segunda-feira, 29 de março de 2010

"Há algo de podre no Reino da Dinamarca" (*)

Usando a famosa frase de Hamlet, no texto clássico do velho Shakespeare, que me perdoe, inicio o meu artigo sobre o desastre recente que Campo Grande viveu, em decorrência das pesadas chuvas deste verão: há algo de podre no reino....daqui. Uma tragédia natural, aliás, uma tragédia anunciada colocou em xeque muitos anos de planejamento e de aplicação de uma política de preservação do meio ambiente na capital. Por que se chegou a tal ponto e a tanta destruição?

Retomo aos primeiros pioneiros que escolheram o sítio, depois chamado Campo Grande, para um assentamento de povoamento. Era uma bela região permeada por 33 córregos que foram com o tempo desaparecendo, ou melhor, perdendo a sua visibilidade por canalização, aterros e ruas. Historicamente, portanto, as enchentes sempre fizeram parte do cotidiano de seus habitantes, como ocorria com o córrego existente na rua Maracaju, hoje canalizado. Desse modo, a qualquer hora, a natureza dá o seu troco àqueles que não a respeitam. É o que vem acontecendo recentemente em Campo Grande.

Tudo começou com as fortes chuvas de fins de dezembro passado e parte da rua Ceará, ao lado de um viaduto, começou a ir literalmente pro brejo. Era, com certeza, um problema presumível e um grito de alerta e revolta do córrego Prosa. A pergunta que não pode calar: por que isso ocorreu somente após a construção de 4 altos prédios na margem de suas águas, numa área de mata relativamente bem preservada e altamente valorizada?

De início, tentou-se minimizar esses trágicos acontecimentos, mas a chuva continuou teimosamente e, em 27 de fevereiro veio uma assustadora tromba d água.

Aí foi o ponto final, desnudando a problemática política ambiental e o plano diretor da cidade agora colocado em questionamento. No início da década de 90, foi elaborada uma carta geotécnica, resultado de um amplo debate entre técnicos e universidades, alertando sobre a fragilidade do solo das regiões leste e norte da cidade, então alvos de uma agressiva expansão populacional e imobiliária. Como o plano diretor não levou em consideração este importante alerta técnico? Ainda querem culpar São Pedro pelos estragos provocados por essas violentas chuvas.

Com isso, ambientalistas, urbanistas e até o Ministério Público têm manifestado uma necessária modificação na lei de ordenamento e de uso do solo urbano para salvar as bacias do Prosa e do Sóter. Segundo informações, em face de toda esta repercussão, técnicos da prefeitura já estão desenvolvendo estudos para mudar a lei de uso do solo. É aquela velha história de colocar uma tranca depois da porta arrombada. Entretanto, nunca é tarde para as medidas de prevenção e de preservação ambiental.

O pior foi o dinheiro público, diga-se de passagem uma dinheirama, que escoou pelo ralo com a destruição das primeiras obras de contenção das enchentes nesta região. Agora está previsto mais um gasto de 30 milhões para as obras em frente ao Shopping, na rua Ceará e também para corrigir os estragos feitos num antigo condomínio da região. O que parece engraçado, se não fosse trágico, está no fato de que para corrigir os primeiros estragos, antes da tromba d água, foi gasto pela prefeitura R$ 1,5 milhão em consultoria e planejamento da obra, que demonstrou na prática ser um tremendo fiasco.

Sei que o assunto é indigesto em época de eleições, mas os nossos políticos, municipais e estaduais, não podem se fingir de mortos numa grave situação como esta. Que algo está muito errado, isso está e ninguém duvida.

Se não, vamos rezar para não vir outra chuva daquelas.

Valmir Batista Corrêa


(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 28 de março 2010.

O amor aos livros é mais forte (*)

No dia 28 de fevereiro passado o Brasil ficou mais triste e pobre com a perda, em São Paulo, do bibliófilo José Mindlin. Amante dos livros, acumulou durante toda a sua vida a mais importante e rica coleção de livros raros, que ele chamava de “Brasiliana”. Com um acervo de mais ou menos 38 mil títulos, a coleção de Midlin é objeto de desejo dos bibliófilos de todos os cantos do planeta e uma das mais importantes bibliotecas do mundo.

