Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

O santo ladeira abaixo (*)

Quem nunca viu a festa de São João de Corumbá, perdeu a oportunidade de assistir a uma das mais significativas festas folclóricas do Centro-Oeste. Esta festa, com origens na colonização portuguesa, estendeu-se como manifestação popular em todos os cantos do país. Na cidade de Corumbá, a festa de São João tornou-se numa manifestação única, com formas próprias, com coloridos locais e o profano superando o religioso.

Talvez, por estar localizada na fronteira permeada por pantanais, a festa corumbaense não atinge a atenção da mídia nacional como as festas nordestinas, muito embora apresente originalidade e dimensão popular. Com certeza, faltam a Corumbá mais investimentos públicos e privados para incluir a festa no calendário dos mais importantes eventos nacionais. Por outro lado, em vários estados do nordeste, o São João transformou-se num grande espetáculo (distanciando das festas folclóricas originais), no mesmo patamar do carnaval do Rio de Janeiro e da festa do boi de Parintins. Não é sem razão que a Petrobrás alardeia investimentos nas festas juninas em mais de 41 municípios nordestinos, aliás, alvos de uma CPI no Congresso Nacional que o governo federal não quer nem ouvir falar.

Consta que no pós-guerra com o Paraguai, no século XIX, a festa de São João passou a fazer parte da paisagem histórica corumbaense. Em 1909, o militar Annibal Amorim registrou em seu livro de memórias suas impressões sobre a festa, as procissões em direção ao rio Paraguai e os rituais de banho do santo que se perpetuam até hoje. Via também, como acontece até hoje, o espírito democrático e popular da festa participando “pessoas do povo e até as melhores famílias do lugar”. Mais tarde, em 1932, o viajante Rezende Rubim ao passar pela cidade deixou um detalhado relato sobre a festa de São João, que também pouco difere das manifestações atuais, inclusive nas suas características comunitárias e democráticas. Escreveu em suas memórias que “em tal instante tudo se nivela, não há cotejo pobre ou rico. Todas as classes levam a sua imagem ao rio e todas, desde a mais modesta até a mais suntuosa, recebem dos fiéis a homenagens a que tem direito”.

A imprevidência dos homens (em especial, os públicos) tenta intervir nesta autêntica e natural manifestação do povo corumbaense. Na década de 1960 a festa descambou para uma batalha campal, quando contendores de cima da ladeira lançavam foguetes aos de baixo ou que subiam com seus andores e que respondiam aos ataques. Nem foi preciso reclamar com o bispo, que interferiu junto da polícia para acabar com aquela “farra”. A ação do bispado de Corumbá provocou em contrapartida o afastamento da participação de católicos e a “repressão” quase acabou com esta festa popular. Na década de 1990, administradores locais introduziram nesta festa grupos baianos de “axé music” e trios elétricos, nada tendo a ver com as raízes históricas do folclore corumbaense, inclusive mudando a localização das barraquinhas de comida típica e dos espaços para bailes.

Para atender também aos interesses da midia televisiva e captar boas imagens, houve uma intervenção em certa época, com a determinação da descida do santo às 22 horas. Tem gente que não aprende mesmo, mas que nem sempre a tradição respeita tais mudanças. É a moda (e o poder) da televisão mudar o horário das coisas e dos acontecimentos para captar audiência, sem interferir na sua programação de novelas, o que já aconteceu com as partidas nacionais de futebol. Mas, acho que o santo não gostou dessas novidades para as indesejáveis mudanças e como alerta neste ano São Pedro interferiu a favor de seu companheiro de céu, João, e fez cair um “toró daqueles”, como dizem os corumbaenses, fazendo as luzes das ruas se apagarem e trazendo um “friuzão” que o povo local detesta. O brilho programado deu “chabú”, mas a festa aconteceu assim mesmo. Eu não vi, mas sei que o pior, como sempre, ficou para os vendedores ambulantes e os comerciantes de barraquinhas alugadas a Cr$ 400,00 (uma exorbitância), que amargaram um nada folclórico prejuízo.

Lembro-me, nos idos de 1970 quando cheguei a Corumbá para trabalhar na antiga Universidade Estadual de Mato Grosso, quando me deparei pela primeira vez com essas festas, ainda sem interferências exógenas de políticos, administradores públicos e imprensa. Sinto uma enorme saudade dos festejos juninos do Barro Preto, da Cacilda e do Dr. José Sebastião Cândia, do Arraiá da Shá Onça da Helô e da Peninha, todos irmanados no compromisso de pagar com muita alegria suas promessas ao querido santo. Foram muitos banhos de rio e muitas mudanças, sem afetar, entretanto, o espírito da comemoração dos corumbaenses, festeiros por natureza.

