segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Uma nova trapalhada em ano eleitoral (*)

Depois de todo o esforço do presidente Lula em aplainar o caminho eleitoral para a sua candidata Dilma Rousseff, o próprio governo atira lenha numa indesejável fogueira com o decreto assinado em fins do ano passado, o já famoso 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, com proposta de revisão da Lei da Anistia e da criação da Comissão Nacional da Verdade. O engraçado, pra variar, é que o presidente declarou ter assinado o documento sem lê-lo. Foi o que bastou para rotular o programa de revanchismo e manifestações de contrariedade dos militares capitaneados pelo ministro civil da Defesa, Nelson Jobim.

Como está se vendo, o esclarecimento dos crimes cometidos pela ditadura em nome da defesa do Estado ainda provoca muita celeuma, preocupações e medo. Creio que tanto os familiares dos desaparecidos e mortos nessa época de dura repressão, como também a própria Nação, têm o direito de passar a limpo a sua própria história. Cedo ou tarde isso terá que acontecer.

O que causa espanto neste documento tão importante para a defesa dos direitos humanos foi o fato da inclusão de outros itens, quem sabe, mais adequados a outros programas, transformando-o numa vasta colcha de retalhos, provocando também reações negativas de outros segmentos da sociedade brasileira. Como “nunca antes nesse país”, o documento de 74 páginas atingiu no último ano de governo praticamente todos os setores, abraçando um leque que se estende da taxação das grandes fortunas, da descriminalização do aborto, do enquadramento dos planos de saúde, até, vejam bem, do financiamento público de campanhas eleitorais. Não deu outra e o dito documento conseguiu desagradar muita gente.

No entanto, o governo ainda não diz como colocar em prática esta gama de ações. Como é recorrente no governo em todo caso de crise, tudo se arrasta vagarosamente sem uma decisão definitiva. Em vista das reações negativas, que pipocam todos os dias nos jornais, o governo já começou a recuar por desejar que tais insatisfações não cheguem à porta da campanha presidencial da ministra Dilma. O recuo já começou, para contentar os militares, com a mudança no texto sobre as funções da Comissão Nacional da Verdade, que poderá torná-la inoperante.

Uma outra proposta, aliás, com um esquisito ranço autoritário, está no estabelecimento de critérios para acompanhar o conteúdo editorial dos veículos de comunicação, pontuando os comprometidos e os que ferem os direitos humanos. Esta proposta é, no mínimo, uma perigosa insanidade, pois existem outras maneiras de fiscalizar os desvios dos meios de comunicação.

Outro ponto nevrálgico, e que deixou a igreja de cabelo em pé, foi o apoio à descriminalização do aborto e à união civil entre pessoas do mesmo sexo, como também a garantia do direito de adoção por casais homoafetivos. Parece que a pronta reação da igreja, que não aceita sequer discutir o assunto, vai levar o velho Lula de sempre a recuar sobre essas inovadoras propostas e a comprar um belo barulho com essas minorias organizadas.

Também, este 3º Plano resolveu mexer no vespeiro das questões de terras. No caso da ocupação de terras por movimentos organizados, propõe a realização de audiências públicas antes do juiz decidir se concede uma liminar para reintegração de posse de uma fazenda invadida. Este tema, com certeza, vai pegar fogo e dar muitos “panos para a manga”.

Mas, se você pensou que era só isso, prepara-se porque tem mais. O Plano propõe ainda revogar nomes de militares da época da ditadura dados a ruas e logradouros, estimular a produção coletiva de alimentos e ervas medicinais em canteiros urbanos. E, isso é só o começo.

Mesmo assim, apesar de todas essas confusões e de possíveis reformulações, é preciso defender a praticidade deste projeto. Duela a quien duela.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 24 de janeiro de 2010.

