domingo, 31 de maio de 2009

Um desastre anunciado (*)

Em 16 de agosto do ano passado, nesta coluna (que espero que continue a ser lida por muita gente), fiz uma análise das nuvens negras que encobriam a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, sob o título “Uma Universidade na Linha de Tiro”. À época, a Assembléia Legislativa estava discutindo a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que determinava os gastos públicos para 2009. Foi quando aflorou na mídia estadual a situação de risco sobre o futuro acadêmico da UEMS.

Desde a sua criação, esta universidade estadual sempre esteve a mercê de interesses políticos, chegando a ponto de, num certo momento, se falar até em seu fechamento. Porém, considerada um patrimônio dos sul-mato-grossenses, muitas vozes se levaram em sua defesa, e esta idéia estapafúrdia caiu no esquecimento. Em contrapartida, os legisladores em sua defesa estabeleceram na LDO a exigência de um percentual de gastos vinculado à arrecadação estadual, permitindo não somente a sua manutenção como também possibilidades de expansão.

No entanto, “na calada da noite” como dizia um velho político corumbaense, na proposta orçamentária então discutida na Assembléia Legislativa, não foi incluída nenhuma rubrica de gastos obrigatórios para a Universidade Estadual. Esta omissão, que poderia ser corrigida pelos deputados, passou tranqüilamente pela Comissão de Constituição, Justiça e Redação, aliás, o fórum adequado para solucionar a situação, e a LDO foi aprovada. Como era de se esperar, um novo calvário estava à espreita da UEMS.

Decorrido 9 meses após aqueles acontecimentos, novamente a situação aflitiva da UEMS aparece nas páginas dos jornais. Contando com 8 mil alunos e atingindo a sua abrangência em 15 municípios, esta universidade assumiu um papel social altamente significativo para as comunidades do interior. Dos 20 cursos em pleno funcionamento, alguns podem fechar por falta de recursos. A expectativa de retração do atual estágio de desenvolvimento da UEMS traz como consequência uma intraquilidade generalizada para os pais, filhos e, principalmente, para docentes que, mesmo concursados, temem o espectro do desemprego. É preciso, isso sim, uma mobilização da sociedade sul-mato-grossense para que não haja mais prejuízos ao ensino universitário estadual e à educação de modo geral.

Porém, como penso que bom senso neste momento é “caldo de galinha”, que não faz mal a ninguém, este impasse financeiro provocado por esta distorção política vai provocar uma saudável discussão sobre os rumos que deve seguir a UEMS, para um lado ou para outro. Como a educação deve estar em continuado processo de expansão e transformação, é obvio, que as instituições não devem permanecer imutáveis. E, portanto, está na hora de redefinir o papel e os destinos desta Instituição Superior sem, contudo, descaracteriza-la.

Por fim, uma Universidade não significa apenas formação em nível superior. Além de capacitação técnica e profissional ela produz desenvolvimento através das atividades de ciência e inovação tecnológica. Se Mato Grosso do Sul quer se um estado forte, é preciso cuidar e expandir a UEMS para que ela seja a nossa USP ou nossa UNICAMP.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 31 de maio de 2009.

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