendo correta, de reciclagem de lixo. Era uma forma paliativa de atenuar os malefícios do acúmulo de lixo e muitos municípios partiram para a implantação de usinas de reciclagem, organizando grupos de catadores de lixo como mão-de-obra. Muitos munícipes participaram desta ação social, separando em suas casas, em sacos organizados, o lixo passível de reciclagem. Isso sem deixar de reconhecer, também, que esta categoria de trabalhadores é uma das mais miseráveis da sociedade por tirar o seu sustento e de suas famílias do lixo alheio, inclusive revirando-os nas ruas antes da passagem dos garis.

Esta parcela da sociedade raramente é lembrada pelos nossos governantes. Ou melhor, somente em épocas de eleições. Até um restaurante popular perto de um lixão, aqui em Campo Grande, que acalmava o ronco da barriga desses trabalhadores foi recentemente fechado. Agora, parece que a atividade de reciclagem de lixo também está em franca decadência, com queda vertiginosa do preço dos reciclados. É preço da crise que chegou até nós, aquela que Lula desdenhou chamando de “marolinha”. Para os catadores de lixo é o fundo do poço chegando.

Volto a pensar que está na hora, principalmente os supermercados, de começarem a trocar esses nefastos saquinhos de plásticos pelos de papel, mais higiênicos e não poluidores. Alguns supermercados (sempre os espertos!) já propõem aos consumidores a troca dos saquinhos desde que sejam comprados de suas gôndolas os “ecologicamente corretos”. Entendo ser esta proposta uma medida que deve ser levada e aprovada na Assembléia Legislativa, reforçando com legislação para ser cumprida por toda. Acho melhor esta discussão do que a bobagem ocorrida tempos atrás, ao se tentar dar nome de um modelo a um trecho de uma estrada do interior. Aliás, uma bela modelo.

Creio ser uma medida arrojada e pioneira, que colocaria o estado de Mato Grosso do Sul num estágio avançado em defesa do meio ambiente e da melhor qualidade de vida de seus habitantes.

Por isso tomo a liberdade de dizer: trabalhadores, uni-vos, pelo retorno dos úteis e ecologicamente correto saquinhos de papel.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 01 de março de 2009.

Será que este é o preço do progresso? (*)

O que traz satisfação a um articulista é saber que suas idéias e posições estão sendo observadas pelo leitor. Isso fica mais forte ainda quando o leitor abre as cortinas do anonimato para expor as suas idéias no espaço reservado aos leitores da coluna. Desse modo, agradeço a leitora Leila (foi a sua identificação) pela coragem e resistência em chegar até o fim de um dos meus artigos e, acima de tudo, fazer um significativo comentário. É por este estímulo que continua viva, todas as semanas neste jornal, a coluna Faca Amolada. Aliás, coleciono todos os comentários dos leitores que são inseridos nesta coluna.

O motivo da manifestação da amiga Leila foi um artigo sobre a violência no trânsito, permitindo a ela uma reflexão sobre a violência que tem marcado o cotidiano de nossas vidas. Uma violência presente a todo instante e mais próxima de nós como muita gente não percebe. De fato, é comum sentir a violência quando se é atingido. Parece que nesse mundo de individualismo exacerbado, a solidariedade e o humanismo deixaram de ser praticados por todos.

Lembro de uma antiga história, que reserva uma moral política, contada por um observador. Penso (se a memória ainda vale alguma coisa), que a li em algum escrito de Brecht (os meus leitores que me perdoem). É uma historinha longa, mas vou resumi-la com as minhas palavras. “A Polícia veio um dia e prendeu o meu vizinho. Ele era judeu. Como não sou judeu, não gritei. No dia seguinte, a polícia veio outra vez e prendeu outro vizinho. Era um comunista. Como não sou comunista, também não gritei” A história continua com o vai-e-vem da polícia e de suas prisões. E a história termina de forma melancólica: “Finalmente, a polícia veio outra vez e eu fui preso. Aí, não tinha mais ninguém para gritar por mim”.

Esta fábula retrata o nosso mundo, uma sociedade onde predomina o egoísmo e individualismo. É sempre pensar que a brasa que queima o pé do meu vizinho não vai também me queimar. A moral disso tudo é que não se pode ser conivente com a injustiça e com atos de violência. É preciso gritar e fazer cobranças ao poder público, pois, quem sabe, os governos de plantão possam ouvir o clamor do povo.