Uma história mal contada (*)

Existe um velho ditado que diz: “quem bate esquece, mas quem apanha não esquece”. Muitos foram os momentos na história do Brasil em que governos autoritários foram mesclados de política e violência, contrariando o mito de uma história brasileira cordial. O autoritarismo sempre existiu e se praticou nos mais remotos pontos do país, nos estados, em grande parte, com a conivência federal. Por isso é que existe uma vasta bibliografia que estuda a violência política e, em toda ela mostra que a população é o lado mais fraco e sofrido.

Retomo, por exemplo, o governo de Arthur Bernardes (1924 – 1927) que exerceu todo o seu mandato com mão de ferro e em “estado de sítio”. Muitos, em especial operários, anarquistas, jornalistas e políticos de oposição, sofreram violências, torturas e morreram nas mãos de truculentos policiais. O que pouca gente sabe é que, por esta época, o governo federal montou um campo de concentração em Clevelândia, às margens do rio Oiapoque, onde foram levados presos os opositores do governo. A mortandade naquela insalubre região foi colocada debaixo do tapete da história, mas não foi esquecida pela preservação dos registros históricos. De Corumbá (MS), dois descendentes de italianos, filhos do antigo dono do jornal Tribuna, foram levados presos para aquela região onde um morreu, e outro encontrou o mesmo caminho, por ter contraído grave doença já no Rio de Janeiro, após longa e trágica fuga.

Na ditadura do Estado Novo, no governo de Getúlio Vargas, a polícia política comandada pelo mato-grossense Felinto Muller, não foi diferente. Como resultado, o resto de sua vida Felinto foi marcado e cobrado pela sua atuação no comando da polícia e pelos tristes acontecimentos dos porões da ditadura. Porém, foi graças ao seu apadrinhamento que jovens mato-grossenses puderam se formar em cursos superiores, como direito e medicina, no Rio de Janeiro.

Mais recente e ainda presente em nossas mentes está a ditadura militar de triste memória, que se manteve e sobreviveu graças a conivência e apoio do poder civil. Como tudo é possível na história brasileira, a transição da ditadura para a democracia foi feita (inclusive no comando do poder) por civis que foram aliados e que usufruíram dos benefícios daquele regime autoritário. Depois, veio a lei da Anistia que, apesar da mobilização nacional, foi aprovada em acordo com militares e políticos, condicionando que se colocasse uma pá de cal sobre o passado.

Mas, como esquecer tudo que aconteceu? Seria possível apagar da memória os corredores lúgubres e mal iluminados do Dops (Departamento de Organização Política Social), que funcionava num velho prédio, próximo da estação da Luz em São Paulo, hoje um centro cultural? Seria possível esquecer ainda os seus corredores, com portas que lembravam masmorras medievais, onde se ouviam gritos desesperados, mãos tremendo nas janelas internas quadriculadas com barras de ferro, vozes pedindo para informar às suas famílias que eles estavam ali ainda vivos? Acho muito difícil que qualquer forma de anistia apague essas cenas de horrores.

Tudo isso voltou à tona com o decreto do terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos assinado pelo presidente Lula no dia 21.12.2009. Este decreto prevê a elaboração de um projeto de lei que cria a Comissão Nacional da Verdade. Entre os objetivos desta comissão está investigar os crimes praticados pela ditadura, analisar a possível revogação de leis contrárias à garantia dos Direitos Humanos e também identificar e sinalizar locais públicos que serviram à repressão entre outros. Logo surgiu, como era de se esperar, a cizânia entre os membros do governo. De um lado, o ministro da Defesa Nelson Jobim e os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, e de outro, o ministro da Justiça Tarso Genro, o secretário de Direitos Humanos Paulo Vannuchi e a ministra da Casa Civil Dilma Rousseff. Como comumente faz em situação de crise, o presidente alegou que não tinha lido direito o que assinou e prometeu repensar o assunto.

Este apenas é o começo de uma grande confusão, pois este documento também contrariou a igreja, órgãos de imprensa, políticos entre outros. E pelo que a grande imprensa vem divulgando, parece mais uma grande salada mista e mal temperada que coloca no mesmo patamar questões de tortura, aborto, movimento sem-terra, direitos indígenas e etc...