Homem simples e de grande generosidade, a sua biblioteca esteve sempre aberta aos pesquisadores e estudantes, permitindo de forma democrática o acesso às preciosas raridades que tem. Despojado, doou a biblioteca para a Universidade de São Paulo que, em contrapartida, está concluindo no seu campus principal um belo prédio para abrigá-la, transformando-a num valioso patrimônio para todos os brasileiros.

Sua viagem pelo mundo dos livros raros e especiais começou quando era ainda menino, com 13 anos, ocasião em que comprou a sua primeira obra rara. Depois, não parou mais, frequentando leilões e sebos (livrarias de livros usados) onde quer que fosse.

Sei, por experiência própria, o que um colecionador sente ao entrar em contato com um livro antigo e muito raro. Há muito tempo atrás, tive em mãos num sebo de São Paulo uma “jóia”. Era uma rara coleção, em 11 volumes, dos relatos e iconografias da expedição de Francis Castelnau, que passou pela província de Mato Grosso em meados do século XIX, publicados em francês e com ilustrações simplesmente maravilhosas.. Mesmo emocionado ao tocar o papel envelhecido mas muito bem conservado dos livros de Castelnau, os meus parcos rendimentos de professor universitário impediram-me de levá-la para a minha pequena, mas também valiosa biblioteca. Não foi surpresa para ninguém que, depois de alguns dias, o dr. Mindlin, como era chamado, levou esta bela obra para a sua biblioteca particular. Mais recentemente, um amigo, o bibliófilo e historiador Paulo Pitaluga de Cuiabá, em suas andanças por sebos de Lisboa, encontrou um raríssimo livrinho do século XVIII chamado “Matto Groço”. Sabendo dessa descoberta, Mindlin imediatamente telefonou ao meu amigo com proposta de compra.

Ele não era somente um voraz comprador de livros. Foi um bem sucedido empresário que fundou a Metal Leve,grande empresa metalúrgica brasileira. Foi ainda advogado, escritor, jornalista, secretário de cultura de S. Paulo e membro da Academia Brasileira de Letras. Sobre a sua vida no mundo dos livros, vale a pena ler “Memórias esparsas de uma biblioteca”, “Não faço nada sem alegria. A biblioteca indisciplinada de Guita e José Mindlin” e “Uma vida entre livros. Reencontros com o tempo”.

Também, outra marca de sua vida foi a integridade ética e a coragem para assumir posições públicas em momento difíceis. Durante os anos de chumbo da ditadura militar, alguns empresários inescrupulosos financiaram a Operação Bandeirantes (Oban), um dos braços mais violentos da repressão política no Brasil, nos anos de 1970. Mindlin, sem medir conseqüências, recusou-se a compactuar com essa violência. Como secretário de cultura de S. Paulo, mesmo pressionado, não demitiu da TV Cultura o jornalista Vladimir Herzog, depois assassinado nos porões do DOI-CODI. Esses foram alguns exemplos de sua dignidade e caráter.

Volto a viajar pelo mundo dos livros. O pouco contato que tive com seus livros foi a oportunidade de ver algumas obras raras de sua biblioteca numa exposição multimídia na Casa Lasar Segall, em S. Paulo. Foi a coisa mais bonita e emocionante que pude ver e apreciar em matéria de livros. Era mais um gesto de generosidade do dr. Mindlin, abrindo parte de sua biblioteca, para divulgar as “jóias “de sua coleção. Agora, quando inaugurar o seu acervo na USP, com certeza estarei entre seus primeiros visitantes.

Termino esta homenagem, sintetizando o homem Mindlin através de seu “ex-libris” (estampilha colada em cada livro de uma coleção que identifica o proprietário da biblioteca), que contem a frase le ne fay rien san gayeté (não faço nada sem alegria). Os livros foram a alegria da vida de Midlin e, felizmente, muitos outros desfrutarão dessa emoção podendo consultar o acervo da USP.

Esse é um legado para a humanidade.

Valmir Batista Corrêa


(*)
Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 21 de março de 2010.

domingo, 14 de março de 2010

Tirar o sofá da sala não é a solução (*)

Recentemente um canal de TV de Campo Grande (MS) fez uma reportagem sobre uma pracinha no início da rua Paraná e houve uma grande repercussão na cidade.

Esse logradouro tem um acesso ao Shopping por uma escadinha, construída por uma empreiteira. Em vez de ser uma área de lazer para as famílias da região, onde existem hoje dois grandes prédios de apartamentos, tornou-se um problema.