Na verdade, a população de nossas cidades vive acuada, intimidada pela violência das ruas, transformando suas residências em verdadeiras prisões, com muros altos, cerca elétrica, circuitos internos de televisão, guardas e outras invenções de segurança. Será isso o preço do progresso e da modernidade? No entanto, os altos impostos que pagamos não são investidos em mecanismos necessários para garantir o mínimo de segurança e qualidade de vida urbana.

O fato da leitora Leila fazer um desabafo sobre a violência, que vitimou um de seus familiares, já a voz de quem não quer se calar. Ela relata que a vítima estava na calçada em frente à sua casa com amigos, tomando tereré (um hábito fronteiriço que se alastrou por todo o estado), e foi abordada por dois assaltantes armados que, além do prejuízo material, agrediram-na de forma física e psicológica. E conclui, com tristeza, que Campo Grande tornou-se uma cidade fria, perigosa e violenta. Taí uma situação revoltante que pode e deve ser enfrentada por uma sociedade organizada e solidária.

Fico a pensar como este país tropical é incoerente. O governo fez uma campanha para o desarmamento. Tudo bem. Mas a piada é que só devolveram as armas pessoas de bem. Desconheço um só bandido que tenha devolvido a sua arma. O resultado está aí para todo mundo ver: a bandidagem está mais armada do que nunca e os homens e mulheres de bem, indefesos. Só nos resta gritar...

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 22 de fevereiro de 2009.

E para beber, não vai nada? (*)

Os marxistas repetiram por décadas que o “capitalismo gera os germens de sua própria destruição”. Muitos acreditaram nesta máxima e, inclusive, morreram por ela. Outros menosprezam essa análise e acreditam na perenidade e na vitória final do capital. Entretanto, a capacidade do sistema de auto-preservar-se e de driblar as suas crises e depressões tem sido, historicamente, surpreendentes. A cada uma dessas crises, novos artifícios e mecanismos são criados, e o capitalismo prossegue o seu caminho, para a alegria dos espertalhões e a miséria de uma grande massa de espoliados.

Uma estratégia muito eficiente dos países capitalistas mais desenvolvidos tem sido transferir suas crises, exportando-as para as economia de países dependentes, pobres e subdesenvolvidos, que ficam com o ônus maior destes desequilíbrios em suas economias. São países da Ásia, África e América do Sul que pagam o preço desta política, retardando o crescimento e sustentando a má qualidade de vida de suas populações, reproduzindo miséria, fome e atraso tecnológico. Isso sem falar das dezenas de guerras locais e guerrilhas em países miseráveis e subdesenvolvidos, que fazem a alegria da indústria armamentista internacional.

O mês de setembro do ano passado começou a desenhar uma quebradeira financeira sem precedentes nas últimas décadas atingindo o coração do sistema capitalista vigente: as bolsas de valores e os bancos, coqueluche do mercado financeiro. Após um período de farra de negócios e irresponsabilidades, veio o tsunami econômico. Falências e quebras de grandes bancos e empresas outrora sólidas afetaram imediatamente os trabalhadores desses setores atingidos, provocando um assustador desemprego, que se alastra indistintamente pelo mundo afora.

Tudo isso começou na maior potência do mundo, os EUA, com falcatruas no seu mercado imobiliário e as famosas “pirâmides” (correntes) financeiras. Mesmo sendo subestimada de início, a crise espalhou-se rapidamente como um rastilho de fogo em palha seca, levando a tragédia aos países e populações mais pobres.

O que chama a atenção neste sistema perverso, é que quando as grandes riquezas eram acumuladas ou nasciam empresas milionárias da noite para o dia no mercado mundial, não se pensou em nenhum momento em redistribuir entre os trabalhadores os lucros fabulosos e dividendos espetaculares obtidos em operações nas bolsas de valores.

Agora, uma solução milagrosa veio à tona para minorar as consequências da crise. A brilhante idéia é “socializar” as perdas financeiras para evitar demissões dos trabalhadores e salvar a economia. E quem vai pagar o pato é o trabalhador de salário mensal e carteira assinada.

