segunda-feira, 22 de junho de 2009

Um editorial com destino certo (*)

Sou leitor do jornal Correio do Estado, que compro todos os dias numa banca na avenida Mato Grosso, durante a minha caminhada matinal com meu amigo Barão, um cão da raça Dogo Argentino. Porém, isso não significa que eu concorde in totum com tudo que este jornal publica ou comenta. Pelo contrário, defendo com intransigência o meu direito de livre pensar e discernir, o que me permite o olhar crítico com que leio com avidez este tradicional jornal. É claro, menos a seção de palavras cruzadas. O mesmo ocorre com a Folha de S. Paulo, que também leio diariamente entre outras leituras.

Mas devo reconhecer a superação do Correio do Estado, no brilhante editorial do dia 14 de junho p.p., com o título singelo “A vez do professor”. Simples e direto como deve ser um jornal formador de opinião e que representa, em última instância, a opinião do próprio jornal. Creio que é, nos últimos tempos, uma das mais importantes análises sobre a angustiante situação de educação sul-mato-grossense (e também brasileira), que desnuda a política oficial da educação no plano regional e nacional.

Esta coluna, por vezes, já tem batido na mesma tecla abordada pelo jornal. A postura do Correio, neste caso, é uma visão política sobre a fragilidade da educação brasileira, que deve ser levada e discutida no âmbito dos professores, seja nas escolas, seja nos sindicatos representativos da categoria. Como nem todos professores tem acesso a este jornal (que para a maioria dos docentes seria um rombo em seu orçamento no final do mês), é o caso dos líderes classistas reproduzirem o recorte e distribuírem-no como pretexto para um amplo debate sobre os caminhos da educação escolar sul-mato-grossense.

O que fazer para provocar uma verdadeira revolução no processo educacional de Mato Grosso do Sul? E olha que não tenho pretensões de revolucionar a educação brasileira. Ficaria satisfeito se este movimento começasse aqui na “terrinha”. Seria um grande avanço.

O primeiro passo seria a realização de um grande debate estadual, com a participação de todos os segmentos da sociedade, com levantamento de problemas, dificuldades e avanços, estendendo-se da capital até o menor e o mais distante município do estado. Não estou me referindo à horrorosa palavra “diagnóstico” que não diz nada. Prefiro usar a palavra radiografia para ver o fundo do poço em que se encontra a educação, a cultura e a cidadania. Aí sim, pensar em alternativas.

Mas, muita coisa já está aflorando. Basta tomar a releitura do editorial acima referido que faz uma constatação através dos resultados do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), em que a escola estadual de Mato Grosso do Sul com melhor colocação ficou no lugar 3.227 depois da primeira colocada.

Será que vão pedir a mudança do nome do estado para resolver tão humilhante situação? Isso depois da propaganda da compra de grande quantidade de computadores, “vendidos” pelas autoridades como panacéia para solucionar o baixo nível da educação estadual. É claro que não, e a resposta está aí divulgada em âmbito nacional. Um vexame comparável à desqualificação de Campo Grande como subsede da Copa do Mundo.

O que as autoridades educacionais precisam entender é que computadores são apenas ferramentas a serem utilizadas por professores e alunos no processo educacional e não a solução para todos os males enfrentados pela escola.

A resposta está em priorizar o professor como peça fundamental no processo educacional. Ou seja, numa boa preparação continuada, com salários condignos acrescidos de estímulos financeiros a partir de resultados positivos obtidos pelos seus alunos. Este é só o começo. Depois, é mudar a percepção dos políticos e administradores, que sempre agem como se a educação fosse um estorvo para a administração e um incompreensível sorvedouro de dinheiro público. E, finalmente, criar a escola cidadã e não um depósito de crianças e jovens cujas famílias não dão conta de formar e amparar.

É preciso, portanto, pensar na escola e na educação como responsabilidades do estado e da sociedade. E, também, aceitar que uma sala bonita, cheia de computadores, com um professor insatisfeito, mal preparado e com salário aviltante nunca será uma escola. Se houver um barracão, com bancos e apenas uma lousa, mas com um professor bem capacitado, motivado, recebendo um salário digno e ainda com apoio das famílias de seus alunos, então você terá uma educação de verdade.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 21 de junho de 2009.

Mudança de nome resolve nossas mazelas? (*)

O maior perigo para as pessoas de memória curta é a existência de pesquisadores que têm a mania de colecionar e arquivar recortes de jornais. Pois bem, eu sou um deles. Pego na minha biblioteca uma pasta com o título “Estado do Pantanal”, onde procuro ver se houve mudanças de pensamento das pessoas ditas formadoras de opinião. O risco é a constatação da existência de oportunistas de ocasião. Isto porque voltou à tona a discussão sobre a mudança do nome do estado.

