Sou leitor do jornal Correio do Estado, que compro todos os dias numa banca na avenida Mato Grosso, durante a minha caminhada matinal com meu amigo Barão, um cão da raça Dogo Argentino. Porém, isso não significa que eu concorde in totum com tudo que este jornal publica ou comenta. Pelo contrário, defendo com intransigência o meu direito de livre pensar e discernir, o que me permite o olhar crítico com que leio com avidez este tradicional jornal. É claro, menos a seção de palavras cruzadas. O mesmo ocorre com a Folha de S. Paulo, que também leio diariamente entre outras leituras.
Mas devo reconhecer a superação do Correio do Estado, no brilhante editorial do dia 14 de junho p.p., com o título singelo “A vez do professor”. Simples e direto como deve ser um jornal formador de opinião e que representa, em última instância, a opinião do próprio jornal. Creio que é, nos últimos tempos, uma das mais importantes análises sobre a angustiante situação de educação sul-mato-grossense (e também brasileira), que desnuda a política oficial da educação no plano regional e nacional.
Esta coluna, por vezes, já tem batido na mesma tecla abordada pelo jornal. A postura do Correio, neste caso, é uma visão política sobre a fragilidade da educação brasileira, que deve ser levada e discutida no âmbito dos professores, seja nas escolas, seja nos sindicatos representativos da categoria. Como nem todos professores tem acesso a este jornal (que para a maioria dos docentes seria um rombo em seu orçamento no final do mês), é o caso dos líderes classistas reproduzirem o recorte e distribuírem-no como pretexto para um amplo debate sobre os caminhos da educação escolar sul-mato-grossense.
O que fazer para provocar uma verdadeira revolução no processo educacional de Mato Grosso do Sul? E olha que não tenho pretensões de revolucionar a educação brasileira. Ficaria satisfeito se este movimento começasse aqui na “terrinha”. Seria um grande avanço.
O primeiro passo seria a realização de um grande debate estadual, com a participação de todos os segmentos da sociedade, com levantamento de problemas, dificuldades e avanços, estendendo-se da capital até o menor e o mais distante município do estado. Não estou me referindo à horrorosa palavra “diagnóstico” que não diz nada. Prefiro usar a palavra radiografia para ver o fundo do poço em que se encontra a educação, a cultura e a cidadania. Aí sim, pensar em alternativas.
Mas, muita coisa já está aflorando. Basta tomar a releitura do editorial acima referido que faz uma constatação através dos resultados do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), em que a escola estadual de Mato Grosso do Sul com melhor colocação ficou no lugar 3.227 depois da primeira colocada.
Será que vão pedir a mudança do nome do estado para resolver tão humilhante situação? Isso depois da propaganda da compra de grande quantidade de computadores, “vendidos” pelas autoridades como panacéia para solucionar o baixo nível da educação estadual. É claro que não, e a resposta está aí divulgada em âmbito nacional. Um vexame comparável à desqualificação de Campo Grande como subsede da Copa do Mundo.
O que as autoridades educacionais precisam entender é que computadores são apenas ferramentas a serem utilizadas por professores e alunos no processo educacional e não a solução para todos os males enfrentados pela escola.
A resposta está em priorizar o professor como peça fundamental no processo educacional. Ou seja, numa boa preparação continuada, com salários condignos acrescidos de estímulos financeiros a partir de resultados positivos obtidos pelos seus alunos. Este é só o começo. Depois, é mudar a percepção dos políticos e administradores, que sempre agem como se a educação fosse um estorvo para a administração e um incompreensível sorvedouro de dinheiro público. E, finalmente, criar a escola cidadã e não um depósito de crianças e jovens cujas famílias não dão conta de formar e amparar.
É preciso, portanto, pensar na escola e na educação como responsabilidades do estado e da sociedade. E, também, aceitar que uma sala bonita, cheia de computadores, com um professor insatisfeito, mal preparado e com salário aviltante nunca será uma escola. Se houver um barracão, com bancos e apenas uma lousa, mas com um professor bem capacitado, motivado, recebendo um salário digno e ainda com apoio das famílias de seus alunos, então você terá uma educação de verdade.
Valmir Batista Corrêa