Plano mal escrito ou história mal contada?

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 17 de janeiro de 2010.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Como se constrói uma oligarquia (*)

Esta “coisa” não é nova e esteve presente em todo o desenrolar da História do Brasil e seu auge, historicamente, aconteceu no período da chamada República Velha. Era o tempo do poder personalista dos coronéis, com seus compadres e afilhados que, junto de outros coronéis e clãs familiares exerciam com mão de ferro o poder oligárquico estadual. Sem contestação e sem piedade, esses coronéis controlaram a polícia, a máquina administrativa e os seus empregos em suas respectivas regiões.

O município era a base da política coronelista, de onde emanava todo o poderio dos coronéis, como explicou Victor Nunes Leal em seu clássico livro “Coronelismo, enxada e voto”. Motivados por interesses políticos e familiares, todos se uniam em torno do chefe mais poderoso, extrapolando os limites municipais e dominando uma vasta região correspondente aos territórios estaduais.

Essas oligarquias eram, portanto, formadas pelos “Donos do Poder”, de acordo com o vasto e também clássico livro de Raymundo Faoro.

Esta etapa histórica, marcada pelo patriarcalismo e pelas ações paternalistas como características comuns desse tipo de poder, aparentemente foi interrompida com a Revolução de 1930, com a vitória de Getúlio Vargas e a derrota das práticas políticas tradicionais dos coronéis, predominantes na velha República. A causa revolucionária soprava ventos de renovação na política brasileira. Mas o gérmen do poder local, tão bem estudado pela socióloga Maria Isaura Pereira de Queiróz em seu ensaio “O poder local na vida política brasileira”, manteve-se vivo, com novas roupagens sobre antigos métodos de domínio oligárquico, superando o centralismo de poder da ditadura do Estado Novo.

Hoje, depois de tanto tempo e apesar do avanço histórico das relações sociais, da modernização da sociedade e da globalização que permitem divulgar e interligar informações e notícias em tempo real, alguns “bolsões” brasileiros conservam o ranço dos velhos tempos. Refiro-me, especificamente, ao estado do Maranhão, mas sabe-se que essa situação pouco difere de outros estados brasileiros.

A história começou, de forma coincidente, em 1930, quando nasceu o menino com o nome de José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, aliás, nome totalmente desconhecido do público brasileiro. Usou, entretanto, um outro nome e foi um homem de sorte, político de longa carreira, chegou à presidência da república, foi ainda senador, presidente do senado e construiu um forte poder oligárquico, com enorme controle político e econômico, distribuindo favores e empregos públicos. Além disso, mediante métodos políticos à moda antiga, ainda consegue manter ao seu redor políticos de projeção nacional e grandes empresários. Alia suas atividades políticas com as literárias como escritor de inúmeros livros publicados e ocupa uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Para quem não ainda não adivinhou, refiro-me ao senador José Sarney.

A trajetória e a formação desta oligarquia maranhense, aliás maléfica para a democracia brasileira, pode ser acompanhada no livro recentemente publicado, “Honoráveis bandidos – um retrato do Brasil na era Sarney”, do escritor Palmério Dória.

Cheguei a acreditar que o livro provocasse uma batalha judicial contra o autor pelos personagens ali citados. E olha que são muitos. No entanto, o tempo está passando e até agora nada foi publicamente informado sobre alguma reação por parte desses personagens reais do livro de Dória. Como o autor fez uma exaustiva pesquisa em jornais e contou com depoimentos orais, penso estar funcionando o velho ditado: “quem cala, consente...”.

Sei não....

Creio ser o livro uma grande contribuição para a compreensão de como ainda é feita a política no Brasil. É surpreendente como sobrevivem as formas mais arcaicas e espúrias de praticar uma espécie de política que gera desigualdades, distorções e corrupção.

Desse modo, o livro de Dória merece ser lido e é, ao mesmo tempo, sugestivo para outros autores fazerem o mesmo em seus estados. Lamentavelmente, o fenômeno Sarney tem seus seguidores pelo Brasil afora.

