domingo, 24 de fevereiro de 2008

A triste história da natureza: uma morte anunciada (*)

O ano de 2008 entrou com uma notícia que abalou os alicerces dos ambientalistas e criou mais uma grande confusão para o governo. Foi a divulgação pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de que nos últimos meses de 2007 houve um corte de 3.235 km2 de matas na região amazônica. A reação foi a mesma de sempre: uma avalanche de desmentidos, medidas governamentais paliativas e ampliação do descrédito dos que acham que o estrago foi maior.
A imprensa de modo geral deu amplo destaque à surpresa do desmatamento. Mas que surpresa? Parece piada de mau gosto. Qualquer estudante sabe que a Amazônia hoje é diariamente monitorada por satélites, podendo detectar qualquer foco de alteração na região, seja por derrubadas ou incêndios. O que é mais hipócrita neste triste fato é que ninguém viu a exportação de toneladas de madeiras de lei centenárias para o exterior, numa rede criminosa e fantástica de omissões e de interesses econômicos.
Tal evento, pelas suas dimensões, não pode e não deve passar despercebido. A bem da verdade, o assunto envolve milhões de dólares não só em madeira, como também em soja e gado, para atender apenas interesses de mercados internacionais. Isso mesmo. São os velhos compradores, os mesmos que alardeiam o falso interesse em preservar as fantásticas matas que ainda existem em território brasileiro. Enfim, não é de hoje que a pobre Amazônia constitui alvo da cobiça internacional e dos desmandos nacionais. Será que foi em vão a morte do herói dos povos da floresta, Chico Mendes?
Mas isto não é novidade na história do Brasil. Basta ver o início da colonização e o avanço da economia açucareira nordestina do litoral para o interior. Foi o começo de tudo. Com algumas diferenças, o mesmo aconteceu com outros ciclos econômicos, e mais recentemente com o avanço das novas fronteiras econômicas em direção às regiões oeste e norte. De fato, a incorporação de novas terras para utilização na agricultura e na pecuária sempre foi irmã gêmea das derrubadas e queimadas das matas. Isso foi e segue sendo recorrente na história de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul.
Em 1844/45 em Cuiabá, por exemplo, já eram vendidas peles de veados e onças a comerciantes que as levavam ao Rio de Janeiro. Por sua vez, em Corumbá, depois da guerra com os paraguaios, o porto local exportou peles de diversos animais selvagens e muitas penas de garças para a Europa, através da bacia do Prata. As peles de onça continuaram a representar um bom negócio, pelo seu uso decorativo e em vestuário de luxo, em mercados norte-americanos e europeus, o que motivou a sua caça indiscriminada até por volta dos anos de 1950, portanto, durante mais de um século.
Segundo a pesquisadora Lúcia Salsa Corrêa, ainda em 1887, o então presidente da província de Mato Grosso, Dr. José Joaquim Ramos Ferreira, observava que a atividade agrícola era praticada na região com a devastação das matas. De acordo com documentos da época, derrubava-se a machado árvores de cedro, jacarandás e outras espécies nobres, ateando-lhes fogo. Em contrapartida, como não existe impunidade para a natureza, as con-seqüências estão trazendo sofrimento às atuais gerações de brasileiros. O exemplo mais gritante encontra-se hoje na lenta devastação e assoreamento do rio Taquari.
O historiador cuiabano Virgilio Corrêa Filho chegou a afirmar em 1924, com todas as letras que "a história de Mato Grosso, opulenta de episódios empolgantes, é, mais do que nenhuma outra, a da luta gigantesca do homem contra a natureza bruta". Era a mentalidade da época (será que continua?) e a total despreocupação com os limites dos recursos naturais, tão abundantes em nosso antigo estado.
Por todo o estado, a história foi a mesma. Assim, na fronteira com o Paraguai, os extensos ervais nativos sofreram um intenso processo de devastação no final do século XIX e começos do XX pela exploração predatória e extensiva, inclusive com o desmate descontrolado, quando desnudavam as árvores até os seus brotos. Ao mesmo tempo, na região pantaneira, o avanço da pecuária caminhava em direção às cinzas das queimadas. Pastagens nativas acabavam sendo destruídas gradativamente, assim como os barreiros naturais de sal. Aliás, a queimada no pantanal é uma prática tradicional e costumeira utilizada até hoje para a limpeza dos campos e renovação das pastagens.
Só que os tempos e a natureza mudaram, e muito. Hoje estamos colhendo o que plantamos no meio ambiente: morte e destruição!
Os mais otimistas acreditam que o homem deste milênio está mais consciente e tem a clareza de que é imprescindível preservar o pouco que restou das paisagens e das vidas naturais do planeta. Pelo andar da carruagem da economia predatória que move nosso mundo, os mais pessimistas vaticinam que nem a natureza, tão pouco os humanos, sobreviverão por mais tempo, É o anúncio da morte.
E, quem viver(?), verá.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 24 de fevereiro de 2008.

Uma mulher muito "macho" (*)

