segunda-feira, 28 de junho de 2010

A hora e vez do relógio de Corumbá (*)

Neste mês de agosto completam-se os dez anos da inauguração da réplica do relógio público de Campo Grande, agora situado em novo local, no cruzamento das avenidas Afonso Pena com a Calógeras. O monumento original, antes estava instalado no cruzamento da rua 14 de Julho com a avenida Afonso Pena, foi infelizmente derrubado em 1972 pela mentalidade de dar prioridade ao tráfego urbano de veículos, mesmo que para isso fosse preciso destruir um monumento histórico da cidade.

Era o relógio da 14 um referencial aos campograndenses como ponto de encontros sociais, culturais e políticos. Neste local, em 10.6.1967, foi encerrada uma grande passeata com comício, comandada por estudantes e trabalhadores em defesa da criação de uma universidade federal em Mato Grosso, com sede em Campo Grande. Também era o local da realização do “footing” nos fins de semana. Para quem não é da época, o “footing” era uma sensacional invenção dos jovens para “paquerar”, aliás uma prática disseminada em todos os cantos do país. Os rapazes ficavam na calçada, encostados na parede, enquanto as moças passeavam num vai-e-vem contínuo na mesma calçada, trocando olhares fortuitos e sorrisos, que muitas vezes acabavam em namoros e casamentos. Bons tempos aqueles!

No entanto, apesar de toda a sua importância histórica e sentimental, não se conhece por parte da população qualquer manifestação espontânea em defesa da preservação do pobre monumento.

Somente em 1996, por iniciativa do médico Renato Rezende e com o envolvimento do Rotary Clube, começou uma mobilização popular para a construção de uma réplica do referido relógio. Foram quatro anos de lutas, convencimentos, estudos e pesquisas sobre a planta arquitetônica original (que existe no Arquivo Público Municipal) e o material de construção, exigindo inclusive uma lei municipal para as adequações necessárias. Hoje, o relógio reconstruído já se incorporou novamente ao cotidiano dos campograndenses.

O que chama a atenção é a relação deste, como de outros dois relógios, com a saudosa Estrada de Ferro Noroeste do Brasil também, e infelizmente, destruída. Isso mesmo. Em Três Lagoas, início da estrada ferroviária no Estado, foi erguido um relógio da mesma dimensão que, para o orgulho de seus habitantes, é até hoje preservado. O terceiro relógio público, na ponta terminal da estrada de ferro em Corumbá, foi construído no cruzamento das ruas 13 de Junho com a Frei Mariano. O mesmo argumento de que o relógio atrapalhava o trânsito local justificou a sua demolição. E, lamentavelmente, esse crime contra o patrimônio histórico foi assistido igualmente com passividade pela população corumbaense. O que é pior, é que desapareceram máquinas, mostradores e ponteiros. Como sempre acontece, ninguém soube, ninguém viu.

Ainda teimo em esperar, como aconteceu em Campo Grande, o retorno, mesmo sob a forma de réplica, daquele belo relógio em algum ponto central da cidade branca, quem sabe, no canteiro central da rua XV de Novembro, paralelamente ao jardim público.

Fica aqui a minha sugestão para uma campanha digna de ser empreendida pela população de Corumbá e pelos sul-mato-grossesnses, já que se trata de recuperar a história regional e seus símbolos. Nenhuma cidade realmente moderna e civilizada despreza seus símbolos, suas tradições e seus monumentos históricos. Pelo contrário, elas conciliam o “antigo” com o “moderno” de forma criativa e isso é sinônimo de progresso e cultura. Só por aqui é que acontece o contrário.

Depois, vem gente dizendo que não temos identidade cultural. Pudera!

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 27 de junho de 2010.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Vendendo gato por lebre (*)

Numa época bem distante, quando era presente um Brasil ingênuo, usava-se para explicar uma vigarice, a expressão “comprou gato por lebre”. Explico melhor. O sujeito era enganado por um malandro que vendia um produto maquiado, de preço baixo, como se fosse um autêntico produto de mais valor. E o otário, metido a sabido, amargava o prejuízo, além de ter feito o papel de bobo.

