Na década de 60 do século passado um polêmico filme fez sucesso nas mais diversas partes do mundo. Era um filme italiano, numa época em que a produção cinematográfica da Itália rivalizava com a americana. Não me lembro o nome do seu diretor, mais sei que o artista principal, de muito sucesso na época, era o galã Marcelo Mastroianni. O tema era, para os padrões de hoje, ingênuo, mas naquele tempo chocou a sociedade conservadora e foi alvo de discussões em todos os setores da sociedade. Porém falava-se baixinho, para as crianças não ouvirem. E por crianças, nos anos sessenta, entendia-se os menores de 18 anos....
O filme contava a história de um jovem muito bonito, charmoso e rico, alvo de suspiros das moças casadoiras, que era um partidão, como se dizia naqueles tempos em que se amarrava cachorro com lingüiça. Entretanto, apesar de todos os seus predicados, o moço não “funcionava”. Pois é: o moço era atraente, mas impotente. E todo o filme girava em torno da solução deste problema. Parece bobagem, até porque hoje a pílula azul resolve essa questão, sem maiores discussões e isso deixou de ser um problema.
Lembrei-me deste filme para falar sobre um sinaleiro existente na avenida Mato Grosso. Parece loucura, mas meus leitores hão de me compreender.
Esta avenida virou um intenso e confuso corredor de carros que se pode ver pelo vai-e-vem em direção ao Parque do Poderes e pelo avanço de condomínios pelas bandas do Sóter. Isso sem contar que a facilidade de adquirir automóveis, nos últimos anos de farra de financiamentos (com prestações a perder de vista), provocou um inchaço no trânsito de toda a cidade, diga-se de passagem, até com engarrafamentos e buzinaços.
Oh! que saudades eu tenho da aurora da minha cidade (me perdoem os parnasianos), quando os carros eram poucos e os pedestres transitavam sem riscos pelas ruas principais. Agora, a administração municipal está preocupada em resolver o caos do trânsito e, infelizmente, os pedestres que se danem. Tudo que é “melhorado” é sempre em benefício dos automóveis, incluindo aí os novos semáforos que foram espalhados em cada cruzamento da Mato Grosso.
Porém, transitar por esta avenida virou um teste de paciência e de coragem, em especial, quando o incauto pedestre ousa atravessá-la. O que mais chama a atenção é a multiplicação de trogloditas que acham que sabem dirigir e que pela sua má educação (que me perdoem a suas famílias nem sempre culpadas), falta de cidadania e até de caráter insistem em fechar os cruzamentos. E vai reclamar, para ver o que acontece: você ouve os maiores e mais baixos impropérios e gestos de, no mínimo, mau gosto.
A instalação de novos semáforos, como por exemplo no cruzamento da rua José Gomes Domingues com a Mato Grosso, representa uma solução sensata, ainda que não seja a melhor, permitindo a passagem de pedestres e de carros, desde que, é óbvio, cada um respeite a sua vez. Isso veio facilitar a minha vida, porque eu passo por estas vias todas as manhãs, com o meu cachorro Barão, meu companheiro de caminhada. Compro o jornal na banca que fica próxima a esse cruzamento e, um dia destes, experimentei a ferocidade e a irresponsabilidade dos motoqueiros. Sou um velhinho aposentado, mas sou ligeiro e pulei rapidamente com o meu cachorro na calçada. Fiquei com algumas escoriações e um baita de um susto.
Como era de se esperar, o sinaleiro segurava o fluxo dos carros vindos do Parque dos Poderes em direção ao centro, provocando um pouco de movimento, que em alguns horários específicos aproximava-se de um engarrafamento. Esse é o preço pago por disciplinar o trânsito e permitir que todos tenham a sua vez de passar pela avenida, incluindo os que estão a pé.
Lamentavelmente, alguns motoristas poderosos e nervosinhos, impacientes com a existência do sinaleiro, até porque tem outro na esquina da avenida Ceará, reclamaram junto ao poder competente (?) e o sinaleiro da rua José Domingues foi imediatamente desativado.
Assim, voltou o caos e o salve-se quem puder. É uma pena ver, mais uma vez, a insensibilidade dos especialistas (?) em trânsito, que sobrepõem a rapidez do fluxo de automóveis sobre a segurança dos transeuntes que andam por aquela via. Além do mais, correr prá que? Campo Grande não é tão grande assim, e podemos desfrutar de uma vida mais calma e sem stress para irmos de casa para o trabalho e vice-versa.
Pois é, volto agora ao Belo Antônio. É nele que penso toda manhã quando passo nesse cruzamento para comprar meu jornal e me deparo com o semáforo do cruzamento da José Domingues com a Mato Grosso. Ele está lá, novo, bonito, mas não funciona...
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 03 de maio de 2009.
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