Um “acordo”, do tipo “corda-e-pescoço” começou a ser feito entre o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e a empresa Valeo, do município de Santo André, já aprovado pelos trabalhadores temerosos do fantasma do desemprego. Assim, 400 operários desta empresa, em assembléia e votação aberta, concordaram não só em reduzir a jornada de trabalho, como seus próprios salários. Este acordo resultou em reduzir a jornada em 18,9 % e 15 % os salários, por 90 dias, prazo a ser prorrogável e, de quebra, a “generosidade” de manter a estabilidade por 135 dias. Pobres trabalhadores! A incerteza do futuro levou-os a abrir mão das garantias trabalhistas existentes desde o governo de Getúlio Vargas. Este foi o primeiro acordo desta natureza e, com certeza, não será o último.

Estas incertezas e propostas indecentes também caminham a passos largos em Mato Grosso do Sul. O mesmo tipo de acordo já está sendo debatido na Federação das Indústrias de MS. Segundo informações da imprensa, a proposta está girando em torno de 25 % da redução da jornada de trabalho e, pasmem!, o mesmo índice para os salários, apresentadas ao Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Alimentação de Campo Grande e Região. Levando-se em consideração que somente no mês passado ocorreu a demissão de 15 mil trabalhadores no estado, as perspectivas não se apresentam nada boas para a região sul-mato-grossense.

Na verdade essa situação de crise profunda e cruel, que já atingiu o país, está muito longe da “marolinha” do discurso do presidente Lula. Vejam como a história não perdoa: o presidente está hoje muito longe do líder sindical, que em São Bernardo comandou a grande greve dos metalúrgicos pelas melhorias de suas condições de vida e de trabalho, ainda em épocas terríveis de ditadura militar.

Quem diria...... Agora, em nome de uma grande estratégia para passar de leve pela turbulência e quebradeira financeira, um verdadeiro tsunami que está varrendo para o ralo um número significativo e ainda desconhecido de grandes, médias e pequenas empresas e negócios, surgem os “gênios” economistas a corroborar as previsões lulistas, com a sutil (e indecorosa) proposta para que os empresários entrem com a corda e os trabalhadores com o pescoço, para não dizer outra coisa. E para beber...?

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 15 de fevereiro de 2009.

Gasolina adulterada: prisão neles? (*)

O Brasil é um grande paraíso recheado de coisas mal feitas e incômodas. Uma delas é o combustível, gasolina ou diesel, que movimenta a economia deste país. Porém, este combustível tão vital para a vida de todos nós, sempre foi e continua sendo tratado com muita irresponsabilidade.

O primeiro aspecto é o seu preço exorbitante, aliás, um dos mais altos preços do mundo. Longe de se levar em conta o seu significado estratégico, o que move este grande negócio é o lucro, conquistado muitas vezes com manobras nada convincentes. Tempos atrás, o preço do barril superou o patamar de 150 dólares. Foi um terremoto de argumentos para justificar o alto custo do preço da gasolina. Pois bem. Agora o preço do barril baixou um terço do seu valor. Mas o cinismo da política econômica não transferiu a queda do preço da gasolina no mesmo índice. Ou seja, alguém está levando um lucro extraordinário.

Outro engodo muito comum é a qualidade da gasolina oferecida ao consumidor, muitas vezes adulterada. Para ampliar a margem de lucro, é claro com exceções, comerciantes inescrupulosos têm adicionado ao combustível, uma série de porcarias, até uma porcentagem de álcool acima do permitido. Já é comum ver nas ruas motoristas suando e sofrendo para fazer seus veículos obedecerem a pressão nos aceleradores. Em muitos casos, os prejuízos chegam a grande monta com a danificação dos motores. O que fazer? Quem vai pagar a conta? Ou, como diz a velha piada, reclamar para o bispo?

Infelizmente, o individualismo da sociedade brasileira faz com que a reclamação, quando ela existe, parte somente por quem foi atingido por esta praga. Até este escriba já foi vitimado por este crime contra a economia popular. E não foi uma única vez. Mas já inclui estes postos na minha lista de comerciantes desonestos. E faço mais. Divulgo esta pilantragem, boca a boca, entre meus amigos. Entendo que se cada um fizesse a sua parte, pondo “a boca no mundo”, a nossa sociedade viveria melhor. Só para citar um exemplo, em uma das minhas andanças pelo interior, voltei com meu carrinho encima de um caminhão guincho.