Cresci ouvindo dos adultos estórias engraçadas desses espertalhões. Isso porém não significava que a sociedade brasileira deixava de ter em seu cotidiano relações de extrema violência.

Pelo contrário, a história da humanidade, como da própria brasileira, sempre esteve permeada de violência e de derramamento de sangue. É assim que a história caminha. Portanto, dizer que o povo brasileiro é pacífico e sua história não é violenta é, apenas, uma grande balela.

Fico neste artigo somente no entendimento da malandragem. Nesta viagem no tempo já distante, o malandro, por exemplo, dos morros cariocas, vestiam sempre uma camiseta listada, calças e sapatos brancos e chapéu de palha na cabeça, e andando, com um gingado no pé. Assim foram registrados esses personagens, para a posteridade, em caricaturas e também nas belas chanchadas dos filmes da Atlântida. Era uma época que não volta mais, do malandro almofadinha “Amigo da Onça”, que desde 1943 povoava as páginas da revista O Cruzeiro, com os traços finos do cartunista Péricles. Lembro também do famoso ladrão Gino Meneghetti, imigrante que aportou ao Brasil em 1913, aos 35 anos, já com um rastro de bandidagem. Meneghetti ficou lendário na crônica policial por não usar de violência em seus roubos de jóias, caminhando pelos telhados e fugindo de cercos policiais. Na contramão desta história de malandragem, lembro do “Bandido da Luz Vermelha”, que ficou famoso no mundo do crime em São Paulo. Atacava mansões ricas de madrugada, utilizando uma lanterna de foco vermelho e era violento, violentando suas vítimas. Esse bandido teve a sua vida filmada pelo cineasta Rogério Sganzerla, tendo no papel título o ator Paulo Vilaça, já falecido.

Deixo de comentar, por motivos óbvios, a rapinagem dos últimos tempos de bandidos de colarinhos brancos travestidos de políticos.

Como esse mundo está de cabeça pro ar, ficou curioso com a malandragem que apareceu recentemente em Mato Grosso do Sul. Por incrível que parece, a velha máxima “vendendo gato por lebre”, adquiriu nova roupagem aqui no estado, sendo noticiadas na imprensa como “vendendo galinha de granja por caipira”. Isso mesmo, têm malandros colorindo penosas brancas com urucum para serem vendidas, evidentemente mais caras, como galinhas caipiras. A polícia rodoviária já prendeu dois carregamentos desta picaretagem. Fico admirado com a criatividade dessa gente que pensa que o povo é otário. Mas que tem muita gente comendo galinha branca, colorida de vermelho, isso tem.

Para quem não sabe, urucum é uma pequena árvore nativa que produz um fruto cheio de espinhos por fora e carregados por dentro de bolinhas vermelhas. Essas bolinhas, que dão um tom avermelhado à culinária regional, podem ser utilizadas moídas ou dentro de azeite. É, também, um excelente remédio para combater o colesterol, após as suas sementinhas ficarem descansando em água.

Ainda, sobre esse produto natural, foi o mestre João, cozinheiro corumbaense de primeira, já falecido, que inventou uma delícia usando esse condimento, o “Pintado a Urucum”, hoje famoso em todo o País.

Mas continuo achando uns gozadores e caras-de-pau esses vigaristas que estão pintando as coitadas das penosas e iludindo os incautos.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 20 de junho de 2010.

domingo, 13 de junho de 2010

Um jogo diferente e cruel (*)

A nossa história sempre teve ligação com as atividades militares de ocupação e de defesa. Épocas de ocupação colonial com pontos fortificados no entorno do rio Paraguai e no pantanal e depois com o desenrolar do período da guerra com o Paraguai, no século XIX, são exemplos palpáveis de que a fronteira foi consolidada pela presença militar ostensiva nessa região.

Nas primeiras décadas do século XX foram erguidos quartéis, por iniciativa do governo federal em cidades como Campo Grande, Bela Vista e Ponta Porã. Mais tarde, na Segunda Guerra Mundial, esses pontos militares foram celeiros de soldados para a formação da Força Expedicionária Brasileira.