Tudo para escamotear a frustração de Campo Grande de não ser escolhida como subsede da Copa do Mundo de futebol, ou mesmo, para desviar a atenção sobre a incompetência dos nossos políticos e dirigentes. Creio que esta discussão é pertinente e deve ser democraticamente ampliada para toda a população. No entanto, não deixa de lembrar a história daquele sujeito que, traído pela esposa em sua própria sala de visitas, põe fogo no sofá. A mudança do nome do estado, aprovado ou não, não apaga o vexame que passou o campo-grandense que, aliás, não pode ser responsabilizado pelos acontecimentos.

Mas voltando ao começo, este assunto surgiu na década de 90 do século passado. Foi no jornal O Palanque, de 14 de março de 1999 que apareceu a notícia “Zeca quer outro nome para MS”. O que deveria ser uma discussão saudável, transformou-se numa radicalizada intriga política-partidária. Volto a repetir: tenho uma imensa coleção de recortes de jornais sobre o assunto e acompanhei cada passo desse “imbróglio”.

Isso vale uma reflexão. A discussão perpassa por algumas questões, muitas de senso comum e às vezes equivocadas, que são escamoteadas ou mal resolvidas. Apesar de um longo amadurecimento do processo histórico sobre a tendência divisionista sulista, ainda faltam explicações sobre a construção de uma identidade para Mato Grosso do Sul. Além disso, é preciso superar a falsa idéia de Mato Grosso do Sul como um território sem história e sem cultura. Talvez, por isso, o nome do estado continua provocando confusões, por exemplo, a mídia nacional que só fala em Mato Grosso (situação que quase sempre beneficia o estado visinho), e passa uma imagem depreciativa para os próprios sul-mato-grossenses. No entanto, depois de tanto tempo da criação do estado, a responsabilidade desta confusão ainda persistente deve ser exclusivamente creditada aos seus dirigentes, políticos e empresários que não tiveram sensibilidade suficiente para solucionar o problema.

Acredito que diversos fatores podem ser elencados para explicar as inquietações levantadas acima, porém o principal concentra-se no âmbito educacional. É a falta de conhecimento da história da região, em especial, pelas dificuldades de acesso aos trabalhos historiográficos. Poucos conhecem os textos históricos, ditos clássicos, ou fontes documentais que falam da região, partir do século XVI. Outro pequeno grupo, dedicado ao conhecimento acadêmico, conhece e produz historiografia regional, mas não a multiplica pela existência diminuta de editoras, de distribuição ou de apoio institucional para melhor divulgação da história regional entre os professores da rede escolar.

Contudo nos meios culturais e na mídia regional, é recorrente em tempos alternados o surgimento da pergunta única e direta: por que o nome Mato Grosso do Sul? E ainda, é preciso mudar seu nome para criar uma nova imagem do estado, ou mesmo para resolver os graves problemas estruturais que ainda embala a vida sócio-econômica da região? E mais, nome foi uma reivindicação coletiva, ou uma imposição dos mandões de plantão e, é claro, com a submissão e conivência dos políticos oportunistas também de plantão?

Assim, mesmo sem muitas respostas, é preciso esclarecer que a mudança do nome por si só jamais resolverá os problemas do estado, que foi criado para ser um “estado modelo”, onde não faltaram recursos federais. E quem saiu bem nesta história, infelizmente, foi o estado visinho. O fato é que Mato Grosso do Sul caracterizou-se por uma gangorra política, religiosamente alternada entre grupos heterogêneos que se unem apenas em épocas eleitorais. Dessa forma, nesses mais de 20 anos de existência, em nosso estado não se formou um grupo político hegemônico, forte e capaz de levar adiante um projeto de longo prazo e capaz de definir um destino e um futuro de desenvolvimento sólido para Mato Grosso do Sul. Isto é mais importante que um novo nome.

E, como não existe o “se” em história, com certeza, não foi o nome que motivou a escolha de Cuiabá como uma das subsedes da Copa de 2014 e a exclusão de Campo Grande. Taí um assunto que ainda vai dar muito pano prá manga.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 14 de junho de 2009.

