segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Um ilustre filho de Corumbá (*)

O céu de Corumbá, com suas cores fortes e brilhantes, rasgado por raios vermelhos e amarelos, amanheceu pálido e cinzento no domingo passado. As lavadeiras que caminham dia a dia até o rio Paraguai, com suas enormes trouxas de roupa à cabeça, andam em passos mais lentos e tristes. Os pescadores em suas toscas pirogas, cercados de flores de camalote, olham as águas mais pensativos que de costume; os que carregam coloridos peixes em varal, sobem as ladeiras de Corumbá também mais lentos e tristes... É a nostalgia de uma gente que perdeu um membro de sua comunidade, aquele que transformava suas angústias e suas vidas em desenhos e cores de rara e especial beleza. Mas não apenas os pescadores; foi Corumbá inteira que perdeu um de seus filhos mais ilustres e o Pantanal, o seu propagandista maior.

Falo do falecimento em Campo Grande (22.11) de José Ramão Pinto de Moraes, o Jorapimo, longe da terra natal que tanto amou, depois de longa enfermidade e sofrimento, numa lamentável conjugação de câncer com problemas renais crônicos que o sugou fisicamente. Nasceu em 1937 e viveu grande parte de sua infância e juventude na cidade de Campinas/SP. Superando dificuldades, autodidata, desde cedo começou a interessar-se pela pintura, sofrendo influências dos mestres clássicos da pintura universal, sem deixar, porém, o seu olhar e o seu coração de voltar-se para o Pantanal. Consolidado como artista plástico, radicou-se definitivamente em Corumbá, a partir de 1974. Até então, já tinha apresentado seus trabalhos em diversas exposições individuais, sendo a primeira em Corumbá, no ano de 1963.

Na sua volta a Corumbá, também expôs a sua produção artística, retratando as belezas cotidianas da cidade e do Pantanal. A partir de então, Jorapimo continuou uma incessante e frenética produção artística, somente interrompida pela fatalidade de suas doenças. Agora, Jorapimo deve estar pintando anjos e cenários pantaneiros celestiais...

Em 1978, entre as comemorações da passagem do Bicentenário de fundação de Corumbá e Ladário, Jorapimo participou, junto com os maiores artistas plásticos do estado ainda unido, de um grande salão de artes, recebendo inclusive uma premiação. Na época, quando o conheci, fiquei encantado com a beleza plástica de suas obras. Porém, estreitei nossa amizade somente dois anos depois, quando fui Secretário Municipal de Educação fazendo uma longa e profícua parceria com o artista. Lembro da sua chegada na Secretaria, com uma proposta de fazer um folder sobre o carnaval, em silk screen.

De fala mansa, andando como que deslizando sobre o solo, com rosto vincado por traços de índio pantaneiro, Jorapimo, com linhas simples e fortes contrastes de cores, e com maestria inigualável, dava golpes de espátula nas telas, gravando para a posteridade camalotes, aves esbeltas ou desengonçadas, jacarés, as águas pantaneiras, o casario do porto, barcos ancorados nas margens do rio e, tudo isso, sem deixar como referência mais importante, como ele mesmo dizia, o homem pantaneiro. Às vezes, fugia de seu tema principal para pintar outras temáticas como cenas dramáticas da guerra com o Paraguai. Tenho em meu acervo pessoal vários quadros de sua autoria, um deles retratando a Retirada da Laguna e outro, uma releitura de uma das batalhas ocorridas nas águas do rio Paraguai.

A sua obra, pela importância extraordinária, extrapolou as dimensões territoriais da sua querida Corumbá. Fez exposições em Campo Grande, Campinas, Cuiabá, São Paulo, Rio Claro, Vitória e, no exterior expôs no Japão, Alemanha, Estados Unidos, Paraguai, Bolívia e Uruguai.

Hoje, suas telas e outros trabalhos em tecidos e diversos materiais estão espalhadas pelo país e pelo mundo tornando impossível quantificá-los, pela vastidão de sua produção. Mesmo assim, o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) desenvolve um projeto de catalogação de sua obra, é claro, do que for possível encontrar entre acervos públicos e particulares.

Velho companheiro de guerra, você vai fazer uma falta danada onde hoje predomina a melancólica mediocridade dos que “se acham” artistas. Digo, falta física, por que seu legado para a cultura sul-mato-grossense é universal e eterno.

Felizmente, grandes artistas como Jorapimo não morrem jamais...