“Deus te salve João Batista sagrado....”. Ano que vem estarei lá, para ver o São João, rever os amigos e renovar minhas energias à beira do rio Paraguai.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 28 de junho de 2009.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Um editorial com destino certo (*)

Sou leitor do jornal Correio do Estado, que compro todos os dias numa banca na avenida Mato Grosso, durante a minha caminhada matinal com meu amigo Barão, um cão da raça Dogo Argentino. Porém, isso não significa que eu concorde in totum com tudo que este jornal publica ou comenta. Pelo contrário, defendo com intransigência o meu direito de livre pensar e discernir, o que me permite o olhar crítico com que leio com avidez este tradicional jornal. É claro, menos a seção de palavras cruzadas. O mesmo ocorre com a Folha de S. Paulo, que também leio diariamente entre outras leituras.

Mas devo reconhecer a superação do Correio do Estado, no brilhante editorial do dia 14 de junho p.p., com o título singelo “A vez do professor”. Simples e direto como deve ser um jornal formador de opinião e que representa, em última instância, a opinião do próprio jornal. Creio que é, nos últimos tempos, uma das mais importantes análises sobre a angustiante situação de educação sul-mato-grossense (e também brasileira), que desnuda a política oficial da educação no plano regional e nacional.

Esta coluna, por vezes, já tem batido na mesma tecla abordada pelo jornal. A postura do Correio, neste caso, é uma visão política sobre a fragilidade da educação brasileira, que deve ser levada e discutida no âmbito dos professores, seja nas escolas, seja nos sindicatos representativos da categoria. Como nem todos professores tem acesso a este jornal (que para a maioria dos docentes seria um rombo em seu orçamento no final do mês), é o caso dos líderes classistas reproduzirem o recorte e distribuírem-no como pretexto para um amplo debate sobre os caminhos da educação escolar sul-mato-grossense.

O que fazer para provocar uma verdadeira revolução no processo educacional de Mato Grosso do Sul? E olha que não tenho pretensões de revolucionar a educação brasileira. Ficaria satisfeito se este movimento começasse aqui na “terrinha”. Seria um grande avanço.

O primeiro passo seria a realização de um grande debate estadual, com a participação de todos os segmentos da sociedade, com levantamento de problemas, dificuldades e avanços, estendendo-se da capital até o menor e o mais distante município do estado. Não estou me referindo à horrorosa palavra “diagnóstico” que não diz nada. Prefiro usar a palavra radiografia para ver o fundo do poço em que se encontra a educação, a cultura e a cidadania. Aí sim, pensar em alternativas.

Mas, muita coisa já está aflorando. Basta tomar a releitura do editorial acima referido que faz uma constatação através dos resultados do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), em que a escola estadual de Mato Grosso do Sul com melhor colocação ficou no lugar 3.227 depois da primeira colocada.

Será que vão pedir a mudança do nome do estado para resolver tão humilhante situação? Isso depois da propaganda da compra de grande quantidade de computadores, “vendidos” pelas autoridades como panacéia para solucionar o baixo nível da educação estadual. É claro que não, e a resposta está aí divulgada em âmbito nacional. Um vexame comparável à desqualificação de Campo Grande como subsede da Copa do Mundo.

O que as autoridades educacionais precisam entender é que computadores são apenas ferramentas a serem utilizadas por professores e alunos no processo educacional e não a solução para todos os males enfrentados pela escola.

A resposta está em priorizar o professor como peça fundamental no processo educacional. Ou seja, numa boa preparação continuada, com salários condignos acrescidos de estímulos financeiros a partir de resultados positivos obtidos pelos seus alunos. Este é só o começo. Depois, é mudar a percepção dos políticos e administradores, que sempre agem como se a educação fosse um estorvo para a administração e um incompreensível sorvedouro de dinheiro público. E, finalmente, criar a escola cidadã e não um depósito de crianças e jovens cujas famílias não dão conta de formar e amparar.

