terça-feira, 5 de maio de 2009

E para beber, não vai nada? (*)

Os marxistas repetiram por décadas que o “capitalismo gera os germens de sua própria destruição”. Muitos acreditaram nesta máxima e, inclusive, morreram por ela. Outros menosprezam essa análise e acreditam na perenidade e na vitória final do capital. Entretanto, a capacidade do sistema de auto-preservar-se e de driblar as suas crises e depressões tem sido, historicamente, surpreendentes. A cada uma dessas crises, novos artifícios e mecanismos são criados, e o capitalismo prossegue o seu caminho, para a alegria dos espertalhões e a miséria de uma grande massa de espoliados.

Uma estratégia muito eficiente dos países capitalistas mais desenvolvidos tem sido transferir suas crises, exportando-as para as economia de países dependentes, pobres e subdesenvolvidos, que ficam com o ônus maior destes desequilíbrios em suas economias. São países da Ásia, África e América do Sul que pagam o preço desta política, retardando o crescimento e sustentando a má qualidade de vida de suas populações, reproduzindo miséria, fome e atraso tecnológico. Isso sem falar das dezenas de guerras locais e guerrilhas em países miseráveis e subdesenvolvidos, que fazem a alegria da indústria armamentista internacional.

O mês de setembro do ano passado começou a desenhar uma quebradeira financeira sem precedentes nas últimas décadas atingindo o coração do sistema capitalista vigente: as bolsas de valores e os bancos, coqueluche do mercado financeiro. Após um período de farra de negócios e irresponsabilidades, veio o tsunami econômico. Falências e quebras de grandes bancos e empresas outrora sólidas afetaram imediatamente os trabalhadores desses setores atingidos, provocando um assustador desemprego, que se alastra indistintamente pelo mundo afora.

Tudo isso começou na maior potência do mundo, os EUA, com falcatruas no seu mercado imobiliário e as famosas “pirâmides” (correntes) financeiras. Mesmo sendo subestimada de início, a crise espalhou-se rapidamente como um rastilho de fogo em palha seca, levando a tragédia aos países e populações mais pobres.

O que chama a atenção neste sistema perverso, é que quando as grandes riquezas eram acumuladas ou nasciam empresas milionárias da noite para o dia no mercado mundial, não se pensou em nenhum momento em redistribuir entre os trabalhadores os lucros fabulosos e dividendos espetaculares obtidos em operações nas bolsas de valores.

Agora, uma solução milagrosa veio à tona para minorar as consequências da crise. A brilhante idéia é “socializar” as perdas financeiras para evitar demissões dos trabalhadores e salvar a economia. E quem vai pagar o pato é o trabalhador de salário mensal e carteira assinada.

Um “acordo”, do tipo “corda-e-pescoço” começou a ser feito entre o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e a empresa Valeo, do município de Santo André, já aprovado pelos trabalhadores temerosos do fantasma do desemprego. Assim, 400 operários desta empresa, em assembléia e votação aberta, concordaram não só em reduzir a jornada de trabalho, como seus próprios salários. Este acordo resultou em reduzir a jornada em 18,9 % e 15 % os salários, por 90 dias, prazo a ser prorrogável e, de quebra, a “generosidade” de manter a estabilidade por 135 dias. Pobres trabalhadores! A incerteza do futuro levou-os a abrir mão das garantias trabalhistas existentes desde o governo de Getúlio Vargas. Este foi o primeiro acordo desta natureza e, com certeza, não será o último.

Estas incertezas e propostas indecentes também caminham a passos largos em Mato Grosso do Sul. O mesmo tipo de acordo já está sendo debatido na Federação das Indústrias de MS. Segundo informações da imprensa, a proposta está girando em torno de 25 % da redução da jornada de trabalho e, pasmem!, o mesmo índice para os salários, apresentadas ao Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Alimentação de Campo Grande e Região. Levando-se em consideração que somente no mês passado ocorreu a demissão de 15 mil trabalhadores no estado, as perspectivas não se apresentam nada boas para a região sul-mato-grossense.

Na verdade essa situação de crise profunda e cruel, que já atingiu o país, está muito longe da “marolinha” do discurso do presidente Lula. Vejam como a história não perdoa: o presidente está hoje muito longe do líder sindical, que em São Bernardo comandou a grande greve dos metalúrgicos pelas melhorias de suas condições de vida e de trabalho, ainda em épocas terríveis de ditadura militar.

Quem diria...... Agora, em nome de uma grande estratégia para passar de leve pela turbulência e quebradeira financeira, um verdadeiro tsunami que está varrendo para o ralo um número significativo e ainda desconhecido de grandes, médias e pequenas empresas e negócios, surgem os “gênios” economistas a corroborar as previsões lulistas, com a sutil (e indecorosa) proposta para que os empresários entrem com a corda e os trabalhadores com o pescoço, para não dizer outra coisa. E para beber...?

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 15 de fevereiro de 2009.

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