A batalha de Itararé (*)

A década de 20 do século passado ficou marcada por manifestações de rebeldia revolucionária dos militares brasileiros, conhecidas por “Tenentismo”, como uma reação à política e aos grupos dominantes no poder durante a República Velha. Começou com a revolta do Forte de Copacabana, em 1922 e, dois anos depois, com a Revolução Paulista, sempre com a vitória das forças legalistas do governo federal. Também em decorrência deste movimento revolucionário e, ainda, como reação à política brasileira, surgiu a histórica e emblemática Coluna Prestes, organizada a partir da divisa de Mato Grosso com São Paulo. Esta epopéia revolucionária, um feito que extrapolou os limites da história militar brasileira, percorreu por dois anos todo o interior brasileiro, encerrando esta aventura na região da lagoa Gaiva, do lado do território boliviano.

No entanto, foi a cisão da classe dominante em 1930 que pôs fim ao período da República Velha. Nas eleições presidenciais, Washington Luis então presidente da República, lançou como candidato oficial o paulista Julio Prestes, provocando uma cizânia política. Seus oponentes lançaram então o gaúcho Getúlio Vargas. Como era prática usual a manipulação eleitoral, o candidato oficial ganhou a eleição.

O inconformismo com esse processo eleitoral fez estourar a chamada Revolução de 1930, com tropas revolucionárias lideradas por Getúlio Vargas deslocando-se em direção à capital, Rio de Janeiro. Na cidade paulista de Itararé, as tropas que apoiavam Washington Luis posicionaram-se para bloquear o avanço das tropas gaúchas. A possibilidade de um grande confronto dominou o noticiário da imprensa nacional, que se referia a esse choque potencial como a Batalha de Itararé. A população local evadiu-se, houve escaramuças entre partidários dos dois lados e prédios e residências foram saqueados. Assim, esperava-se um grande combate, entretanto abortado com a rendição das tropas que apoiavam Washington Luis para os revolucionários. Desse modo, a Batalha de Itararé ficou conhecida como “a batalha que não houve”. E essa cidade do interior paulista carrega, até os dias de hoje, um estigma e um certo constrangimento pelo acontecimento inusitado, que virou piada na imprensa.

Guardadas as devidas proporções, a exclusão de Campo Grande como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, foi uma verdadeira “batalha que não houve”. Ainda não foram contabilizados as perdas e danos a médio e logo prazo com esta infeliz (para nós) decisão da Fifa.

Mas foi mesmo uma decisão da Fifa? Segundo o jornalista da Folha de São Paulo, Juca Kfouri, não foi mesmo. A responsabilidade coube exclusivamente ao presidente da CBF, o polêmico Ricardo Teixeira. Ou seja, aquela encenação da Fifa foi para “inglês ver”. Ou, com outras palavras, uma tremenda tapeação de cartas marcadas, pois Teixeira, antecipadamente, teria preferido Cuiabá.

Já que a justificativa principal para essa escolha foi uma proximidade com o Pantanal, é óbvio que a indicação deveria recair sobre Campo Grande. E se o critério de escolha aproximava-se de questões ecológicas, jamais poderia ter sido escolhido um estado cujo governador vem sendo apontado como um dos responsáveis pelo desmatamento desenfreado e recente do norte mato-grossense, a ponto de um programa de TV humorístico atribuir-lhe o troféu “Motosserra de Ouro”.

Nesta semana de ressaca dos campo-grandenses, o professor Hildebrando Campestrini escreveu um brilhante editorial no Correio do Estado (em 04\06) colocando os pingos nos iis da questão, e eu concordo com ele em número, gênero e grau. Houve despreparo, amadorismo e, sobretudo, desconhecimento da história de nossa região.

Assim, a desventura de Campo Grande pousou, sobretudo, na falta de força política e de planejamento de seus administradores trapalhões. Esse vexame deve servir, entretanto, de alerta para futuras empreitadas, sem amadorismos, sem equívocos, sem lobistas mal afamados, sem publicitários ultrapassados, sem modelos cinquentonas e sem jogadores de futebol aposentados. É uma pena, pois foi dinheiro público que escorreu pelo ralo e poderia ser melhor empregado, ainda que fosse apenas para promover as belezas da nossa cidade.

Por outro lado, a festa dos cuiabanos perdeu seu brilho com a resposta chula de seu prefeito, mandando Campo Grande “tchupar manga”. Isso não podia acontecer, mesmo que fosse um revide aos pronunciamentos infelizes do nosso governador.

Na verdade, perdemos mais um bom combate e Campo Grande ficou chupando o dedo... Além do mais, um espetáculo de baixarias políticas ninguém merece.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 6 de junho de 2009.