É preciso, portanto, pensar na escola e na educação como responsabilidades do estado e da sociedade. E, também, aceitar que uma sala bonita, cheia de computadores, com um professor insatisfeito, mal preparado e com salário aviltante nunca será uma escola. Se houver um barracão, com bancos e apenas uma lousa, mas com um professor bem capacitado, motivado, recebendo um salário digno e ainda com apoio das famílias de seus alunos, então você terá uma educação de verdade.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 21 de junho de 2009.

Mudança de nome resolve nossas mazelas? (*)

O maior perigo para as pessoas de memória curta é a existência de pesquisadores que têm a mania de colecionar e arquivar recortes de jornais. Pois bem, eu sou um deles. Pego na minha biblioteca uma pasta com o título “Estado do Pantanal”, onde procuro ver se houve mudanças de pensamento das pessoas ditas formadoras de opinião. O risco é a constatação da existência de oportunistas de ocasião. Isto porque voltou à tona a discussão sobre a mudança do nome do estado.

Tudo para escamotear a frustração de Campo Grande de não ser escolhida como subsede da Copa do Mundo de futebol, ou mesmo, para desviar a atenção sobre a incompetência dos nossos políticos e dirigentes. Creio que esta discussão é pertinente e deve ser democraticamente ampliada para toda a população. No entanto, não deixa de lembrar a história daquele sujeito que, traído pela esposa em sua própria sala de visitas, põe fogo no sofá. A mudança do nome do estado, aprovado ou não, não apaga o vexame que passou o campo-grandense que, aliás, não pode ser responsabilizado pelos acontecimentos.

Mas voltando ao começo, este assunto surgiu na década de 90 do século passado. Foi no jornal O Palanque, de 14 de março de 1999 que apareceu a notícia “Zeca quer outro nome para MS”. O que deveria ser uma discussão saudável, transformou-se numa radicalizada intriga política-partidária. Volto a repetir: tenho uma imensa coleção de recortes de jornais sobre o assunto e acompanhei cada passo desse “imbróglio”.

Isso vale uma reflexão. A discussão perpassa por algumas questões, muitas de senso comum e às vezes equivocadas, que são escamoteadas ou mal resolvidas. Apesar de um longo amadurecimento do processo histórico sobre a tendência divisionista sulista, ainda faltam explicações sobre a construção de uma identidade para Mato Grosso do Sul. Além disso, é preciso superar a falsa idéia de Mato Grosso do Sul como um território sem história e sem cultura. Talvez, por isso, o nome do estado continua provocando confusões, por exemplo, a mídia nacional que só fala em Mato Grosso (situação que quase sempre beneficia o estado visinho), e passa uma imagem depreciativa para os próprios sul-mato-grossenses. No entanto, depois de tanto tempo da criação do estado, a responsabilidade desta confusão ainda persistente deve ser exclusivamente creditada aos seus dirigentes, políticos e empresários que não tiveram sensibilidade suficiente para solucionar o problema.

Acredito que diversos fatores podem ser elencados para explicar as inquietações levantadas acima, porém o principal concentra-se no âmbito educacional. É a falta de conhecimento da história da região, em especial, pelas dificuldades de acesso aos trabalhos historiográficos. Poucos conhecem os textos históricos, ditos clássicos, ou fontes documentais que falam da região, partir do século XVI. Outro pequeno grupo, dedicado ao conhecimento acadêmico, conhece e produz historiografia regional, mas não a multiplica pela existência diminuta de editoras, de distribuição ou de apoio institucional para melhor divulgação da história regional entre os professores da rede escolar.

Contudo nos meios culturais e na mídia regional, é recorrente em tempos alternados o surgimento da pergunta única e direta: por que o nome Mato Grosso do Sul? E ainda, é preciso mudar seu nome para criar uma nova imagem do estado, ou mesmo para resolver os graves problemas estruturais que ainda embala a vida sócio-econômica da região? E mais, nome foi uma reivindicação coletiva, ou uma imposição dos mandões de plantão e, é claro, com a submissão e conivência dos políticos oportunistas também de plantão?

Assim, mesmo sem muitas respostas, é preciso esclarecer que a mudança do nome por si só jamais resolverá os problemas do estado, que foi criado para ser um “estado modelo”, onde não faltaram recursos federais. E quem saiu bem nesta história, infelizmente, foi o estado visinho. O fato é que Mato Grosso do Sul caracterizou-se por uma gangorra política, religiosamente alternada entre grupos heterogêneos que se unem apenas em épocas eleitorais. Dessa forma, nesses mais de 20 anos de existência, em nosso estado não se formou um grupo político hegemônico, forte e capaz de levar adiante um projeto de longo prazo e capaz de definir um destino e um futuro de desenvolvimento sólido para Mato Grosso do Sul. Isto é mais importante que um novo nome.

