Cresci ouvindo dizer, como um fato consumado e não discutido, que na história brasileira não existiam guerras, nem violência ou derramamento de sangue, uma terra “abençoada” sem cataclismos como terremotos e muitas outras tragédias. Inúmeras abordagens, defendendo tais posições ou questionando-as, foram recorrentes em artigos e em livros publicados em prosa e verso. Alguns, pelo seu significado histórico e sociológico, provocaram polêmicas e grandes repercussões e tornaram-se referências obrigatórias ao estudo e compreensão do processo histórico da formação do povo brasileiro.
Entre o ineditismo e o brilhantismo destas obras, posso citar, sem enquadra-los numa vertente ou outra, os historiadores Sergio Buarque de Holanda, José Honório Rodrigues e o sociólogo Gilberto Freyre que produziram obras clássicas em um tempo já distante.
Holanda, um intelectual brilhante, enveredou pela compreensão do “homem cordial” nas raízes da construção da história brasileira. Sua produção historiografia, apesar de pequena, foi de fundamental importância, influenciou gerações de historiadores brasileiros e até hoje provoca estudos e polêmicas. Pesquisador meticuloso, no início de carreira chegou a pesquisar documentos do século XVIII no velho arquivo de Cuiabá. Lá, obteve a informação da existência em Corumbá do testamento de um bandeirante. Já na Cidade Branca, teve a triste notícia de que o documento tinha sido queimado como papel velho. Mesmo idoso, jamais se conformou com uma perda tão preciosa.
O outro historiador, José Honório, também diplomata, voltou-se para uma vasta produção de estudos da história colonial e imperial brasileira. Marcou posição no cenário historiográfico ao discutir a questão polêmica da existência de uma “história cruenta” e de uma “história não cruenta” na história brasileira. Foi Honório que abriu e influenciou um leque de estudos sobre violência, permitindo uma revisão de fatos importantes do nosso passado. Enfim, defendia que as transformações históricas não existiriam fora do contexto da violência..
Em outra linha de explicação das raízes do povo brasileiro, Gilberto Freyre produziu um também brilhante estudo sociológico defendendo a existência na economia colonial açucareira nordestina de uma “democracia racial”. Afirmou que entre a casa grande dos senhores de engenho e a senzala, onde ficavam depositados os escravos, houve uma permanente relação racial e sexual. Dessas relações resultaram uma miscigenação marcante para a formação inter-racial e intercultural do povo brasileiro.
Muitos outros pensadores estudaram, ou continuam estudando, a questão da “violência” e da “não violência” na história brasileira. Na verdade, como explicar a colonização sem levar em conta o período de escravidão negra e do enfrentamento e escravidão dos nativos da terra, com a consequente extinção de tribos indígenas? Depois, o Brasil envolveu-se na trágica guerra com o Paraguai, de uma violência incalculável, que provocou massacres de todos os lados. Também, no período republicano não foi diferente. Assim, com as mais diversas nuances, a violência sempre esteve presente em nosso cotidiano. No entanto, é preciso distinguir a violência política da violência do cotidiano.
Hoje, a violência do cotidiano, que não é mais política, está presente ao nosso lado, em cada esquina, como algo banal que não surpreende mais ninguém. Basta ligar a televisão. O que se vê, por exemplo, é a barbárie no Rio de Janeiro, com cenas explícitas de guerra civil. Mas não é um caso isolado e incomum. Foi assustador dias atrás ver um arrastão em Praia Grande (SP) de mais de 1500 pessoas depredando, quebrando e roubando pelas ruas desta cidade praiana. O espantoso é que neste bando de malucos não tinha somente bandidos, mas junto a eles, também, em maior número, turistas oriundos do interior do estado. Estavam ali para passarem as férias. Dias depois, ocorreram os mesmos tumultos em São Vicente.
Também passou a ser comum ocorrências de saques nas mais diversas partes do país. Aqui mesmo em Campo Grande, houve saques recentes, fruto de acidentes rodoviários. Em um desses casos, pessoas carregaram pra casa sacos de milho contaminado por pesticidas agrícolas. Em outro, mais recente, foi a vez de arroz espalhado pelo asfalto.
Crise, fome, violência, intranqüilidade são, sem dúvida, parceiras indigestas de qualquer sociedade.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 25 de janeiro de 2009.
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