terça-feira, 5 de maio de 2009

Eu sou Ronaldo! (*)

Existe uma história sobre um general romano chamado Crasso que foi encarregado de esmagar uma revolta de escravos na Roma antiga. O que Crasso queria como tática de combate, era a cabeça do líder, o famoso Spartacus. Mas Crasso foi infeliz e ficou na história como sinônimo de erro estúpido: ele simplesmente perguntou à massa de escravos enfurecida diante de sua legião, quem era Spartacus. Um escravo adiantou-se e respondeu: eu sou Spartcaus! Em seguida, um a um repetiu o gesto e a frase diante dos soldados incrédulos com a estupidez de seu comandante e com a solidariedade e identificação dos escravos com o seu líder.

Extrapolando os limites da História para o mundo do futebol, e tornando-se alvo das atenções da imprensa no Brasil e também em outros países (em especial na da Europa), um atleta tem demonstrado um exemplo de luta, resistência e superação. Refiro-me, é óbvio, ao jogador Ronaldo que, apesar de ser aclamado de “fenômeno”, é aqui tratado, como deve ser, como um ser humano com todas as suas virtudes e defeitos.

Poucos jogadores na história do futebol passaram por tantas alegrias e ao mesmo tempo por tantas agruras como este atleta. Com uma trajetória futebolística impressionante, ceifada por graves contusões, que pareciam impedi-lo de retornar aos campos de futebol, chegou, por vezes, até o fundo do poço. Superando todas as expectativas, e contrariando os que não acreditavam em seu retorno, conseguiu renascer das cinzas e como “fenix” passar novamente a brilhar no que mais gosta de fazer — jogar futebol. Isso sem contar a sua eterna luta contra a balança.

Saindo ainda jovem do país e já apresentando um belíssimo futebol, foi para a Europa e tornou-se um dos mais importantes e queridos jogadores da atualidade. Considerado por três vezes o melhor jogador do mundo, responsável por vitórias importantes na seleção brasileira, inclusive heroi em copa do mundo, também foi crucificado em outros embates, como foi (nem quero pensar) da sediada na França.

Agora, após um ano na busca de recuperação de sua última e terrível contusão, está de volta aos gramados. Só que agora nos gramados brasileiros e vestindo a camisa de um time de massa, que conta com uma das maiores torcidas do país, conhecida como “um bando de loucos”. Mesmo sem estar em plena forma física, Ronaldo tem demonstrado, com seus primeiros gols e a nova camisa corintiana, o quanto ele é diferencial em relação à mediocridade que predomina nos campos de futebol deste país. Indagado por um repórter sobre seus gols marcados, apenas respondeu que fazia gols por não ter medo de errar. Ele faz parte de um seleto grupo de gênios com o pé na bola, a exemplo do excepcional Garrincha.

Isso tudo, porém, não deixa de ser a história de um homem que sempre esteve no lugar certo na hora certa. Mesmo assim, a sua vida, separando o seu lado profissional do pessoal, continua conturbada e até mesmo complicada. Ele tem consciência disto, expondo publicamente em entrevistas que o seu lado pessoal não diz respeito a ninguém, ironizando os bisbilhoteiros de plantão, demonstrando não ter a pretensão de transformar-se em exemplo para ninguém. Assim, com palavras simples, em suas entrevistas, deixa grandes lições de vida. É um menino humilde, que quer viver com alegria trazida pelos campos de futebol e pelos palcos da vida. O resto é apenas inveja e maledicências.

O reencontro do Ronaldo com um bonito futebol, já esquecido por muitos (inclusive pela dita seleção brasileira), trouxe uma alegria geral e contagiante independente da cor do time abraçado pelos torcedores brasileiros. É o que se viu nos canais de televisão nos últimos dias. Nunca alguém poderia imaginar santistas, sãopaulinos, flamenguistas, gremistas e demais torcedores brasileiros, inclusive e principalmente palmeirenses, assistindo aos jogos do Corinthians com uma especial atenção.

Ele é simplesmente um brasileiro, teimoso e perseverante que insiste em continuar apesar de todas as adversidades. Enfim, um vitorioso que driblou a pobreza e o perverso destino da expressiva maioria do povo brasileiro.Lembrando Euclides da Cunha no clássico “Os sertões”, o brasileiro é acima de tudo um forte.

Por fim, fica uma certeza: se Ronaldo é forte e vitorioso, não pela sua conta bancária, mas pela sua determinação, humildade e liderança, cada um de nós gostaria de dizer hoje, como o papel heróico e histórico dos escravos, “eu sou Ronaldo!”.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 15 de março de 2009.

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