terça-feira, 5 de maio de 2009

Olha do trem aí...gente! (*)

Desde as primeiras décadas do século passado, o trem, então denominado Noroeste do Brasil, foi parte integrante e atuante da história de Mato Grosso. Cortando os sertões de São Paulo e adentrando por Mato Grosso os trilhos chegaram primeiro à Campo Grande. Depois deram uma guinada à oeste, atravessando os desafiadores pantanais, com expressiva mortandade de trabalhadores, interligando finalmente, em 1914, a região de Porto Esperança, às margens do Rio Paraguai. O restante do trajeto foi completado, subindo o rio com cargueiro e transporte de passageiros, até o Porto de Corumbá.

Esta interligação comercial que coincidiu com a deflagração da Primeira Guerra Mundial provocou de forma irreversível a transformação histórica de toda esta região mato-grossense. Primeiro por que Corumbá perdeu o “bonde da história”, pois os trilhos foram inaugurados na cidade somente em dezembro de 1952. Neste período, mesmo mantendo um comercio fluvial, o porto foi perdendo o seu brilho como eixo importador e exportador fronteiriço. As cidades que ficaram ao redor dos trilhos ganharam com a ampliação de população e de atividades comerciais. Portanto, falar sobre a história da região representa dar amplitude e significado maior ao andar lento e aos apitos das locomotivas e com eles a convivência de gerações e gerações de mato-grossenses.

Apesar de uma prestação de serviços nem sempre eficiente, a Noroeste do Brasil foi um símbolo emblemático de sobrevivência da região. Os seus vagões, barulhentos, mas reservados em seus segredos, testemunharam alegrias, tristezas, amores apaixonados e roubados (em suas cabines mal cheirosas), os famosos bifes à cavalo servidos com cerveja quente, só para citar algumas lembranças sentimentais.

Depois veio o turbilhão do neoliberalismo e com ele a defesa do chamado estado mínimo. O resultado deste desvario foi a privatização dos bens públicos que no caso desmontou a importante malha fluvial brasileira. O país perdeu um patrimônio incalculável, mas teve gente (sempre os mesmos) que encheu as “burras” com o dinheiro que evaporou simplesmente.

A tragédia que se abateu sobre a Noroeste do Brasil foi maior pelo fato da firma americana, que arrematou este espólio ferroviário, era segundo a imprensa uma empresa falida e não colocou nenhum centavo neste “grande” negócio. E o que é pior, obteve dinheiro público que jamais foi ressarcido. Foi um período de sucateamento e de depauperação deste patrimônio histórico e cultural. O que restou desta aventura criminosa, quando não tinha mais nada a sugar, foi passada para frente. Também, como se fosse uma questão de vida ou de morte, foram também tirados os trilhos que cortavam a capital, Campo Grande. Há pouco tempo atrás, como uma prioridade para trazer uma das sedes da copa do mundo para a cidade, aventou-se a construção de um metrô de superfície, para facilitar o transporte na época dos jogos. Será que vão recolocar os trilhos no centro da cidade? Sei não, ou melhor, sem comentários.

Agora está revivida a idéia da implantação do “Trem do Pantanal”, entre a capital e a cidade de Miranda. Antes de tudo, quero dizer que sou a favor deste evento cultural. Porém, não posso abrir mão do meu direito à reflexão e à crítica. Primeiro, o trajeto proposto está longe de ser significativo para a apresentação do Pantanal, quando o trecho real para uma vista da região pantaneira, concentra-se justamente entre Miranda e Corumbá. Segundo, o mais sensato seria fazer uma etapa de ônibus, trecho Campo Grande-Piraputangas, e complementado, que é o trecho mais importante, Pitaputandas-Miranda (almoço)-Corumbá. Mas, do jeito que está proposto, pode virar um trem fantasma.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 19 de abril de 2009.

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