Parece que esse clamor sobre a impunidade chegou ao Congresso Nacional. Já tramita no Senado um projeto de Demóstenes Torres (DEM-GO), que propõe a punição aos comerciantes desonestos que vendem combustíveis adulterados. Este projeto, apresentado em 2005, ainda está tramitando nas comissões necessárias para ser levado à discussão no plenário. Como punição, o comerciante “pego com a boca na botija” recebe uma declaração de inaptidão para inscrição no Cadastro de Pessoa Jurídica (CNPJ). É um castigo para a vida de qualquer empresa. Porém, esta punição que atinge mortalmente o funcionamento da empresa deveria estender-ser aos seus proprietários, criminalizando-os por seu nefasto procedimento. Entre as punições com a suspensão do CNPJ estão a impossibilidade de empréstimos bancários; a perda de benefícios fiscais; a impossibilidade de se fazer aplicações financeiras e proibição de participação em licitações do governo. No entanto, como neste país tudo se arranja e se ajeita, em pouco tempo esses vigaristas abrem outra firma com um novo CNPJ, e a novela começa de novo.

No entanto, como este assunto contraria interesses poderosos que, com certeza, financiarão uma pressão extraordinária de lobistas, a demora em sua tramitação promete ser longa e difícil. Enquanto isso, os consumidores continuarão a sofrer a ação desses maus comerciantes. Por isso defendo que o melhor local para hospedar esses espertalhões ainda é a cadeia. Simplesmente isso.

Valmir Batista Corêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 08 de fevereiro de 2009.

A justiça do 44 (*)

A conquista da fronteira oeste (Mato Grosso do Sul) foi uma aventura consolidada na ponta da espada e na fumaça das armas. Isso ultrapassou os períodos colonial e imperial, acentuando-se com a fase da guerra com o Paraguai. A República Velha e o início do Estado Novo também não foram diferentes. Foi uma história de lutas armadas quando se mesclaram interesses políticos e econômicos de coronéis rurais e um banditismo endêmico, também rural. Como se dizia nesses tempos, foi uma história em que predominou o “baraço e o cutelo”. Esta emocionante aventura, com certeza, seria pano de fundo para um belo ciclo cinematográfico brasileiro, como ocorreu com a ocupação do oeste nos Estados Unidos. Infelizmente, talvez por um preconceito cultural este “veio” de histórias não foi aproveitado. Burrice dos nossos cineastas, inclusive os regionais.

Pois bem! Estes fascinantes acontecimentos marcaram de forma incontestável a ocupação da fronteira, influenciou a sua história, seus costumes e as atividades culturais de toda uma geração de migrantes que participaram do processo de ocupação da região. A violência passou então a ser um elemento presente no cotidiano regional. Por isso, a arma de fogo foi um componente fundamental e primordial no vestuário deste homem fronteiriço. Os relatos da época registraram que este homem somente se completava se tivesse uma arma de fogo na cintura. Veja bem, podia andar sem sapatos ou sem botas, mas não ficava sem uma arma que representava, em última instância, a sua ostentação de poder e virilidade.

Foi um período de total impunidade, onde a tolerância à violência dos “coroneis”, dos revolucionários e do banditismo demonstrou, por outro lado, o quanto eram sutis os limites que separavam o crime e a transgressão das práticas políticas e da atuação repressiva das autoridades locais. Nesse sentido, as leis, os códigos morais da sociedade e a ação do governo estadual que pressupunha a manutenção da ordem, da segurança individual e da tranquilidade pública, adquiriram um alto nível de abstração e de relatividade.