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 29 de novembro de 2009.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Que universidade é essa? (*)

A minha indignação é tamanha, que volto ao assunto do artigo anterior. É sobre a vergonhosa e fascista manifestação de estudantes (não merecem este nome), que agrediram e violentaram moralmente uma jovem de vestido curto dentro das dependências da Universidade Bandeirante, em São Bernardo do Campo (na grande São Paulo). É claro que, pelos acontecimentos posteriores, a garota esperta e com senso de oportunidade está sabendo muito bem se defender e tirar proveito da situação. Não é esta a preocupação deste artigo, pois penso que há coisas mais importantes e cruciais para a nossa sociedade, além de um inconveniente vestido curto, justo e provocante.

A primeira medida do Conselho Universitário da UNIBAN foi o ato imediatista e transloucado de expulsar a vítima do quadro discente, sem punir adequadamente o bando de marginais que praticaram os atos de intolerância e violência, como forma de varrer para baixo do tapete o tão lamentável espetáculo. Como era de se esperar, a repercussão explodiu dentro e fora do país, o que levou o reitor a revogar esta medida covarde.

Mas, entendo que a reversão do ato disciplinar, tomado por uma cúpula administrativa intolerante e autoritária e que, em coletiva à imprensa o vice-reitor fez questão de declarar não ser um recuo da reitoria, não foi tomada pela repercussão negativa perante a opinião pública. O que os fez tremer foi a posição do MEC de pedir explicações sobre a expulsão da aluna e a possibilidade de terem sido feridos os seus direitos humanos. De acordo com a legislação vigente, a punição mais grave aplicada à universidade pode ser o seu descredenciamento e o fechamento da instituição, caso sejam apurados os desvios de atribuições da sua administração, violando direitos constitucionais.

A ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres também entrou no circuito em defesa dos direitos da aluna, encaminhando ofício ao Ministério Público solicitando providências. Olhe só! Até a UNE, que nos últimos anos, lamentavelmente, tornou-se “chapa branca” e apêndice do governo federal, também mostrou a sua cara e partiu em defesa da aluna, repudiando atos de jovens intolerantes e preconceituosos que se dizem universitários.

Esta universidade, fundada em 1994 a partir de pequenas faculdades, está voltada para atender a demanda de jovens egressos da classe C por formação superior, procurando captar alunos com mensalidades que não chegam a R$ 200,00. Pagando baixos salários aos seus professores, enxugando custos que são inerentes à qualidade do ensino superior, como laboratórios, biblioteca e outros setores fundamentais da infraestrutura universitária, as perguntas que ficam são: que qualidade de ensino e capacitação superior estão sendo administradas a esses alunos? Será mais fábrica de diplomas a iludir o sonho de ascensão sócio-econômica da chamada classe média baixa, como tantas outras que existem pelo Brasil afora?

A avaliação do governo federal já colocou a Uniban quase ao nível de insatisfatório, mesmo sendo a 4a maior instituição de ensino superior particular do país. E, com certeza, pelos seus indicadores de avaliação e atitudes de um expressivo grupo de alunos, a Uniban não prima por elevar a qualidade de vida e ações de civilidade e cidadania. Em abril passado, e isso pode ser visto no Youtube, os seus alunos deram um outro exemplo de selvageria durante uma manifestação contra mudanças no sistema de avaliação (aliás, um direito inquestionável), que descambou para o ataque a uma aluna que foi, inclusive, agredida fisicamente. Esta violência como se viu recorrente, mais parece ser característica de uma escola de formação nazi-fascista, nos moldes da S.A. nazista.

O que pouca gente sabe, e impressiona, é o fato da região do ABC paulista, onde está localizada a Uniban, ter sido o celeiro de uma das mais belas páginas da política brasileira contra a ditadura, onde o operariado se organizou num exemplar movimento sindical (que, diga-se de passagem , infelizmente é coisa do passado). Longe desta lição de dignidade, coragem política e cidadania, o ABC está hoje infestado de grupos neo-nazistas, skinheads, punks que manifestam seus preconceitos com violência contra mulheres, negros, homossexuais e tudo aquilo que consideram arbitrariamente inaceitável.

Por outro lado, as reações de uma parcela importante da mídia, incluindo a imprensa internacional, deixam claro que com a evolução política que alcançamos não se tolera manifestações de preconceito e aviltamento de direitos humanos, bem como rejeitamos picaretagem em nome da educação.

Portanto, cabe às universidades, no caso a Uniban, desenvolver entre seus alunos uma política de respeito às adversidades sociais, econômicas, culturais, raciais e também de respeito às opções sexuais. Essa é a tarefa fundamental de uma Universidade: formar bons profissionais, capazes de por em prática os princípios e direitos fundamentais que sustentam uma sociedade democrática, mais justa e solidária.