Seria engraçado se não fosse trágico para todos os brasileiros e para as conquistas realmente democráticas que já alcançamos...

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 10 de janeiro de 2010.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Um fracasso anunciado (*)

O mês de dezembro marcou um triste espetáculo sobre o futuro da humanidade e jogou por terra a esperança da construção de um mundo melhor. Foi também um festival de egoísmo, prepotência e demonstração de força de alguns países. Tudo isso ocorreu na desunida conferência do clima de Copenhague. Milhares de ingênuos ecologistas, ongs, curiosos e espertalhões que embarcaram no “trem da alegria” em defesa do meio ambiente acharam que era possível influir nas decisões dos líderes governamentais de 192 países ali representados. Devo fazer uma correção a bem da verdade: os líderes que dominaram essa torre de babel não passaram de meia dúzia; a maioria dos representantes dos países fizeram apenas figuração.

O que parece ter sido uma piada de mau gosto foram as normas da ONU, que objetivavam tirar do evento uma decisão de consenso, o que no contexto real era impossível e sabido por todos. Isso, nem por milagre iria acontecer. Mesmo assim, criou-se uma grande expectativa para melhorar as condições climáticas a médio e a longo prazos de todo o planeta.

Depois de intermináveis discussões entre as representações governamentais que, é óbvio, não decidiam nada e também após lutas campais e repressões de policiais truculentos e “badalações mundanas” começaram a chegar os chamados líderes mundiais. Como era previsível, a festa azedou e muito. Tentou-se um golpe, como sempre para favorecer os países ricos, promovido pelos anfitriões dinamarqueses em conluio com os EUA, mas a imprensa, atenta e abelhuda, vazou o assunto antes da hora e o negócio desastroso foi arquivado.

Nesse mar de confusão e de interesses conflitantes, poucos foram os líderes que se sobressaíram, entre eles, com um bom discurso de improviso, o presidente Lula. Outro discurso que teve grande repercussão, mas em sentido contrário, foi o do presidente Barack Obama. Mostrou a força do seu poder mundial, com arrogância e norteou o resultado desastroso da conferência com um documento frágil, sem legitimidade por não ter sido resultado de consenso entre os países, apesar de alguns dados positivos. Lembrou os velhos tempos do expansionismo imperialista norteamericano, que ficou conhecido como o “big stick” (a política do grande porrete).

O que chama a atenção, segundo a imprensa internacional, é que este documento teve os “dedos” dos EUA, China, Índia, África do Sul e do Brasil. Assim, ficou claramente demonstrada, mais uma vez, a divisão de interesses entre os países mais ricos, incluindo os dois maiores poluidores do planeta, EUA, China e os chamados emergentes e, de outro, os pobres de sempre. A poluição vai persistir mas, com certeza, assim continua a caminhar a humanidade, como dizia o título de um velho filme de sucesso.

Como aconteceu na ocasião da escolha do Brasil para sede da copa do mundo de futebol em 2014, deu-se a prática costumeira de uma grande caravana acompanhar o presidente Lula em eventos de projeção internacional. A comitiva brasileira em Copenhague teve aproximadamente 800 assessores, brasileiros felizardos que, para todos os efeitos foram defender o meio-ambiente.

Só queria saber quem pagou mais esta conta....

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 03 de janeiro de 2010.

A preservação da memória coletiva (*)

Até que em fim uma boa notícia para quem defende a preservação da memória histórica de Mato Grosso do Sul.

No dia 3 p.p. foi liberado pelo Conselho Deliberativo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional o tombamento do complexo ferroviário da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Aliás, na verdade, o que restou da ação dos depredadores de colarinho branco que trataram com desconsideração uma das referências históricas mais importantes do estado. Até então esta memória ferroviária estava protegida por leis de tombamento municipal e estadual. Mesmo assim, este espaço corria riscos, como a idéia de “jerico” da construção em seu interior de uma grande arena para shows musicais. Com o tombamento, tudo estará definitivamente protegido.

