Cheguei em Corumbá em 1971 e fiquei maravilhado com a sua natureza esplendorosa e seu conjunto arquitetônico histórico marcante. Além disso, fiquei extasiado ao degustar uma variedade de peixes de sabores diferenciados e deliciosos. A piscosidade do rio Paraguai, sem igual, que alimentou por centenas de anos a população ribeirinha, hoje já não aguenta mais tanta agressão e depredação. Foi-se o tempo em que, às margens do casario do porto, conseguia-se pescar com facilidade grandes e belos exemplares de muitas espécies. Mas o rio Paraguai é teimoso e continua resistindo ao “vai e vem” de suas enchentes. Creio que seus peixes, de sabor sem igual, são produtos de suas águas cheias de pedras, calcárias e nem sempre barrentas.
Foi ali que pela primeira vez tive a sensação gostosa de saborear um copo de caldo de piranha com uma pimentinha brava. A impressão do boteco do João Piranha não foi das melhores, mas a sua fama de cozinheiro encheu de coragem o jovem professor universitário, recém chegado de São Paulo. Valeu a pena. A partir de então, este pescador de lambaris e tilápias paulistas que vos fala, começou a saborear pintados, dourados, pacus, e outras maravilhas.
Mais tarde passei a frequentar locais obrigatórios de “comilanças” em outras peixarias, como o Ceará, o Lambari do Nelson, infelizmente não mais existente, e a emblemática peixaria do Lulu, com uma comida e tempero insubstituíveis. Nessas lembranças não poderia deixar de mencionar do Mestre João, já falecido, que inventou o prato nacionalmente famoso “Peixe a Urucum”. Ir a Corumbá e não adentrar as velhas portas da peixaria do Lulu é como ir a Roma e não ver o Papa. Assim, sempre que retorno à histórica Corumbá, não perco a oportunidade de fazer um verdadeiro périplo pelos restaurantes locais.
Isso não quer dizer que somente o rio Paraguai apresenta uma piscosidade invejável. Na verdade, Mato Grosso do Sul é uma região privilegiada pela abundancia e qualidade de suas águas, como por exemplo, as bacias do Miranda e do Aquidauana que são também verdadeiros paraísos naturais e com peixes de dar água na boca.
Recentemente estive em Aquidauana por ocasião da inauguração da Base de Pesquisas Históricas e Culturais das Bacias dos Rios Aquidauana e Miranda, num prédio da década de vinte, adquirido e restaurado pela UFMS. Foi neste prédio que se encontrou abaixo do piso uma escada e um túnel. A explicação sobre este intrigante buraco está a cargo de pesquisas realizadas por professores de História e de Arqueologia da unidade da Universidade Federal local.
Como em Corumbá, quando se vai a Aquidauana não se pode deixar de “bater ponto” numa peixaria conhecida como Amarelinho, às margens do rio e do lado da cidade de Anastácio. É um rústico imóvel próximo a bela e histórica ponte que liga os dois municípios. Neste local é oferecida uma peixada única, sem comparação. São servidos inúmeros pratos com peixes variados, fritos, ensopados, à milanesa, caldo de piranha e outras iguarias. O singular desta peixaria, é que os peixes são apresentados ao cliente sob a forma de rodízio. Explico melhor: enquanto o cliente aguentar, os garçons continuam servindo. Vale a pena sair de Campo Grande e almoçar na “princesinha do pantanal”. Creio mesmo que a Fundação de Cultura do estado deveria promover o tombamento como patrimônio imaterial do cardápio o Amarelinho aquidauanense.
A riqueza maior de Mato Grosso do Sul reside, sem dúvida, na prodigiosa natureza de seu território, de seus rios e de seus peixes. Todavia, a minha maior preocupação, que creio ser de muitas outras pessoas, é com a sustentabilidade das bacias fluviais pantaneiras, visto que a degradação ambiental e o manejo inadequado dos seus recursos naturais andam a passos largos.
Os danos ambientais no Pantanal já são grandes e alguns, irreversíveis. Porém, para mim, seria também uma perda irreparável não poder mais saborear a peixada maravilhosa do Amarelinho acompanhado de uma cerveja bem gelada, sentindo o aroma e a brisa que vem do rio ali ao lado.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 29 de março de 2009.
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