Caso contrário, algumas escolas irão perder suas mascaras, mostrando sua cara de “caça-níqueis”, escamoteando seus deveres sociais e educacionais, visando somente e especialmente o lucro de suas caixas e, pior de tudo, dando diplomas superiores a gente intolerante e despreparada para viver em paz e harmonia com seus próximos.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 22 de novembro de 2009.

domingo, 15 de novembro de 2009

A intolerância é o ovo da serpente (*)


Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão. E não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.

(Vladimir Maiakovisk)

Cada ovo de serpente é protegido por uma membrana, onde se desenvolve o embrião de uma outra serpente. Através desta membrana você pode acompanhar a evolução e nascimento desse réptil. É um ovo como tantos outros, aparentemente inofensivo, mas onde germina uma perigosa serpente que pode picar e distribuir o seu veneno.

Aproveitando esta alegoria, o cineasta Ingmar Bergman produziu o seu belíssimo filme “O ovo da serpente”, situando simbolicamente o seu olhar em Berlim, no ano de 1923, num momento após a Primeira Guerra Mundial, do refazer da sociedade alemã destroçada, mas produzindo já os terríveis germens da construção política nazista.

Mesmo vendo a formação de um monstro, como uma serpente ainda dentro do ovo, a sociedade germânica, vivendo arroubos democráticos nesse período entre as duas guerras mundiais, permitiu o crescimento de organizações marcadas pela intolerância e por preconceitos, e o aparecimento de um líder alucinado que galvanizava multidões: Adolf Hitler. Desenhava-se assim, com a tolerância sendo conivente com a intolerância, a etapa de regimes nazi-fascistas que levou o mundo a uma guerra insana com milhões de vítimas.

Esse exemplo histórico mostra que uma sociedade democrática não pode conviver ou permitir manifestações de intolerância política, social, cultural, racial ou religiosa, mesmo que aparentemente possa parecer que se está ferindo os direitos democráticos do cidadão. Pelo contrário, a defesa da sociedade implica em não dar espaços para esses rasgos de intolerância, mesmo que sejam pontuais. São venenos que se alastram escondidos no manto da impunidade de uma sociedade que não quer se envolver, ou finge como é mais cômodo, e não quer encarar situações que incomodam toda a sociedade.

A sociedade brasileira tem sido ferida em diversos momentos por inconcebíveis manifestações de intolerância e nem sempre produz o repúdio que se espera de todos. Parece até que esses atos de violência, por não nos atingir diretamente, também não nos dizem respeito. É, na verdade, um egoísmo que deve ser combatido com solidariedade e humanismo.

Um caso emblemático de violência motivada pela intolerância étnica foi o ato inconsequente e criminoso, ocorrido em Brasília, dos jovens de classe média que atiraram fogo no índio Galdino. Apesar da repercussão internacional, pouco se fez a respeito. Prevaleceu a sensação de impunidade e um gosto amargo na boca. Também, tem aparecido de forma recorrente no noticiário da imprensa agressões gratuitas a professores, de grupos de meninas contra colegas, de grupo neonazistas contra gays, só para citar alguns exemplos de intolerância e violência gratuita.

Porém, o que me assustou como manifestação de intolerância coletiva e fascista foi a triste e deprimente ocorrência que envolveu a estudante do curso de turismo de uma universidade particular do município de São Bernardo do Campo, Geyse Arruda. Filha de uma dona de casa e de um supervisor de serviços, a jovem talvez tenha enterrado com o seu sofrimento seu sonho de um obter um diploma superior pelo crime de ter ido à faculdade com um vestido bem curto.

O caos anárquico que se seguiu com uma turba ensandecida agredindo com violência e moralmente uma jovem sonhadora, choca em especial pelo fato de ter ocorrido dentro de uma universidade, local que subentende ser um espaço para a pluralidade de idéias e a defesa intransigente dos direitos individuais. A garota foi agredida, por rapazes e moças, com palavras de baixo calão, gestos e tentativas de agressões físicas e até sexuais. Ficam as perguntas: que tipo de gente esta universidade vai formar? A impunidade irá acobertar esses filhotes do banditismo fascista? Ou vamos ficar assistindo passíveis o ovo da serpente germinar? Quando a casca se quebrar poderá ser tarde demais.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 15 de novembro de 2009.