Um exemplo, entre muitos, que merece ser registrado por sua curiosidade, foi noticiado no jornal O Progressista, de Campo Grande (15.6.1933), descrevendo um júri em Bela Vista. Neste júri foram julgados vários réus, em sua maioria por assassinato. Segundo o jornal, estavam soltos e hospedados nos hoteis da cidade e até mesmo em casas de autoridades locais. Conforme o mesmo jornal, “do hotel, em que se abrigou o referido juiz, era hospede um dos criminosos de morte, que ocupava um quarto contíguo ao do honrado magistrado e no mesmo salão e às mesmas horas faziam todas as refeições diárias”. Durante as sessões, muitos réus, por curiosidade, assistiam pelas janelas o que ocorria no recinto do júri. Finalizando a noticia, registravam que tanto os réus como jurados e expectadores traziam à cintura seus “inofensivos” revólveres. Em tal situação, não foi surpresa a absolvição de todos os acusados.

Em recente palestra na Academia Sul-mato-grossense de Letras, o ex-presidente da república, José Fragelli, relatou a sua vida profissional, ainda na juventude, exercendo o cargo de promotor na pequena cidade de Campo Grande. Em uma sessão de júri, estavam sendo julgados por assassinatos alguns membros do grupo dos famosos “Baianinhos”. Apesar de sua ação acusatória, e mesmo provando a culpabilidade dos crimes, todos foram absolvidos. Segundo Fragelli, ao acusar um deles do assassinato de 12 pessoas, o réu teve uma reação violenta e intempestiva, falando aos berros: “É mentira, não foram 12. Foram apenas 8!”.Ainda sob os sorrisos amarelos dos ouvintes, concluiu que era uma época onde prevalecia a impunidade.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 01 de fevereiro de 2009.

No fio da navalha (*)

Cresci ouvindo dizer, como um fato consumado e não discutido, que na história brasileira não existiam guerras, nem violência ou derramamento de sangue, uma terra “abençoada” sem cataclismos como terremotos e muitas outras tragédias. Inúmeras abordagens, defendendo tais posições ou questionando-as, foram recorrentes em artigos e em livros publicados em prosa e verso. Alguns, pelo seu significado histórico e sociológico, provocaram polêmicas e grandes repercussões e tornaram-se referências obrigatórias ao estudo e compreensão do processo histórico da formação do povo brasileiro.

Entre o ineditismo e o brilhantismo destas obras, posso citar, sem enquadra-los numa vertente ou outra, os historiadores Sergio Buarque de Holanda, José Honório Rodrigues e o sociólogo Gilberto Freyre que produziram obras clássicas em um tempo já distante.

Holanda, um intelectual brilhante, enveredou pela compreensão do “homem cordial” nas raízes da construção da história brasileira. Sua produção historiografia, apesar de pequena, foi de fundamental importância, influenciou gerações de historiadores brasileiros e até hoje provoca estudos e polêmicas. Pesquisador meticuloso, no início de carreira chegou a pesquisar documentos do século XVIII no velho arquivo de Cuiabá. Lá, obteve a informação da existência em Corumbá do testamento de um bandeirante. Já na Cidade Branca, teve a triste notícia de que o documento tinha sido queimado como papel velho. Mesmo idoso, jamais se conformou com uma perda tão preciosa.

O outro historiador, José Honório, também diplomata, voltou-se para uma vasta produção de estudos da história colonial e imperial brasileira. Marcou posição no cenário historiográfico ao discutir a questão polêmica da existência de uma “história cruenta” e de uma “história não cruenta” na história brasileira. Foi Honório que abriu e influenciou um leque de estudos sobre violência, permitindo uma revisão de fatos importantes do nosso passado. Enfim, defendia que as transformações históricas não existiriam fora do contexto da violência..

Em outra linha de explicação das raízes do povo brasileiro, Gilberto Freyre produziu um também brilhante estudo sociológico defendendo a existência na economia colonial açucareira nordestina de uma “democracia racial”. Afirmou que entre a casa grande dos senhores de engenho e a senzala, onde ficavam depositados os escravos, houve uma permanente relação racial e sexual. Dessas relações resultaram uma miscigenação marcante para a formação inter-racial e intercultural do povo brasileiro.

Muitos outros pensadores estudaram, ou continuam estudando, a questão da “violência” e da “não violência” na história brasileira. Na verdade, como explicar a colonização sem levar em conta o período de escravidão negra e do enfrentamento e escravidão dos nativos da terra, com a consequente extinção de tribos indígenas? Depois, o Brasil envolveu-se na trágica guerra com o Paraguai, de uma violência incalculável, que provocou massacres de todos os lados. Também, no período republicano não foi diferente. Assim, com as mais diversas nuances, a violência sempre esteve presente em nosso cotidiano. No entanto, é preciso distinguir a violência política da violência do cotidiano.