Naquela ocasião, a atuação desses pracinhas ocupou espaços significativos na imprensa mato-grossense. O Jornal do Comércio, editado em Campo Grande em 27 de novembro de 1944, chegou a publicar um abaixo-assinado de pracinhas que da Itália contavam o seu terrível cotidiano na guerra. Um desses abaixo-assinados tinha as assinaturas de Jayme Goulart, Aziz Salamene, Jefferson Patriota, Leolino Alves Ferreira, Paulo Katayama, Waldemar M. dos Santos, Antônio Gonçalves do Carmo, Américo Zeola, José Ota, Firmino da Silva, Otávio de A. Araújo, Antônio Miyahira, Aramis Guimarães e Eduardo S. Nery. Era uma forma indireta de informar aos familiares e amigos que eles, apesar de toda a tragédia da guerra, ainda estavam atuantes e vivos.

Mas existiu uma carta, muito curiosa e interessante, publicada no jornal O Progressista, também de Campo Grande, em 03 de maio de 1945, de um jogador de um time de futebol chamado S. S. Campograndense, que se alistou na FEB para lutar nos campos da Itália. Tratava-se de Francisco Bartolomeu da Silva, conhecido no meio futebolístico como “Chico Preto”. Em sua carta, esse pracinha fez uma interessante e curiosa analogia entre o campo de futebol e o campo da guerra, demonstrando inteligência e sensibilidade para encarar a realidade crua e nua do front. Vale a pena reiterar o seu registro para a posteridade:

“Itália, 22 de Março de 1945
Digníssimo sr. Diretor de “O Progressista”.
Faço votos que ao receber esta, o sr. e seu dedicados auxiliares, vivam na Santa Paz de Deus. Por meio desta quero fazer-lhe ciente que também a nossa querida Campo Grande deu homens para extirpar da face da terra a praga daninha que pretendia macular o solo pátrio. Eu, Francisco Bartolomeu da Silva, ex-defensor da S.S. Campograndense, continuo jogando o meu futebol. Mas um futebol bem diferente, onde o campo é coberto de neve, a bola são as granadas do meu possante canhão, e os adversários não são tão dextros como eles próprios propalavam. Enfim, sr. diretor, estou num jogo em que tenho a absoluta certeza de vencer. Fui um dos muitos brasileiros a serem escolhidos para representar o nosso pavilhão Auriverde nos campos da Europa; fui um dos que foram confiada a missão de ajudar a exterminar estas pragas daninhas que queriam comer o ultimo fio de grama que tem o nosso vasto Brasil.
Campo Grande é um lugar pequenininho, mas seus filhos são grandes, fortes e valentes.
Bato-me com orgulho, porque tenho a convicção de que seremos os vencedores. O” placard” está acusando a nosso favor, e, breve, o juiz dará o trilo final; então sairemos do “Estadium Europeu” e voltaremos ao nosso tão saudoso Brasil; e à minha inesquecível Campo Grande.
Peço recomendar-me às digníssimas diretorias da S.S. Campograndense, Operário e demais grêmios com seus respectivos defensores. N.B. Sou conhecido como Chico Preto.
Aceite deste expedicionário afetuosas saudações, Francisco Bartolomeu da Silva. 3o sargento – 268 – FEB”.

Sensibilizado, o pracinha termina a sua notícia com as seguintes palavras: “Como vêm, o conhecido amador campograndense, não se esqueceu dos seus antigos companheiros de esporte e do seu antigo grêmio. Que os desportistas citadinos compreendam o gesto de “Chico Preto”, correspondendo também esportivamente e fazendo chegar até ao front algumas linhas, que façam ver ao bravo expedicionário, que ele não está esquecido. Vamos, senhores esportistas: duas linhas que sejam para “Chico Preto”.

A história registra, porém, com amargura como esses pracinhas foram tratados posteriormente. A guerra parece muito distante e raros são os soldados brasileiros que lutaram e ainda vivem hoje, estando com idades muito avançadas. Poucos reconhecem o valor e o sacrifício da nossa FEB e, a bem da verdade, nunca foram devidamente valorizados. Mas isso é outra história para um outro artigo desta coluna.