Tombar não significa derrubar (*)

O ato de tombar um bem público ou particular ainda provoca muita polêmica. Mesmo nos dias de hoje, com a facilidade de acesso às informações em todos os níveis, tem proprietário que ainda pensa que tombar um imóvel por órgão público ligado à preservação do patrimônio histórico e artístico é perder o seu direito de propriedade.

Para defender os seus direitos deixam seus imóveis deteriorar-se (acontece com frequência) para justificar a sua derrubada, até mesmo na “calada da noite”, como se diz por aí, como aconteceu recentemente com uma bela fachada, da rua 14, no centro da nossa capital (Campo Grande –MS).

Creio que cabe aos órgãos culturais e de preservação do patrimônio histórico fazer uma campanha (nunca é demais) de esclarecimento para que a população de um modo geral saiba da importância do tombamento de bens histórico-culturais, que fazem parte do passado/presente de um povo. Ora, isso leva com certeza ao apoio e parceria para o entendimento da defesa das marcas de seu passado e de sua história.

Na década de 70 do século passado, em Corumbá (MS), o desconhecimento da importância do tombamento de imóveis históricos significava a perda do imóvel. Os proprietários de casas e armazéns antigos não entendiam porque algumas pessoas defendiam a preservação desses imóveis aparentemente velhos e sem funções práticas e econômicas. Derrubar casas antigas e construir novas significava modernização. Este equívoco provocou uma reação negativa contra alguns jovens professores da Universidade Estadual (hoje federal) que defendiam o tombamento e a preservação do casario do porto. O caso mais emblemático foi a luta inglória pela defesa de um prédio, o mais significativo e belo de toda fronteira oeste brasileira. Era um imenso sobrado, que foi casa comercial, intendência municipal e correio. O seu proprietário, indignado com o que considerou uma intromissão indevida no seu direito de propriedade particular, denunciou alguns professores como “comunistas” que defendiam o atraso e por isso, eram inimigos da cidade. E, com uma violência incomum fez vôo rasante sobre a rua Delamare em seu pequeno avião, dando tiros no ar e providenciou uma rápida demolição do andar superior do prédio, que tinha paredes de pedra calcária com mais de 60 cm de largura. Para se ter uma idéia de sua dimensão, o tapume ao redor foi montado com mais de 60 enormes portas de madeira entalhada arrancadas do mesmo prédio.

Após a derrubada da parte mais linda e diferenciada do prédio, o casarão tornou-se um caixote de péssimo gosto. Este horrendo prédio, que até hoje está lá para ser visto, é o símbolo da ignorância e da prepotência que despreza e desvaloriza a histórica corumbaense.

No governo Wilson Martins, participei com os professores Lúcia Salsa Corrêa e Gilberto Luiz Alves da elaboração de um documento, publicado pelo Senado Federal (com os direitos autorais doados ao Estado), que serviu de subsídio para o tombamento do casario do porto de Corumbá. Hoje, felizmente, o pensamento mudou e muitos prédios do porto e de seu entorno estão preservados e restaurados.

Mais recentemente, aqui na capital, o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul deu dois pareceres defendendo o Obelisco dos altos da av. Afonso Pena e a preservação das frondosas árvores plantadas nessa principal via da cidade. Além disso, a discussão sobre preservar e tombar prédios está evoluindo para novas abordagens. Antes, somente se discutia o tombamento de bens imóveis anteriores a meados do século XX. Hoje não. Já existe um consenso de que imóveis (e também bens imateriais) mais recentes, mas com alto significado para a formação da história sócio-cultural de uma comunidade, merecem ser preservados e a sua destruição é uma perda irreparável para todos. Este é o caso da polêmica proposta da preservação e tombamento da bela fachada do Rádio Clube Cidade.

Recentemente li um artigo da doutora Maria Celma Borges, incorporando com outros professores a luta pelo tombamento do antigo fórum de Três Lagoas que, com a construção de um novo prédio, corre o risco de ser derrubado e transformado em estacionamento. O prédio não é muito antigo, como a própria cidade que surgiu com a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, mas fez parte do cotidiano dos três-lagoenses por décadas e é hoje um espaço ideal para atividades culturais e usufruto de toda a sociedade.