Hoje, a violência do cotidiano, que não é mais política, está presente ao nosso lado, em cada esquina, como algo banal que não surpreende mais ninguém. Basta ligar a televisão. O que se vê, por exemplo, é a barbárie no Rio de Janeiro, com cenas explícitas de guerra civil. Mas não é um caso isolado e incomum. Foi assustador dias atrás ver um arrastão em Praia Grande (SP) de mais de 1500 pessoas depredando, quebrando e roubando pelas ruas desta cidade praiana. O espantoso é que neste bando de malucos não tinha somente bandidos, mas junto a eles, também, em maior número, turistas oriundos do interior do estado. Estavam ali para passarem as férias. Dias depois, ocorreram os mesmos tumultos em São Vicente.

Também passou a ser comum ocorrências de saques nas mais diversas partes do país. Aqui mesmo em Campo Grande, houve saques recentes, fruto de acidentes rodoviários. Em um desses casos, pessoas carregaram pra casa sacos de milho contaminado por pesticidas agrícolas. Em outro, mais recente, foi a vez de arroz espalhado pelo asfalto.

Crise, fome, violência, intranqüilidade são, sem dúvida, parceiras indigestas de qualquer sociedade.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 25 de janeiro de 2009.

A hora e a vez do Rio Miranda (*)

Parece que o calvário que resultou no atual estagio de degradação do rio Taquari e seus arredores não terminou e muito menos serviu de alerta à convivência das atuais gerações com o ecossistema pantaneiro. Na histórica ocupação luso-brasileira da região dos pantanais mato-grossenses (refiro-me à época da existência de indígenas nesse mesmo espaço geográfico, antes da conquista européia), o rio Taquari já tinha um papel fundamental como via de comunicação e transportes.

Porém, o Taquari que por natureza é um rio de delta espraiado, não resistiu à secular agressão dos homens e o resultado todos nós estamos assistindo. No século XIX, um presidente da província de Mato Grosso já se preocupava com o assoreamento deste rio e alertava para os entraves da navegação naquela época, vital para a sobrevivência de todos os seus habitantes. Hoje, não é muito diferente, apenas piorou a sua situação.

Pobre Taquari, nos últimos tempos esteve à mercê de projetos mirabolantes que não saem do papel e de verbas que nunca chegam. Mas, já está se desenhando um “projetão” em 2009 para salvar o Taquari na ordem de R$ 54 milhões. Será que desta vez vai?

De fato, um projeto de tal envergadura, para reverter o processo de degradação da região, requer como contrapartida uma parceria e um comprometimento de toda a população sul-mato-grossense. Ou seja, o renascer do Taquari deve ser uma questão de honra para todos nós. Porém, é triste constatar que esta esperança não se confirma no dia-a-dia. Parece até que a questão da sobrevivência do Taquari é algo muito distante e que não nos diz respeito. Diz sim, e não pode ser tratado como uma questão isolada.

O primeiro passo é o governo estadual desenvolver uma política pública prioritária, com uma maciça divulgação sobre a necessária recuperação e preservação do Taquari e seu entorno, entre seu próprio corpo administrativo. Depois, estende-la à sociedade organizada, como associações e sindicatos, clubes de serviços e entidades religiosas. E, finalmente, transformar a questão em matéria obrigatória de discussões, estudos e trabalhos escolares. Somente as novas gerações, marcadamente crianças e adolescentes estudantes, desenvolverão uma nova atitude diante do problema, com consciência política, manifestações de cidadania e, em especial, com a possibilidade de viver um novo tempo de valorização e preservação do meio ambiente, ou do que vai sobrar dele.

Não me refiro à atitude xenófoba que defende o meio ambiente de modo intransigente e intolerante, excluindo a presença humana. A solução viável é a convivência possível do homem com a natureza e a interação harmoniosa de ambos, respeitados os dois lados desta mesma cadeia de vida. A ciência e a tecnologia que o homem desenvolveu até agora pode e deve ser o elemento transformador que torne realidade a preservação dos recursos naturais. É o que se chama de desenvolvimento sustentável. Aí, sem dúvida, a questão do Taquari deixa de ser uma questão localizada e passa a ser um problema de todos os brasileiros, em todos estágios, do regional ao nacional.