E, como não existe o “se” em história, com certeza, não foi o nome que motivou a escolha de Cuiabá como uma das subsedes da Copa de 2014 e a exclusão de Campo Grande. Taí um assunto que ainda vai dar muito pano prá manga.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 14 de junho de 2009.

A batalha de Itararé (*)

A década de 20 do século passado ficou marcada por manifestações de rebeldia revolucionária dos militares brasileiros, conhecidas por “Tenentismo”, como uma reação à política e aos grupos dominantes no poder durante a República Velha. Começou com a revolta do Forte de Copacabana, em 1922 e, dois anos depois, com a Revolução Paulista, sempre com a vitória das forças legalistas do governo federal. Também em decorrência deste movimento revolucionário e, ainda, como reação à política brasileira, surgiu a histórica e emblemática Coluna Prestes, organizada a partir da divisa de Mato Grosso com São Paulo. Esta epopéia revolucionária, um feito que extrapolou os limites da história militar brasileira, percorreu por dois anos todo o interior brasileiro, encerrando esta aventura na região da lagoa Gaiva, do lado do território boliviano.

No entanto, foi a cisão da classe dominante em 1930 que pôs fim ao período da República Velha. Nas eleições presidenciais, Washington Luis então presidente da República, lançou como candidato oficial o paulista Julio Prestes, provocando uma cizânia política. Seus oponentes lançaram então o gaúcho Getúlio Vargas. Como era prática usual a manipulação eleitoral, o candidato oficial ganhou a eleição.

O inconformismo com esse processo eleitoral fez estourar a chamada Revolução de 1930, com tropas revolucionárias lideradas por Getúlio Vargas deslocando-se em direção à capital, Rio de Janeiro. Na cidade paulista de Itararé, as tropas que apoiavam Washington Luis posicionaram-se para bloquear o avanço das tropas gaúchas. A possibilidade de um grande confronto dominou o noticiário da imprensa nacional, que se referia a esse choque potencial como a Batalha de Itararé. A população local evadiu-se, houve escaramuças entre partidários dos dois lados e prédios e residências foram saqueados. Assim, esperava-se um grande combate, entretanto abortado com a rendição das tropas que apoiavam Washington Luis para os revolucionários. Desse modo, a Batalha de Itararé ficou conhecida como “a batalha que não houve”. E essa cidade do interior paulista carrega, até os dias de hoje, um estigma e um certo constrangimento pelo acontecimento inusitado, que virou piada na imprensa.

Guardadas as devidas proporções, a exclusão de Campo Grande como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, foi uma verdadeira “batalha que não houve”. Ainda não foram contabilizados as perdas e danos a médio e logo prazo com esta infeliz (para nós) decisão da Fifa.

Mas foi mesmo uma decisão da Fifa? Segundo o jornalista da Folha de São Paulo, Juca Kfouri, não foi mesmo. A responsabilidade coube exclusivamente ao presidente da CBF, o polêmico Ricardo Teixeira. Ou seja, aquela encenação da Fifa foi para “inglês ver”. Ou, com outras palavras, uma tremenda tapeação de cartas marcadas, pois Teixeira, antecipadamente, teria preferido Cuiabá.

Já que a justificativa principal para essa escolha foi uma proximidade com o Pantanal, é óbvio que a indicação deveria recair sobre Campo Grande. E se o critério de escolha aproximava-se de questões ecológicas, jamais poderia ter sido escolhido um estado cujo governador vem sendo apontado como um dos responsáveis pelo desmatamento desenfreado e recente do norte mato-grossense, a ponto de um programa de TV humorístico atribuir-lhe o troféu “Motosserra de Ouro”.

Nesta semana de ressaca dos campo-grandenses, o professor Hildebrando Campestrini escreveu um brilhante editorial no Correio do Estado (em 04\06) colocando os pingos nos iis da questão, e eu concordo com ele em número, gênero e grau. Houve despreparo, amadorismo e, sobretudo, desconhecimento da história de nossa região.