A história da região mato-grossense como “história de um povo armado” foi marcada pelo surgimento de um fenômeno não raro na história do Brasil, mas muito pouco estudado e compreendido: o banditismo. De fato, o estado de Mato Grosso ficou conhecido durante quase toda a primeira metade do século XX como “terra de bandidos”. O banditismo floresceu na região com características endêmicas, a ponto de se equiparar ao fenômeno do cangaço nordestino. No entanto, tal como a história da própria região, o banditismo mato-grossense e os seus expoentes são menos conhecidos que Lampião, Corisco e outros cangaceiros. Raramente o banditismo foi visto como um componente significativo para a compreensão histórica. Pelo contrário, era um elemento desclassificado e desconsiderado na formação de uma sociedade. Os bandidos foram um segmento marginalizado da sociedade, sempre perdedores numa disputa com vencedores. Mesmo nos documentos produzidos pelas instituições e setores responsáveis pela segurança pública, os bandidos estavam sempre envolvidos em causas perdidas em conflitos sociais e políticos, por exemplo, em disputas e conflitos por terra, ou mesmo em contendas políticas ou revolucionárias. Todavia, quem ousou romper este entendimento simplificado foi o historiador Eric J. Hobsbawm, que estabeleceu um novo modelo de explicação mostrando uma nova categoria para a história social: o “banditismo social”. Para Hobsbawm, a questão do banditismo social é universal, com raízes em sociedades agro-pastoris e “mobiliza principalmente camponeses e trabalhadores sem terras, governados, oprimidos e explorados – por senhores, burgos, governos, advogados, ou até mesmo bancos” (Bandidos, p. 13). No caso de Mato Grosso, o banditismo desenvolveu-se com mais intensidade nas zonas de pecuária (pantanal e sul do estado), assim como se manifestou nas mais diversas formas de relacionamento com o latifúndio pastoril, com os “coronéis” fazendeiros e com a população sertaneja. Assim, identificavam-se no uso no uso da indumentária comum aos peões que lidavam com o gado e no uso obrigatório da arma branca ou de fogo que aproximava o vaqueiro do bandido na convivência diária com a violência, além do nomadismo e da vida rústica do campo. Além do mais, o banditismo sempre esteve vinculado a concepção machista da sociedade. Porém, todas as regras têm as suas exceções. No cangaço nordestino, por exemplo, ficou famosa a participação feminina no bando de Lampião, de Maria Bonita, Dadá, e outras. No entanto, apesar da visibilidade que tiveram, esta participação teve um caráter secundário, sempre à sombra de seus “homens”. Assim, o banditismo mostrava de forma acentuada o prestígio do homem sobre a mulher, em especial nas funções de comando. Já em Mato Grosso, nas primeiras décadas do século XX, apareceu uma mulher comandando um bando armado. Aliás, um acontecimento muito pouco conhecido na história regional. Foi a saga de Maria Aparecida Belmonte, uma gaúcha com o apelido de Capitoa e que comandou com pulso de ferro um grupo de bandidos na região sul do estado. Capitoa lutou na revolução de Gumercindo Saraiva (Rio Grande do Sul) em 1893, ao lado do marido e, após a morte deste, vestiu sua farda e comandou a própria tropa. Depois da refrega, dirigiu-se com alguns companheiros revolucionários para Mato Grosso, onde chefiou um grupo de bandoleiros que dominou a vasta região dos rios Brilhante, Perdido e Imbirussu. Esta história curiosa e ao mesmo tempo fantástica não ficou jogada no limbo da memória graças aos esforços e o trabalho excepcional de coleta de informações sobre a gente da fronteira, feito pelo mais importante folclorista e pesquisador sul-mato-grossense, Hélio Serejo. Em depoimento, Serejo afirmou que seu trabalho foi escrito a partir de levantamento criterioso de informações orais de antigos moradores da fronteira. Esta história está registrada em seu livro 4 contos.
Serejo descreveu assim a “bandida” Capitoa: era de “estatura baixa, morena-clara, cabelos negros compridos, olhos levemente esverdeados, voz grossa, autoritária e rompante, andar nervoso demonstrando constante insofreguidão. Mantinha, invariavelmente, o rosto pintado com carmim vermelho-violeta”. Além de contar sempre presa na cintura uma espada e também invariavelmente de um revolver “44”, Capitoa usava, ainda segundo Serejo, “uma faca e um belo rebenque, ambos com cabo chapeado de prata; lenço colorado no pescoço; bombacha enfeitada com botões de várias cores, bota; esporas tinideiras, fita de cor no cabelo; e um chapelão de vistosa barbela”. Envolvida nas lutas partidárias de 1916, foi intimada pelo major Antonio Gomes a não usar mais roupas masculinas. Não acatando tal ordem, foi posteriormente presa pelo mesmo major, que além de raspar seus cabelos, tirou-lhe a indumentária masculinizada e expulsou-a com seu bando para fora da região. Conta-se ainda que Capitoa, por volta de 1924, cuidava de um bolicho em Campo Grande e depois disso a sua vida esvaiu-se no tempo.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 17 de fevereiro de 2008.

Onde tudo começou (*)

