segunda-feira, 13 de abril de 2009

Uma literatura imperdível, para ler e guardar (*)

O contato com a história e com a literatura sul-mato-grossossense é uma oportunidade gratificante como uma viagem cheia de aventuras, perigos e grandes emoções. Porém, apresenta-se de forma desafiadora pela dificuldade de seu acesso. E o que pouca gente sabe, é que existe, desde meados do século XIX, um “caminhão” de livros produzidos sobre a região. Porém, poucos felizardos conseguem até hoje arrebanhar livros regionais, muitos deles raríssimos, formando belíssimos acervos bibliográficos. Mesmo assim, por ser em sua expressiva maioria propriedades particulares, o seu acesso torna-se infelizmente muito seletivo.

Algumas publicações tiveram, de forma curiosa, uma história paralela e desconhecida desde a sua produção e publicação até chegar ao público leitor. Um exemplo disso foi o famoso “Álbum Graphico do Estado de Matto-Grosso”, publicado na cidade de Hamburgo em 1914. Foi um arrojado empreendimento editorial e comercial e refletiu a expressão econômica, na época, do porto corumbaense. Teve um apoio ostensivo do governo estadual e demandou dois anos de trabalhos e pesquisas. No entanto, as pretensões de seus idealizadores foram tolhidas pelo rompimento da Primeira Guerra Mundial, que fez com que o navio utilizado em seu transporte de Hamburgo para o Brasil retornasse à Inglaterra. Assim, somente após o término do conflito, esta pesada e volumosa mercadoria chegou ao porto de Santos. Aí começou uma nova dificuldade para o governo estadual que teve de arcar com onerosa tarifa de armazenamento pela demora em sua remessa para Mato Grosso e também com os custos de seu transporte. As dificuldades não pararam por ai. O tamanho da obra e seu peso excessivo inviabilizaram a sua distribuição através dos serviços normais do correio da época.

Sabe-se que grande parte desta obra foi consumida por vorazes insetos em um improvisado depósito em Corumbá. Outra parte foi vendida aos passageiros do navio Fernandes Vieira que fazia o trajeto do ponto final da Estrada de Ferro Noroeste, em Porto Esperança, até Corumbá. Assim, esta belíssima obra chegou até hoje, sendo vendida a peso de ouro em sebos.

Bem mais tarde, nos anos oitenta do século passado, foi feita uma nova edição, em xerox, sendo vendida em Cuiabá pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso. Mas o “karma” do “Álbum Graphico” não terminou. No final do governo estadual passado, foi feito um acordo interestadual e o “dito cujo” foi reeditado, também em xerox, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Parece que não houve um feliz entendimento, pois a obra não chegou até nós e está sendo vendida no estado visinho.

Outra obra, também de extrema importância, surge agora republicada por uma iniciativa arrojada do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul. Trata-se de uma belíssima edição das obras completas do escritor Helio Serejo. Na verdade, uma obra imperdível, para ler e guardar.

Nela encerra-se uma carreira brilhante de escritor que soube com maestria contar a história da fronteira sul-mato-grossense. Com uma vida intensa, que daria um romance, Serejo participou de eventos importantes da história brasileira, e escreveu mais de 60 livros e artigos, de todos os tamanhos e números de páginas. Num trabalho relevante e meritório, o IHGMS transformou esta vasta produção na edição de 9 volumes, muito bem cuidada em termos editoriais e fartamente ilustrada. Também, por iniciativa desta relevante instituição cultural, o seu presidente, prof. Hildebrando Campestrini, escreveu um 10o volume, que também faz parte da coleção, com informações preciosas e significativas para a bela obra de Serejo.

Creio que outras instituições também deveriam entrar neste mutirão de reedições de obras clássicas sobre a história e a cultura sul-mato-grossense. Para a alegria dos estudiosos e colecionadores, ainda este ano, o IHGMS lançará ainda um primoroso volume contendo a edição completa das “Ruas de Campo Grande”, do escritor Paulo Coelho Machado.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 09 de novembro de 2008.

Uma emocionante história de lutas (*)

Muito se tem estudado e escrito sobre a revolução constitucionalista de São Paulo e pouco se tem dado valor à participação do sul de Mato Grosso neste movimento revolucionário. Parece que São Paulo, sozinho e heroicamente, fez frente às forças federais e dos seus aliados civis de outros estados, mais numerosos e melhor equipados, e comandadas pelo novo homem forte da república, o então vitorioso da revolução de 1930, Getulio Vargas. No entanto, torna-se necessário ver este movimento revolucionário por outro ângulo, recuperando também o importante e heróico papel do sul de Mato Grosso nesta história.. É possível inclusive afirmar que sem esta participação a revolução de 1932 não teria atingido a dimensão até hoje reverenciada.

Tudo começou em 9 de julho quando São Paulo tomou armas em defesa de uma constituinte, que vinha sendo postergada por Vargas. Mesmo esperando a adesão de outros estados, os paulistas apenas contaram com os voluntários do sul de Mato Grosso. A adesão teve início com um pronunciamento do general Bertoldo Klinger, então comandante das tropas militares no sul estado, e com o apoio de uma liderança civil, Dr. Vespasiano Barbosa Martins. Mesmo sendo exonerado e reformado do serviço ativo do exército, Klinger teve a seu lado grande parte das tropas federais acantonadas no estado e de significativos batalhões de voluntários civis. Já o interventor do estado, Leonidas de Matos, em Cuiabá, coordenava as forças governistas em defesa do governo federal.

Desconsiderando o governo instalado em Cuiabá, em 11 de julho, em Campo Grande, foi instalado o governo civil revolucionário, sendo empossado como governador Vespasiano Barbosa Martins, estabelecendo de imediato ligações com o governo revolucionário paulista.

Do lado dos governistas, a resistência envolveu forças da marinha em Ladário, do 17 BC de Corumbá e parte do 10o Regimento de Cavalaria de Bela Vista, além de voluntários gaúchos na fronteira. Houve grandes combates na região de Quitéria (divisa de Mato Grosso com Minas Gerais) e em Porto Murtinho. Porém, em pouco tempo, o isolamento de São Paulo e do sul de Mato Grosso, e o cerco das forças aliadas governistas, levaram à derrocada dos revolucionários, cujos líderes paulistas se exilaram na Europa e os mato-grossenses na fronteira paraguaia.

Em termos regionais, a adesão do sul do estado representou ainda mais o distanciamento já existente, entre a região sul e o norte do estado, sedimentando ainda mais as seqüelas dos interesses divergentes tanto políticos como econômicos. Porém, o governo de Vespasiano Barbosa Martins, ao contrário do que se escreveu mais tarde, não foi separatista com relação ao norte, e nem tampouco criou o estado de Maracaju.

Nos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul existe um jornal autêntico que pode elucidar as reais intenções do governo revolucionário de Vaspasiano. Trata-se do “Diário Oficial do Estado de Mato Grosso”, editado em Campo Grande, número 19, de 18 de agosto de 1932, órgão do governo revolucionário (o seu primeiro número saiu em 21 de julho, sendo diretor Dr. Francisco Bianco Filho). O próprio título já é revelador das intenções dos revolucionários sulinos, que assumiram o governo de Mato Grosso, desconsiderando o papel do governo cuiabano do interventor Leônidas de Matos. Além disso, este exemplar transcreve um artigo reafirmando que “o movimento revolucionário não é separatista”, desqualificando qualquer menção a um possível estado de Maracaju. Também comenta um editorial anteriormente publicado, em que “mais uma vez fizemos sentir que jamais pensaram os leaders do movimento constitucionalista em qualquer separatismo ou esfacelamento da integridade territorial do nosso Estado, que seria, além de irrisório, profundamente impatriótico”

Ainda neste exemplar do “Diário Oficial”, foram divulgados um decreto confiscando armas de civis para equipar as forças revolucionárias e uma campanha “Ouro para a Vitória” com a arrecadação de fundos para a sustentação das forças revolucionárias. (este tipo de campanha foi utilizado novamente bem mais tarde, pós o golpe de 1964, com uma outra roupagem: “Ouro para o bem do Brasil”).

Enfim, a leitura deste jornal faz cair por terra qualquer argumento de que a adesão do sul de Mato Grosso à revolução constitucionalista de 1932 tinha um caráter separatista, e os historiadores devem rever criticamente a historiografia a respeito. Essa é uma das missões da história e dos que a fazem: rever os documentos, analisá-los e enriquecer o conhecimento que temos de nosso passado.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 02 de novembro de 2008.

Os jornais de Corumbá na época do Império (*)

Após a guerra com o Paraguai, a primeira medida do governo imperial foi a internacionalização das águas do rio Paraguai até Corumbá. Tal medida, que atendia aos interesses do comércio externo, permitia que navios de qualquer nação estrangeira subissem com mercadorias sem restrições até o porto corumbaense. A partir daí, as mercadorias passavam a ser distribuídas pelos mais diversos pontos da província de Mato Grosso. Esta situação privilegiou Corumbá, que de uma tímida vila comercial antes da guerra transformou-se em um grande centro importador e exportador. O esplendor daquela época pode ainda hoje ser medido pelo conjunto arquitetônico da região portuária, que antigamente sediava os grandes armazéns das casas comerciais.

Este grande impulso econômico de Corumbá trouxe consigo uma nova fase na vida política, artística e cultural. Um exemplo da força deste poder foi o aparecimento do primeiro jornal, O Iniciador, em janeiro de 1877, sendo proprietário e redator Silvestre Antunes Pereira Serra e editor Manoel Antônio Guimarães. Nessa fase predominou uma imprensa política, muitas vezes exaltada, que procurava defender por todos os meios seus pontos de vista. Imprensa nitidamente partidária que com suas campanhas adquirira importância no desenvolvimento político dessa região mato-grossense.

No caso do O Iniciador, a regularidade da navegação do rio Paraguai permitiu que o material tipográfico fosse importado de Assunção. Surgiu como um “órgão comercial, noticioso e literário”, impresso em 4 colunas. Como o material era estrangeiro, não possuía sinais gráficos próprios da língua portuguesa, o que o levava, por exemplo, a utilizar o algarismo 5 invertido para substituir o cedilha.

Pensar apenas no renascimento comercial seria ter uma idéia falsa da localidade. Ao lado da riqueza dos comerciantes do porto havia a pobreza de boa parte de seus habitantes. Um viajante da época, João Severiano da Fonseca em seu livro “Viagem ao Redor do Brasil, 1875-1787”, dizia que nas ruas de Corumbá predominava a mendicância, com grande contingente de homens, mulheres e crianças, ainda reflexo da guerra que assolou a região. De acordo com este viajante, em artigo no O Iniciador, “quanta miséria vive por ahi, ao ao idear quanta dor cruciante, quanta agonia, quanta angustia atroz, quanto drama de episódios horríveis não terá por bastidores os ermos das mattas ou as taipas da arruinada palhoça, onde o sol e a chuva vão tão bem como o ar livre. Entregues á sua sorte, adoecem e morrem sem mesmo procurarem um medico, sem tentarem a salvação da vida ou ao menos buscarem lenitivos na medicina”. Viviam maltrapilhos, sem alimentação regular e moravam em choças ao redor da vila. Segundo este viajante, por sinal um médico, muitos já tinham contraído doenças crônicas enquanto outros viviam em total inércia frente à fome e à miséria. Isso explicava também o alto índice de mortalidade da vila nesta época.