Mais recentemente veio à tona a proposta da derrubada de um prédio, projetado em 1958 pelo engenheiro Gabriel do Carmo Jabour, construído na década seguinte para ser um albergue noturno. Situado na avenida Afonso Pena, pelo descaso das autoridades responsáveis, o prédio foi-se deteriorando, passando a dar abrigo a desocupados, traficantes e viciados. Segundo técnicos, não compensa restaura-lo por suas estruturas e ferragens estarem comprometidas e expostas. Pura bobagem, pois com a tecnologia de hoje tudo é possível. Isso me faz lembrar Cuiabá, quando técnicos justificaram a destruição da bela catedral do século XVIII, afirmando que suas paredes estavam prestes a ruir. No entanto essas paredes de mais de um metro de largura, somente foram derrubadas à base de dinamite. Esses criminosos contra a cultura cuiabana, técnicos e religiosos, estão expiando seus pecados no calor daquele lugar distante.

Como não quero arder nas profundezas de minha consciência, continuo a lutar para preservar as raízes históricas do nosso povo.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 08 de novembro de 2009.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A quem interessar possa... (*)

No mundo contemporâneo a utilização de resultados de pesquisas de opinião é cada vez mais usada para tomada de decisões políticas, econômicas e sociais. Quando contrariam interesses, logo vêm questionamentos sobre a sua metodologia e seus resultados. Com razão, as pesquisas são aceitas quando os resultados são bons e agradáveis. Também são usadas como armas terríveis para manipulação de consciências em época de eleições. Isso porque entre os brasileiros corre o habito de contar vantagem por acertar sempre os seus votos.

O governo, em seus mais diversos níveis, é um dos maiores utilizadores de pesquisas de opinião desde que mostrem resultados positivos de sua administração. Que o diga o governo Lula.

Agora, apareceram duas pesquisas com resultados diferentes e que expõem publicamente um confronto de interesses entre a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), órgão classista de defesa da grande propriedade, e de outro lado, o Incra e o MST. Esta guerra de pesquisas foi motivada pela invasão no interior paulista, por integrantes do MST, de uma grande fazenda de empresa multinacional produtora de laranjas. As “ocupações”, como defendem os integrantes do MST, são práticas antigas da luta em defesa da reforma agrária. Em muitos casos deram bons resultados, além do apoio de segmentos da sociedade brasileira e de partidos políticos.

No caso dessa recente invasão, no entanto, as imagens televisivas de um trator derrubando milhares de árvores produzindo, num país em que muita gente passa fome, foi na verdade um tiro no pé. As imagens criaram um constrangimento aos defensores deste movimento social e à necessidade da reforma agrária como solução para o problema latifundiário brasileiro. Um erro estúpido com possíveis consequências ainda não dimensionadas. Dentro desta avalanche de ações negativas, ainda apareceram notícias de roubos e depredações, verdadeiras ou não. Com isso, o MST entregou de bandeja grandes argumentos aos seus opositores.

Antes desta loucura toda, foi divulgado o Censo Agropecuário de 2006, pelo IBGE, altamente favorável à agricultura familiar, aliás, um argumento favorável e devidamente utilizado pelos defensores da reforma agrária. Segundo esta pesquisa, é a agricultura familiar que produz a maioria dos alimentos consumidos pela população brasileira. O que mais impressiona nesta pesquisa é a informação que a agricultura familiar ocupa apenas 25% das terras agricultáveis. Neste conjunto de informações aparece ainda a liderança na produção de mandioca, feijão, leite, aves e suínos. Não duvido desses resultados alvissareiros, reforçados pelos resultados conhecidos aqui no estado.

Esses resultados, no entanto, são agora questionados por outra pesquisa, agora promovida pela CNA, e encomendada ao Ibope, como uma resposta à ação intempestiva do MST. Segundo foi divulgado, 72,3% das propriedades no universo pesquisado não geram renda com sua produção e somente 37% das famílias ouvidas têm renda de até um salário mínimo. Desses dados impressionantes resulta a conclusão de que parte dos assentados subsiste em extrema pobreza. Além disso, a pesquisa registrou uma alta incidência de 46% de venda de terras recebidas do Incra para terceiros, apesar de sua proibição. Esses são apenas alguns dados retirados da pesquisa divulgada pela CNA/Ibope, aliás, contestados pelo Incra.

É claro que de ambos os lados existem interesses políticos e ideológicos, mas para a sociedade brasileira, que em última instância é quem paga a conta, é preciso mais transparência e seriedade neste delicado assunto. Uma guerra de pesquisa, com certeza, não vai a lugar nenhum. Mas está claro que apenas doar terras não resolve o problema da miséria e de fome de milhões de brasileiros.

É preciso, antes de qualquer coisa, um projeto moderno de distribuição de terras e da qualidade nos investimentos. Creio, portanto, que está para acontecer um grande debate público, por todos os segmentos da sociedade, para mudanças de rumo da reforma agrária brasileira.


Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 01 de novembro de 2009.