A bicentenária cidade de Corumbá representa para o estado de Mato Grosso do Sul não só o principal núcleo urbano da zona do pantanal, como também (e juntamente com o Forte de Coimbra e Albuquerque) uma parte significativa de sua própria história. De fato, a história do estado começou pela bela cidade portuária. Fundada a 21 de setembro de 1778, por ordem do capitão-general Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, a povoação de Albuquerque (nome que tomou Corumbá no ato de sua fundação), transcendeu o simples fato de ser mais um pequeno ponto dentro do vasto império português. Seu estabelecimento à margem direita do rio Paraguai teve objetivos claros e definidos: apesar do pretexto de controlar o elemento indígena, hostil aos súditos lusos que penetravam em seu habitat, a preocupação do estado português era fixar pontos estratégicos em toda faixa da região fronteiriça cuja posse efetiva atuaria como anteparo à expansão colonial espanhola. A escolha do local, situada geograficamente numa posição elevada e estabelecido estrategicamente entre o chaco e o pantanal, criava aos portugueses a ilusão de ser a região militarmente favorável à defesa contra as correrias indígenas e, acima de tudo, diante de um possível ataque de espanhóis. Mesmo levando em consideração todos os interesses que envolveram a posse da região, tanto a coroa portuguesa como posteriormente o governo imperial brasileiro, a fronteira ficou relegada a um completo estado de abandono e à mingua a sua diminuta população. Assim, até o último quartel do século XIX, a povoação de Corumbá (esta denominação já aparecia na metade do século, como registrou o viajante Francis Castelnau) procurou sobreviver através de um incipiente e instável comércio e de uma pecuária de pequenas proporções. Nesse contexto é que a região sul, e especialmente Corumbá, viu-se envolvida na guerra com o Paraguai. Como conseqüência, a partir de 3 de janeiro de 1865, o povoado passou a fazer parte do território conquistado pela república do Paraguai. A facilidade encontrada pelas forças paraguaias na sua penetração pelo rio Paraguai demonstrou realmente o quanto eram frágeis, na fronteira, os dispositivos militares de defesa do Brasil. O significado maior da tomada da vila de Corumbá, apesar da invasão não ultrapassar esta localidade, foi o de assegurar aos invasores a navegação do rio Paraguai. O despreparo e as dificuldades encontradas pelas forças brasileiras impediram uma mobilização mais intensa contra os paraguaios. Assim, somente depois de dois anos, a 13 de junho de 1867, tropas vindas de Cuiabá, sob o comando do tenente-coronel Antônio Maria Coelho, conseguiram recuperar a vila. A vitória teve, porém, um sabor amargo, pois as forças brasileiras encontraram um inimigo mais feroz e mortal que os próprios paraguaios: a bexiga (varíola). Impossibilitados de permanecer na devastada vila, a força expedicionária retornou a Cuiabá levando consigo a terrível doença. Rapidamente a bexiga alastrou-se por toda a província, o que deu oportunidade aos paraguaios de voltarem novamente a Corumbá, por pouco tempo. O saldo da guerra foi desolador para toda a região: tudo ficou devastado e a antiga vila em ruínas. A partir de 1870 Corumbá começou a ser reconstruída. O governo imperial, numa tentativa de ajudar seus habitantes e incrementar a reconstrução e o desenvolvimento da região, franqueou o porto à importação de mercadorias de todas as origens por um período de dois anos. Logo, todo o movimento comercial da província passou a gravitar em torno desta atividade. Assim, Corumbá retomou pouco a pouco seu dinamismo como centro comercial da região, aumentando gradualmente sua população, adquirindo novos direitos como cidade e impulsionando cada vez mais sua principal atividade econômica: o comércio. Corumbá transformou-se, então, em fins do período imperial e início da fase republicana, em um centro urbano de grande importância em Mato Grosso. Entretanto, as características próprias do dinamismo assumido pelo intercâmbio comercial, que possibilitou à cidade de Corumbá ser pólo irradiador de toda a vida política, econômica e cultural do estado, também se tornaram uma força vulnerável, na medida em que esse poderio econômico dependia diretamente dos fluxos e refluxos da conjuntura internacional. Além de fatores internos, como o deslocamento do eixo econômico de Corumbá para Campo Grande, em função da construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, e mesmo as enchentes periódicas, as graves ocorrências externas como a Primeira Guerra Mundial e a crise dos anos 20 contribuíram para que Corumbá perdesse a supremacia como centro comercial do estado. Assim, a pecuária da zona do pantanal, que até então vinha passando por um processo lento de crescimento, tornou-se a força econômica de maior expressão na região e a cidade passou a viver gradativamente em função de suas próprias necessidades, perdendo assim, aos poucos, a vibrante função de centro cosmopolita diretamente conectado com cidades platinas e européias.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 3 de fevereiro de 2008.

Voto de cabrestro e outras mazelas políticas (*)