Mesmo com situação tão contraditória, a vila foi se desenvolvendo e, no ano seguinte à fundação de O Iniciador, Corumbá foi elevada à condição da cidade. Em 1879, apareceu um novo jornal, O Corumbaense.

As manifestações políticas que tanto marcaram a província de Mato Grosso adquiri-ram em Corumbá uma nova coloração com a participação ativa da imprensa.

Curiosamente, a existência tardia de uma rivalidade entre portugueses e brasileiros, agora sob a roupagem da disputa pelo predomínio comercial do porto, dava motivo a constantes atritos políticos. E, como os dois jornais existentes representavam interesses desses grupos econômicos, acabaram por envolve-los na luta partidária, levando O Iniciador a defender os interesses dos portugueses e O Corumbaense, os dos brasileiros.

Em 25 de maio de 1879, à noite, a tipografia do jornal O Iniciador foi assaltada. O atentado, atribuído a oficiais e praças do Terceiro Regimento estacionado na cidade, foi conseqüência da campanha que O Corumbaense fazia contra o seu concorrente. As medi-das tomadas pelo governo provincial não foram suficientes para descobrir e punir os responsáveis pelo atentado, mas conseguiram conter os ânimos provocando o fim precoce do jornal O Corumbaense.

No ano seguinte, O Corumbaense voltou a ser editado sob nova direção e caracterizado como “órgão dos interesses do comércio, da lavoura e da instrução pública”, sendo uma sociedade anônima, mas ainda vinculado aos comerciantes locais. Desta forma, desapareceu o antagonismo da imprensa local entre grupos de detentores do poder econômico portuário.

Neste mesmo ano surgiu o jornal semanário A Opinião. Também foram editados pequenos jornais, tipo pasquins, liderados por jovens da cidade como O Calabrote, Athle-ta, O Mephistopheles e Diabinho. O jornal O Mephistopheles (do mesmo editor de O Iniciador), que se autodenominava “hebdomadário satyrico, joco-serio”, dedicava-se a satirizar a sociedade corumbaense além de combater o jornal O Calabrote, por ser um jornal satírico mais agressivo.

As disputas entre os partidos Liberal e Conservador também repercutiram em Corumbá. Assim, em 1884 apareceu como órgão oficial do Partido Liberal o jornal A Gazeta Liberal, fundado pelo delegado de polícia, coronel João Antônio Rodrigues.

Este, sendo abolicionista, defendia as suas idéias no jornal. Posteriormente, em 1888, também fundou o jornal abolicionista O Escravo.

Em 1886, pela terceira vez, reapareceu O Corumbaense, nesta ocasião como órgão oficial do Partido Conservador e protegido pelo chefe do partido local, coronel Antonio Joaquim Malheiros. Este jornal desapareceu em 1890 com o assassinato de seu redator, o tenente Francisco José Rodrigues. Além das disputas entre os representantes dos dois partidos, a imprensa corumbaense marcou, no final da época imperial, posições nitidamente abolicionistas, como o Echo do Povo, Oásis e o já citado O Escravo. Com a abolição, a maior parte deles deixou de existir.

Desse modo, mesmo com vida e sobrevida efêmeras, a imprensa de Corumbá na época do império mostrou uma força que poucas cidades do sertão brasileiro tiveram. E também deu início a uma história marcante no jornalismo mato-grossense e sul-mato-grossense.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 26 de outubro de 2008.

Quando Corumbá foi Paraguai - Parte 2 (*)

A rotina da nova vila paraguaia foi quebrada quando chegou um vapor, em 29 de julho de 1866, com ordens de Solano Lopez para recolher à Assunção toda a população masculina dos territórios ocupados. Tal ordem, evidentemente, encheu de temor os homens de Corumbá pela perspectiva de deixar expostas suas famílias, onde os direitos individuais dependiam da vontade dos vencedores. Algumas famílias, porém, conseguiram descer o rio até o Forte de Coimbra, em chata rebocada pelo vapor paraguaio. O restante dos prisionei-ros, em número expressivo de várias centenas, foi espremido nas câmaras do vapor. Em Albuquerque também foram recolhidos todos os índios ali residentes. E todos ficaram no Paraguai até o final da guerra.

Depois disso, pouco se soube sobre a situação dos que permaneceram em Corumbá. Enquanto isso, em Cuiabá, o governo provincial iniciava uma mobilização de homens com o objetivo de retomar a vila de Corumbá. Em 15 de maio de 1867, no porto cuiabano, em-barcou uma vanguarda das forças brasileiras composta de efetivos do exército, Voluntários da Pátria e Guardas Nacionais sob o comando do coronel Antonio Maria Coelho. Eram 400 homens divididos em seis companhias, uma delas comandada pelo capitão de infantaria Luiz da Cunha e Cruz.
Esta vanguarda deveria esperar o restante da tropa para realizar um ataque frontal aos paraguaios. Porém, desembarcou na noite do dia 11 de junho abaixo de Ladário, próxi-mo do Rabicho. Cunha e Cruz e seus homens não esperaram o restante da tropa e, resol-vendo atacar imediatamente, seguiram para Corumbá através de um atalho até a estrada do Barão (precariamente construída pelo Barão de Vila Maria ligando sua propriedade na Pi-raputanga à vila corumbaense). O primeiro combate, no dia 13 de junho, deu-se no encon-tro com alguns paraguaios próximos da cadeia (agora, local em frente à Escola Estadual Julia Gonçalves Passarinho). As forças brasileiras desceram em ritmo acelerado pela rua Santa Teresa (hoje, Frei Mariano), acompanhadas por duas mulheres cuiabanas que tam-bém participaram dos combates: Francisca de Sampaio Botelho e Maria Brasilina da Silva Barreto, para impedir o embarque e o desembarque de paraguaios dos barcos estacionados no porto. Desceram também pela rua General Carvalho (hoje, rua Antonio Maria) para to-mar o Largo do Carmo (Praça da República). Segundo Rodolpho Olegário de Figueiredo, que participou desta retomada, a praça estava envolta por uma fortificada trincheira.

Ainda segundo Olegário de Figueiredo, os paraguaios desalojados da trincheira pelo fogo dos soldados brasileiros foram se abrigar nas casas da praça de onde atiravam contra a força que já havia tomado a trincheira e controlava a praça. Sobre as mortes escreveu: “foi nesse terrível combate que perdemos nove homens e 27 feridos. Entre os que pereceram conta-se o cadete sargento ajudante Manoel de Pinho e o capitão Cunha e Cruz, que, dei-xando a companhia de seu comando, avançou só contra a guarda do Quartel, onde se acha-va o tenente Roas”. Este, saiu ao seu encontro e, com dois golpes de espada sobre a sua cabeça e um tiro de revolver, deixou-o morto. Continuando a descrever esse momento ex-traordinário da guerra, Olegário relatou que depois o Tenente Roa dirigiu-se sozinho contra a coluna brasileira, ainda de espada em punho e revolver, mas sem disparar sua arma. Porém, acabou morto varado por golpes de espada e sabre. Assim, ainda segundo Olegário, vingou-se a morte do capitão Cunha e Cruz.

Do porto, dois vapores paraguaios (entre eles o Anhandahy) disparavam tiros sobre a praça e eram respondidos pela artilharia tomada dos paraguaios pelos brasileiros. Esses vapores, não podendo fazer frente ao fogo dos brasileiros, fugiram rio acima para depois retornarem à Assunção.

Do lado paraguaio morreram, além do citado Roa, o coronel Cabral que era o co-mandante, um padre (acusado de atos devassos na época do domínio paraguaio na vila) e mais ou menos 160 soldados. Alguns ainda conseguiram fugir para a Bolívia juntamente com um secretário de nome Rivarola. Ainda como saldo da retomada, as forças brasileiras fizeram 27 prisioneiros e libertaram as mulheres brasileiras.

No entanto, todos os habitantes da vila enfrentavam há meses um inimigo poderoso e implacável: uma epidemia de varíola que consumia todos os seus moradores.No dia seguinte à retomada, os mortos brasileiros foram enterrados e os paraguaios jogados ao rio. Mandou-se também um mensageiro, em um pequeno barco, para levar a notícia à Cuiabá. Já contaminado pela varíola, esse mensageiro deixou um rastro da doença por onde passou, morrendo logo que chegou à capital.

No dia 23 de junho chegou a Corumbá o presidente da Província Couto de Magalhães, encontrando mais da metade dos membros da força brasileira contaminada pela varí-ola. Impossibilitado de ali ficar pela extensão da epidemia, Couto de Magalhães ordenou o retorno de todos os sobreviventes, que somavam mais de mil pessoas incluindo os doentes, à Cuiabá. Nesse retorno, a mortandade provocada pela varíola foi tão grande que apenas 1/3 dos que saíram de Corumbá chegaram vivos à Cuiabá.

Pouca gente sabe, mas após a retirada das forças brasileiras, os paraguaios retornaram a Corumbá onde permaneceram por certo tempo. Desse modo, Corumbá prolongou sua condição de território do Paraguai até que esses soldados a abandonassem. E assim encerrou-se sem glórias a época em que a nossa fronteira foi Paraguai.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 19 de outubro de 2008.


Quando Corumbá foi Paraguai - Parte 1 (*)

Por ocasião da invasão paraguaia na província de Mato Grosso, pensava-se que o Forte de Coimbra fosse um obstáculo instransponível a qualquer penetração hostil em território brasileiro. A sua construção (1775), por ordem de Luiz de Albuquerque, tinha por objetivo ser um anteparo às pretensões dos espanhóis na região. Em 1801, o velho forte cumpriu o seu papel histórico quando, sob o comando do coronel Ricardo Franco, impediu o avanço das tropas espanholas comandadas pelo general Lázaro de Ribera.

Nos últimos dias de 1864, com o início do conflito entre o Paraguai e a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), o forte foi novamente atacado pelas forças paraguaias. Mesmo em situação desigual, já que os paraguaios estavam em número extraordinariamente superior, o seu comandante, tenente-coronel Hermenegildo Portocarrero, resistiu por dois dias com uma guarnição reduzida. Num dos momentos mais violentos do confronto, segundo o historiador Raul Silveira de Mello, apareceu nas muralhas o músico Verdeixas com a imagem de Na. Sa. do Carmo, padroeira do forte, erguida nas mãos. Após este gesto, passou a imagem da santa às mãos da mulher do comandante. Segundo uma versão desta história, o combate foi interrompido com vários “Viva Na. Sa. do Carmo” e respondidos com “Viva Nuestra Señora del Carmen” pelos paraguaios.

