sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

As enchentes e a questão da cidadania (*)

Parece que S. Pedro não está nada satisfeito com a vida “fácil” dos brasileiros. Pois tem desabado uma chuvarada, provocando inúmeras tragédias nas mais diversas partes do país que, por imprevidência, parece não estar preparado para esses cataclismos. É uma maldade só, porém democrática, atingindo tanto pobres e miseráveis quanto turistas endinheirados. Parece até que o velho santo leu e resolveu contrariar o teórico do absolutismo, Machiavel, que orientava que quando se quer fazer o “bem”, deve-se fazê-lo aos poucos para todos perceberem e sentirem seus efeitos e, ao contrário, quando se deve fazer o “mal”, este deve ser feito de uma vez só, logo, todos o esqueceriam. Porém, justamente o contrário está acontecendo. É o exemplo da capital paulista que há quase dois meses vem se afundado em água, lama e excrementos.

No entanto, como se vê, o dragão das enchentes está matando, afogando e desalojando as mais diversas regiões, umas mais, outras menos. Porém, não se pode simplesmente responsabilizar Deus. Está certo que o país vem sofrendo ocorrências de chuvas excessivas e muito fortes e, digo mesmo, exageradas. Por que o clima mudou? Com certeza, é uma resposta da natureza a centenas de anos de agressividade provocada pela insanidade dos homens. Foi uma exploração sem fim e sem preocupação com o estabelecimento de uma política de preservação ambiental.

Em primeiro lugar, existe implícita a responsabilidade das autoridades que sempre permitiram tudo para não contrariar interesses, principalmente para atender objetivos eleitorais. Isso sem mencionar o escorpião da corrupção. Vejo que não existe nenhum planejamento habitacional ao se permitir a construção de casas (em especial de baixa renda) nas encostas dos morros. Seria o medo de contrariar os eleitores que, com isso, passam a correr riscos por contra própria, como se está vendo todos os dias nos meios de comunicação, desmoronamentos, soterramentos e tragédias familiares.

De quem é a culpa, afinal? Dos que sonham em ter uma casa, mesmo miserável e pendurada nas pontas dos morros? É claro que não. Os responsáveis são os que permitiram o avanço “imobiliário” em morros, em lugares perigosos, em ilhas paradisíacas, em regiões baixas como nas várzeas do rio Tietê, que tem o irônico nome de “Pantanal”. Há mais de dois meses, essa região está inundada e seus moradores, chafurdando em lama e esgoto. A irresponsabilidade é tanta que existem ali conjuntos habitacionais financiados com dinheiro público. Mas, a impunidade garante que nada vai acontecer aos verdadeiros responsáveis.

Aqui em Campo Grande, a cada instante aparecem espigões, “comendo áreas verdes”, com espaçosas garagens em subsolo, não permitindo o escoamento de águas fluviais. Muitos, inclusive, às margens dos nossos principais córregos. Será que existem neles as custosas usinas de tratamento de esgoto? Contudo, alguém autorizou essas construções.

Por outro lado, também existem em grande quantidade pessoas que, motivadas pela ignorância e pela falta de civilidade, contribuem muito para esse caos. São as que jogam todo tipo de lixo (sacos plásticos, embalagens “pet”, móveis descartados, só para nomear alguns) que, invariavelmente, entopem as “bocas de lobo”. O resultado é que, em vez de escoar a enxurrada, a água e o lixo voltam, transbordando e inundando tudo. Basta ligar a televisão para ver esses tristes e deprimentes espetáculos. Neste caso, a culpa também recai sobre o Estado que não cumpriu o seu papel de educar e transformar o indivíduo em cidadão para atuar na comunidade com responsabilidade e respeito, inclusive à natureza.

Tudo isso está presente a cada momento para quem quiser ver. E não adianta reclamar apenas com São Pedro. Ele é o mais inocente de todos.

Valmir Batista Corrêa


(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 14 de fevereiro de 2010.

É preciso escrever de carreirinha (*)

Tempos atrás foi exibida uma novela, “O Bem Amado”, do escritor Dias Gomes, que tinha um personagem fantástico, o cangaceiro Zeca Diabo, interpretado pelo excepcional ator Lima Duarte. O maior sonho do Zeca Diabo era aprender a escrever “de carreirinha”. Era esse o bordão característico de seu personagem, que achava bonito escrever uma letra atrás de outra, em linha reta.

Às vezes vejo o sonho desse personagem de ficção tornar-se realidade com o esforço de pessoas idosas, analfabetas, que com muita coragem e seriedade voltam aos bancos escolares em cursos de alfabetização de adultos. Com semblantes felizes demonstram com orgulho sua nova condição de cidadania ao conseguir ler e escrever.

