Sou um militante partidário e isto significa que sou filiado a um partido político. Com isso defendo que a melhor participação numa sociedade democrática é trilhar um envolvimento com uma agremiação partidária. Mas, neste momento, encontro-me numa encruzilhada terrível, pois a classe política está com a sua imagem no fundo poço. As notícias que extrapolam o belo prédio do Congresso Nacional, hoje alimentam mais as páginas policiais do que as colunas políticas. E quando se pensa que já se viu de tudo em termos de promiscuidade da classe política, novas denúncias vêm abalar os já combalidos alicerces na nossa pobre democracia. E tudo isso na mais singela impunidade.
Acho que vou mudar de profissão para produzir e vender em Brasília “óleo de peroba” e vou ficar rico. Os exemplos estão aí para serem vistos e repudiados. Com esse tipo de gente o que fazer para recuperar a moralidade política neste país? O castigo seria derrotá-los nas próximas eleições. Mas é aí que mora o perigo.
A corrupção virou uma coisa corriqueira e banal, e até sinônimo de esperteza e inteligência. Esta hidra espalhou-se por todo o país, como uma erva daninha que atinge até o menor dos agentes políticos. Mas nesta discussão, fico apenas no que está acontecendo no Congresso Nacional.
Um exemplo de grande repercussão nos últimos tempos foi o caso conhecido como “mensalão”, onde muitos “representantes do povo” lambuzaram-se com o dinheiro sujo da corrupção. Foi muito barulho e, infelizmente, pouca condenação. Porém, a imprensa investigativa não permitiu o esquecimento deste “imbróglio”. Pelo contrário, não deu tréguas a estes contraventores e as denúncias começaram a aparecer aos borbotões. Parece, no entanto, que os políticos não aprendem e continuam a desafiar a opinião pública. A lista é longa, como os casos de aluguel de jatinho, do uso indevido de telefones celulares, da baixaria do uso de empregadas domésticas com verba oficial, e das propriedades milionárias omitidas por diretores, etc., etc., etc.
Um outro exemplo gritante foi o caso do deputado Sérgio Moraes, relator do processo contra o também deputado Edmar Moreira, aquele que construiu um castelo em Minas Gerais avaliado em mais de 25 milhões. Pois bem, este cara de pau não viu nenhuma razão para cassar o seu colega, dizendo que estava “se lixando para a opinião pública”. Entendo que ele também deveria ser cassado por falta de decoro parlamentar.
Agora veio a vergonhosa história da utilização de passagens aéreas, que políticos bonzinhos (com o nosso dinheiro) repassavam para parentes, namoradas e figurinhas inomináveis. Foi, sem qualquer escrúpulo, a mistura do público com o privado. Até parlamentares “acima de qualquer suspeita” usaram deste expediente como se fosse uma ação de normalidade e de direito de propriedade. Isso tudo está enxovalhando uma história cheia de estadistas que pela sua honestidade engrandeceram a política brasileira.
Porém, é de assustar que ao desenrolar de qualquer crise, talvez para desviar a atenção da população, esses mesmos políticos (muitos deles na alça da mira da justiça) recorrem as já desgastadas propostas de reformas. Depois, como é corriqueiro, ao passar a fase aguda da confusão política, não se fala mais em nenhuma reforma. No entanto, a idéia de uma pseuda reforma política vem colocar em risco a democracia brasileira (pelo menos é a que temos) e um tremendo retrocesso na vida brasileira. É um acinte e deve ser repudiado por todos.
Este arremedo de reforma tem dois pontos, que são verdadeiras malandragens partidárias. O primeiro ponto propõe que o financiamento das campanhas eleitorais dos partidos políticos fique a cargo do Tesouro Nacional, ou seja, do dinheiro do cidadão, independente de sua concordância ou não. É no mínimo falta de pudor aprovar tal proposta. Porém, o pior vem depois. É a proposta de extinguir a escolha do eleitor por um candidato. Isso mesmo. Seria feita uma lista fechada de deputados e vereadores pelo partido e o cidadão somente votaria na sigla partidária, sendo eleitos os primeiros da lista. O eleitor não votaria mais em seu candidato preferido, impedindo a renovação partidária e elegendo somente os “donos” dos partidos. É o retorno da política da Velha República (1889-1930) e do velho e carcomido coronelismo. E o que é pior, tornando cativos os mandatos dos atuais parlamentares.
Apesar de todos os nossos limites e do desânimo que acomete a sociedade civil, não podemos esmorecer. Por isso, é preciso, ao menos, ficar de olho neles!
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 17 de maio de 2009.
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