É óbvio que somente isto não soluciona a sua preservação, pois vai ser preciso uma soma considerável de recursos para restaurar parte do que foi degradado desde a sua privatização. Não custa ressaltar que a privatização foi um dos maiores desatinos em nome da modernização do estado e os prejuízos provocados jamais serão recuperados. Uma bela história acompanhou a construção da cidadania sul-mato-grossense e foi jogada no lixo pela truculência dos governantes da época. E o que é pior, parecia pela maciça propaganda que os opositores à privatização, que varreu o país de norte a sul, eram contra os interesses nacionais. Pelo contrário, foi uma batalha perdida para os que realmente defendiam os interesses nacionais contra os verdadeiros entreguistas que, com uma política de “terra arrasada”, desnacionalizaram grandes e ricas empresas de vital importância econômica para o país.

Como é triste ver, ao longo dos trilhos que restaram, estações abandonadas à mercê de vândalos e de ladrões que se aproveitam da situação para roubar telhas, telhados, móveis, tijolos. É uma pena não preservar uma história construída desde os primeiros tempos do século XX, de muitos sacrifícios e de muitas históricas alegres e românticas. Por tudo isso, é preciso entender que o tombamento do IPHAN de parte da ferrovia, por circunscrevê-lo somente à estação central de Campo Grande e ao seu entorno, não soluciona o problema do extenso patrimônio de toda a ferrovia. Entendo ser preciso continuar a campanha para que toda a NOB seja preservada pela legislação do tombamento e não se pode iludir tolamente com o pouco que está sendo feito, sem correr o risco de ir de encontro aos que os espertos chamam de “politicamente correto”.

Também defendo de forma intransigente a existência de uma política estadual de tombamento de bens histórico-culturais e que possa assessorar a prefeituras na conscientização popular e na montagem de legislações municipais de preservação, em que Corumbá foi pioneira.

O casario do porto de Corumbá também foi beneficiado com o tombamento nacional do IPHAN, além do Forte de Coimbra e das grutas de Bonito.

Como um estado com fortes raízes históricas, seus pioneiros também deixaram marcas arquitetônicas que devem ser preservadas, a exemplo de Porto Murtinho, Bela Vista, Nioaque, Miranda, Aquidauana e Anastácio. Nesta última cidade existe um conjunto único onde funcionou, e ainda funciona, a histórica Casa Cândia. Não se pode entender a história política e econômica das cidades gêmeas, Aquidauana-Anastácio, sem passar pelas portas da Casa Cândia que, com outros prédios, são preocupações dos preservacionistas da prefeitura municipal.

Como a palavra “tombamento” ainda provoca arrepios em certos proprietários que imaginam perder seus direito de propriedade, creio ser sensato, além de uma política de esclarecimentos e de debates públicos, a inclusão na legislação de contrapartidas como abatimento de IPTU e outros impostos. Cada imóvel tombado também necessita de um projeto de uso sem a perda de suas características históricas e o máximo de sua originalidade, pois preservação não significa imobilização. Seria um bom começo.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 27 de dezembro de 2009.

Assim a vaca vai pro brejo (*)

A escolha da cidade histórica de Copenhague para a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática levou a população mundial, pelas facilidades permitidas pela globalização dos meios de comunicação, a interar-se do grave problema dos desastres climáticos. São cenários apavorantes visualizados para o futuro: enchentes, secas, degelo polar, aumento do nível dos oceanos, ilhas e pequenos paises desaparecendo debaixo d água. Parece até o “fim do mundo” bíblico. A coisa é séria e os responsáveis são bem conhecidos.

A resposta é simples, pois os maiores culpados pelo desastre da natureza são os países ricos e industrializados que movidos pela ganância e pelo controle de poder estão destruindo o nosso planeta. Antes tarde do que nunca, busca-se uma solução em Copenhague onde estão reunidos representantes de 192 países além de uma multidão de pessoas não convidadas que fazem um barulho danado pelas ruas da velha cidade, enfrentam a polícia e, apesar da doce ilusão, não influenciam em absolutamente nada nas decisões dos governantes.