É terrível a escuridão que enfrenta o analfabeto nos tempos atuais. Mesmo algumas medidas de cunho social, como ter título de eleitor e poder votar, não diminuem as dificuldades de enfrentamento do dia a dia, como pegar um ônibus, entender letreiros comerciais, fazer compras em supermercados, etc. Mesmo assim, as pesquisas têm demonstrado que, apesar do esforço da área educacional, o analfabetismo tem crescido inclusive nas camadas mais jovens. Também cresce em todos os estados, o chamado “analfabeto funcional”, aquele que consegue apenas “desenhar” o nome, sem contudo entender o que lê e ter autonomia e lógica no que escreve.

Sem querer ser um chato ou um dom Quixote contra a modernidade, ouso tratar de uma situação que deveria ser seriamente encarada pelos nossos educadores. Começo lembrando dos velhos tempos em que a alfabetização começava com um bonito caderno de caligrafia, em que os alunos treinavam os contornos das letras bem redondinhas. Em fase posterior, os professores faziam os ditados para que os alunos entendessem as sílabas e reproduzissem as palavras corretamente. E as crianças exibiam orgulhosas aos seus pais suas tarefas apreendidas na escola, em cadernos limpos e encapados.

Agora, com o avanço da tecnologia, muita coisa mudou e dois instrumentos, como irmãos siameses, fazem parte do cotidiano estudantil: a calculadora e o computador.

Faço primeiro uma reflexão sobre o uso da calculadora na escola. Antes, havia o terror de decorar a tabuada, necessária para o exercício das quatro operações aritméticas. Aliás, ainda tão necessárias para o desenvolvimento da vida cotidiana. Lembro quando alguns colegas usavam alguns truques para facilitar as dificuldades de memorização, como o instrumento japonês chamado “ábaco”, imediatamente proibido pelos mestres.

Entendo que este posicionamento era a consciência de que a aritmética era vital para o desenvolvimento do raciocínio. E, para o bom desenvolvimento da cidadania dêsde pequenos, creio que seria importante eliminar do ensino fundamental o uso de calculadora, que induz no fundo a uma “preguiça” mental nos estudantes, criando facilidades e impedindo que executem um exercício relevante para o desenvolvimento de suas capacidades cognitivas e de raciocínio lógico.

Por outro lado, a disseminação de computadores tem colocado em cheque a língua pátria levando os estudantes a desaprendê-la. O perigo é transformar o computador, que é um instrumento/meio auxiliar importantíssimo no processo ensino-aprendizagem, em um fim em si mesmo. O computador muda hábitos, facilita a vida, mas criando novos procedimentos sem um suporte de conhecimento básico, de linguagem formal escrita e matemática, podem desvirtuar a formação dos estudantes.

O pior é ver políticos usarem como panacéia da melhoria da qualidade de ensino grandes investimentos na compra de computadores para as escolas. Sem ser contraditório, entendo ser importante o acesso de jovens e adultos aos mais recentes meios de comunicação e interação global da rede de computadores. Eu mesmo, neste momento, estou utilizando um notebook para escrever este artigo e não vivo mais sem ele. Mas é sempre bom lembrar que computadores e máquinas em geral são ferramentas e não fazem milagres.

Por isso, vejo com muito interesse uma reação de algumas escolas da capital paulista, que passam a exigir de seus alunos que escrevam à mão, para evitar que “ o uso frequente do computador, no colégio e em casa, [fazem com que]os estudantes percam a caligrafia e deixem de atentar para as normas cultas” (Folha de S. Paulo, 18.01.2010) do português. Algumas escolas, mesmo aceitando as pesquisas dos estudantes através do computador, somente aceitam os trabalhos escolares apresentados manualmente. Mesmo porque muitas dessas “pesquisas” via internet são meras reproduções e as tarefas tornam-se todas iguais, impedindo a avaliação e o acompanhamento do desempenho escolar de cada aluno.

Esta forma de ver o uso de computadores nas escolas é uma forma de rever conceitos importantes da educação moderna, de qualidade e para a formação de cidadãos. E, por fim, deve-se ter em mente que a tecnologia deve estar a serviço dos professores e dos alunos, de forma criativa, sem menosprezar o conhecimento bem fundamentado e a formação de uma massa crítica para a sociedade do futuro.