Impossibilitado, porém, de continuar a resistência, Portocarrero (com seus soldados e civis ali residentes), retirou-se para Corumbá, quando partiu por ordens superiores para Cuiabá.

Porém, existe uma pergunta até hoje pouco esclarecida nesse episódio. Como foi possível a realização dessa retirada noturna sem ruídos da movimentação de pessoas e do vapor Amambaí e, ao mesmo tempo, sem provocar uma reação dos paraguaios? O fato de Portocarrero ter sido instrutor do comandante paraguaio Vicente Barrios, quando havia participado de uma Comissão Militar em Assunção, teria sido o fator decisivo que possibilitou a fuga, graças ao respeito pessoal e mútuo...

Nessa ocasião, o pânico instalou-se na pequena vila de Corumbá. Os primeiros a fugir foram os militares deixando a população civil à mercê dos invasores. A 3 de janeiro de 1865 a vila foi abandonada pelo comandante, coronel Carlos Augusto de Oliveira e pelo comandante tenente-coronel Carlos de Moraes Camisão junto do 2o Batalhão de Artilharia. Mais tarde, Camisão redimiu-se deste ato pusilânime perante a história ao participar de um dos feitos heróicos mais significativos da guerra: a ação da coluna que penetrou em território paraguaio, imortalizada por Taunay no livro “A Retirada da Laguna”.

Segundo Manoel Cavassa, em seu “Memorandum”, escrito em 1894, começou então uma confusão e barulho com soldados bêbados e civis acovardados e que já não respeitavam os seus oficiais. Ao mesmo tempo, segundo Cavassa, furiosos com a situação, os habitantes locais queriam eliminar os estrangeiros moradores da vila, caluniando-os, dizendo que sabiam da invasão, motivando alguns destes a abandonar suas casas e refugiar-se no mato.

A desconfiança relatada por Manoel Cavassa vinha do fato do coronel paraguaio Isidoro Resquin, disfarçado de fazendeiro e comprador de terras, ter sido recebido em Corumbá por comerciantes italianos ali estabelecidos. Nesta época em Corumbá existiu pouco mais de 70 estrangeiros, a maioria dedicada à atividade comercial. As informações colhidas por Requin sobre a situação de toda a fronteira permitiram a Solano Lopez o planejamento da invasão.

No meio de toda essa confusão, o tenente João de Oliveira Mello, quando ainda permanecia em Corumbá na retaguarda da fuga, ordenou que se destruísse a pólvora depositada em grande quantidade no quartel, ateando fogo, o que levaria aos ares toda a vila. Tal desatino somente não se concretizou pela ação de comerciantes locais que propuseram jogá-la ao rio antes da chegada dos paraguaios.

A esquadrilha paraguaia chegou a Ladário, onde parte da tropa desembarcou para dirigir-se por terra a Corumbá. Ainda segundo Cavassa, aquele trajeto pareceu uma noite de S. João: os soldados vinham mortos de fome, indo ao fogo tudo o que encontravam: porcos, cabras, etc. e começou o saque às casas comerciais que não tinham moradores. Enquanto isso, os comerciantes Cavassa e Nicola Canale entre outros, desceram de canoa o rio em direção ao navio do comandante das forças invasoras, pedindo proteção para suas vidas, de seus familiares e seus negócios. Parece, no entanto, que as promessas de proteção não se concretizaram, pois os saques continuaram com extensiva violência aos civis, em especial às mulheres.

Ao mesmo tempo aprisionaram e conduziram à Corumbá civis que subiam o rio ou que estavam escondidos nos matos ao redor da vila.

Apesar das privações, carestia de alimentos e roupas, a população voltou a se recompor sob novas regras do governo paraguaio. Manoel Cavassa relata também em seu “Memorandum” que quase todos visitavam o general e também freqüentavam os bailes que os paraguaios promoviam aos domingos. O comércio local passava então a ser abastecido por mascates e comerciantes que circulavam pelos territórios ocupados. O abate de animais para o consumo da vila era realizado por soldados paraguaios que os vendiam aos civis.

Nesse estado de guerra, todo o modo de vida de Corumbá, sob o nome de Província do Alto Paraguai, foi controlado e regido pela vontade do comandante paraguaio, general Vicente Barrios, cunhado de Solano Lopez.

(Continua)

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 12 de outubro de 2008.

Cutucando a onça com vara curta (*)

Recentemente, os jornais de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul registraram três casos de pessoas atacadas por onças no Pantanal. O mais recente caso envolveu um peão de fazenda no Jacadigo. Outro caso aconteceu na região do Paiaguás (como o Jacadigo, uma região próxima da cidade de Corumbá), quando um ribeirinho lutou com uma pintada e conseguiu sobreviver para contar a história. Esta situação, aparentemente inusitada para os dias de hoje, permite perceber o precário equilíbrio entre o modo de vida do pantaneiro e o que sobrou da natureza selvagem ainda preservada.

A região do Paiaguás foi, outrora, uma área de grande significado econômico para o município corumbaense onde, além de grandes fazendas de gado, colônias palmilhadas de pequenas propriedades dedicavam-se às culturas de sobrevivência e até produziam alimentos para abastecer o mercado de Corumbá. No porto corumbaense, era comum ver a chegada de “chalanas” abarrotadas de bananas, mandioca, carne seca e outros produtos. E assim, esses ribeirinhos viviam e conviviam com a exuberante natureza pantaneira, por muito tempo.

Na década de 1970, uma grande crise abateu-se sobre essa população ribeirinha. Foi a tragédia maior do rio Taquari e de seu entorno, provocada pela interferência inconseqüente do homem no desenvolvimento tecnológico e agropecuário do estado. A abertura dessa nova fronteira agrícola resultou no assoreamento de seu leito principal, provocando a vazão de suas águas e uma permanente enchente das suas regiões mais baixas. É importante lembrar que o Taquari sempre foi um rio de grande delta, apresentando, conforme a estação de águas do Pantanal, grandes áreas inundadas. Porém, é também sabido que há muito tempo os fazendeiros da região interferiram nesse processo natural, para salvaguardar suas terras das enchentes duradouras. A grande enchente de 1974-76 acarretou o processo irreversível de arrombamento e de cheia permanente em extensos campos e, ainda, a expulsão de seus moradores, a destruição de suas atividades econômicas, levando muitos deles a migrarem e a viverem marginalizados nas cidades. Alguns, porém, mais teimosos, persistiram na tentativa de sobreviver do que a natureza lhes pode ainda oferecer.

Um destes literais sobreviventes é Gregório Costa Soares, com seus fiéis e destemidos cachorros vira-latas e uma incrível história de ataque de onça. Mas, ataques de onças em animais domésticos ou em seres humanos estão cada vez mais recorrentes. Esses confrontos sempre existiram na história pantaneira, desde os remotos tempos da ocupação luso-brasileira e até mesmo antes, com as comunidades de índios, como os Guaikurú, conforme relatos muito antigos. Mas era uma história diferente.

Com o avanço da pecuária foi-se restringindo a área livre de sobrevivência dos animais selvagens. Cada vez mais acuados e cerceados em sua opção por alimentos, o inevitável ocorreu com a proximidade desses predadores por natureza nas regiões de ocupação humana. É sabido que, em grande parte, os felinos predadores atacam por sentirem-se ameaçados em seu habitat e pelo rompimento de sua cadeia alimentar. O perigo persiste ainda com a existência de áreas de preservação ambiental, marcadamente nas regiões norte do Pantanal, em áreas de mata virgem. O problema é que esses magníficos felinos, em busca de alimentos, permanecem em constante movimento e se deslocam numa área de até 50 quilômetros quadrados.

Hoje existe uma dura legislação punindo severamente a eliminação de animais selvagens, isso sem contar com a lei do desarmamento que rompeu com a tradição centenária do uso de armas pelo homem do campo. Como se defender nesta nova situação?

Pode ser também que a natureza esteja dando um troco indefensável, seja pelas águas do Taquari, seja por ataques de onça-pintada, cobras e outros bichos e fenômenos naturais. A verdade é que o abate de animais selvagens também fez parte do cotidiano do pantaneiro, seja como fonte de alimento ou mesmo como moeda de troca no comércio de abastecimento ribeirinho e das fazendas mais distantes dos centros urbanos.

Nas primeiras décadas do século passado, uma matança indiscriminada ocorreu na região pantaneira para atender o mercado internacional, transformando a ação dos caçadores em rendosa atividade econômica. Milhares de peles de animais silvestres curtidas artesanalmente e penas de aves embarcaram no porto de Corumbá, alimentando a fortuna de comerciantes e aventureiros. A matança acelerava-se em períodos de seca, quando as raras áreas com água transformavam-se em abrigo e concentração compulsórios dos bichos de todo o tipo, facilitando a ação dos caçadores. No porto de Corumbá, uma pele de onça custava 10 mil réis, em 1880, e seu preço multiplicou-se quase mil vezes no ano de 1937.

Também a caça serviu como atrativo turístico e divulgação da região pantaneira no país e, sobretudo, no exterior atraindo aventureiros de toda a espécie.

Hoje existe um processo de conscientização sobre a necessidade de preservar o que ainda sobrou da natureza selvagem. Mas é preciso ter duas coisas em mente: a primeira é que os estragos causados à natureza, de qualquer tipo ou forma, não retroagem. A segunda: é preciso aprender com o pantaneiro que, mesmo de aloite com os bichos (conforme linguajar cuiabano), vive e convive nestes magníficos pantanais há 200 anos e, antes da modernidade, aprendeu a respeitar os ciclos naturais da sua vida. A cada erro pode advir uma tragédia e por isso, não se deve cutucar a onça (natureza), com vara curta.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 05 de outubro de 2008.

O grande irmão mora ao lado (*)

Dizem que a democracia é um regime cheio de imperfeições, mas ainda não inventaram algo melhor. Na história da humanidade, desde a época grega, ocorreram as mais diversas variações e formas de democracia. Muitos morreram e sofreram em nome dela, como também muitos se frustraram em seu nome. Porém, não existe uma fórmula acabada de democracia, pois ela mesma continua em constante evolução. De fato, no processo histórico de curta ou longa duração, a percepção humana sempre foi procurar a utopia de uma sociedade mais justa, humana, fraternal e solidária. Enfim, enquanto o homem existir, esta luta histórica continuará.