O voto, instrumento de escolha e direito exercido em eleições periódicas desde tempos imemoriais, constituiu a melhor forma de exercício da prática democrática como a própria história confirma. Infelizmente, também a história registra que não é mais perfeita. De fato, no campo político, a inteligência humana nem sempre esteve a serviço da maioria da população, mas utilizada por grupos que detém ou lutam pelo controle do poder. No período colonial o poder das câmaras municipais era exercido pelos chamados “homens bons”, ou seja, por vereadores representantes da grande propriedade rural. Como resultado, esta prática excluía a expressiva maioria da população como pequenos proprietários, posseiros, pobres, escravos e mulheres. Este afunilamento de participação política foi, com certeza, um dos mecanismos de controle da administração colonial e de interesse vital para a manutenção da exploração econômica da colônia. Após a independência, as restrições à participação política tinham fortes parâmetros econômicos. Com a constituição outorgada de 1824, estabeleceu-se um limite de renda líquida anual para votar e ser votado. Mais uma vez excluía-se da participação política a grossa maioria da população brasileira. Porém, foi em fins do período regencial que começou a bifurcar duas tendências partidárias, que cristalizaram no segundo império os partidos Liberal e Conservador. Apesar da denominação de partidos, não passavam de agremiações partidárias artificiais, com poucas diferenças entre si. Era comum afirmar que “nada era mais parecido com o Partido Conservador do que o Partido Liberal no poder ou que nada mais se assemelhava ao Partido Liberal do que o Conservador na oposição”.
As eleições seguiam ao sabor dos “mandões das vilas”. Um caso clássico em Mato Grosso, nesse período, foi a eleição de vereadores em Corumbá em 1873, a primeira após a guerra com o Paraguai que teve como principal protagonista o Barão de Vila Maria. Realizada na igreja matriz, o Barão postou atrás das duas mesas receptoras seus apadrinhados armados como forma de intimidação dos eleitores. Como era visível quem votava a favor ou contra, não deu outra, o Barão foi o mais votado. Depois, esta eleição foi anulada.
Entretanto, foi com a república que a coisa pegou. Ampliou-se a participação popular mas, em contrapartida, ficou mais explícita a manipulação dos eleitores pelos poderosos de plantão. De pronto, todos aderiram ao novo regime e à formação de novos partidos. Estes partidos republicanos de âmbito estadual ou local, muitos de vida efêmera, surgiam motivados por dissensões internas dentro de um mesmo grupo partidário para disputar uma eleição ou mesmo fazer oposição ao grupo oligárquico encastelado no poder. E tão logo desapareciam tais motivações, esses partidos extinguiam-se para nascerem posteriormente com outra roupagem, mas dentro das mesmas características partidárias.
Mesmo a legislação recomendando o voto secreto, até por volta de 1916 havia opção pelo voto descoberto. Foi-se então criando artifícios para manipular os resultados de eleições. Atas eleitorais eram fraudadas de acordo com os interesses, conhecidas como votos a “bico-de-pena. Eram incluídos votos de defuntos e de eleitores não cadastrados no município. Outro costume utilizado foi o “compadrio”, ou seja, o estabelecimento de troca de favores e laços fortes de compromisso entre padrinhos e afilhados. Assim, compadres e afilhados passavam a ser “exércitos de reserva” dos coronéis padrinhos. Neste universo, formavam-se verdadeiros “currais eleitorais”, onde se concentravam eleitores, muita comida e as cédulas eleitorais já previamente organizadas.
As cédulas (votos) eram impressas de forma particular, podendo o eleitor trazê-las da própria casa dentro de um envelope, ou colocá-las, também dentro de envelopes então existentes nas cabines eleitorais. Um fato curioso que passou para o folclore político, disseminado em todo o país, ocorreu com um coronel nordestino. Após dar alimentação a seus afilhados em seu curral eleitoral, foi organizada uma fila onde o coronel passou distribuir envelopes lacrados com as cédulas eleitorais. Superando o medo e a intimidação, um peão mais ladino perguntou porque o envelope estava lacrado. O coronel, do alto de sua arrogância, apenas disse: “porque o voto é secreto, meu filho!”.
Por outro lado, a velha prática de compra de votos, da qual se ouve falar em todas a eleições, é de difícil comprovação. O delito raramente deixa rastro. No entanto, uma documentação existente no Arquivo Público de Mato Grosso (Cuiabá) mostra com “todas as letras” como se trocava votos por bens materiais. É o arquivo pessoal de Aníbal Benício de Toledo. Nascido em Miranda e formado em direito, Toledo foi juiz em Cuiabá, chefe de polícia, deputado federal de 1912 a 1930 e presidente do estado, onde caiu com a revolução de 1930.
Nessas eleições para presidente do estado, Toledo deixou registrado uma série de bilhetes que encaminhava aos seus correligionários para atender seus eleitores. Entre eles destacam alguns: “Amigo e senhor coronel João Celestino. É portador do presente o Snr. Hygino da Silva, que necessita de uma camisa e um par de botinas, para as eleições”; ou este, “Ao exmo. snr. cel. João Celestino. Antonio Manuel Moreira apresenta o eleitor da 7a. secção o qual deseja uma fatiota, para comparecer as eleições” (fatiota era nome antigo de terno).
Mas com o tempo, as artimanhas eleitorais também se foram modificando. Todavia, uma delas teima em se manter presente até hoje, com as mais diversas roupagens: a compra de voto. Mas isso é uma outra história, para uma outra vez.
Valmir Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 3 de fevereiro de 2008.

Agora a revolta é pela vacina (*)

