O carteiro da minha rua é um sujeito muito simpático, educado, amigo e sempre sorridente. Na parte da tarde é o seu horário de entregar correspondências, quando as têm. Caso contrário passa em frente da minha casa com sua “bike” em alta velocidade. Faça sol, ou chuva, lá está ele de uniforme, chapeuzinho azul e uma mala cheia das diversas correspondências. Sempre quando posso procuro conversar com ele. Pois bem. É um amigo que visita a rua todos os dias e a minha casa quando tem alguma coisa a entregar. Por falha minha não sei o seu nome.
Nos tempos atuais e de dificuldades, a função do carteiro também sofreu profundas modificações em seu universo de atuação. A sua tarefa existe desde os tempos remotos, algumas com simbologia marcadamente histórica. Lembro quando estudei história antiga, o episódio contado como lenda que após um combate dos atenienses com os persas, um soldado de Atenas foi encarregado de levar a notícia do resultado e para isso correu aproximadamente 40 km. Cumpriu a sua árdua tarefa, mas exausto caiu falecido. Deste extraordinário feito resultou, como referência, a mais importante modalidade de competição nas Olimpíadas dos tempos modernos – a Maratona.
Levar notícias importantes é uma missão nobre. Antigamente, era mesmo muito difícil. Em Mato Grosso, as cidades do sul, bem antes da divisão, lá pelos idos de 1900-1920, os habitantes da fronteira recebiam cartas e notícias pelos correios do Paraguai. Era mais fácil as cartas navegarem pelo Atlântico, margearem a costa e depois penetrarem o estuário do Prata, para depois subirem o rio Paraguai até Corumbá, do que atravessar as estradas intransitáveis e perigosas dos sertões de S. Paulo e Goiás.
Desse modo, o carteiro sempre encurtou distâncias, trazendo notícias de parentes distantes ou correspondências amorosas entre outras. Era comum as pessoas ficarem nos portões à espera de notícias, alegres ou tristes, trazidas pelos carteiros que passavam a ser um elemento indispensável da comunidade. O carteiro era esperado com ansiedade e alegria, na maioria das vezes.
Nos tempos atuais, foi colocado nas costas deste servidor o peso de ser um cobrador. É através dele que chegam as mais perversas cobranças de luz, água, telefone, impostos e taxas, só para relatar as mais singelas. Notificações de multas de trânsito, carnês do IPTU, do IPVA, boletos bancários, enfim, todo tipo de cobranças. Mas não é só isso.
Tradicionalmente, os cachorros são os piores inimigos dos carteiros. Alguns sofrem para entregar as cartas, sobretudo quando as casas não possuem as caixas de correio de forma acessível e segura ao carteiro. Não é o meu caso. Meu cachorro até faz festa para o carteiro, decerto por que o confunde com o entregador de pizza, que ele adora. A pizza, não o entregador. Mas, o carteiro, mesmo sendo meu amigo, olha sempre desconfiado pro meu cachorro que, apenas por curiosidade, pesa mais de 60 quilos e parece mais um bezerro.
Apesar das contas, sofridas para serem pagas, o carteiro, meu amigo, é bem-vindo e sempre me lembro de um filme maravilhoso que assisti e que revejo, quando passa na TV: O Carteiro e o Poeta.
Para quem não o viu, está perdendo uma rara oportunidade de ver um filme sensível e bem feito. Trata-se da história, mais ou menos verídica, do poeta Pablo Neruda que, banido de seu país pela feroz ditadura militar que tomou conta do Chile após 1973, foi morar numa cidadezinha italiana, à beira do mar. A cidade tinha correio, mas de tão pequena, não tinha carteiro. Porém, para atender ao seu novo morador ilustre, que ocupou uma casa no alto de um morro com vista privilegiada para o mar, foi nomeado um carteiro dentre os moradores locais, especialmente para entregar a farta correspondência de cartas e livros que Neruda recebia com regularidade. E ele tinha o privilégio de usar uma velha bicicleta para subir uma ladeira íngreme. A convivência e a amizade do carteiro com o poeta é o tema principal do filme e o seu momento mais alto é quando o carteiro pede ao poeta para lhe ensinar a fazer poesia. Não vou contar mais, para que aqueles que não viram o filme possam deliciar-se com o enredo.
Por isso, quando vejo todos os dias o carteiro e sua bicicleta passar pela minha rua, penso em poesia....
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 22 de março de 2009.
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