Assim, a desventura de Campo Grande pousou, sobretudo, na falta de força política e de planejamento de seus administradores trapalhões. Esse vexame deve servir, entretanto, de alerta para futuras empreitadas, sem amadorismos, sem equívocos, sem lobistas mal afamados, sem publicitários ultrapassados, sem modelos cinquentonas e sem jogadores de futebol aposentados. É uma pena, pois foi dinheiro público que escorreu pelo ralo e poderia ser melhor empregado, ainda que fosse apenas para promover as belezas da nossa cidade.

Por outro lado, a festa dos cuiabanos perdeu seu brilho com a resposta chula de seu prefeito, mandando Campo Grande “tchupar manga”. Isso não podia acontecer, mesmo que fosse um revide aos pronunciamentos infelizes do nosso governador.

Na verdade, perdemos mais um bom combate e Campo Grande ficou chupando o dedo... Além do mais, um espetáculo de baixarias políticas ninguém merece.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 6 de junho de 2009.

Domingo, 31 de Maio de 2009

Um desastre anunciado (*)

Em 16 de agosto do ano passado, nesta coluna (que espero que continue a ser lida por muita gente), fiz uma análise das nuvens negras que encobriam a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, sob o título “Uma Universidade na Linha de Tiro”. À época, a Assembléia Legislativa estava discutindo a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que determinava os gastos públicos para 2009. Foi quando aflorou na mídia estadual a situação de risco sobre o futuro acadêmico da UEMS.

Desde a sua criação, esta universidade estadual sempre esteve a mercê de interesses políticos, chegando a ponto de, num certo momento, se falar até em seu fechamento. Porém, considerada um patrimônio dos sul-mato-grossenses, muitas vozes se levaram em sua defesa, e esta idéia estapafúrdia caiu no esquecimento. Em contrapartida, os legisladores em sua defesa estabeleceram na LDO a exigência de um percentual de gastos vinculado à arrecadação estadual, permitindo não somente a sua manutenção como também possibilidades de expansão.

No entanto, “na calada da noite” como dizia um velho político corumbaense, na proposta orçamentária então discutida na Assembléia Legislativa, não foi incluída nenhuma rubrica de gastos obrigatórios para a Universidade Estadual. Esta omissão, que poderia ser corrigida pelos deputados, passou tranqüilamente pela Comissão de Constituição, Justiça e Redação, aliás, o fórum adequado para solucionar a situação, e a LDO foi aprovada. Como era de se esperar, um novo calvário estava à espreita da UEMS.

Decorrido 9 meses após aqueles acontecimentos, novamente a situação aflitiva da UEMS aparece nas páginas dos jornais. Contando com 8 mil alunos e atingindo a sua abrangência em 15 municípios, esta universidade assumiu um papel social altamente significativo para as comunidades do interior. Dos 20 cursos em pleno funcionamento, alguns podem fechar por falta de recursos. A expectativa de retração do atual estágio de desenvolvimento da UEMS traz como consequência uma intraquilidade generalizada para os pais, filhos e, principalmente, para docentes que, mesmo concursados, temem o espectro do desemprego. É preciso, isso sim, uma mobilização da sociedade sul-mato-grossense para que não haja mais prejuízos ao ensino universitário estadual e à educação de modo geral.

Porém, como penso que bom senso neste momento é “caldo de galinha”, que não faz mal a ninguém, este impasse financeiro provocado por esta distorção política vai provocar uma saudável discussão sobre os rumos que deve seguir a UEMS, para um lado ou para outro. Como a educação deve estar em continuado processo de expansão e transformação, é obvio, que as instituições não devem permanecer imutáveis. E, portanto, está na hora de redefinir o papel e os destinos desta Instituição Superior sem, contudo, descaracteriza-la.

Por fim, uma Universidade não significa apenas formação em nível superior. Além de capacitação técnica e profissional ela produz desenvolvimento através das atividades de ciência e inovação tecnológica. Se Mato Grosso do Sul quer se um estado forte, é preciso cuidar e expandir a UEMS para que ela seja a nossa USP ou nossa UNICAMP.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 31 de maio de 2009.

