domingo, 17 de maio de 2009

Uma epidemia muito louca (*)

A nova epidemia de gripe que vem se espalhando pelas mais diversas partes do mundo está assustando a todos e com muita razão. Pode ser controlada, mas também pode provocar uma mortandade assustadora. Só o tempo dirá o que vai acontecer. O que tranqüiliza é saber que as autoridades sanitárias e de saúde, dada a sua gravidade, estão atentas em todos os países e tomando medidas de controle e monitoramento. É o que se vê pelos órgãos de imprensa.

Vejo com atenção o posicionamento das autoridades brasileiras, primeiro esclarecendo a opinião pública (contrariando a clássica postura de esconder fatos desagradáveis) e, em segundo, tomando também medidas enérgicas de controle e se preparando com a produção de estoques de remédios. Isso significa mesmo que o mundo está à frente de um grande perigo. É a tal globalização que estreita caminhos e contatos.

De início, houve um grande equívoco. Um “espírito de porco” chamou esta epidemia de “gripe suína” e virou uma porcaria para os porcos que passaram a ser os vilões da história, apesar dos desmentidos dos pesquisadores.Com medo, por desinformação, as pessoas deixaram de consumir a carne suína. Adeus feijoada e pururuca dos sábados. Os criadores de suínos também começaram a passar apertados com a queda imediata do consumo desta saborosa carne. Em vista disso, a Organização Mundial de Saúde, que começou sofrer pressão inclusive de organismos da própria ONU ligados a agricultura e à alimentação, passou a denominar da gripe com o seu nome científico: influenza AH1N1. Porém, o apelido já pegou e os porcos estão pagando o pato.

No entanto, o tempo vem, o tempo vai, e a história da humanidade vem sendo permeada por epidemias, muitas delas provocando grandes mortandades. Tudo isso, registrado em textos antigos mas que se perderam no limbo da história.

No século XIV, a Europa sofreu uma tragédia deste tipo sem precedentes. Foi a peste bubônica, conhecida como Peste Negra por provocar bolhas escuras de pus e sangue, fome e febre alta, onde morreu mais de 1/3 da população. Nos navios vindos do Oriente, essas sujas embarcações trouxeram em seus porões milhares de ratos contaminados com uma bactéria mortal. As pulgas desses roedores encarregaram-se de contaminar os seres humanos. O clima era propício a uma contaminação com as cidades em condições sanitárias precárias, esgoto a céu aberto (as pessoas jogavam pelas janelas baldes de excrementos acumulados) e lixo acumulado nas ruas.

Mas a grande pandemia, já no século XX, ficou conhecida como a Gripe Espanhola, entre 1918 e 1919, e atingiu a Europa e as Américas provocando a morte de acerca de 50 milhões de pessoas (calcula-se que a gripe atingiu 50% da população mundial). Os primeiros casos apareceram nas trincheiras das tropas francesas, britânicas e americanas durante a Primeira Grande Guerra. No Brasil estima-se que 300 mil pessoas foram contaminadas. No sul de Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul) o vírus influenza (da gripe espanhola) chegou até Corumbá, pelos navios que subiam o rio Paraguai a partir da foz do Prata. Aliás, o porto corumbaense sofreu muitas epidemias provocadas pelo tráfego de navios que abasteciam a região. Para registro, entre os anos de 1867 a 1920, Corumbá foi atingida por 35 epidemias.

Nos anos de 1957 a 1958 foi a vez da Gripe Asiática que teve origem no norte da China, atingindo em todo o mundo mais de um milhão de pessoas. Foi outra pandemia terrível e eu fui um dos que sobreviveram a este terrível mal, quando morava no interior de São Paulo (senão não estaria aqui escrevendo nesta coluna). Era uma febre muito alta que provocava alucinações (os antigos diziam que o doente estava “variando”), muita dor de cabeça e perda de sangue pelo nariz. Lembro que por falta de remédios específicos, fui tratado com comprimidos analgésicos e chá de alho, e que, em frente à minha casa passavam cortejos fúnebres.

Assim, vieram outras epidemias e mais recentemente a gripe viária, que se espalham com rapidez pela facilidade de comunicação. Felizmente a mortalidade é bem maior hoje, em termos proporcionais. A ciência e a tecnologia na medicina evoluiu muito nas últimas décadas, mas os riscos de pandemias são ainda enormes. Em último caso, voltaremos ao chá de alho e ao terço.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 10 de maio de 2009.

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