Isso faz lembrar o velho Congresso de Viena de 1815, uma reunião realizada nessa mesma cidade para refazer o mapa europeu após as guerras napoleônicas. Em tese, todos os atingidos pelo expansionismo napoleônico estavam envolvidos, fossem nações, povos, tribos, clãs familiares e demais atingidos. Mas, o que se viu foi o controle dos grandes países que manobraram as decisões em benefício próprio e em detrimento dos pequenos.

Creio que em Copenhague não será diferente. Basta relembrar o Protocolo de Kyoto, de 1997, que pretendia, ou melhor, exigia que os países industrializados reduzissem em 5,2 suas emissões de gases de carbono, ou seja, de gases estufa na atmosfera, em relação aos níveis de 1990. Sabe o que aconteceu? Os EUA da era Bush recusaram-se a ratificá-lo com a alegação hipócrita de que seria danoso à economia norteamericana, sem levar em conta que o país, na época, era responsável por 36,15 % da emissão do gás estufa em todo o planeta.

Desse modo os países ricos querem dividir os prejuízos com os chamados países emergentes (na época da “guerra fria” eram chamados de países em vias de desenvolvimento). Como era de se esperar, o Brasil está na alça da mira, pelo preço de sonhar em viver no mesmo plano que as nações ricas e poderosas. E parece mesmo, pois levou para Copenhague uma “pequena” comitiva de aproximadamente 800 pessoas. Os gastos podem ser imaginados por qualquer cidadão que paga seus impostos e não é sem razão que um canal de televisão acompanha um “impostódromo”, demonstrando que o país já arrecadou mais de um trilhão em impostos neste ano.

Esse encontro serviu também para mostrar um fato, relativo ao efeito estufa, no mínimo inusitado. Um estudo lá apresentado, produzido por pesquisadores da Universidade de Brasília, chegou à conclusão que somente a pecuária é responsável por 50% do gás estufa emitido no Brasil. Nisso está incluído o desmatamento para a formação de pastos e as queimadas provocadas para a renovação do capim. Nessa composição desastrada, que parece cômica se não fosse trágica, está a fermentação intestinal bovina que produz quantidades surpreendentes de gás metano, um dos gases de maior efeito negativo sobre o aquecimento global. Em recente jornal televisivo, a Globo, por autocensura afirmou que eram os “arrotos” dos bois. Não é não. São os fétidos “puns” dos bois. O que me assusta é que só no Pantanal existe mais de 20 milhões de cabeças de gado, produzindo gases fedidos e, por conseqüência natural e fisiológica, muita matéria fecal.

Mas creio que não preciso ficar preocupado, pois o presidente Lula já está falando abertamente na merda, só não sei se é de boi ou de gente mesmo. Por isso não me surpreendi em ler nos jornais de todo o país, que no dia 10 de dezembro passado, na assinatura de contratos do programa Minha Casa, Minha Vida, no Maranhão, o presidente disse em seu discurso: “Eu quero é saber se o povo está na merda e eu quero tirar o povo da merda em que ele se encontra”.

Digamos que a primeira parte ele acertou, posto que disse o que todo mundo sabe. Já a segunda ..., sem comentários!

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 20 de dezembro de 2009.

A perigosa vulgarização da imagem (*)

O gaúcho Getúlio Vargas que assumiu o governo da República com a Revolução de 1930, impôs anos mais tarde a ditadura do Estado Novo (1937-1945). Foi um ditador contraditório, maquiavélico, contrapondo de um lado como um político bonachão e simpático e de outro, enchendo as masmorras com opositores e com uma polícia habituada a utilização de práticas de tortura. Baixinho, com uma imensa barriga e fumando um enorme charuto que alternava com largo sorriso, Vargas estabeleceu toda uma legislação em benefício dos trabalhadores, ficando assim chamado de “pai dos pobres”.

