A conquista da fronteira oeste (Mato Grosso do Sul) foi uma aventura consolidada na ponta da espada e na fumaça das armas. Isso ultrapassou os períodos colonial e imperial, acentuando-se com a fase da guerra com o Paraguai. A República Velha e o início do Estado Novo também não foram diferentes. Foi uma história de lutas armadas quando se mesclaram interesses políticos e econômicos de coronéis rurais e um banditismo endêmico, também rural. Como se dizia nesses tempos, foi uma história em que predominou o “baraço e o cutelo”. Esta emocionante aventura, com certeza, seria pano de fundo para um belo ciclo cinematográfico brasileiro, como ocorreu com a ocupação do oeste nos Estados Unidos. Infelizmente, talvez por um preconceito cultural este “veio” de histórias não foi aproveitado. Burrice dos nossos cineastas, inclusive os regionais.
Pois bem! Estes fascinantes acontecimentos marcaram de forma incontestável a ocupação da fronteira, influenciou a sua história, seus costumes e as atividades culturais de toda uma geração de migrantes que participaram do processo de ocupação da região. A violência passou então a ser um elemento presente no cotidiano regional. Por isso, a arma de fogo foi um componente fundamental e primordial no vestuário deste homem fronteiriço. Os relatos da época registraram que este homem somente se completava se tivesse uma arma de fogo na cintura. Veja bem, podia andar sem sapatos ou sem botas, mas não ficava sem uma arma que representava, em última instância, a sua ostentação de poder e virilidade.
Foi um período de total impunidade, onde a tolerância à violência dos “coroneis”, dos revolucionários e do banditismo demonstrou, por outro lado, o quanto eram sutis os limites que separavam o crime e a transgressão das práticas políticas e da atuação repressiva das autoridades locais. Nesse sentido, as leis, os códigos morais da sociedade e a ação do governo estadual que pressupunha a manutenção da ordem, da segurança individual e da tranquilidade pública, adquiriram um alto nível de abstração e de relatividade.
Um exemplo, entre muitos, que merece ser registrado por sua curiosidade, foi noticiado no jornal O Progressista, de Campo Grande (15.6.1933), descrevendo um júri em Bela Vista. Neste júri foram julgados vários réus, em sua maioria por assassinato. Segundo o jornal, estavam soltos e hospedados nos hoteis da cidade e até mesmo em casas de autoridades locais. Conforme o mesmo jornal, “do hotel, em que se abrigou o referido juiz, era hospede um dos criminosos de morte, que ocupava um quarto contíguo ao do honrado magistrado e no mesmo salão e às mesmas horas faziam todas as refeições diárias”. Durante as sessões, muitos réus, por curiosidade, assistiam pelas janelas o que ocorria no recinto do júri. Finalizando a noticia, registravam que tanto os réus como jurados e expectadores traziam à cintura seus “inofensivos” revólveres. Em tal situação, não foi surpresa a absolvição de todos os acusados.
Em recente palestra na Academia Sul-mato-grossense de Letras, o ex-presidente da república, José Fragelli, relatou a sua vida profissional, ainda na juventude, exercendo o cargo de promotor na pequena cidade de Campo Grande. Em uma sessão de júri, estavam sendo julgados por assassinatos alguns membros do grupo dos famosos “Baianinhos”. Apesar de sua ação acusatória, e mesmo provando a culpabilidade dos crimes, todos foram absolvidos. Segundo Fragelli, ao acusar um deles do assassinato de 12 pessoas, o réu teve uma reação violenta e intempestiva, falando aos berros: “É mentira, não foram 12. Foram apenas 8!”.Ainda sob os sorrisos amarelos dos ouvintes, concluiu que era uma época onde prevalecia a impunidade.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 01 de fevereiro de 2009.
Nenhum comentário:
Postar um comentário