Valmir Batista Corrêa


(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 13 de junho de 2010.

domingo, 6 de junho de 2010

Memória - janela da história (*)

Este é o título do livro de memórias de Wilson Barbosa Martins, recentemente lançado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul. O ato de seu lançamento transformou-se num dos mais significativos produtos editoriais dos últimos tempos, tanto pela afluência de público, acentuada pela presença de personalidades que participaram nas últimas décadas da política estadual, como pelo surpreendente sucesso de vendas.

É um livro que vale a pena ler e guardar como exemplo da história de um homem que soube dignificar a política sul-mato-grossense (aliás, coisa rara hoje em dia) e nunca se omitiu nos momentos mais difíceis da história do país. Pagou um alto preço pela sua altivez e coragem em defender os princípios democráticos, como foi o caso do discurso na Câmara Federal, em defesa do deputado Marcio Moreira Alves e contra a ditadura militar. Foi um dos deputados cassados naquela fase negra da história brasileira.

As memórias do dr. Wilson, como os amigos o chamam, não foram escritas para ser apenas um livro de recordações do passado. É muito mais uma prestação de contas consigo mesmo e, ao mesmo tempo, uma homenagem à “sua gente” e à “sua terra”. Além da relevante e sensível narrativa de fatos comuns relativos à sua família e sua vida pessoal, o memorialista foi testemunha viva de acontecimentos históricos que mudaram os rumos do país e do estado de Mato Grosso do Sul.

É um homem que no século XXI foca seu olhar e suas recordações na sua trajetória de vida n século XX. Nascido, criado e formado na primeira metade deste período, acumulou uma sólida cultura jurídica humanista e combateu o bom combate conduzido pelos ideais da democracia moderna. Assim, a leitura das memórias do dr. Wilson permite ao leitor perceber claramente o seu engajamento consciente no seu tempo, especialmente por sua perspicácia e sólida formação liberal. Suas atitudes e convicções são enriquecidas pelo amor aos livros, à leitura e ao gosto de contar fatos de sua terra e de sua gente, hábitos que conserva e cultiva graças à disposição invejável que ostenta até hoje. Além disso, teve o cuidado de preservar e dar enorme valor aos documentos e relíquias de família, bem como dos registros que acumulou exercendo funções públicas de alta relevância.

Narra, comenta e procura explicar sua própria vida e sua atuação política de forma naturalmente seletiva, mas também responsável como observador sincero e fiel às suas convicções. Este é um ato de coragem e desprendimento, sobretudo porque passou elegantemente por cima de decepções, derrotas políticas e mágoas, movido pela esperança convicta de que o bem comum e um tempo melhor estão em construção e serão alcançados pelas gerações futuras.

Em suas memórias, faz um passeio pela história entrelaçando momentos importantes de sua vida com acontecimentos que marcaram as últimas décadas da história brasileira. Aproveita a oportunidade para dedicar-se de forma exaustiva e densa à prestação de contas dos seus dois mandatos de governador do estado. Distante no tempo, traz então ao presente o fato de seu governo ter sido um divisor de águas nas formas de administrar e conduzir esta banda oeste brasileira. A admiração e confiança conquistadas foram também os pilares de sua eleição para senador constituinte no período entre os dois governos à frente de Mato Grosso do Sul.

Wilson Martins encerra a sua escrita com uma explícita declaração de amor a sua “terra dadivosa”, no alto de seus 92 anos de vida e de lutas. E parece ser esse amor plenamente correspondido, pois sendo um cidadão amado e reverenciado por uma grande parcela da população sul-mato-grossense. Basta acompanhá-lo pelas suas andanças nas ruas da cidade ou em eventos pelo interior do estado, para ver como é recebido com sinceras manifestações de carinho e respeito. Com toda a certeza, poucos políticos e governantes desfrutam desse privilégio hoje em dia.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 06 de junho de 2010.