Aqui perto de nós, no Brasil, a história não foi e não será diferente. Mas a democracia brasileira traz, historicamente, em seu bojo ranços autoritários. No período colonial, por exemplo, a sociedade patriarcal era autoritária e machista, mesmo com as atenuações relatadas no clássico livro “Casa Grande e Senzala” do mestre Gilberto Freyre. Com o Império mudou-se o regime, mas persistiram as mesmas estruturas sócio-econômicas, apesar de muitos monarquistas defenderem o Segundo Império como um exemplo de democracia, como fez o historiador João Camillo de Oliveira Torres, com o seu importante livro “A Democracia Coroada”. Já na República, os ventos autoritários mostraram-se visíveis desde os primeiros tempos, com os governos de Deodoro e Floriano Peixoto. Na seqüência, pouco se modificou o ranço autoritário da sociedade, sendo que o presidente Arthur Bernandes, por exemplo, teve seus quatro anos de governo sob o tacão da violência de “estado de sítio”, chegando inclusive a instalar um campo de concentração em Clevelândia, às margens do rio Oiapoque. O que pouca gente sabe é que corumbaenses morreram naquele campo de horror. Seguiram-se depois as ditaduras de Getúlio Vargas e dos militares.

Pois bem. Hoje vivemos uma democracia. Será?

O que assusta é que em seu nome se tomam medidas de caráter autoritário e parece que tudo isso é visto com espantosa normalidade. O exemplo mais acabado é a divulgação pela imprensa da existência do funcionamento no país de mais de 400 mil grampos telefônicos legais (autorizados pela justiça) e ilegais (na verdade não se sabe o quanto), com os mais inconfessáveis interesses. Essa paranóia começou em nome da segurança pública e se alastrou como uma praga maldita.

Talvez você não saiba, mas neste momento seu telefone pode estar sendo monitorado. Pode ser até que você não seja o alvo do monitoramento, mas inventaram um aparelhinho infernal, chamado “guardião”, que passa a liga-lo a um telefone monitorado. Isso se você tiver o infeliz palpite de ligar para um telefone que está sendo vigiado por autorização legal da polícia, ou de forma clandestina.

É a presença em nossas vidas do “big brother” (grande irmão), previsto no livro futurista “1984” de George Orwell e publicado em 1948. Um dos mais importantes escritores britânicos de sua época, Orwell (seu verdadeiro nome era Eric Arthur Blair) previu com 60 anos de antecedência uma sociedade controlada pela tecnologia (o mundo da utopia negativa), onde o “grande irmão” entrava em todos os lugares e vigiava todas as pessoas através de um partido que tinha chegado ao poder por uma revolução. Neste caso, o mecanismo de controle era um telão (“teletelas”), que ficava nos locais de trabalho, praças, bares, etc. e captava e enviava voz e imagens, permitindo o controle e a manipulação dos cidadãos. Este livro, que marcou e assustou muitas gerações de leitores, sempre foi visto como uma critica a uma indesejável sociedade autoritária, mas distante de uma realidade concreta.

Agora, o uso dos grampos controlados pela justiça, ou não, mostra que o “grande irmão”, descrito por Orwell em “1984” já mora ao nosso lado. É mais assustador e perigoso ainda achar que isso é normal, natural ou uma forma de se obter mais segurança.

E lá se vai a nossa democracia rolando escada abaixo...

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 28 de setembro de 2008.

Sonho de um partido dos pobres (*)

Até o aparecimento dos grandes partidos nacionais republicanos como PSD, UDN, PTB e outros, as agremiações partidárias brasileiras tinham características nitidamente locais. Esses partidos, cujas bases atendiam normalmente aos interesses das oligarquias estaduais, dificilmente conseguiam extrapolar os seus próprios limites regionais. Os Partidos Republicanos (PRs) estaduais surgiam motivados por dissensões internas dentro de um mesmo partido, para disputar uma eleição ou mesmo para fazer oposição ao grupo oligárquico encastelado no poder. E tão logo desapareciam tais motivações, esses partidos extinguiam-se para nascerem posteriormente com outra roupagem, mas dentro das mesmas características partidárias.

Os PRs regionais nem sempre demonstravam claramente seu papel político, seus programas, plataformas e objetivos. E, utilizando comumente o jornalismo como veiculo de propaganda política ou defesa de suas posições partidárias, os PRs marcaram época na vida política após a proclamação da República pela agressividade que eventualmente assumiam.

Nos primeiros tempos da República em Mato Grosso, dentre os muitos partidos surgidos nesse período, tiveram destaque o Partido Republicano Nacional, Partido Autonomista, Partido Republicano Constitucional, Partido Coligação Mato-Grossense, Partido Republicano Conservador, Partido Liberal, Partido Republicano, Partido Liberal Mato-Grossense e Partido Constitucionalista, sendo que estes dois últimos conseguiram eleger deputados para a Assembléia Constituinte de 1934.

Nesse mesmo ano, em 18 de fevereiro, fundou-se em Campo Grande um partido sui generis chamado Partido Nacional dos Pobres. O caráter político deste partido aparece desde o início quando Prudêncio Soares da Silva, seu presidente, em ofício de 28 de fevereiro de 1934 comunicava ao Interventor Federal em Mato Grosso, Leônidas de Mattos, a “fundação de um Partido político e protetor dos pobres nacionais”.

A proposta de um partido político, com características assistencialistas e de defesa dos direitos dos pobres, leva a crer que a esses desprivilegiados não restava outra alternativa senão tentar resolver através da própria união seus urgentes problemas. Assim, esboçando uma consciência não muito clara de seus principais problemas, demonstravam sensibilidade política frente à sua realidade sócio-econômica, contrapondo a miséria à riqueza. Nesse sentido, o convite distribuído na cidade pela Comissão Organizadora já definia que o partido tinha “o colimado fim de contribuir para amenizar as agruras dessa classe, que, com perfeita união de vistas poderá grandemente contribuir para uma paz duradoura, libertando-nos de constantes perturbações econômicas, e mais ainda das constantes mistificações da verdade para produzir efeito deprimente aos nacionais pobres; vem pelo presente convidar a todos os brasileiros que se julgarem nas condições acima manifestadas, para uma reunião que terá lugar à rua D. Aquino, às 14 horas do dia 18 do corrente, a fim de em plenário discutir-se as bases de sua fundação e organização”.

Tendo por fim (Art. 3) “zelar pelos interesses de seus filiados”, “defender os direitos de seus filiados perante a justiça”, “dar assistência médica aos filiados e seus familiares”, “e manter uma escola gratuita”, o Partido Nacional do Pobres esboçava uma tentativa de determinar os pontos nevrálgicos da camada pobre da sociedade campo-grandense.

Com características essencialmente nacionalistas, o PNP estabelecia já como uma das condições básicas para o ingresso no partido (Art. 6), “ser brasileiro nato, pobre e maior de 21 anos”. Nessa mesma perspectiva, o partido “prestará apoio aos Governos sempre que periclitar a ordem e a segurança do País, máxime em se tratando de nacionalização” (Art. 37). A Comissão elaboradora dos estatutos procurava ainda evidenciar a condição de defesa dos pobres, sem permitir a filiação de elementos portadores de moléstia contagiosa, invalidez ou que fossem mendigos (Art. 6).

Um aspecto curioso era que os filiados, apesar de pobres, estavam obrigados ao pagamento de mensalidades, sendo prevista uma tolerância máxima de três meses de atraso. Os benefícios previstos pelos estatutos (Art. 6) do partido referiam-se à criação de uma escola diurna para os filhos dos filiados com gabinete médico anexo, a contratação de advogado para respaldo jurídico e defesa dos interesses dos filiados e a criação de um jornal para ampla publicidade de suas atividades.

A despeito da precariedade das informações acerca do original Partido Nacional dos Pobres, ao que tudo indica, esta agremiação partidária de Campo Grande teve existência bastante efêmera.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 21 de setembro de 2008.


Esse filme eu já vi (*)

Vendo as recentes imagens das TVs brasileiras sobre os preocupantes acontecimentos políticos na Bolívia, lembrei-me do clássico filme político “Chove em Santiago”. Um dos ícones da década de 70 do século passado, este filme faz parte hoje da estante clássica da cinemateca política contemporânea. O filme, imperdível, retrata com emoção os últimos dias do sangrento golpe de estado ocorrido no Chile, comandado pelo general Augusto Pinochet contra o governo democrático do socialista Salvador Allende.

Unida numa ampla aliança de esquerda, a Unidade Popular chilena levou Allende ao governo do país, que propunha uma administração socialista voltada para as camadas mais pobres da população. Havia, no entanto, uma dificuldade em administrar o país pela existência de uma direita rancorosa e violenta, e por uma esquerda que não se entendia. Isto fazia lembrar a piada de que a esquerda somente se unia na cadeia e, ao serem soltos seus membros, cada um pegava um táxi e seguia em direção distinta, quando não oposta.

Porém, era uma época da guerra fria, uma insana concorrência entre interesses internacionais polarizados entre os EUA e URSS. Como o marisco que ficava entre a rocha e as ondas do mar, os povos pobres e subdesenvolvidos em especial da América Latina também ficaram à mercê dos interesses desta política internacional. Pobre da América Latina. Foi esse um tempo que ainda continua presente em todo o mundo, basta ver os acontecimentos no Iraque e no Afeganistão, onde a política norte-americana avançou suas garras sobre governos democráticos (ou não, mas é a soberania dos povos que interessa), permitindo a implantação de sangrentas ditaduras com a conivência das elites e de uma população alienada e manipulada.

As conseqüências desse processo no Chile foram greves, passeatas, saques, violências, mortes e paralisação de caminhoneiros, tudo isso financiado pelo dinheiro norte-americano e capitaneado por agentes da CIA. O resultado foi a tragédia de toda uma população. A história está aí e deve ser lembrada, para não ficar todos esses acontecimentos no limbo do esquecimento.

Agora, os tempos são outros, é verdade, parecendo até que a guerra fria é algo anacrônico. Creio, no entanto, que esta disputa por espaços vitais ainda está presente com outra roupagem e ainda assusta. O caso da Bolívia está aí para alertar que os inimigos da democracia também não são coisas do passado, o mesmo ocorrendo em outros países como Colômbia e Venezuela. Por coincidência, são países ricos em recursos naturais.

Na verdade, a história republicana boliviana sempre foi tumultuada, com violências e golpes de estado, permeada por relações preconceituosas entre regiões de grande predominância indígena e regiões de influência marcadamente européia. De fato, a disputa de poder entre o altiplano andino (carregado por populações indígenas) e a região de Santa Cruz já produziu conflitos, mortes e golpes de estado. Basta ver a quantidade de governantes que já se alteraram à frente do poder boliviano.

O presidente Evo Morales, de origem indígena, assumiu o poder com um discurso em defesa de sua gente. O que se esperava aconteceu, aliás, desde o início de seu governo, em especial, pelo fato de sua política social ir de encontro dos interesses das elites bolivianos. Mais recentemente, Morales saiu fortalecido de um plebiscito.

Mas, de forma paradoxal, a oposição ao seu governo também.

Talvez, até o presente momento, já tenha ocorrido o mais grave conflito, beirando uma guerra civil. Está evidente que vai acabar em sangue, suor e lágrimas para os bolivianos.