Mas, infelizmente, parece que a tragédia exemplar do rio Taquari não serviu ainda para conter a sanha dos gananciosos. Outros rios da bacia do Paraguai também estão sujeitos ao mesmo risco e encontram-se hoje no limiar do enfrentamento com a irreversível degradação ambiental.

Recentemente, o jornalista Silvio Andrade publicou uma assustadora reportagem sobre o perigo que enfrenta o rio Miranda e o seu já atual estágio de degradação (Correio do Estado, 14.12.2008). Pobre rio Miranda, apesar desta impactante reportagem, parece que o problema passou de forma despercebida. Nenhuma repercussão se viu até agora, nenhuma manifestação do poder público sobre o assunto, seja para contestar ou para tomar alguma providência.

De fato, é a demonstração, mais uma vez, da ausência de uma política consistente de preservação ambiental, pois o que está ocorrendo com o Miranda não é novidade, é fato recorrente em várias partes do país. Parece que o jornalista registrou fatos comuns e repetitivos ocorridos em todas as regiões em processo de ocupação desenfreada: assoreamento incontrolável dos rios, no caso o Miranda, a extinção de suas matas ciliares para a implantação da pecuária e atividades turísticas, provocando a consequente ocupação desordenada de suas margens e trazendo como parceria maléfica a contaminação das suas águas (acrescido, mais recentemente pela implantação da cultura de arroz irrigado). Cabe ao poder público uma resposta imediata ao alerta de Silvio Andrade com uma fiscalização rigorosa e também, é óbvio, com uma ação de orientação educacional. Caso contrário se verá uma triste reedição do drama interminável do velho Taquari.

Contudo ainda está em tempo de evitar o pior. Basta querer.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 18 de janeiro de 2009.

Sinal amarelo (*)

Campo Grande é uma cidade curiosa. Mescla de cidade interiorana com metrópole moderna, nos últimos tempos deixou de ser pacata e agradável. Serão os novos tempos de crescimento e desenvolvimento? Não sei se essa modernidade é boa ou ruim. De qualquer forma, a observação dessas mudanças vem acompanhada de um sentimento de perda para o bem estar social.

Um caso exemplar desse sentimento é o que vem ocorrendo com a sua cobertura arbórea, que já não é a mesma, pela irresponsabilidade e apetite destruidor dos lenhadores urbanos, ou melhor, dos que odeiam árvores e buscam quaisquer justificativas para cortá-las, como por exemplo dizer que as árvores sujam as calçadas.

O aumento da temperatura da cidade, nos últimos anos, que inferniza a vida dos campo-grandenses em cada verão, já demonstra na pele o resultado do corte voraz e indiscriminado das belas árvores da cidade. E olhe que não faltam campanhas e leis que coíbem o desmatamento e a agressão ao meio ambiente. Parece que não estão sendo suficientes.

Para o espanto geral, já se projetou inclusive o estreitamento do canteiro central da avenida Afonso Pena, o que vai acabar no corte das frondosas e maravilhosas árvores, para privilegiar o fluxo de carros barulhentos e, claro, altamente poluidores. E não se trata de uma questão de estética e de visual. A cobertura verde melhora substancialmente o ambiente, permite a permeabilidade das águas, agrega passarinhos e beleza em nossas vidas e é um patrimônio dos cidadãos campo-grandenses. E, se a cidade e seus governantes, desejam ser modernos e inovadores, inspirem-se nas cidades mais desenvolvidas do mundo, como Vancouver e Toronto no Canadá ou cidades grandes européias, que organizam trânsito com prioridade para a qualidade de vida e do patrimônio ambiental e cultural da coletividade.

É uma atitude insana permitir a destruição do mais belo cartão postal da cidade. È contraproducente e antieconômico destruir esse patrimônio, a menos que existam outros interesses por detrás....