Curioso é este país chamado Brasil. Em 1904, para combater uma epidemia de bexigas (varíola) que grassava no Rio de Janeiro, foi aprovada uma lei, votada no Congresso e sancionada pelo presidente da república Rodrigues Alves, estabelecendo a obrigatoriedade da vacinação antivaríola. Em todo país, a precariedade sanitária expunha a população, em especial a mais pobre, às mais diversas doenças infecciosas. Na capital federal, por ser uma cidade portuária, além da varíola ocorreram outras epidemias como cólera e peste bubônica. A limpeza sanitária passou a ser prioridade do prefeito Pereira Passos, com o sanitarista Osvaldo Cruz na linha de frente do combate aos focos de mosquitos e na campanha de vacinação. No entanto, a truculência do governo na imposição da vacina provocou uma reação negativa da população, inclusive com manipulação política da oposição, que chegou inclusive a propor uma “Liga contra a Vacina Obrigatória”. O resultado desta confusão veio imediatamente. Durante mais de uma semana as ruas do Rio de Janeiro ficaram convulsionadas, com pessoas feridas e mortas, bondes incendiados, barricadas, lojas depredadas e saqueadas. Esta agitação ficou conhecida na história do Brasil como a Revolta da Vacina. Tal como o Rio de Janeiro, outras cidades portuárias como Corumbá sofreram epidemias que martirizaram a população local. Porém, não houve por parte da população corumbaense reações adversas à vacinação ou às medidas de profilaxia improvisadas e determinadas pelo poder público. Aliás, o maior problema dos habitantes de Corumbá era exatamente a total ausência de política sanitária, de infraestrutura de saneamento básico e de informação sobre contágios e riscos de doenças. Assim, a navegação pelo rio Paraguai além de trazer os benefícios dos intercâmbios comerciais, permitia a chegada de embarcações que traziam em seus porões desde a foz do Prata, sem nenhum cuidado, doenças que invadiam a região portuária. Entre os anos de 1867 a 1920, segundo a pesquisadora Lúcia Salsa Corrêa, Corumbá passou por 36 epidemias: cólera, coqueluche, febre amarela, febres gastrintestinais, gripe "Influenza", peste bubônica, sarampo, tifo, varíola. A alta incidência de enfermidades contagiosas condicionou a vida cotidiana dos corumbaenses, durante algumas décadas. A chegada de navios com notícias de epidemias nas cidades portuárias platinas causavam apreensão e temor à população e autoridades corumbaenses que exigiam a quarentena de navios, tripulantes e passageiros, impedidos de aportar no cais do porto sem segurança. Mesmo assim, quase sempre, como visto nas incidências desses episódios, as epidemias batiam às portas dos corumbaenses. As escolas encerravam o seu ano letivo e quem podia procurava refúgio em outras localidades, em especial, nas regiões pantaneiras. As casas comerciais fechavam ou diminuíam drasticamente seus negócios. Os que ficavam na área urbana apenas contavam com precariedades médicas e com a própria sorte. Parece que a vida dos corumbaenses neste período não foi nada fácil.
Passou-se o tempo, e muitas dessas doenças foram consideradas erradicadas. A população ficou despreocupada e desprevenida para enfrentar o retorno desses males. Parece, pelo andar da carruagem, que as autoridades também. Lembro que havia uma campanha nacional de vacinação nas escolas com gotinhas de BCG para o combate à tuberculose. Havia também a obrigatoriedade de se ter uma carteira com radiografia do pulmão (abreugrafia) para quem quisesse estudar ou trabalhar. Isso foi caso do passado, mas a tuberculose continua presente e vem ampliando os índices de casos registrados. Isso dizem médicos conscienciosos que começam alertar a população. O que é pior, é uma doença da miséria, da fome. Até as gotinhas preciosas da vacina Sabin, que erradicou a poliomielite no Brasil, parecem não ser mais uma prioridade para a saúde da família. Porém, o perigo continua existindo e não se pode baixar as guardas. Pois bem. No ano passado Mato Grosso do Sul foi varrido pelo avanço da dengue, uma doença chata e dolorida. E olha que o estado atingiu o triste índice de campeão de casos da doença, em especial, a sua capital. Sem tirar a responsabilidade e o descaso das autoridades, o avanço da dengue mostrou que parte da população não sabe ou não exerce o seu direito de cidadania. E o que é pior, não existe vacina para combate-la. É uma doença de lixo, de entulhos e de matagais. Trata-se de uma epidemia de negligência coletiva.
Este não é também um problema novo. Desde a expansão da fronteira agrícola do café, através de todo o estado de S. Paulo até Mato Grosso do Sul, o desmatamento de áreas silvestres para o plantio causou o desequilíbrio ambiental e provocou a proliferação de doenças como a malária e a febre amarela, desde o final do século XIX.
Mas, afinal, de quem é a culpa hoje em dia? Do irresponsável que jogou o lixo em lugar indevido? Mas quem deixou de dar educação e princípios de cidadania para a população? Isso diz respeito aos ignorantes, aos sábios e aos doutores. Não sei não!! Agora, os brasileiros estão assustados com a expansão da febre amarela. Ué! Não era uma doença do século passado? Não, é uma doença atual e que está aqui, ao nosso lado. Deixo aqui registrado, por dever de justiça, que os agentes sanitários do município de Campo Grande, aqueles jovens de uniforme caqui e que visitam as residências à procura de focos dos mosquitos transmissores da dengue, também tem alertado os moradores para a necessidade de vacinação contra a febre amarela. Isso, desde o ano passado. Mas o medo de contrair a doença tem levado pessoas a se vacinarem sem necessidade, provocando perigosos efeitos colaterais. As autoridades vêm alertando sobre isso. Infelizmente, o descrédito é tanto, por tantas omissões (inclusive algumas recentes) e falácias, que a população não está levando a sério. Não seria mais fácil divulgar a necessidade de vacinação para quem realmente precisa, por não existir vacinas para toda a população? Finalmente, é preciso dizer que a febre amarela está presente porque faltou nas últimas décadas uma política de preservação do meio ambiente, o que motivou uma degradação ambiental do cerrado no Centro-Oeste, permitindo a presença de macacos (hospedeiros) muito perto das zonas urbanas. E, a ação do mosquito transmissor foi apenas um passo. Agora, a culpa é do macaco?
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 27 de janeiro de 2008.

Em política, a vida imita a arte (*)