A praça era frequentada durante a noite toda, sobretudo nos finais de semana, por menores mal educados, oriundos de diversas regiões da cidade. Na presença dos moradores e transeuntes, praticavam sexo livre, fumavam maconha e usavam outras drogas piores, utilizavam o tal do “aguilé”, tudo isso regado a muito álcool, fácil de ser adquirido no supermercado próximo dali. Além disso, o local tornou-se também um campo fértil aos traficantes e interceptores de objetos roubados, que muitas vezes eram a moeda de troca da droga.

A vizinhança passou a viver momentos de angústia e de intranquilidade pela barulheira e malandragem crescendo a cada semana. Os muros das casas e condomínios da redondeza amanheciam pichados e a sujeira (restos de bebidas e outras coisas impublicáveis), tomava conta dos gramados e das calçadas.

A reportagem da TV, que filmou esses jovens em plena ação, serviu de alerta às autoridades, até então omissas e espantou temporariamente esses delinquentes da pracinha. Mas logo eles voltaram. Pouco depois, a praça foi limpa e bem iluminada, o que a vizinhança penhorada agradece.

Ouvi as mais diversas explicações e sugestões para solucionar o problema, aliás de alta gravidade social. Entre as sugestões estava uma de espantosa imbecilidade: para o espanto geral, propunha simplesmente o fechamento da escadinha, elo da necessária ligação entre a parte alta do bairro Santa Fé com o estacionamento e todo o complexo do Shopping abaixo.

É a velha estória do sujeito que para impedir o adultério da esposa que se encontrava com o amante em sua própria sala, tira o sofá de casa, como se essa fosse a solução genial do problema. Os que defendem esta idéia imbecil não perceberam que a escadinha é vital para a circulação das pessoas, trabalhadores e consumidores das lojas e do supermercado. Os funcionários que chegam de ônibus de distantes partes da cidade usam preferencialmente a escada, permitindo um acesso fácil e rápido. Só isso já justifica a real necessidade da manutenção da escada, apesar da depredação que vândalos fazem sempre, pichando seus muros e quebrando as luminárias que a iluminam a noite.

Acredito, a bem da verdade, que essa delinquência de jovens, a maioria deles menores de idade, tem raízes mais profundas e não se resolve com soluções fáceis. Também, não se deve jogar toda a responsabilidade nas autoridades que, evidentemente, não tem condições de resolver questões sociais mais graves.

A questão central está concentrada no desajuste familiar presente em todas as camadas sociais. Não são somente oriundos da periferia, pois alguns jovens que frequentam a pracinha parecem saudáveis, vestem roupas de grife (caras compradas no Shopping). São estudantes e moram por ali mesmo no Santa Fé, um bairro de classe média. Entendo que, nesses casos, trata-se de um problema dos pais que se omitem na educação/formação de seus filhos, necessária para moldar o caráter e ensinar os princípios elementares de cidadania. Ao serem surpreendidos com a transgressão de seus filhos jovens, justificam-se alegando que não conseguem controlar a rebeldia típica da adolescência. Que famílias são essas? Como que um pai, ou uma mãe, não sabe o que seu (sua) filho (a) de 15 ou 17 anos faz numa sexta-feira a noite. Onde eles estão com a cabeça?

Uma medida sócio-educativa, e que bem poderia ser utilizada por aqui, é a pratica existente no município de Fernandópolis, no interior paulista. Lá, os pais de uma adolescente infratora receberam (por incrível que pareça), uma multa da Vara da Infância e da Juventude. Segundo o juiz local, “a multa é para punir os pais por não exercer o pátrio poder”, aliás um crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, artigo 258.

Sei que esta é uma medida polêmica e de difícil aplicação, porém, pode ser uma maneira inicial de coibir a omissão costumeira de pais que não querem enfrentar dentro de suas casas esta terrível situação. Uma desejável parceria entre autoridades judiciais e pais talvez não seja a solução final, mas com certeza seria um bom começo e um recado contundente a quem simplesmente faz de conta que o problema não existe.

É mais fácil tirar o sofá da sala, do que admitir a sua parcela de culpa.

Valmir Batista Corrêa


(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 14 de março de 2010.

Arruda contra mau olhado já era (*)

Por esta nem eu esperava. Até que enfim, temos um corrupto na cadeia. Será por muito tempo? Sei não...