Sem contar com recursos modernos de propaganda e marketing, Vargas soube usar com maestria sua imagem em benefício próprio, tanto que após quatro anos da queda do seu governo ditatorial, voltou à presidência pelos braços do povo. A violência do Estado Novo não foi suficiente para impedir a sua vitória.

De fato, foi um político populista que sabia manipular como ninguém as massas populares através do DIP (Departamento de Imprensa de Propaganda). Reunia, por exemplo, em espetáculos circenses, milhares de trabalhadores na comemoração de 1º de Maio no estádio do Vasco da Gama, distribuía fotos e simpáticos bonequinhos brancos com sua imagem. Apesar da ferrenha censura imposta, também permitia a divulgação de paródias e piadas especialmente musicadas pela dupla caipira Alvarenga e Ranchinho. Chegava a ponto de convidá-los para shows no próprio palácio do Catete, onde dava boas gargalhadas. Teve, porém, um fim trágico ceifando a sua vida com um tiro. Depois de Vargas, muitos políticos usaram, de forma populista, uma imagem popular como forma de projeção política e eleitoral, entre eles Adhemar de Barros e Jânio Quadros.

Agora, no atual estágio de modernização tecnológica e de globalização, com acesso facilitado pela multimídia, o presidente Lula tem sabido utilizar a sua imagem com maestria. Longe dos tempos de combativo líder sindical e da criação de um partido que propunha um ideal de uma sociedade mais justa e solidária, o Lula de hoje pouco difere dos políticos que tanto combateu. Não passa um dia em que ele não aparece nos meios de comunicação dando as mais diversas opiniões, muitas delas de uma fragilidade espantosa. Mas parece ser uma prática que dá bons resultados, pois basta ver os altos índices de popularidade “nunca antes visto neste país”, apesar do risco da vulgarização de sua imagem. Para quem acreditou e já votou nele, não deixa de ser uma situação de alto risco.

Tempo atrás, uma emissora de rádio européia transmitiu uma longa entrevista com o presidente, falando dos mais diversos assuntos de interesses internacionais. Dias depois, descobriu-se que era um gaiato fazendo-se passar pelo presidente. Que eu saiba não aconteceu nada com este irresponsável falsário, que poderia ter provocado um constrangimento internacional para o país. Dias atrás, o presidente e sua candidata Dilma Roussef foram envolvidos numa propaganda sobre papel higiênico. Usando imitadores, uma agência de propaganda simulou uma cena, é claro, de banheiro, para vender o papel Neve. Também não houve uma resposta firme do Palácio do Planalto para tão descabida propaganda. Além disso, em discurso recente Lula falou palavrões, sem o menor pejo.

Entretanto, não creio que esta é a melhor forma de reforçar a popularidade do presidente. Acresce à minha perplexidade o lançamento do filme “Lula, o filho do Brasil”, de Fábio Barreto, que usou a prática corriqueira da bajulação, para arrecadação financeira, aliás, filme financiado por empreiteiras que tem relações empresariais com o próprio governo. Ainda não o assisti, mas pelo que diz a imprensa, é um filme direcionado para fins eleitorais. A criação do mito, na história da humanidade, nem sempre acaba bem. Apesar dos elogios fáceis dos áulicos, creio que está na hora de retornar aos caminhos da sensatez.

Finalmente, levei um susto ao ler uma matéria assinada pelo ex-preso político e ex-petista César Benjamin (Folha de S. Paulo, 28.11.09) que relatou uma conversa que teve com Lula, em 1994, em que este afirmou ter tentado “subjugar” sexualmente um colega de cela. Fica a pergunta, porque somente agora, depois de tanto tempo, esta conversa simplesmente inacreditável veio a público? É um assunto escabroso que não pode ser varrido para debaixo do tapete. O que está em jogo é a imagem do presidente da república e não pode ficar sem uma resposta rápida e enérgica, sob pena de permanecer uma mancha nesta terrível história.

Os homens passam, mas a história julga e, se preciso, condena. Assim, os mitos são desmascarados.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 13 de dezembro de 2009.