Por isso lembrei-me dos idos de 70 e do infeliz Chile. Além desta conflagração civil, com mortes e prejuízos extrapolando até para o Brasil (com a aventura do gasoduto), a Bolívia expulsou de seu território o embaixador americano. Como retaliação, o mesmo ocorreu com o embaixador boliviano nos EUA. Colocando mais lenha na fogueira, Hugo Chaves, da Venezuela, já expulsou também do país o embaixador americano.

Isso é somente o começo. E o pior. Esse filme eu já vi.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 14 de setembro de 2008.

Eleições, festa democrática. Será mesmo? (*)

As eleições para agentes municipais, prefeitos, vices e vereadores, constituem-se, com toda a certeza, o principal pilar da democracia e do processo de formação da cidadania. Depois de eleitos, esses detentores de mandatos continuam a ter contato direto com os munícipes, ouvindo suas reivindicações e suas cobranças. É por aí que começa o aprendizado democrático para o fortalecimento das relações político-sociais do País. Sob esta ótica se revestem de fundamental importância as bases municipais da política brasileira. Porém, é na política municipal que se encontram os germes das mazelas eleitoreiras e seus mecanismos corruptores, que, costumeiramente, procuram manipular os interesses dos eleitores. A história brasileira esta repleta de casos, muitos deles curiosos e até folclóricos, e são alvos de freqüentes estudos históricos, contos ou até mesmo romances.

Alguns desses estudos tornaram-se clássicos e são leituras obrigatórias para quaisquer entendimentos sobre a história e a política brasileiras. O primeiro deles, por sua referência, é o trabalho de Victor Nunes Leal, que foi ministro do Supremo Tribunal Federal, político e jornalista, e escreveu uma tese de concurso para a cadeira de ciência política da Faculdade Nacional de Filosofia, sob o título “O município e o regime representativo no Brasil – contribuição ao estudo do coronelismo”, publicado sob o título “Coronelismo, enxada e voto”. Este livro, que teve diversas edições, até hoje é um clássico da historiografia brasileira e foi o primeiro estudo analítico sobre a política regional.

Outro livro fundamental, intitulado “Os donos do poder”, também considerado um clássico, foi produzido pelo escritor e advogado Raymundo Faoro. Membro da Academia Brasileira de Letras e presidente da OAB, Faoro recebeu forte influência das teses do filósofo alemão Max Weber, e situou o período colonial da história brasileira como a origem do estado burocrático e da corrupção política e administrativa brasileira a partir da colonização portuguesa. Existem ainda muitos outros estudos destes temas, importantes por sinal, produzidos por escritores diletantes ou por professores em suas teses acadêmicas, considerando que o Brasil é pródigo em assuntos e oportunidades para se registrar e estudar os desvios da política e da democracia.

Na verdade, como irmãs siamesas, política e corrupção caminham juntas deste os tempos imemoriais da história humana. Porém, isto não é uma regra geral que envolve e enxovalha a todos indistintamente. Muito pelo contrário. Existem políticos em todos níveis e setores da política nacional, que dignificam e honram suas representações. E olha que são muitos. Mas, infelizmente, o que mais aparece é uma minoria barulhenta e inescrupulosa de políticos que acaba parando nas páginas policiais. São as maçãs podres no meio do cesto, que podem, entretanto, contaminar tudo se o cidadão não estiver atento.

Nas atuais eleições brasileiras, ações até certo ponto truculentas dos tribunais eleitorais têm dado um sentido preocupante à política eleitoral. É claro que não é algo novo, mas uma extensão de normas e regulamentações que ocorreram em eleições anteriores. Mas a pergunta que fica é: as tantas restrições que estão cerceando as manifestações eleitorais contribuem efetivamente para o fortalecimento da democracia brasileira? Existem hoje tantos empecilhos à campanha eleitoral que, com certeza, no dia das eleições, uma massa de eleitores chegará às urnas sem conhecer candidatos ou estará totalmente alienada do processo eleitoral, votando apenas por ser obrigatório. Isso talvez facilite o caminho ou descaminho dos candidatos endinheirados, aqueles que usam dinheiro vivo em troca de votos. E, neste caso, o rigor com o uso do poder econômico indevido na campanha poderia ser um tiro do pé dos defensores das lisuras eleitorais, que agem profissionalmente e até na boa fé para defender o cidadão e a democracia. Mas o excesso e o detalhamento de regulamentação neste pleito de 2008 está provocando outras distorções problemáticas.

Por isso, torço para que isso não aconteça. E é preciso ir mais além. Creio que muitos candidatos sequer sabem das restrições e das permissões para o desenvolvimento de suas próprias ações em busca de votos. Para os partidos políticos, as regras atuais fragilizam a olhos vistos as suas plataformas e identidades. As grandes coligações permitidas legalmente viraram na TV um mix de caras e números, deixando para um plano muito inferior as propostas partidárias e até as próprias siglas praticamente desapareceram nos santinhos e nos programas televisivos. Só interessam a foto, o número e o vínculo com o candidato majoritário que está mais forte nas previsões das pesquisas de opinião (opinião de quem?). Quem é que presta a atenção na dezena de milhar (para lembrar aquele jogo popular), que representa o partido do candidato X que apóia o prefeitável Y com outro número? Está servida nesta campanha famosa sopa de números...

Francamente, a antiga e casuística Lei Falcão, dos tempos da anti-democracia, não nos parecem hoje tão restritivas e depreciadoras das estruturas político-partidárias, que afinal é a base de um sistema livre e democrático.

Entendo que pode ser um erro histórico a ação repressiva se sobrepor à ação educacional. A dinâmica política democrática e seus agentes somente se fortalecerão com um projeto político nacional voltado para a formação da cidadania como práticas educacionais. O civismo e a política somente serão desenvolvidos a partir de práticas educacionais consistentes nas escolas. Em contrapartida, as soluções apresentadas pelos políticos para modificar esses entraves, e a precariedade de nossas formas de escolha e de representações políticas, podem estar na decantada e tão falada reforma política, que não sai nunca. Sei não....

A democracia é uma flor frágil e delicada, necessitando ser cuidada dia-a-dia. Seu alimento é a cidadania. O que iremos colher se essa flor fenecer?

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 07 de setembro de 2008.

A saga de uma superação (*)

Passou o furacão das olimpíadas e os resultados foram nada animadores para os brasileiros. Poucas medalhas, mas revestidas de galhardia, despojamento e muita coragem. Mesmo com as decepções de praxe, os brasileiros receberam (e deviam mesmo) esses jovens, com medalhas ou não, como verdadeiros heróis que honraram e dignificaram a camisa verde-amarela. Mas isso tudo traz uma necessária lição de realidade às nossas autoridades que devem encarar com muita seriedade e planejamento a preparação esportiva da juventude brasileira.

Em primeiro lugar, exagerou-se nas comemorações dos honrosos resultados dos jogos pan-americanos, sobretudo, criando uma falsa imagem de superioridade de nossos atletas, onde não participaram estrelas esportivas de primeira grandeza das
Américas. Isso sem listar os “fenômenos” esportivos de outras partes do mundo. Além do mais, e de um modo geral, o brilhantismo da nossa participação em Pequim não foi um conseqüente resultado de planejamento público de longo prazo, mas da superação motivada pelo voluntarismo e o individualismo de poucos. Recuso-me a comentar neste quadro o vexame da seleção masculina de futebol, da mediocridade de seus dirigentes e da apatia dos jogadores “estrangeiros”, que muito vem envergonhando o “futebol arte” brasileiro.

Agora está na hora do Comitê Olímpico Brasileiro dar uma satisfação aos brasileiros sobre o que aconteceu com a preparação dos nossos atletas que resultou em grandes vexames e perdas inesperadas. O primeiro ponto, diga-se de passagem, não faltou dinheiro público. Para se ter uma pálida idéia, por dados oficiais, cada uma das 13 medalhas conquistadas custou aos cofres públicos a cifra estratosférica de 50,4 milhões de reais, observando a não computação nesta cifra das duas seleções de futebol que não recebem dinheiro público. É preciso também saber como o COB distribuiu esta dinheirama toda às entidades esportivas, que também devem explicações públicas, transferidas de loterias, empresas estatais, Fundo de Incentivo Fiscal, Ministério dos Esportes, entre outras fontes. O que é pior, tremo até em pensar na existência de dinheiro não contabilizado. Mas isto é outra história. A verdade nua e crua é que houve uma grave distorção nesta distribuição, privilegiando mais umas entidades do que outras. Sobre isso, pouca coisa “vazou” na imprensa. Sabe-se que um lutador de judô não tinha sequer dinheiro para comprar a sua faixa preta, necessária à sua participação nas olimpíadas. Aí vem uma pergunta incômoda, como era a sua alimentação e preparação? Outra teve até que rifar uma bicicleta para arrecadar fundos. Pode? Para não ser inconveniente, cito apenas mais um exemplo: “vela”, um dos esportes com mais premiações olímpicas sequer teve patrocínio.

Nesse evento global esportivo ficou patente o compromisso da China com os esportes, com um espetáculo cinematográfico, uma “enxurrada” de medalhas de ouro, com um investimento bilionário, em especial na preparação de seus atletas. E o Brasil ainda tem a pretensão de sediar a olimpíada de 2016. É preciso acordar e sentar na realidade.

A saída tem que estar numa preparação a longo prazo da nossa juventude, ou seja, um urgente e necessário projeto social para as novas gerações, com preparação atlética, cultura, inclusão social e cidadania. O resultado será a construção de um atleta competitivo. O investimento, com certeza de grande vulto, não deve preparar somente atletas, pois segundo pesquisa recente, numa preparação de um atleta olímpico, numa geração de 2000 jovens envolvidos, somente um consegue chegar ao topo de uma competição. É isso mesmo, pois este deve ser o papel de um país comprometido com a sua juventude, ou seja, com a desejada inclusão social.

O país precisa acordar e aplicar melhor o dinheiro público.

Para encerrar, cito o exemplo de Mato Grosso do Sul e dos Jogos Estudantis Estaduais. Nesses jogos, em todas as categorias, envolvem-se duas categorias, infantis e juvenis, quando os alunos atingem aproximadamente 16 anos. E depois? Nada.

Isso mesmo, nada. Como estimular a continuidade esportiva desses jovens?

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 31 de agosto de 2008.


Pantanal Pioneiros: uma história de amor (*)

Entendo que escrever um livro é sempre um ato de amor. O ofício do escritor requer razão e sensibilidade, além de agregar poderes extraordinários ao autor, como o de viajar no tempo, conviver com personagens pretéritos, fictícios ou reais, viver e reviver suas alegrias, suas tristezas e passar os registros de emoções diversas, de angustias ou alegrias, ao seus leitores. Creio mesmo ser um privilégio escrever, os mais diversos temas e pelas mais diversas razões, realizando um projeto, ou um sonho, de editar um livro. Muito poucos, neste país de poucos leitores, ganham alguma coisa e mal sobrevivem exercendo essa desafiadora profissão. Porém, há quem consiga escrever livros bons, mesmo exercendo outras atividades profissionais, como professores, profissionais liberais e outros mais.

