Nos anos 70 do século passado, quando iniciei minha carreira de pesquisador da história regional, passei uma temporada em Cuiabá debruçado na rica e antiga documentação do Arquivo Público Estadual. Entre leituras e conversas agradáveis, ouvi uma estória sobre corrupção que penso ser mais do anedotário político. Diziam que, no período da República Velha (1889-1930), havia uma cidadezinha do chamado “nortão” do estado, onde a corrupção era endêmica. Ou seja, nenhuma autoridade estadual resistia à pressão de compra e dos favores dos coronéis políticos locais. Tentando conter essa desmoralização pública, o governador da época transferiu para o local um juiz historicamente incorruptível.
No início foi uma festa com prisões, cadeia abarrotada de condenados e fuga de contraventores. Foi um período de tranquilidade na cidadezinha. Tempos passaram e o governador recebeu um telegrama daquele juiz com o seguinte teor: “Excia. pt. Favor transferir-me. pt. Chegaram no meu preço.pt.”.
Lembro desta estória para refletir sobre o preço que um homem deve ter. Para uns, o preço será sempre a dignidade, a honradez e a consciência. Mesmo com pressões e sacrifícios, uma postura ética não tem preço e não se vende nunca. Para outros (exemplos de esperteza para muitos), os preços são bem baratos, pois se vendem até por migalhas; mas alguns conseguem amealhar grandes recursos. É a vitória da corrupção aliada à impunidade, que enoja e ofende a dignidade do país. Apesar de entender que os corruptos não representam a maioria da população, esses maus exemplos, vistos quase diariamente na imprensa nacional, dão a impressão de que a sociedade brasileira está afundada em um “mar de lama”. Aliás, é um conceito que infelizmente se espalha por todo território nacional.
De acordo com o ranking da ONG Transparência Internacional, no Índice de Percepção da Corrupção, entre 180 países o Brasil está classificado no desonroso lugar número 75, sendo o número 1 o menos corrupto e o 180° o mais corrupto. Este resultado representa a percepção que se tem dos países relacionados por uma série de organismos internacionais, como o Banco Mundial e o Fórum Econômico Mundial. Portanto, apesar desta idéia que nos vendem de “Brasil Grande”, a nossa imagem lá fora não é grande coisa. Mais do que isso, é amplamente divulgada a venalidade dos negócios públicos e das concorrências no país. Ficou famosa uma frase atribuída (creio que é folclore) a um dos maiores políticos de S. Paulo, o carismático e populista Adhemar de Barros, que é “roubo, mas faço”. O que é pior, este mote ainda vale até hoje.
Recentemente, uma pesquisa detectou que 49% dos entrevistados afirmaram que, de uma maneira ou outra (ou seja, por dinheiro, benefícios ou favores), venderam o seu voto. O que causa espécie, é que esses vendedores de votos afirmaram cumprir “honestamente” o trato e entregaram seu voto sem a percepção de que estavam sendo aviltados em seus direitos de cidadania. Quem vende o voto perde também o direito de cobrar e fiscalizar os políticos e administradores públicos.
Ressalva-se que a convivência com a corrupção não é algo recente, mas secular. Na verdade, a corrupção chegou ao Brasil com a colonização portuguesa, onde seus representantes procuravam tirar o máximo proveito da burocracia colonial e do trabalho dos colonos. Entretanto isso não justifica a epidemia de corrupção que assola o Brasil até hoje.
Agora, e parece até uma piada, uma Ong, chamada Movimento de Combate a Corrupção Eleitoral, coordenou um projeto de iniciativa popular para impedir a candidatura já nas próximas eleições de políticos com “ficha suja”. Por direito constitucional, esse projeto com mais de um milhão de assinaturas deve ser analisado e votado pelo Congresso Nacional.
Sei não. Acho que não se resolve o crônico problema colocando a raposa para cuidar do galinheiro. Corrupção é doença maligna e de difícil cura, mas, como sou um teimoso incorrigível, creio que um dia será possível debelar esse mal.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 06 de dezembro de 2009.