O Brasil vai a guerra, nas pontas das chuteiras (*)

Primeiro foi uma verdadeira guerra para a escolha das cidades brasileiras que iriam sediar os jogos das seleções da copa de futebol de 2014. E não posso esquecer o vexame e as trapalhadas por que passou a cidade de Campo Grande e as gozações dos cuiabanos, aliás, historicamente “experts” nessas situações. Porém, para muitas capitais, a festejada escolha transformou-se em um tremendo mico e sem porta de saída. As pretensas verbas externas não chegaram até agora e as obras, as tais reformas dos estádios, estão atrasadíssimas. Fala-se inclusive que muitas cidades serão canceladas e já li, em alguns jornais escritos por aqueles que “perdem o pêlo mas não a pose”, que Campo Grande ainda pode ser escolhida.

Que Deus tenha piedade dos sul-mato-grossenses!

Mais recentemente, aconteceu a escolha da seleção do desmancha-prazeres Dunga. Houve uma expectativa em todo o país estimulada pela imprensa. Como diz a tradição, em cada brasileiro existe enrustido um técnico de futebol com seu time preferido. E o velho Dunga de guerra teve que enfrentar uma tremenda pressão para a convocação de jovens jogadores, que ultimamente estão fazendo sucesso. Somente quem não acompanha este técnico retranqueiro acreditaria na mudança de sua postura e convocaria elementos novos e jovens, diferentes dos que ele vinha testando nesses últimos anos.

Uma empresa de outdoors de Campo Grande fez uma campanha insólita para a convocação de outros jogadores. Com certeza, usando de humor e de oportunismo, a empresa pisou literalmente na bola e demonstrou um pouco de ingenuidade, desconhecendo que há mais mistérios numa escalação de futebol do que sonha a nossa vã filosofia... E vivam os cartolas!

Eu, que sou apenas um curioso em futebol, não me surpreendi com a escalação dunganiana. Penso, apesar do respeito que tenho pelos “entendidos” no assunto, que esses jovens jogadores serão os futuros membros da seleção brasileira, porque são realmente artistas da bola, com um futebol alegre e brincalhão. Mas só isso não basta no presente momento. Em muitos casos são imaturos e até irresponsáveis. Goleadores, fizeram demonstrações exageradas de comemorações e de um pouco de arrogância. Isso, com certeza, pesou na escolha que o Dunga fez.

Também não espero muita coisa da seleção, que deverá mostrar um futebol feio, retrancado, tudo o que o brasileiro não gosta, mas que todos esperam eficiência e bons resultados. Vou torcer, como se espera de cada um de nós, mas sem muita convicção. Se o Brasil sair-se vitorioso, com certeza, será a vitória do teimoso técnico.

Caso contrário, será execrado pela imprensa e pela opinião pública. Mas, pensando bem, com o salário nas alturas que recebeu da CBF nesses anos, poderá assim mesmo viver confortavelmente em qualquer lugar do mundo.

Espero que um dia retorne o espírito da seleção brasileira de 1970. Os brilhantes “canarinhos” com aquele futebol belíssimo e encantador, que marcou em todo o mundo o jeito brasileiro de jogar e que o Dunga insiste em esconder em baixo do tapete. É uma pena, que não pode ser mais visto pelas novas gerações aquele espetáculo encantador. Com respeito à história, devo lembrar que a copa do mundo de 1970 também coincidiu com um dos momentos mais negros da ditadura militar. E, naquele momento de horror, em que o governo usava o sucesso da seleção canarinho em propaganda política, para muitos, torcer para o nosso time era também apoiar a ditadura. Assim, a cada resultado positivo, muitos choravam de alegria escondidos nos quartos para não parecer que estavam apoiando a ditadura militar. Isso já faz parte da história brasileira. Agora é só esperar para ver o que vai acontecer.

Por causa ainda do Dunga, a esperta empresa italiana Panini também está pagando um mico colocando em seu álbum de figurinhas três jogadores brasileiros que não foram convocados. Mas isso não faz diferença: as figurinhas são uma mina de ouro para essa editora e uma grande diversão para crianças e marmanjos de todo o Brasil.