O artista principal deste filme, aliás mais um velho filme B, é o agora presidiário governador Arruda de Brasília, cumprindo prisão preventiva, ressalvado que até o presente momento não foi julgado nem condenado.

Este tal de Arruda, que não é aquele galhinho que se coloca atrás das orelhas contra mau olhado, é “zero e vezeiro” na arte de praticar mutretas. Em 2001, o então senador Arruda foi denunciado por violar o painel do Senado durante o processo de cassação de Luiz Estevão que acabou sendo cassado. Para não ser cassado também, o esperto Arruda renunciou ao seu mandato. Como o eleitor brasileiro não tem memória e em muitos casos é conivente com maracutaias eleitorais, em 2006 o velho Arruda de guerra foi eleito governador de Brasília.

Parece que tudo ia bem para o Arruda, até cruzar o seu caminho um ambicioso e próximo servidor atolado em denúncias de corrupção. Tratava-se de um ex-policial que não tinha perdido a mania de bisbilhotar e gravar conversas alheias. Como a velha história de que “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, o servidor contraventor, para a atenuar suas próprias faltas, utilizou-se da nova moda de premiação delatada e detonou o seu chefe superior.

O que se viu foi um despudor fora do comum, contrariando a máxima de que corrupção não passa recibo, prática usual que tem permitido prevalecer a impunidade. Este funcionário corrupto gravou todas essas transações espúrias e as escancarou em todos os meios de comunicação. Foram cenas explícitas de corrupção, com milhares de reais escondidos em bolsos, em bolsas e, inclusive, em meias. Isso, se já não bastasse a moda da cueca recheada de dólares. Esse dinheiro era uma espécie de mensalão que servia para comprar parlamentares da Câmara Distrital de Brasília, claro, também corruptos. Por isso, Arruda foi preso e tornou-se um fato inédito na política brasileira. Seu vice, Paulo Otávio, renunciou e pelo menos 8 deputados estão na mira da polícia.

A podridão da compra e venda de influências, cargos e etc..., que contaminou vários setores da sociedade, não é privilégio do Distrito Federal. Ela está disseminada em todos os cantos do país, atingindo seus redutos mais remotos. Assim, o enriquecimento ilícito neste país não é novidade para ninguém e significa, infelizmente, sinal de esperteza. Creio que a cadeia não foi feita para esses espertalhões, mas para os miseráveis que roubam uma banana ou uma galinha para saciar a fome.

Pelos exemplos ocorridos pelo Brasil afora, o governador Arruda deve escapar da prisão. Basta lembrar o juiz corrupto conhecido por Lalau, de São Paulo, que fez uma farra com dinheiro público na construção do Tribunal da Justiça do Trabalho na capital paulista. Ou ainda a impunidade que prevaleceu nos mensalões anteriores, no dinheiro escondido na cueca, no dinheiro transportado em malas e maletas. Até agora, nada aconteceu com esses vigaristas, que continuam a iludir os eleitores com discursos de falso moralismo.

A atuação da justiça e da polícia combatendo em Brasília a corrupção dos tubarões (expressão em desuso atualmente), bem que poderia ser repetida em outros estados do país. Seria um belo exemplo para coibir este câncer que vem maculando a nossa política, disseminado pelas instituições no Brasil.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 07 de março de 2010.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Um marco histórico na fronteira oeste (*)

A presença do Forte de Coimbra em Mato Grosso do Sul representa um dos mais importantes marcos para o desenvolvimento histórico da nossa fronteira oeste.

Fundado na margem direita do rio Paraguai, por orientação do capitão-general Luiz de Albuquerque em 1775, teve de início um grande tropeço. A orientação era fundá-lo num estratégico local conhecido dos portugueses, chamado Fecho dos Morros. Por um erro do encarregado desta tarefa, capitão Matias Ribeiro da Costa, as suas paliçadas foram construídas 44 léguas antes, numa região que lembrava o Fecho dos Morros. Como era de se esperar, Matias Ribeiro entrou numa fria e perpetuou-se na história como o primeiro servidor público demitido por incompetência.

Desde o início, os militares conviveram com civis e seus familiares, partindo da premissa que, além de objetivos defensivos, as autoridades desejavam também o estabelecimento de assentamentos coloniais nesta região lindeira. Portanto, a convivência de militares e civis no forte de Coimbra data desde os primeiros tempos. Dois anos depois de sua fundação, as suas toscas paliçadas e os alojamentos cobertos de palhas de acuri foram consumidos por um incêndio. Este foi um dos muitos dissabores na história do velho forte.