Alguns temas de difícil aceitação pelo público culto, transformam-se por mãos e mentes brilhantes em textos fascinantes, de real interesse e fácil leitura aos que se aventuram por seus trilhos. Um exemplo disso são os livros que tratam de genealogias que na maioria das vezes são verdadeiras “listas telefônicas” e desfilam uma exaustiva e enfadonha relação de nomes e datas somente interessando os que estão ali inseridos. Mas há casos, felizmente, que contrariam esta regra ingrata.

Por isso, fico feliz em poder registrar com plena satisfação o lançamento do livro “Pantanal Pioneiros”, do advogado, pecuarista e escritor Abílio Leite de Barros, editado pelo Senado Federal. Um álbum primorosamente produzido, que extrapola os limites de um trabalho meramente genealógico, e que deve se tornar uma referência obrigatória aos pesquisadores dedicados aos estudos regionais, em especial, sobre a gente pantaneira. Aliás, essa é a especialidade do Abílio, assim chamado carinhosamente por seus amigos, que construiu um modelo de apresentação e interpretação da história do cotidiano e de famílias, de real significação e contribuição para todo o tipo de público, científico ou diletante.

Mas esse livro não é só isso. Para se entender melhor o significado deste lançamento é necessário conhecer um pouco mais o seu autor, em carne e osso. Trata-se de um jovem que, por acaso, tem cabelos brancos e algumas dezenas de décadas de vida já bem vividas, e que ostenta um semblante sereno, disfarçado de quietude, e um constante e franco sorriso. Já o vi de semblante fechado, quase de cara feia, mas isso aconteceu quando seus ouvidos seletivos ouviram algum pseudo-intelectual ou jovem despreparado destilar mediocridades ou asneiras diversas. Mas esse estado de espírito é raro no Abílio, embora qualquer pessoa mais sensível tenha muitos motivos para aborrecer-se neste festival de besteiras que assola o país, para usar do velho e ainda atual chavão do Estanislaw Ponte Preta.

Abílio é um homem à moda antiga, culto, formado na famosa Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, e recebeu enquanto estudante uma forte influência ideológica do pensamento conservador do Instituto Dom Vital, no meio intelectual brasileiro, de mea-dos do século passado. Assim mesmo, com uma formação sólida, com rara sensibilidade e inteligência, soube conviver, compreender e aceitar posições ideológicas divergentes. Um exemplo posso contar de camarote: é a sua interlocução tolerante e instigante com um jovem (que também casualmente tem meia dúzia de décadas vividas), professor e pesquisador de história, desde os primeiros encontros ainda na velha e muito amada Corumbá, para conversas sobre gente e casos antigos. Fico até hoje impressionado e honrado com esta amizade consolidada com o tempo, com respeito, dignidade e admiração mútuas pelos livros e documentos sobre nossa terra.

Escrevo sobre “Pantanal Pioneiros” no calor do seu festivo lançamento, apenas fo-lheando as suas belas páginas, garimpando uma ou outra foto mais bonita, um ou outro no-me de pessoa que conheci viva ou inscrita na história de Corumbá e do Pantanal. Mas, não o leio de um só fôlego, que é o primeiro impulso. Seria como cair de boca numa finíssima cachaça (disso eu entendo também), com um imediato embriagamento. Não. Esse livro é para ser saboreado e degustado aos poucos, sobretudo por aqueles que de alguma forma estão aí incluídos. Aliás, aos membros das famílias pantaneiras é obrigatório exibi-lo na mesinha central da sala de visitas ou incluí-lo no enxoval das noivas, como dote. Seria como se uma noiva levasse consigo suas raízes mais preciosas.

Isso é o novo livro do Abílio Leite de Barros. E para encerrar, ouso registrar um trecho, que denota o seu alto grau de sensibilidade, a sua generosidade e seu amor à sua gente. Referindo a um parente, Gonçalo Leão de Barros, assim o descreve: “nasceu com problemas sérios, possivelmente decorrentes da idade avançada de sua mãe. Foi um espírito simples, um inocente de Deus. Muito querido pelos irmãos e sobrinhos, tinha um temperamento singular, marcado por forte religiosidade, muita teimosia e várias manias”.

Por tudo isso, considero “Pantanal Pioneiros” um ato de amor. Abílio de Barros cravou essa paixão no papel, com uma trabalheira danada que isso lhe deu. Mas, certamente, foi um ato de paixão carnal, que deve lhe ter proporcionado muito prazer. Certamente, muitos também o desfrutarão.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 24 de agosto de 2008.


Uma universidade na linha de tiro (*)

A Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul foi alvo da atenção da imprensa e da mobilização de seus professores e alunos nestes tempos bicudos. O motivo foi a discus-são na Assembléia Legislativa da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) sobre os gastos do governo para o ano de 2009. Esta lei tem relação direta, em seus gastos, com o volume da arrecadação financeira que vem em crescente aceleração, devido à voracidade do aumento dos impostos. A LDO não pode e não deve, porém, ficar a critério de gastanças dos interesses exclusivamente governamentais. Assim, a lei deve passar pelo crivo dos parla-mentares estaduais, que pode fazer modificações pressupondo que estão ali para defender o lado da população. Ocorre que a fragilidade e a independência dos poderes acarreta uma distorção que permite à base de apoio da situação votar em bloco e privilegia, dessa forma, os interesses do governo em detrimento do resto da sociedade.

O segundo ponto a ser visto, é o fato de estarem incluídos na LDO as rubricas cons-titucionais, sejam federais, estaduais ou até mesmo municipais, conforme os níveis de discussão, criando a obrigatoriedade de gastos especificados. Caso os governantes descum-pram o estabelecido na lei, existem mecanismos legais para a sua punição. Além disso, existem brechas na legislação que permitem aos legisladores criar a obrigatoriedade consti-tucional de gastos prioritários para a saúde, educação e outros, de fundamental importância do bem estar da população.

É neste quadro que se insere a atual situação da UEMS. Na verdade, deste a sua instalação, com a criação do estado de Mato Grosso do Sul, a instituição vem navegando de crise em crise ao sabor do vento, ou seja, de acordo com os interesses dos governantes de plantão. Em certo momento, para conter os gastos, pensou-se inclusive em extinguir a instituição. Felizmente, a lucidez falou mais alto, e a UEMS foi preservada, sendo hoje um pa-trimônio educacional e cultural do estado, que atinge 15 municípios, num universo de 7,6 mil alunos, 608 professores e 1,2 funcionários.

No desenrolar da sua história, em sua defesa, quiseram os legisladores estaduais estabelecer na LDO um percentual de gastos, vinculado à arrecadação estadual, prevendo não somente a sua manutenção como também a sua expansão. Nem sempre, porém, esta obrigatoriedade constitucional foi obedecida, diga-se de passagem, sem qualquer ação punitiva.

Agora, para o ano de 2009, o governo estadual encaminhou à Assembléia Legislativa a sua proposta de legislação orçamentária que não contém nenhuma rubrica de gastos obrigatórios para a universidade. Assim, a LBO permitindo ao governo a liberdade de gastos com a educação superior, compromete assustadoramente o seu crescimento, o atendi-mento de outros municípios e o necessário desenvolvimento da pesquisa.

O que espanta é o fato de que esta omissão não foi alertada pela Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Assembléia Legislativa, que decidiu pela sua constitucionali-dade, acabando com isso pela sua discussão em plenário. Como era de se esperar, o rolo compressor funcionou e a LDO foi aprovada como o governo queria. Pobre UEMS que ficou, mais uma vez, ao sabor dos interesses políticos.

Essa situação lembra a história da antiga Universidade Estadual de Mato Grosso (hoje, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), criada em 1970. Fundada pelo volun-tarismo de poucos, teve a sua origem na Faculdade de Farmácia e Odontologia de Campo Grande, e no Instituto Superior de Pedagogia de Corumbá e depois contou com unidades em Três Lagoas, Dourados e Aquidauana. À época, não havia uma legislação que protegesse a universidade, seus professores e alunos, fazendo com que as soluções fossem tomadas a cada problema surgido. Eram muitas dificuldades, salários aviltantes, que chegavam até três meses de atraso. E o pior, total ingerência política na administração da UEMT, incluin-do perseguições e demissões arbitrárias. Mas tudo isso foi superado.

Os tempos heróicos ficaram para trás, mas a luta por uma universidade pública, de boa qualidade e gratuita ainda continua presente. A sua defesa deve ser um compromisso permanente de todos os sul-mato-grossenses.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 16 de agosto de 2008.

Os que não comem e os que não dormem (*)

A hipocrisia está sempre presente quando a tônica é discutir a fome que vem se ampliando e massacrando populações nas mais diversas partes do mundo. Este flagelo sempre foi considerado como problema local, fruto do atraso regional e de uma natureza ingrata.

A participação dos países que se consideram distantes da miséria e da fome coletiva, além de decisões de cúpula sem efeito, se deu através de grandes festivais e shows liderados pelo mundo pop para arrecadação de fundos destinados aos povos famélicos. O resultado disso evidentemente foi bem passageiro, e a fome continuou deixando o seu rastro de miséria e de sofrimentos. Ficaram famosos esses shows, com cobertura da mídia internacional, com CDs e DVDs vendidos no mundo inteiro para a salvação de milhares de famintos de Bangladesh e da Biafra, para citar alguns exemplos. Aliás, muita gente não sabia sequer onde ficavam estas regiões. Esses eventos espetaculares ainda ocorrem, porém mais raramente. Entretanto, a fome não diminuiu, pelo contrário, ela se espalha em escala mundial, como uma praga de Deus.

Mas agora, quase numa grande catarse coletiva, parece que todos os países mais fortes e poderosos estão mais sensíveis com a atual crise de falta de alimentos e a ampliação da fome que assola populações pobres dentro desse mesmos países, ditos ricos. Ou melhor, a miséria cresce no próprio quintal dos “senhores do mundo”. E quem são esses “senhores” poderosos? Melhor seria perguntar: o que produz a fome e o crescimento da miséria pelo mundo afora?

A resposta é óbvia e simples: são os países ricos os verdadeiros produtores da fome, especialmente por que utilizaram à exaustão os artifícios e mecanismos de salvaguarda do (seu) capitalismo. A grosso modo, ao longo da história do sistema capitalista, as suas típi-cas crises econômicas, que os abalavam de tempos em tempos, são ardilosamente repassadas aos países pobres que, em última instância, acabam pagando a fatura dos prejuízos.