Em tempo - os brasileiros estão mesmo se divertindo antecipadamente com uma nova mania: a de colar as figurinhas dos argentinos de cabeça para baixo. Quem sabe isso dá azar para a seleção deles e sorte para a nossa.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 30 de maio de 2010.

Um campo minado (*)

A opinião pública ficou estarrecida com a tragédia de Niterói quando uma favela instalada no morro do Bumba veio abaixo, após fortes chuvas. Era uma favela populosa que avançava pelo morro, agarrada como caranguejo em suas encostas. Até aí nada de novidade, provocada pelo crescimento urbano de uma população à margem de benefícios como a casa própria e melhor qualidade de vida. O que causou perplexidade foi o fato do morro não ser um morro qualquer. Era na verdade um grande lixão formado pelo serviço público da própria municipalidade.

Pode uma barbaridade dessa? Como o poder público omisso e impune permitiu a construção de casas em cima desse campo minado? Não precisa ser engenheiro ou geólogo para saber que nesses lixões escorre o “chorume”, líquido que nasce da composição da matéria orgânica, altamente tóxico e, além disso, há também a formação e o vazamento de gás metano, altamente tóxico e inflamável..

É óbvio que um lugar assim não serve e não pode suportar a moradia de ninguém em cima. Fechando os olhos para tal gravidade, as autoridades locais, de forma demagógica, construíram na localidade asfalto, creche e outros benefícios. Porém, quem pagará as centenas de vidas ceifadas por esta irresponsabilidade? Como sempre acontece, o tempo passará e ninguém será responsabilizado por mais uma tragédia. Com cinismo, a responsabilidade ainda recairá sobre essas famílias que, pela pobreza e desconhecimento, insistem em morar de forma arriscada nesses morros ou em qualquer outro lugar de risco eminente.

Essa história de morar em térreos que foram lixões e nos chamados aterros sanitários não é uma atitude irresponsável que apenas ocorre na bela cidade do Rio de Janeiro. Como a existência de lixões é um problema grave nas pequenas e grandes cidades, aliás no mundo inteiro, a construção de casas e edifícios ocorre em todo o país.

Depois da repercussão desta lamentável tragédia, foi divulgada mais uma irresponsabilidade, agora na cidade de São Paulo. Construiu-se uma escola municipal infantil sobre um lixão desativado na Vila Nova Cachoeirinha. Durante décadas e sem uma legislação adequada, era usual que os resíduos tóxicos tanto de origem industrial como doméstica fossem depositados a céu aberto, sem a devida impermeabilização do solo. Depois, aterrados, tornaram-se terrenos disponíveis para a especulação, como áreas baratas para favelização e também para a utilização pelo poder público na construção de parques e escolas. No estado de São Paulo existem 2.514 áreas contaminadas e, o que é pior, com gente em cima, sendo que 781 somente na capital paulista (em sua maioria postos de combustíveis). Isso é apenas uma ponta do icerberg que se alastra por todo o país.

Em Campo Grande (MS) não é diferente. Os postos de gasolina, por legislação, estão passando por um verdadeiro processo de reestruturação. Menos mal e a natureza agradece. Mas vou além. Existe um local da cidade, densamente povoado, que foi décadas atrás um grande lixão, inclusive de resíduos hospitalares, e que depois, como sempre, foi aterrado e transformado em terreno disponível à especulação imobiliária. Mais recentemente, em cima deste campo minado e uma verdadeira bomba-relógio de efeito retardado, foram construídos vários conjuntos habitacionais de classe média. Sempre quando passo ao lado desse condomínio, fico a pensar na origem desse terreno, mesmo antes da tragédia do Morro do Bumba.

Espero que nada aconteça a esses moradores que, com certeza, não sabem o que existe abaixo do solo onde estão assentados. Penso que é preciso uma prática do poder público de vistoriar, periodicamente, a situação de cada terreno suspeito.

Que o caso de Niterói sirva de alerta e de cuidado para que uma tragédia deste porte não ocorra entre nós.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 23 de maio de 2010.