Um dos fenômenos políticos que mais tipificaram a história republicana brasileira, o “coronelismo”, já encontrava as suas bases cristalizadas no período imperial. O poder dos coronéis de interferir na política local e estadual encontrou seu momento de maior expressão na “política dos governadores” com o presidente da república Campos Salles e entrou em estado de decadência após a “Revolução de 1930” e o intervencionismo federal com Getúlio Vargas. Dessa forma, a estrutura de poder estadual, no período republicano, foi complexa na medida em que coexistiam, pacificamente ou não, chefes políticos locais que tinham sob seu domínio direto, ou influência, um núcleo urbano ou um município inteiro, partilhando o poder com outros “coronéis”, apoiando os mais fortes, porém, sem necessariamente ou abertamente recorrer às armas e à violência.
Muito já se escreveu sobre a intricada política deste período. Além de obras clássicas e consagradas pela historiografia brasileira e estudos mais recentes, existem obras literárias que contribuem também para a discussão e análise do tema. Um exemplo dos mais significativos é o romance Vila dos Confins (1956) de Mario Palmério. Mineiro de Monte Carmelo, Palmerio foi deputado federal por três vezes, fundou o primeiro curso superior em Uberaba; foi embaixador brasileiro no Paraguai no governo João Goulart e membro da Academia Brasileira de Letras.
Duas particularidades ligam Palmério a Mato Grosso do Sul. A primeira foi a sua fazenda São José de Cagalha, num chapadão mato-grossense, na divisa com o território goiano, onde escreveu a obra prima Chapadão do Bugre (1965). Depois, a composição da belíssima guarânia Saudade, composta inicialmente em espanhol, e que é um clássico da música regional.
Ao escrever o livro Vila dos Confins, Palmério conseguiu produzir um bom romance e expor, através de enredo simples e do processo eleitoral de um pequeno lugarejo, a própria história política brasileira. À medida que percorre as páginas do romance, o leitor convive com situações e personagens encontrados em qualquer parte do interior brasileiro. Dessa forma, Vila dos Confins é uma fonte fascinante para todo amante de história, que tem interesse em compreender o processo político brasileiro e introduzir-se no estudo do fenômeno do coronelismo. Como Palmério mesmo diz, este livro “...nasceu relatório, cresceu crônica e acabou romance”.
O livro focaliza as vésperas da primeira eleição de um município recém-emancipado. O eixo central gira em torno da disputa eleitoral entre duas agremiações partidárias, a União Cívica e o Partido Liberal, ambas fazendo parte da coligação de sustentação do governo estadual. Tratava-se da luta pelo predomínio do poder político no município entre os dois grupos representados pelo deputado Paulo Santos de um lado e pelo coronel Chico Belo, de outro.
Para Palmério, o dep. Paulo Santos é o estereótipo do político interiorano atrelado ao mundo coronelista e ao universo rural. O Dr. Paulo cresceu e se criou numa sociedade rural, conservadora, de regras pré-estabelecidas rigidamente pelo poder local, provavelmente filho de um coronel.
Uma das características das famílias poderosas nesse universo era encaminhar um dos filhos ao bacharelado em leis. Isto fazia parte dos caminhos percorridos pelo poder de mando. Com o retorno do bacharel, o poder reforçava-se através da manipulação e do controle da aplicação da lei no âmbito local. Logo, o filho advogado projetava-se na política, sustentado pela máquina eleitoral montada. E por conta disso, em muitos casos, o poder do coronel de âmbito local, passava a ter dimensão ou influência regional ou mesmo nacional.
Os interesses políticos do dep. Paulo Santos, que ambicionava aumentar seu prestígio e o controle sobre os municípios recém-emancipados, entram em choque com os do coronel Chico Belo. É nesse contexto que ocorrem os atritos e disputas coronelistas. Vale lembrar que o controle de mando do coronel contava com alguns elementos fundamentais: além do filho bacharel, detinha influência sobre o delegado de polícia e a possível conivência do pároco local, somados ao seu próprio prestígio político e riqueza para manter uma guarda pessoal e a lealdade de seus apadrinhados. De um modo simples, Mario Palmério lança toda a composição do coronelismo na boca de seus personagens: “Sei, não. Deputado. Eleição se ganha mas é com dinheiro e policia”.
Palmério escreve ainda que “com a aproximação das eleições nos municípios recém-emancipados, a política estadual se agitará. Os chefes do interior exigiam prestígio do governo, e nada melhor para manter a autoridade local que a presença de um delegado militar nomeado às vésperas do pleito”. Começam então as dificuldades do dep. Paulo Santos, enfrentado intimidação policial, traições, compra de títulos de eleitor e de votos.
O eleitor estava, dessa maneira, ligado a uma série de compromissos, votava sem consciência e como tal, “vendia-se” por submissão, amizade, troca de favores, dinheiro ou emprego. E, além da compra e venda do voto, o processo eleitoral refletia a fragilidade dos partidos políticos e a troca sem cerimônia de siglas partidárias às vésperas de um pleito para evitar o desconforto da derrota e da oposição. “Nas eleições passadas, nós aliamos aos democratas para vencer os liberais, nas últimas, nos unimos aos liberais para derrotar os democratas, agora, o boato é que os democratas estão se aproximando dos liberais para acabarem com a gente... Nessa confusão toda, sobram apenas os mais duros, que ninguém é bobo de fazer casa com pau bichado...”.
O processo eleitoral exigia um trabalho preparatório cuidadoso das atividades fraudulentas. Ao se fazer o levantamento do eleitorado potencial local, constatava-se a existência de grande número de analfabetos. Uma das primeiras medidas era providenciar títulos de eleitor para esse eleitorado “inexperiente”. E uma “mão gentil e providencial” ajudava na obtenção de títulos de eleitor. A seguir vinha o trabalho de “esclarecimento” para assegurar que o novo eleitor não votasse errado, ou anulasse seu voto.
Outra forma de garantir o resultado desejado nos pleitos eleitorais era oferecer marmita de comida ao eleitor, prática consagrada no universo coronelista como “voto de cabresto”. Essa tática foi combatida de certa maneira pela instituição da cédula única, eliminando as diversidades de cédulas. Antes, cada candidato tinha a sua cédula, obrigando o eleitor a colocar em um envelope uma cédula para vereador, outra para prefeito, outra para deputado e assim por diante. Assim, as marmitas eram acompanhadas por envelopes já prontos e fechados. O eleitor votava sem saber em quem.
Os eleitores podiam também ter condução para votar, sendo esta prática uma das formas mais corriqueiras de fraude eleitoral. Veículos eram colocados à disposição para buscar eleitores; estes faziam uma parada estratégica na casa do coronel que distribuía envelopes e, para maior segurança, podia até reter os títulos de eleitor, devolvendo-os após a votação. Nesta parada, também se providenciavam refeições, e estes locais passaram a ser conhecidos por “currais eleitorais”.
Também era comum nessas condições a compra de votos em dinheiro vivo, garantindo a vitória ao candidato mais rico, ou de padrinho rico. Esse comércio fraudulento de votos não foi tão somente um recurso literário do romance, mas efetivamente marcou o cenário político eleitoral nacional. Uma tática considerada clássica era cortar a nota (o papel moeda) ao meio, entregando a segunda metade ao eleitor após a realização do pleito. Outras medidas eram complementares como a intimidação policial, a interferência providencial do padre em seus sermões dominicais, e muitas outras formas sutis de intimidação.
Em contrapartida, afloravam da violência das eleições as manifestações de resistência às fraudes e manipulações declaradas dos poderosos de plantão. As práticas coronelistas eram ridicularizadas e viravam piadas populares. “Naquela eleição até os mortos votaram”. E, neste caso, a vida imitou a arte. Não era raro acontecer que crianças, ausentes e mortos votassem, incluindo eleitores que compareciam às urnas várias vezes numa mesma eleição. Vila dos Confins é também uma obra prima de Palmério capaz de desenhar o quadro singelo e surpreendentemente real (e atual) das práticas deformadoras do processo democrático brasileiro manifestadas em cada eleição. Os coronéis da vila já se foram. As fraudes permaneceram, como uma maldição histórica lançada no último suspiro dos tiranos. Vai demorar ainda para que as eleições neste país “exorcizem” os fantasmas da hipocrisia e da aperfeiçoada compra de votos.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 20 de janeiro de 2008.