Isso ocorre mediante um perverso mecanismo de dependência das nações mais po-bres (que no passado foram muito ricas em recursos naturais e matérias-primas), vinculadas de forma desigual ao comércio internacional, com visível e descarada vantagem para os países capitalistas. A dependência, mantida pela força e dissimulada em políticas de intercâmbio e cooperação internacionais, não permitem sequer que os países pobres superem o estágio de inanição econômica, da qual o continente africano está repleto de exemplos.

Enquanto a fome assolava regiões longínquas e miseráveis, a situação não era considerada alarmante. Os países ricos mantinham uma confortável e lucrativa rapinagem, inclusive criando barreiras às exportações de alimentos e desenvolvendo políticas de subsí-dios à suas próprias produções agrícolas. Agora, porém, parece que esse “equilíbrio da desigualdade” está ficando de “pernas para o ar”.

A crise financeira que se alastra hoje sem barreiras e o preço “enlouquecido” do petróleo acenderam, como dizem os economistas, uma “luz amarela”. Essa preocupação bateu nas portas da recente reunião do chamado G-8 (reunião dos 7 paises mais ricos do mundo e a Rússia). Conforme manifestação do presidente do Banco Mundial, a serviço dos interes-ses dos países mais fortes, evidentemente, Robert Zoellick, a chamada “crise alimentícia global” pode incorporar ao universo da fome 100 milhões de pessoas ao já número assombroso de 854 milhões de subnutridos em todo o mundo, números detectados pelo FAO, organismo da ONU que trata dos problemas da agricultura e da alimentação.

Nesses trâmites das relações internacionais, e para fazer frente ao G-8, os países que se auto-denominam emergentes, compõem de maneira informal o G-5 (Brasil, México, Chi-na, Índia e África do Sul), mas são considerados pelos primeiros como um grupo de “2a divisão”. Segundo a imprensa brasileira a esse respeito, na próxima reunião do G-8, em 2009, os emergentes unidos (jamais serão vencidos???), somente participarão da reunião no último dia, depois de já ter sido aprovado e divulgado o documento final do evento. Esta luta vai ser difícil, longa e inglória, pelo visto..

Enquanto o G-8 discute e decide no andar de cima, aqui embaixo, no resto do mundo, a situação de crise e fome tende a se agravar. E a barbárie também. Como uma onda no mar revolto, do jeito que a água vem, ela volta num refluxo de maior intensidade. A fome sempre se faz acompanhar de outros horrores e das estratégias extremadas de sobrevivência acabando por atingir a todos indistintamente, a ponto de o mundo, num futuro muito breve, dividir-se em dois: o mundo dos que não comem e o dos que não dormem.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 10 de agosto de 2008.

A bolsa da (in)segurança alimentar (*)

A velha história de confiar desconfiando está atormentando, nesses novos tempos bicudos, a vida de uma massa de bolsistas brasileiros, não aqueles ditos estudantis, mas uma imensa massa de desesperançados e prováveis eleitores ou cabos eleitorais. Refiro-me aos beneficiários da ação política mais importante do governo, o mais eficiente "ovo de Colombo" eleitoral contemporâneo: o programa Bolsa Família que começa a ser corroído pela inflação.

Mesmo com garantias do governo, que não admite qualquer fragilidade em seu programa, segundo pesquisa recente do Ibase 28% dos beneficiados com a Bolsa Família, também chamada de programa de segurança alimentar, temem (e com muita razão), o retorno tenebroso e assustador da fome cotidiana. E olha que esta bolsa, na verdade uma bolsinha, "quebra um galhão" enorme. Quem já passou fome sabe como é duro olhar para os filhos e não ter o que comer. Esse é o medo que se avizinha. Além disso, esta pesquisa divulgada pelo Ibase concluiu que no universo dos beneficiados somente 17 % atingiu a total situação de segurança alimentar. É muito pouco para tanto esforço.

É claro que esta aflição não se compara ao estágio de milhões de pessoas da Ásia e África que estão morrendo de fome a cada segundo. Mas o duro é saber que mesmo recebendo a ajuda do governo, uma parcela dessas famílias não consegue contar com todas as refeições diárias. Segundo ainda o mesmo Ibase, 21 % dos pesquisados encontram-se nesta inaceitável e terrível situação. Além do mais, é assustador que milhares de famílias abaixo do nível de pobreza sequer são beneficiados com a Bolsa Família.

Ao mesmo tempo, está renascendo um monstro há muito esquecido ou até mesmo desconhecido dos mais novos, a indesejada inflação, que não é um problema somente brasileiro mas, com a globalização, é um problema atual e mundial.

De fato, a perspectiva inflacionária (já é um dado real e assustador), não pode ser minimizada. Pelo contrário, parece que a sociedade brasileira não está preparada para enfrentar esta inesperada situação, esquecida da famosa maquininha de remarcar preços dos supermercados, que era um mecanismo de defesa e manutenção dos lucros de empresários e comerciantes. Explico melhor: no passado, para enfrentar os avanços da inflação, os mais diversos setores da economia capitalista impunham aumentos de preços preventivos, como forma de resguardar os seus investimentos e margem de lucros.. Era um mecanismo de aumento de preços com base na inflação passada, e antes até dos índices atualizados de inflação, provocava uma terrível e malfadada indexação de preços. É o que os economistas chamam de inércia de inflação.

Parece, infelizmente, que isto já está acontecendo neste Brasil, que alguém algum dia disse que era do futuro. Eu prefiro o presente, pois ninguém pensa em comer no futuro. A fome não espera

A disparada dos Índices Gerais de Preços (IGPs) já tem mexido com o bolso dos consumidores. E o próprio governo, com certeza, será um dos vilões da inflação com os constantes reajustes de tarifas públicas. Se o governo não descarta a sua sanha desmedida em arrecadação tarifária, garfando o bolso do desprotegido cidadão, como ficará então o resto da economia nacional? Sai debaixo.

Hoje, o dinheiro que se gastava antes numa feira livre não dá para encher a metade das sacolas do consumidor. Os aumentos são visíveis nos produtos horti-fruti-grangeiros, além dos nossos velhos conhecidos arroz e feijão, só para listar alguns. Ora, se os fertilizantes tiveram um aumento de 83% em um ano, imagino como serão em 2009 os seus duros reflexos na produção agrícola.

Agora, o susto veio maior com a divulgação do índice de aumento da cesta básica nos últimos 12 meses que chegou ao patamar de 52%. Coitado do pobre que depende do programa Bolsa Família que sentirá o peso deste infeliz e difícil momento. E o resto da população também, em especial as camadas mais sofridas da população.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 03 de agosto de 2008.

Um plebiscito para discutir a unidade do Estado (*)

Voltou com força total a proposta do estabelecimento da igualdade do fuso horário de Mato Grosso do Sul com Brasília. Esta proposta é antiga e sempre foi descartada e até ridicularizada por argumentos econômicos. Parlamentares que encamparam esta proposta sofreram amargas críticas, ficaram isolados e sem base de apoio. Entendo que esta proposta de mudança era de difícil sustentação quando o sul pertencia ao extenso Mato Grosso unido.

Agora esta perspectiva geográfica modificou-se e muito. Porém, com a criação do estado perdeu-se, naquele momento, a grande oportunidade para também se discutir e definir o fuso horário do novo estado. Era uma época de grandes mudanças. Tudo era possível.

Agora, quem pode decidir a questão são os próprios interessados, ou seja, os sul-mato-grossenses, através da proposta de plebiscito apresentada pelo senador Valter Pereira.

O primeiro passo já foi dado pelo Senado Federal. Em reunião recente da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, foi aprovado um projeto de Decreto Legislativo, no 55/2008, que estabeleceu a realização de um plebiscito em que a população decidirá, por maioria simples, se a gente sul-mato-grossense deseja ou não essa mudança. Pode ser que se aproveite as eleições municipais para também realizar a referida eleição plebiscitária. No entanto, o risco é deslocar a discussão sobre necessidades e problemas municipais (o que é muito importante neste momento), para a escolha do melhor horário para a região. È óbvio que muitos políticos-candidatos gostariam que efetivamente isso acontecesse. Seria a “salvação da lavoura” para os maus políticos, que se agarram como podem aos cargos públicos.

O relator da matéria, o senador sergipano Antônio Carlos Valadares (do velho PSB), favorável ao plebiscito, defendeu a consulta através do voto popular como a forma mais democrática e legítima para uma escolha que mudará, sem dúvida, a vida e o dia-a-dia de toda uma população, no caso, de Mato Grosso do Sul. É de se esperar que toda a sociedade sul-mato-grossense, a dita sociedade civil organizada (expressão que não quer dizer nada), passa a envolver-se nesta ampla e necessária discussão. O assunto já se encontra no seio da Federação das Indústrias de Mato Grosso de Sul, em vista de seus filiados sofrerem prejuízos econômicos com os desencontros de horários com outras regiões, em especial, o estado de São Paulo.

A polêmica já está posta, evidentemente, com prós e contras, apesar da população sul-mato-grossense vivenciar todos os anos a mudança de horário(e olhe, há muito tempo), o inexplicável horário de verão. Desse modo, a coincidência de horário com Brasília, com o aumento em uma hora nos relógios não é uma prática totalmente desconhecida. É uma questão de costume e de ajustes, como sempre ocorreu com a acomodação dentro do “horário de verão”.

O que realmente pode estar em jogo é um assunto totalmente desconsiderado pela população e sobretudo pelos políticos, mas de fundamental importância para o crescimento econômico de Mato Grosso do Sul e que diz respeito à integração populacional e cultural do estado. Olhe bem, não estou me referindo a uma hipotética identidade cultural.

Parece até brincadeira, mas em alguns municípios fronteiriços com São Paulo e Goiás, as pessoas convivem com dois horários. È comum ouvir, ao se marcar uma reunião, o pedido de definição: “é horário de Mato Grosso do Sul ou de São Paulo?” Pode uma maluquice desta? Pois bem, entendo que este plebiscito deve levar em consideração à necessidade ou não desta já tardia integração regional.

Está posta então uma colher nesse doce, e agora precisa ser mexido. Vamos ver no que vai dar.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 27 de julho de 2008.

O gostoso do capitalismo é ser capitalista. Caso contrário... (*)

O Banco Central divulgou recentemente que mais de 15 milhões de clientes da rede bancária contraíram dívidas acima de 5.000 reais. Ou melhor, estão enforcados e presos à juros bancários escorchantes. Não é a toa que a cada balancete bancário divulgado pela imprensa, os lucros dos bancos assumem dimensões estratosféricas. Creio que, para os banqueiros, o paraíso não está nas distantes ilhas caribenhas, mas aqui mesmo, na linha abaixo do Equador. Ainda me lembro do terrorismo verbal de um representante da Fiesp, que afirmou que se Lula ganhasse a presidência da república (isso no primeiro mandato), empresários e banqueiros brasileiros migrariam em massa para Miami. Ledo engano. Agora é só sorriso.