Uma legislação predatória: o Pantanal não está mais prá peixe (*)

O pantanal sul-mato-grossense e mato-grossense compreende um ecossistema singular, considerado patrimônio da humanidade e tudo que nele acontece tem repercussão mundial. Isso ninguém discute. Mesmo assim, parece que a região pantaneira é mais conhecida e defendida fora do que em nosso próprio país. Basta rever a sua história e visualizar séculos de agressão e destruição e apesar disso, teimosamente, o pantanal continua a se recompor a cada ano. E a despeito de sua enorme importância para nós, em Mato Grosso do Sul, defender e preservar o pantanal não rende votos em épocas eleitorais.

Recentemente, a Assembléia Legislativa viveu um impasse ao escolher entre uma medida eleitoreira e a preservação da fauna aquática pantaneira, dividindo publicamente as posições dos deputados. Foi a aprovação por nove a quatro votos de um projeto de lei de iniciativa do governo do estado, chamado de lei da pesca predatória. De um lado ficaram aqueles que tinham interesses econômicos na exploração do estoque pesqueiro pantaneiro, inclusive os pescadores profissionais e, de outro, os preservacionistas.

Aparentemente, a presente lei atende de imediato aos pescadores profissionais para obter mais renda de seu trabalho, esquecendo-se de que as dificuldades em atingir cotas satisfatórias estão na desenfreada e indiscriminada captura do pescado. Quem já pescou no rio Paraguai, por exemplo, sabe que não há mais a abundância de peixes de décadas atrás. Foi-se o tempo em que se pegava belos exemplares às margens dos rios. Lembro-me que alguns professores do Centro Universitário de Corumbá - UFMS, após o término das aulas no período noturno, geralmente na sexta-feira, desciam até o cais do porto e, sentados nas barcaças, pegavam pintados, cacharas, jurupenséns, douradinhos e também os deliciosos bagres. Faziam uma bela ceia com peixada de primeira qualidade. Mas, tudo isso ficou apenas na lembrança.

Os deputados favoráveis a esta lei entendem-na como uma norma restritiva, por delimitar os apetrechos em 10 anzóis de galho e 10 do tipo joão-bobo, enquanto a legislação federal permite o uso do dobro disso. Eu só queria saber quem vai fiscalizar, nos confins do pantanal e de madrugada, com condições de contar o número desses apetrechos utilizados. É evidente que se abriu uma porteira que, com o tempo, ficará escancarada e sem controle. Pobre do pantanal!

Outra medida que merece um certo cuidado está na emissão das famosas carteiras de pescador profissional. Segundo a nova regra, venceu a proposta que permite obter carteira o profissional que tem a pesca como sua “atividade principal”, saindo derrotada a que exigia que o pescador a assumisse como “atividade exclusiva”. É ai que mora o grande perigo, pois existem frequentes denúncias de distribuição generosa das referidas carteirinhas, principalmente em épocas eleitorais.

É preciso que, a bem da moralidade pública e da preservação dos estoques de peixes, que haja uma competente fiscalização até para proteger os verdadeiros pescadores profissionais do resto da malandragem. Lembrando que é através dessas carteirinhas comprobatórias que os pescadores são subsidiados com uma bolsa-alimentação governamental pela proibição da atividade pesqueira na época do “defeso”.

Por tudo isso, é que ironicamente volta à discussão a construção na capital, Campo Grande, de um grande aquário bancado pelo governo do estado, com previsão de início no próximo mês de julho. É uma vultuosa obra, orçada em 70 milhões, com previsão para 2012. Ainda não sei o custo da manutenção operacional desta grandiosa obra, voltada para atender turistas e pesquisadores. Pelo projeto apresentado, é uma bela obra, moderna, com os mais diversos atrativos.

Quem sabe no futuro, pelo andar da carruagem, será a única oportunidade de se ver peixes que um dia existiram no pantanal e que desapareceram pela voracidade dos espertos, pela irresponsabilidade dos políticos e omissão da população, o que infelizmente acontece hoje.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 16 de maio de 2010.