Há ainda uma outra situação de desconforto para a população da cidade: o assustador aumento de carros e motos pelas ruas e a falta de planejamento para suportar esse trânsito. Com uma cidade grande e com tanto espaço a ser aproveitado, parece um absurdo. O aumento da frota de veículos foi resultado da política de liberação de créditos e parcelamentos a perder de vista, inundando as ruas de carros e seus motoristas de dívidas. Assim, o caos no trânsito, que é uma questão nacional, instalou-se também na nossa cidade.

Além disso, no trânsito campo-grandense apareceu uma prática assustadora e perigosa. Sempre se soube que nas três cores do semáforo, o amarelo significa alerta e atenção, que intermedia o vermelho (para parar) e o verde (para seguir). O sinal amarelo serve para que os motoristas diminuam a velocidade e fiquem mais atentos aos cruzamentos. Pois é, deveria ser assim. Mas, na prática a lei foi modificada. Agora o sinal amarelo significa “rápido, seja mais esperto que os outros, aperte o acelerador”!

Assim, essa atitude insana transforma cada sinaleiro num verdadeiro jogo de “pimbolim”, um “videogame” ao vivo para os que querem levar vantagem em tudo, com inconseqüentes acidentes, feridos e mortes. Lembram-se da “lei de Gerson”? Podre Gerson, grande jogador de futebol da seleção brasileira de 1970, mas que ficou muito conhecido por uma propaganda de cigarros que fez na TV. Ele dizia que o brasileiro gostava de levar vantagem em tudo para vender o tal cigarro, e esse slogan acabou se tornando a filosofia dos espertalhões.

Isso sem contar que os motoristas que convergem à direita, afastam-se primeiro para a esquerda ultrapassando a faixa intermediária, para depois virar à direita, como se o carro não fosse capaz de virar sem avançar na calçada. Aprenderam a dirigir em carroças ou os instrutores de direção estão ensinando errados os novos condutores? Alguma coisa anda bem errada.

Para conter a insanidade do trânsito, a solução dos legisladores foi estabelecer uma verdadeira indústria de multas, seja pelos radares móveis ou não, e também pela polêmica atuação dos “marronzinhos”. É a mentalidade da educação pela punição, com a vantagem de render muito aos cofres do Detran. No entanto, a repressão pura e simples jamais será uma solução pedagógica para coibir irregularidades e mostrar o caminho da obediência às regras de trânsito. Basta ver que, com o passar do tempo, a famosa “lei seca”, lançada com grande estardalhaço por governantes e policiais, está destinada ao esquecimento. E, convenhamos, direção e álcool não combinam de jeito nenhum e, neste caso, eu concordo plenamente que dirigir bêbado é caso de polícia, por que é um crime, devendo ser punido com muita severidade.

É preciso, portanto, haver mais empenho das autoridades na aplicação de leis do trânsito e mais responsabilidades dos condutores e pedestres. A população tem que fazer a sua parte. Diga-se, de passagem, que a gente também vê pelas ruas abusos absurdos por parte de pedestres e de ciclistas, estes os campeões das irregularidades, inclusive andando comumente na contra-mão.

Mas, é preciso desenvolver seriamente uma política pública que fortaleça a educação, a solidariedade e a cidadania na convivência entre as pessoas nas ruas. Ou seja, longe de uma ideal sociedade solidária e igualitária, o que se vê é o individualismo exacerbado do “salve-se quem puder”, do “levar vantagem em tudo a qualquer preço”, fruto da sociedade individualista e egoísta que está aí. Este é, enfim, o perfil refletido das ruas da cidade, com um alto e assustador índice de violência e perdas humanas. Todos perdem quando cada um pensa e age em seu próprio e exclusivo benefício. Esse é o grande problema de nossa cidade e de nossa sociedade brasileira, infelizmente, toda contaminada com essa mentalidade.

Além do mais, é preciso reconhecer que é cada vez maior o contingente de motoristas mal preparados, sejam de carros (incluindo ônibus, vans, caminhões e possantes camionetes) ou motos, que transformam os seus veículos em verdadeiras armas de combate. No caso das motos o que se vê pelas ruas da cidade é um horror: todo dia morre um motociclista, na maioria dos casos por pura imprudência. Aliás, são as motos as que mais furam os sinaleiros e fazem ultrapassagens perigosas.

Atenção: sinal amarelo para Campo Grande e para todos nós!

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 13 de janeiro de 2009.