Domingo, 24 de Maio de 2009

O trenzinho que saiu dos trilhos (*)

Sonhos para uns, nostalgia para outros, depois de uma longa espoliação histórica, o Trem do Pantanal deslizou pelos antigos trilhos da Noroeste. Não falo que voltou porque muita água ainda passará sob a ponte, ou melhor, sob os trilhos. Correndo nos seus acanhados trilhos que cortavam o Pantanal, com a ligação de Campo Grande à Porto Esperança em 1914, o trem da Noroeste esteve intimamente ligado à história e à construção de Mato Grosso do Sul. Porém, a insensibilidade e a ganância dos homens, ligadas unicamente aos interesses do mercado e da defesa do Estado Mínimo (pilares do neoliberalismo) e não aos interesses da sociedade como um todo, levaram ao desmonte e a privatização de instituições estatais. O país perdeu, o estado endividou-se, os serviços essenciais ficaram com preços proibitivos, a população pagou o “pato”, mas muita gente encheu as suas “burras”. Parece até anacronismo falar sobre esse passado que não volta mais, mas como sou teimoso, continuo a falar. O caso da Noroeste é emblemático, pois todos nós saímos perdendo.

No entanto, quem viveu este período jamais esquecerá o balançar e os apitos “daquele velho trem”, como registrou uma belíssima canção regional. Sem romper este cordão umbilical nasceu o “trem do pantanal”. Entendo até que esta proposta é superação de um peso na consciência de uma geração que não soube, ou não teve condições de preservar o velho trem da Noroeste.

Sou um dos defensores deste evento, porém, não posso deixar de fazer algumas considerações. Em primeiro lugar houve um equívoco em denominar, como propaganda, “a volta do trem do Pantanal”, pois não se retorna o que, historicamente, não existe mais. O trem da Noroeste, como existiu, transportando cargas e passageiros, já faz parte do passado da região. Este novo trenzinho, que fez uma recente primeira viagem, tem uma nova concepção de utilização. Como diz um velho ditado, é “a volta dos que não foram”. Em fim, a utilização da palavra “volta” é complicada e induz às pessoas desavisadas a nostalgia de resgatar algo que não será efetivado.

O segundo ponto de preocupação é o batismo de trem do “Pantanal”, que induz a pensar que o passageiro usufruirá das belezas naturais (exaustivamente divulgadas pela mídia) que, na verdade, não serão mostradas por uma razão muito simples: o trem do Pantanal não corta o Pantanal nesta primeira etapa. O término desta viagem, na cidade de Miranda, demonstra que as grandes planícies alagadas ficaram de fora do projeto.

Esta primeira viagem, com autoridades que incluiram os presidentes do Brasil e do Paraguai, mostra o perigo da utilização de uma propaganda enganosa. O presidente Lula, com sua verve conhecida, chegou a dizer: “serei o garoto-propaganda do Pantanal no mundo”, que ele, na verdade, não viu. Também chegou a prometer que no próximo ano o trenzinho do Pantanal chegará a Corumbá. Será? Pobre cidade de sonhos perdidos, pois espero que não demore 40 anos, como no passado foi o tempo de implantação dos trilhos entre Porto Esperança e Corumbá. Que o diga o presidente da ALL (América Latina Logística) Bernardo Hess, que em recente entrevista, jogou água fria na possibilidade do trenzinho do Pantanal chegar a Cidade Branca a curto espaço de tempo.

Outras perguntas que não podem calar sobre a questão da segurança dos usuários e turistas, aliás, nem o próprio presidente da ALL conseguiu uma explicação plausível. A empresa não explicou até agora quantos dormentes foram trocados, trilhos revisados, além dos trabalhos de conservação das velhas obras de arte. Além disso, ninguém também explicou porque este trem, com poucos vagões, não ultrapassa a velocidade de 30 kilômetros por hora, tornando a viagem um tormento aos passageiros. Até o velho trem da Noroeste desenvolvia maior velocidade, e olhe, com a infraestrutura de 1914. Será que maior velocidade provocará a saída do trenzinho de seus trilhos? Num primeiro momento, segundo um mote da novela, foi um fato “auspicioso”, agora a realidade é mais dura e as críticas já começaram a aparecer. Discursos na Assembléia Legislativa dos deputados da oposição chegaram até a afirmar que o próprio presidente da república foi enganado por este danado trenzinho...

Ainda é tempo de fazer um planejamento conseqüente para o uso desta ferrovia, não provocando uma indesejável propaganda negativa e contrária aos interesses de Mato Grosso do Sul. Senão, será mais um trem a perder os trilhos da história.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 24 de maio de 2009.