Terra do baraço e cutelo (*)

A origem de Mato Grosso do Sul foi, historicamente, a irmã siamesa das raízes da formação e construção de Mato Grosso. Mesmo com a criação de um novo estado na região sul por lei complementar, nos idos do regime militar, a história da ocupação inicial da fronteira com outros países latinos é a mesma e com igual dosagem de complexidade e violência. Mesmo assim, existe um esforço necessário de pesquisadores e pensadores para com um novo olhar, encontrar uma história diferenciada para Mato Grosso do Sul.
Com isto, abre-se um leque de possibilidades aos historiadores regionais para adentrar as entranhas ainda pouco desvendadas da história do estado recém formatado.
Mesmo com a singularidade dos primeiros avanços dos portugueses na região, e mesmo pela continuidade nos séculos seguintes, a história de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul não pode, jamais, estar desvinculada da violência existente na sua vida cotidiana.
À primeira vista, pode parecer estranha esta interpretação. Mas no acompanhamento passo a passo dos primeiros tempos da colonização, pode-se perceber que em vários momentos, tanto no confronto com a natureza hostil como na relação nada amistosa com os primeiros habitantes da região, ou mesmo nas tensas relações fronteiriças, aliás, as mais importantes e complexas neste momento histórico de disputas e de convivência entre os impérios coloniais metropolitanos, a violência foi um componente presente na luta pela sobrevivência da população local.
Bem mais tarde, a região sul foi envolvida no grande conflito da Tríplice Aliança contra o Paraguai, trazendo uma explicita carga de violência, sangue e mortes. A chamada guerra com o Paraguai, com certeza a mais terrível guerra ocorrida em solo sul-americano, destroçou povoações e as relações sociais que se construíam na faixa não bem definida da fronteira, com prejuízos de vidas e bens materiais para todas as nações envolvidas.
No pós-guerra estabeleceu-se um esforço ingente para restaurar fazendas, posses e vilas queimadas ou destruídas e a recuperação da criação dispersa pelos campos. As dificuldades foram imensas. Famílias com patrimônios dilapidados e que tentaram resgatar o pouco que restou, também tiveram que enfrentar novos perigos com a ação de bandidos, muitos ex-soldados desmobilizados e desertores. Esta fase que se estendeu por várias décadas do século XX, também ficou conhecida como uma era de violência, e a região como uma terra de ninguém dominada pela lei do 44. Ou melhor, dominada e organizada sob os auspícios das armas de calibre 44. Porém, esta trágica situação pouco se diferenciou do resto do território mato-grossense.
No sul do estado, é bom que se diga, esta situação marcou de maneira intensa o modo de vida da gente fronteiriça. De fato, o uso de uma arma na cintura passou a ser um componente indispensável da vestimenta nesta sociedade marcadamente machista e violenta. Desse modo, era comum ver um peão descalço mas portando com orgulho uma arma de fogo ou arma branca, além, é claro, de uma boa “traia” no cavalo.
Muito apropriadamente, o general e historiador marxista Nelson Werneck Sodré, que também serviu em Campo Grande nos anos 1938/1939, como um observador aguçado deixou registrado no livro Memórias de um soldado (Ed. Civilização Brasileira, 1967) uma análise interessante sobre a região, classificando-a como terra dos senhores do baraço e cutelo. Ainda sobre a sua estada em Mato Grosso, Sodré deixou um instigante ensaio sobre a grande propriedade pastoril, chamado O Oeste (José Olympio Ed., 1941), que vale a pena ser lido.
O clima de insegurança e de violência confundiu-se, então, nas primeiras décadas do período republicano, com o coronelismo e o banditismo, dois fenômenos que marcaram de forma contundente e singular a fronteira sul de Mato Grosso e frutos da mesma estrutura sócio-econômica forjada na luta pela posse da terra.
Porém, sobre as relações de violência na fronteira sul existe uma verdadeira obra-prima editada em um livrinho despretensioso escrito por Umberto Puiggari, chamado Nas fronteiras de Matto Grosso. Terra abandonada (Ed. Mayença, 1933). Nascido em 1878, Puiggari exerceu atividades comerciais em várias regiões do estado, onde anotou com muita sensibilidade as “conversas de balcão” que escutava. Vivenciou fatos históricos como a participação de Mato Grosso na revolução de 1932. Amigo de Vespasiano Barbosa Martins, Puiggari soube registrar magistralmente o dia-a-dia da terra-de-ninguém mato-grossense.
O livro, de raro acesso pelo fato de ter sido publicado em pequena tiragem, tem seus originais e duas correspondências no cofre de segurança do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, doado pelo ex-governador do estado, Wilson Barbosa Martins. Este livro, por sua importância, deverá ser publicado brevemente pelo IHGMS, acompanhado de um estudo sobre a obra.
Puiggari assinava os seus documentos como “H. Puiggari Coutinho”, e escreveu seu livro no verso de papel timbrado da “Pharmacia Brasil de O. Jorge. Rua João Pessoa, 432. Telephone 3”. Na análise desses originais, percebe-se que alguns dos capítulos escritos não foram incluídos na obra publicada. Seria uma autocensura motivada por receio de represálias de pessoas citadas? Talvez, em razão disso, e após muitos anos residindo em Mato Grosso, Puiggari transferiu-se para o estado do Paraná., onde fundou o Jornal de Londrina.
Apesar de permanecer “exilado” em terras paranaenses, os registros de Puiggari constituíram-se em verdadeiros resgates da memória coletiva da fronteira e permitiram, parafraseando a belíssima criação explicativa do escritor Abílio Leite de Barros, a “permanência” de fatos significativos da história fronteiriça que, não fossem os historiadores, fatalmente seriam varridos pelos ventos do esquecimento.Foi através de Puiggari que se perpetuaram figuras marcantes do cotidiano fronteiriço, como a vida elegante do bandido Sismório, a tragédia nos ervais e a vida dura dos ervateiros, e ainda o terrorismo e o medo implantados por grupos de bandoleiros como os Bochincheros e a Turma Sinistra. Isso tudo acrescido do envolvimento do sul do estado na revolução de 1932 e da incrível história dos levantes de João Christiano Ortt, posseiro que combateu as forças da Matte Larangeira (com “g” mesmo), e foi violentamente reprimido como um agitador comunista. Aliás, João Ortt nem sabia o que era isso.
Ainda tem muito mais, mas deixo para a curiosidade dos futuros leitores.
Enfim, são histórias tão fantásticas que podem render roteiros cinematográficos e, assim, dar início a um ciclo de cinema regional sobre o “velho oeste” sul-mato-grossense, para nenhum americano botar defeito.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 13 de janeiro de 2008.