Mas no andar de baixo a coisa está feia e preocupante, como afirma o Banco Central. O assustador é que a expansão do crédito neste país varonil já chegou a 1 trilhão de reais, propiciando a extensão de prazos de financiamento. Basta ver o estímulo à compra de carros com prestações “a perder de vista”, e, conseqüentemente, o aumento avassalador do endividamento das famílias. Isso, com a conivência do governo que, para atender aos interesses empresariais, não permite um basta nesta farra consumista.

Ainda segundo dados do Banco Central, nos últimos dois anos houve um crescimento da “república dos endividados”, com dívidas de clientes acima de 5.000 reais, em 47,17%. Pode uma loucura desta? É claro que isto vai acabar mal. Num universo maior, clientes com qualquer tipo de dívida, seja pequena ou grande, já estão atingindo a cifra alarmante de 80 milhões de pessoas.

Como isso pode acontecer? Pela expansão do crédito, é possível endividar-se ao financiar um carro, uma casa e somar a tudo isso novas dívidas com operações de crédito como empréstimo pessoal, uso de cheque especial e o famoso rotativo do cartão de crédito. Esta ciranda financeira transforma-se em uma bola de neve de difícil e amarga solução. Para superar a inadimplência o jeito é cortar ao máximo as despesas domésticas, devolver compras não pagas e planejar uma vida simples e frugal para, por alguns anos, quitar suas dívidas.

Quem caiu nesta armadilha vai sentir que o crédito fácil é uma faca de dois gumes, boa no início e ruim com o passar do tempo. Na verdade, existe uma contradição nesta situação financeira. Por um lado, a expansão do crédito estimula o avanço da economia. Era comum notícias na imprensa relatando a euforia (como se viu, falsa) dos comerciantes acabando com seus estoques de fogões, geladeiras e outros bens de consumo. Por outro, levaram esses imprevidentes consumidores a um caminho sem volta. Era previsível, mas ninguém acreditou que isso fosse acontecer.

Parece que os bancos ainda pretendem retirar as últimas gotas de sangue dos incautos consumidores. A todo instante, o seu telefone pode tocar e uma voz amável e carinhosa propõe um grande negócio e grandes vantagens com novos cartões de créditos e outras coisas afins. É sempre uma chateação e uma inconveniência, sobretudo nos horários de refeições.

Num plano mais amplo, apesar dessas contínuas crises domésticas, o mundo continua a girar. Ou melhor, de crise em crise o capitalismo vai se safando e empurrando com a barriga a velha máxima: um belo dia o sistema gera sua própria destruição. Contudo, essa onda vai varrer quase todo o planeta globalizado pelo capitalismo. Quem é que vai sobreviver??

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 20 de julho de 2008.

Magistério: coragem e sacrifício (*)

Um recente estudo promovido pela Fundação Lemann e pelo Instituto Futuro Brasil, que veio a público pelo jornal Folha de S. Paulo (9.6.2008), desnuda com toda crueza uma das mais sacrificadas profissões na história da humanidade. É velha e sempre lembrada em época de eleições com promessas vãs e quase nunca cumpridas: a política educacional e seu instrumento principal, o professor. A triste realidade, segundo este estudo baseado em dados oficiais, é que esta profissão atrai com freqüência jovens com dificuldades acadêmicas e sociais. Ou seja, são originários de famílias de baixa renda e escolaridade sofrível. Isto, com certeza, refletirá mais tarde nas dificuldades do dia-a-dia em sala de aula.

Este estudo, pela sua seriedade, deve ser encarado como um assustador alerta às autoridades educacionais brasileiras, se realmente desejarem fazer uma necessária e urgente revolução educacional.

Portando, uma mudança educacional não passa primordialmente por avanços tecnológicos e inclusão da escola na era digital, como é comum se ver em pronunciamentos governamentais. Parece que a existência de computadores nas escolas é uma panacéia para solucionar todos os males da educação brasileira. Mas está aprovado que o principal elemento que deve ter a atenção do governo é o instrumento humano da educação, ou seja, o professor. Se não houver uma profunda preparação do professor com educação continuada, e acima de tudo, com elevação do seu status social, melhor consideração por parte da sociedade e, em seu bojo, uma remuneração condigna, não haverá máquina que elevará a auto-estima e o nível intelectual dos professores.

Pois bem. Em alguns países, ainda segundo este jornal, como Coréia e Finlândia, que contam com os melhores sistemas educacionais do mundo, os que se dedicam ao magistério são escolhidos entre os alunos com melhores pontuações no ensino básico. Aqui, porém, ocorre o inverso. Os melhores alunos procuram outras profissões, ditas de excelência, com mais status e remuneração. Parece até, infelizmente, que o magistério significa uma opção para quem não tem opção. O professor Roberto Leão, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, fez uma triste e trágica visão desta realidade, ao afirmar que a “profissão é desprestigiada, a maioria daqueles que escolhem trabalhar como professor o faz porque o curso superior na área é mais fácil de entrar, barato e rápido”.

Mas esta situação deve e pode se modificar. Mesmo porque neste turbilhão de desesperança, o país conta com excelentes e corajosos professores, que superam dificuldades inúmeras, incluindo a precariedade de infra-estrutura. A isto vem somar um novo componente contemporâneo a ser enfrentado pelos professores: a violência de uma sociedade em crise que com freqüência ultrapassa os muros das escolas.

Porém, no dia-a-dia do sistema educacional, existem grandes atitudes, dignidades e coragem que servem de bandeiras aos novos professores. Lembro do meu velho mestre, infelizmente já falecido, o sociólogo Maurício Tragtemberg, que influenciou gerações e gerações de estudantes com suas aulas magníficas, só para citar alguns deles. Tragtemberg foi um intelectual ímpar e lecionou também por muitos anos, nos tempos da repressão da ditadura militar, em escolas do ensino fundamental.

O jornal citado também entrevistou sobre este assunto, o conhecido mestre, filósofo e educador, Dermeval Saviani. Lembro também deste colega, pequeno e franzino que se agigantou com o tempo na área de educação, e no começo, já formado, dava aulas de filosofia no Colégio e Escola Normal “Plínio Barreto”, e eu, ainda estudante, carregando a bandeira da História, dando aulas como professor contratado em regime precário.

Saviani, com a sua sensibilidade costumeira fez nesta reportagem uma síntese da evolução histórica da educação brasileira, afirmando que com o período republicano o professor adquiriu um elevado status social na sociedade, em especial nas pequenas cidades, e tinha o respeito de todos. Com a massificação do ensino, a educação deixou de ser elitista e passou a atender cada vez mais alunos. A tragédia dos professores começou assim. Salviano diz, com muita coragem que “a opção dos governos foi atender mais gente com praticamente os mesmos recursos. Por isso, os salários foram reduzidos, e o prestígio dos professores diminuiu muito. O docente virou um simples funcionário público”.

Esta discussão merecer ser levada à toda sociedade, que com o seu voto pode exigir dos novos governantes, mais seriedade e compromissos com a educação e com a dignidade profissional de seus mestres.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 13 de julho de 2008.

Um museu diferente e especial (*)

A recente inauguração do Museu de Arqueologia da UFMS representa um salto de qualidade para estudantes em geral e para as atividades culturais de Campo Grande. É um pequeno grande museu com perspectivas históricas e educacionais extraordinárias. A sua vitrine, como assim é chamada a parte visível da instituição de fácil acesso ao público, é apenas uma parcela de um grande acervo de peças, documentos, fontes bibliográficas e laboratórios, acessíveis a estudantes e pesquisadores.

Além disso, desmistifica a velha impressão de que um museu é sempre um repositório de coisas velhas, sujas e estáticas. A sua concepção, idealizada pelos museólogos da USP, Maria Cristina Bruno e Maurício Cândido da Silva, conseguiu reunir peças arqueológicas dos antepassados indígenas, de incalculável valor, com uma concepção moderna que interage a história com o visitante. É uma aula sobre as nossas raízes que jamais se esquece. Além disso, antes de passar ao espaço onde estão localizadas as peças, o visitante passa por um aconchegante auditório onde é apresentado um vídeo de 30 minutos, com explicações didáticas sobre a história da região. É um espetáculo fascinante.

Isto tudo porém só foi possível pelo longo trabalho e pelos esforços de um grupo de pesquisadores da UFMS, liderado e coordenado pelo professor Gilson Rodolfo Martins, contando com a participação dos também professores Emilia Mariko Kashimoto e José Luis Santos Peixoto. Assim, o farto material coletado nos mais diversos pontos do Centro-Oeste, foi resultado de um exaustivo trabalho de professores que aliaram as suas atividades de docência com o prazer e necessidades do avanço de pesquisas na área da arqueologia. Esta história iniciada em 1987, a partir do Laboratório de Pesquisas Arqueológicas do Campus de Aquidauana/UFMS, conseguiu reunir, segundo Gilson Rodolfo Martins, “um extenso e representativo acervo composto por mais de oitenta mil peças ou vestígios arqueológicos”, localizado nos campi de Campo Grande, Aquidauana e Corumbá.

Depois, partes este acervo, em constantes incorporações, ficou num exíguo e inadequado espaço embaixo do Estádio Pedro Pedrossian. Posteriormente, com a dimensão então adquirida pelo Museu, seu significado e importância extrapolaram os limites da UFMS, e seu fortalecimento ocorreu com novas parcerias e o resultado está aí. Contando com o apoio da Petrobras Cultural, do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan) e da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, o Museu de Arqueologia da UFMS (MuArq), passou a ter uma nova cara em sua definitiva morada no Memorial da Cultura e Cidadania Apolônio de Carvalho, na sede da própria Fundação, do Arquivo Público do Estado e da Biblioteca Estadual. Este belo prédio, por suas funções culturais, sem dúvida já está no roteiro turístico de Campo Grande.

É interessante notar que a nova fase do MuArq coincide com o Ano Ibero-Americano de Museus, comemorado no presente ano, cujo Dia Internacional teve como tema “museus como agentes de mudança social e desenvolvimento”. Não tenho dúvida que o “nosso” museu contribuirá em muito com o desenvolvimento da capital e do estado. A instituição virá assim somar com os quase 3.000 outros museus existentes em todo o país, distribuídos em 20% dos municípios brasileiros.
A concepção deste novo museu sul-mato-grossense atende à Política Nacional de Museus que, segundo José do Nascimento Júnior (Folha de S. Paulo, 21.5.2008), diretor de Museus e Centros Culturais do Iphan, “tem em sua gênese um caráter democrático e participativo, rompendo com a lógica de barões e vassalos, ampliando os interlocutores, e continua recebendo diversas contribuições que chegam de toda a parte para aperfeiçoar esse processo colocado em marcha ao longo desses anos”.

Enfim, o Museu de Arqueologia da UFMS está ai democraticamente aberto para o público em geral, roteiros turísticos e não apenas para pesquisadores e estudantes.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 06 de julho de 2008.