Domingo, 17 de Maio de 2009

Uma reforma indecorosa (*)

Sou um militante partidário e isto significa que sou filiado a um partido político. Com isso defendo que a melhor participação numa sociedade democrática é trilhar um envolvimento com uma agremiação partidária. Mas, neste momento, encontro-me numa encruzilhada terrível, pois a classe política está com a sua imagem no fundo poço. As notícias que extrapolam o belo prédio do Congresso Nacional, hoje alimentam mais as páginas policiais do que as colunas políticas. E quando se pensa que já se viu de tudo em termos de promiscuidade da classe política, novas denúncias vêm abalar os já combalidos alicerces na nossa pobre democracia. E tudo isso na mais singela impunidade.

Acho que vou mudar de profissão para produzir e vender em Brasília “óleo de peroba” e vou ficar rico. Os exemplos estão aí para serem vistos e repudiados. Com esse tipo de gente o que fazer para recuperar a moralidade política neste país? O castigo seria derrotá-los nas próximas eleições. Mas é aí que mora o perigo.

A corrupção virou uma coisa corriqueira e banal, e até sinônimo de esperteza e inteligência. Esta hidra espalhou-se por todo o país, como uma erva daninha que atinge até o menor dos agentes políticos. Mas nesta discussão, fico apenas no que está acontecendo no Congresso Nacional.

Um exemplo de grande repercussão nos últimos tempos foi o caso conhecido como “mensalão”, onde muitos “representantes do povo” lambuzaram-se com o dinheiro sujo da corrupção. Foi muito barulho e, infelizmente, pouca condenação. Porém, a imprensa investigativa não permitiu o esquecimento deste “imbróglio”. Pelo contrário, não deu tréguas a estes contraventores e as denúncias começaram a aparecer aos borbotões. Parece, no entanto, que os políticos não aprendem e continuam a desafiar a opinião pública. A lista é longa, como os casos de aluguel de jatinho, do uso indevido de telefones celulares, da baixaria do uso de empregadas domésticas com verba oficial, e das propriedades milionárias omitidas por diretores, etc., etc., etc.

Um outro exemplo gritante foi o caso do deputado Sérgio Moraes, relator do processo contra o também deputado Edmar Moreira, aquele que construiu um castelo em Minas Gerais avaliado em mais de 25 milhões. Pois bem, este cara de pau não viu nenhuma razão para cassar o seu colega, dizendo que estava “se lixando para a opinião pública”. Entendo que ele também deveria ser cassado por falta de decoro parlamentar.

Agora veio a vergonhosa história da utilização de passagens aéreas, que políticos bonzinhos (com o nosso dinheiro) repassavam para parentes, namoradas e figurinhas inomináveis. Foi, sem qualquer escrúpulo, a mistura do público com o privado. Até parlamentares “acima de qualquer suspeita” usaram deste expediente como se fosse uma ação de normalidade e de direito de propriedade. Isso tudo está enxovalhando uma história cheia de estadistas que pela sua honestidade engrandeceram a política brasileira.

Porém, é de assustar que ao desenrolar de qualquer crise, talvez para desviar a atenção da população, esses mesmos políticos (muitos deles na alça da mira da justiça) recorrem as já desgastadas propostas de reformas. Depois, como é corriqueiro, ao passar a fase aguda da confusão política, não se fala mais em nenhuma reforma. No entanto, a idéia de uma pseuda reforma política vem colocar em risco a democracia brasileira (pelo menos é a que temos) e um tremendo retrocesso na vida brasileira. É um acinte e deve ser repudiado por todos.

Este arremedo de reforma tem dois pontos, que são verdadeiras malandragens partidárias. O primeiro ponto propõe que o financiamento das campanhas eleitorais dos partidos políticos fique a cargo do Tesouro Nacional, ou seja, do dinheiro do cidadão, independente de sua concordância ou não. É no mínimo falta de pudor aprovar tal proposta. Porém, o pior vem depois. É a proposta de extinguir a escolha do eleitor por um candidato. Isso mesmo. Seria feita uma lista fechada de deputados e vereadores pelo partido e o cidadão somente votaria na sigla partidária, sendo eleitos os primeiros da lista. O eleitor não votaria mais em seu candidato preferido, impedindo a renovação partidária e elegendo somente os “donos” dos partidos. É o retorno da política da Velha República (1889-1930) e do velho e carcomido coronelismo. E o que é pior, tornando cativos os mandatos dos atuais parlamentares.

Apesar de todos os nossos limites e do desânimo que acomete a sociedade civil, não podemos esmorecer. Por isso, é preciso, ao menos, ficar de olho neles!

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 17 de maio de 2009.