Espero que ao menos essa polêmica chegue a Mato Grosso do Sul.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 07 de fevereiro de 2010.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Razão nada tem a ver com ditadura (*)

Nesta semana, estava eu transitando pela avenida Zahran (em Campo Grande-MS), quando vi à minha frente um automóvel Fiat Uno Mille, já gasto pelo tempo, com placa que deixo de citar por não ser objeto deste artigo, dirigido por um senhor idoso. No vidro traseiro estava escrito em letras garrafais, para o horror do bom senso e dos que acreditam na democracia, a frase “Os militares tinham razão... AI-5”. Para o conhecimento dos mais jovens, é importante frisar que esta frase refere-se ao Ato Institucional n. 5, que em 1968 endureceu o regime, escancarando atos discricionários e ditatoriais. Era o auge dos “anos de chumbo”

Só quem viveu sob uma ditadura pode lembrar o significado terrível do “AI-5”. Faço uma ressalva, pois não me refiro à instituição militar atualmente, cujo trabalho vem dignificando e honrando o país defendendo a democracia e exercendo atividades humanitárias e em defesa da paz, como ocorre no Haiti. Militares brasileiros pagam com o preço de suas preciosas vidas pela missão e estão sendo recebidos na sua volta como heróis nacionais.

A partir da frase exposta naquele carro, concentro-me nos anos de 1964-1985, quando militares e um grupo de civis governaram o país com mão de ferro.

O que espanta, entretanto, é o fato de uma pessoa se expor publicamente defendendo a volta da ditadura, de tão triste memória, contrariando os princípios de liberdade e os direitos constitucionais. E o que é pior, este indivíduo não está sozinho nesse horroroso exemplo, pois tenho ouvido de idosos e jovens de todas as camadas sociais, manifestações desse saudosismo espúrio e, eu diria ainda, ignorante. Quando pessoas começam a pensar assim, a sociedade corre perigo e pode-se dizer que uma luz vermelha está se acendendo.

Quem tem saudades da ditadura não lembra do terror que ela impõe aos seus adversários e a repressão que persegue a todos, culpados por ser oposição, ou inocentes. Perde-se o direito de falar o que se pensa, o direito de ir e vir, de publicar críticas, de manifestar formas artísticas que contrariam os “donos do poder”, enfim, a sociedade que assim consente abre mão dos seu mais elementar direito: a liberdade.

O que está errado neste país que gera pensamentos tão perigosos? Para começar, vivemos hoje uma democracia que permite que todos formulem as suas opiniões, mesmo aquelas que atentam contra a liberdade e os direitos humanos: tem gente que defende a pena de morte, tem gente que fala em favor da censura nos jornais, nas TVs e nos cinemas, tem gente que prega o fechamento do congresso nacional, e ainda tem gente que prega a intolerância em todas as suas formas espúrias.

O que mais tem chamado a atenção da sociedade brasileira, hoje, é a farta exposição nos meios de comunicação do “mar de lama” que a corrupção derrama sobre os mais diversos níveis da política brasileira e do empresariado. Parece que ainda vigora a fatídica “lei de Gerson”, que diz que o indivíduo deve sempre levar vantagem em tudo na sua vida. A corrupção existe e é grande. Todavia, sabemos de todas as “maracutáias” realizadas em Brasília, ou pelo país afora, simplesmente por que existe l-i-b-e-r-d-a-d-e de informação. E isso é muito precioso numa sociedade democrática.

Tenho visto e ouvido com freqüência, como um indesejável senso comum, que na época da ditadura no Brasil não havia malversação do dinheiro público, impunidade, compra de votos, somente para ficar em alguns exemplos. Ledo engano. Havia sim e em grande quantidade. Votos não eram comprados, por que havia o terror e a repressão. As “más notícias” não chegavam à população, pela a imposição do AI-5, amordaçando todos os meios de comunicação e proibindo todas as formas de opinião que não fossem favoráveis ao regime de exceção. Assim, somente chegavam a público as notícias favoráveis ou que interessavam aos detentores do poder. Criou-se então a falsa imagem de que nos tempos da ditadura a sociedade estava mais protegida da bandidagem política do que no desenrolar da vida democrática.

Só para ressaltar, na ditadura n-ã-o e-x-i-s-t-e corrupção por que vigora a c-e-n-s-u-r-a. Ou seja, a sujeira é varrida para debaixo do tapete para ninguém ver. Pior ainda, poucos privilegiados que se apoderam do poder fazem o que bem entendem, inclusive roubar os cofres públicos, simplesmente por que o povo é impedido de fiscalizar.

O saudosismo pela ditadura encaminha perigosamente para a descrença da população nas instituições que garantem a participação popular na política e na l-i-v-r-e escolha de seus representantes através das eleições diretas e universais.

A melhor forma de proteger a democracia e combater os “filhotes” retardatários da ditadura está em romper os históricos de impunidade que afloram, infelizmente, em todas as partes do país e, acima de tudo, defender a liberdade de imprensa. É ela que não deixa acumular a sujeira em baixo do tapete da sociedade brasileira.

Apesar de todos esses exemplos em que a sociedade fica moralmente sentida, ainda é preferível uma democracia doente que expõe suas fraturas, do que a assepsia ilusória de uma ditadura.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 31 de janeiro de 2010.