Em 1778, um fato inusitado aconteceu com o massacre de 54 soldados pelos índios guaicuru (segundo um acordo entre os antropólogos usa-se a terminologia no singular quando se refere a tribo ou nação). Usando como isca as suas próprias mulheres, os índios conseguiram atrair para fora das paliçadas os soldados que, envolvidos pelas formosas índias, foram mortos a pauladas. Assim, marcados pelo abandono e isolamento, os soldados não resistiram ao encanto feminino e, literalmente, perderam a cabeça.

Em fins do século XVIII, assume o comando do forte Ricardo Franco com o projeto da construção das muralhas, agora de pedra. Por esta época, o velho forte não ficou imune aos conflitos coloniais das nações européias, o que levou o governador do Paraguai, Lázaro de Ribera, a subir o rio Paraguai com uma frota para atacá-lo, enquanto ainda existiam as velhas paliçadas. Ricardo Franco tinha sob seu comando 49 praças e, mais uma vez, 60 civis para a sua defesa e, mesmo assim, conseguiu segurar Lázaro de Ribeira que atacou o forte com uma grande força.

Bem mais tarde, em 27 de dezembro de 1864, novamente o forte foi colocado à prova com o ataque dos paraguaios. Estava no comando o tenente-coronel Hermenegildo de Albuquerque Portocarrero com uma guarnição de 115 soldados e um grupo de índios e civis. Após a resistência inicial, não restou a Portocarrero senão a retirada de todos os defensores do forte para Corumbá. Estava se iniciando a trágica guerra entre o Paraguai e a Tríplice Aliança.

Este resgate reforça a idéia de que a aplicação no entorno do forte de Coimbra da legislação federal, que prevê a desocupação de terras da União, vai de encontro às próprias raízes históricas da região. A primeira idéia foi transferir 75 famílias de civis ali residentes para uma região urbana de Corumbá. Seria quebrar a convivência secular de militares e civis que, unidos, lutaram e resistiram em defesa dessa região fronteiriça.

Parece, no entanto, que prevaleceu o bom senso e vai ser mantida no local essa população civil. Afinal, a existência de população nessa região é, de certa forma, uma garantia a reforçar os direitos do país em faixa de fronteira que já foi questionada um dia, a despeito de tratados e acordos internacionais. Essas questões fronteiriças ainda são muito delicadas em toda a América Latina, haja vista o que vem ocorrendo entre a Venezuela e a Colômbia. De qualquer forma as fronteiras são focos permanentes de tensão. E todo cuidado é pouco.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 28 de fevereiro de 2010.

A vida difícil da "arraia miúda" (*)

Na Revolução Francesa, no século XVIII, uma população pobre e marginalizada da sociedade, como trabalhadores braçais, desempregados, prostitutas, mendigos, facilmente manipulados por líderes políticos da época, eram conhecidos como os sans culottes (os sem-calças). Era uma massa desorganizada que agia conforme interesses imediatos e vendia seu apoio a quem lhes oferecesse algumas migalhas. Teria sido aos sans cullotes que Maria Antonieta sugeriu que, na falta de pão, comessem brioches. Mas essa é uma outra história.... por sinal, mal contada. Esses miseráveis, de fato, dirigiram sua fúria e seu ódio à nobreza privilegiada na sociedade francesa da época, derrubando a famosa Bastilha e atacando o palácio de Versalhes, no início da Revolução de 1789.

No século XIX, Marx que se dedicou ao estudo do capital e da sociedade de classes, explicou que uma determinada camada da sociedade não se enquadrava na categoria de classe social e a chamou de lúmpen proletariado. Eram pessoas pertencentes à massa da população marginalizada e pobre que vivia na órbita dos grandes centros urbanos e industriais. Não tinham qualificação profissional e viviam de pequenos e ocasionais serviços, incluindo atividades clandestinas ou aquelas que ninguém fazia (faxineiros, limpadores de fossas e de chaminés, prostitutas, carregadores e outros).

Essa categoria não tinha condições de participar ou desempenhar um papel decisivo na luta de classes e no processo revolucionário de transformação da sociedade.

Conforme Marx, a verdadeira revolução devia ser conduzida pela classe trabalhadora. O lumpesinato, por sua vez, servia, do ponto de vista político, à manobra das lideranças revolucionárias, e oportunistas em muitos casos, e estava sempre pronta a sair às ruas com objetivos também oportunistas para obter benefícios próprios e imediatos. O “partido” que tomava não dependia de coerência ou de ideologia própria, tanto fazia estar do lado dos trabalhadores quanto dos patrões. As teorias de Marx são ainda aceitas por uns, contestadas por outros, mas a sua descrição dessa sociedade marginal é válida até os dias de hoje.

Ainda no século XIX, no período regencial da monarquia brasileira, tornou-se comum encontrar em documentos oficiais a referência a esta população marginalizada e envolvida em manifestações nativistas como grupo de desordeiros, chamados de arraia miúda.

Para a manutenção da política conservadora imperial a grande carga da repressão recaiu sobre essa camada de população. Na província de Mato Grosso, por exemplo, no movimento revolucionário de 1834, quando os nativistas tomaram por três meses o poder, os documentos oficiais foram recheados com essa expressão. Eram soldados subalternos envolvidos em insubordinações, pequenos artesãos, empregados domésticos, desempregados, prostitutas, mendigos e miseráveis de modo em geral. Historicamente, foi sobre eles que se dirigiu a repressão mais brutal do poder constituído.

Os tempos mudaram, e esses episódios e personagens históricos fazem parte dos livros de história, mas que devem ser lidos e analisados para que se tenha uma clara compreensão da sociedade que temos em pleno século XXI.

Hoje existe também uma enorme camada de população pobre e desprotegida, desqualificada profissionalmente, excluída da maioria das políticas públicas mais fundamentais, mas que não pode ser incluída nas categorias explicativas acima. Classificada arbitrariamente como classes D e E, agregam os trabalhadores do mercado informal, os desempregados, moradores de rua, e muitos outros excluídos. Entretanto, essa população é vista com olhos de cobiça em épocas eleitorais, sobretudo porque votam. E, deve ser por isso que existe atualmente um programa chamado Bolsa Família, que a princípio foi pensado para atenuar a pobreza extrema dessa gente.

Permito-me tirar do baú da história a expressão arraia miúda, para definir essa categoria social e entendo que os exemplos estão bem próximos de nós, aqui em Mato Grosso do Sul.

Quando foi privatizada a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, todas as preocupações voltaram-se para a situação aflitiva e delicada dos ferroviários. Mas ninguém se atentou para um volume de pessoas, e de suas famílias, que ficaram “a ver navios ou trens” neste triste episódio.

Foram os carregadores de malas, os vendedores de jornais e revistas, garçons dos bares da estação e dos carros restaurantes, vendedores de chipa e de peixe frito. Enfim, todos os que viviam e se sustentavam gravitando ao redor das estações de trem e da ferrovia.

O que aconteceu com eles?

Quando houve a transferência da tradicional e histórica feira livre para o pátio da ferrovia, não se levou em consideração a quantidade de pessoas que ficaram sem trabalho que gravitavam ao seu redor. Com certeza, muitos não se enquadraram no espaço da nova feira central.

Agora, leio e ouço falar das novidades da nova e moderna Estação Rodoviária de Campo Grande. Concordo que a capital já estava merecendo um melhoramento deste tipo. Mas o que fazer com o desemprego provocado com a mudança do terminal interestadual? São carregadores, maleiros, jornaleiros, garçons, empregados das pequenas lojas e até trabalhadores informais, como vendedores de chipa, de relógios e bugigangas de ocasião, de salgadinhos, garrafas e copinhos de água, etc. Como vão ficar essas famílias? Penso que medidas administrativas e políticas tão necessárias para a modernização da cidade não podem acontecer sem considerar a situação dessa população, a arraia miúda local e desamparada.

Ouço ainda outras medidas de modernização como a transferência do camelódromo (parece que o prefeito voltou atrás); a extinção da “Pedra”, local de venda de carros usados (não vou discutir suas origens e legalidades); a retirada dos carrinhos de lanche da av. Afonso Pena; e, mais recentemente, a retirada de vendedores de coco próximos do Parque das Nações Indígenas. Parece que vai aumentar o contingente de desempregados na cidade e seus problemas serão varridos para debaixo do tapete. A não ser que algum candidato se lembre deles, pelo menos durante alguns poucos meses, neste ano. Ôôôô vida difícil.....

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 21 de fevereiro de 2010.