Uma leitura que vale a pena: as desventuras do coronel Fawcett (*)

O espírito de aventura que motivou homens em diversas épocas e regiões rumo às terras até então desconhecidas, por certo também atendia a interesses econômicos. Basta lembrar o papel dos viajantes espanhóis, portugueses e ingleses no avanço do mercantilismo metropolitano europeu em terras do Novo Mundo e em outras terras descobertas no século XVI. Como é sabido, historicamente, essas terras foram incorporadas à etapa do capitalismo comercial, transformando-as em mercados fornecedores de matérias-primas e consumidores de produtos lucrativos às nações colonialistas.
Mesmo após a partilha dessas terras pelos impérios europeus, elas continuaram sendo alvos da cobiça de viajantes e aventureiros. Mais tarde, com o avanço tecnológico no século 19, as novas relações de poder entre as nações européias acirraram as disputas pelo antigo espólio colonial. Aventureiros e expedições ditas "científicas", passaram a percorrer e a buscar conhecimentos regionais, emitindo relatórios e coletando amostras da fauna e flora, das riquezas minerais e de utensílios de populações nativas. Era um tempo em que os "impérios" necessitavam de maiores conhecimentos geográficos das regiões periféricas para expandir seus interesses econômicos e de dominação. Foi também um tempo de grandes aventuras, como as empreendidas por Langsdorff, Burton e Livingston, entre outros. No rastro dessas aventuras e suas fantásticas histórias insere-se também o inglês Percy Harrison Fawcett, morto por índios nas selvas brasileiras em 1925.
A morte desse aventureiro sempre esteve envolta em uma teia de mistérios e controvérsias. O seu desaparecimento e a busca dos vestígios que confirmassem a sua morte suscitou, por décadas, a imaginação de aventureiros, jornalistas e escritores, tanto brasileiros como estrangeiros. Assim, na onda da atual valorização do gênero literário da biografia, aliás com grande sucesso editorial e de vendas, foi publicado, há um certo tempo, o livro do jornalista Hermes Leal, Coronel Fawcett. A verdadeira história do Indiana Jones (São Paulo: Geração Editorial, 1996, 299 p., fotos).
Baseando-se em extensa bibliografia, em notícias de jornais e em anotações do próprio Fawcett, o autor traçou a trajetória desse aventureiro desastrado, desde as suas origens familiares, passando pela vivência na Índia como oficial do exército inglês, onde acentuou o gosto pela pesquisa arqueológica e, finalmente, as suas desventuras nas selvas sul-americanas.
Espírito aventureiro, obstinado em reviver com obsessão as grande glórias e aventuras do século XIX, Fawcett mostrou toda a sua desinformação ao perseguir a miragem de uma cidade perdida no interior do território brasileiro. A busca deste mito, que ele afirmava ser a "misteriosa Z", demonstrou de forma patética seu grande desconhecimento sobre a região interiorana brasileira, seus costumes e cultura e, em especial, de sua população nativa. Aliás, seu maior e fatal erro.
Porém, ao escrever sobre uma figura tão contraditória, Hermes Leal enfrentou as armadilhas comuns que se apresentam ao optar pelo gênero biográfico, como por exemplo, emaranhando-se na linha tênue que separa a realidade da ficção. No entanto, o autor conseguiu superar de forma satisfatória essas dificuldades, apesar de não deixar claro em vários momentos, a diferença entre informações originais coletadas e a simples reprodução de documentos e textos já publicados. Sem fazer proselitismo, buscou traçar um perfil distante e crítico do biografado. Em certo momento, referindo-se à expedição de 1920, chegou a afirmar que "Fawcett montou a mais louca das expedições, planejada para ser realizada na mais completa irracionalidade, no que se referia às questões de sobrevivência" (p. 104).
Hermes Leal cometeu pequenos deslizes ao incorporar a visão de quem depõe, esquecendo-se dos riscos que os depoimentos apresentam pela visão impressionista dos fatos. Nesse sentido, incorre no absurdo de afirmar sobre a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que "Depois de uma semana de solancos, o trem rumou para Santa Cruz de la Sierra, na Bolivia, deixando os ingleses em Porto Esperança" (p. 161). Acontece que, por volta de 1925, objeto desta referência, era neste ponto, às margens do rio Paraguai, que a estrada de ferro tinha o seu final. Somente décadas depois houve a continuação da estrada para a Bolívia. De fato, ao desembarcar em Porto Esperança, como todo viajante que chegava ao final da ferrovia, pegou um navio, provavelmente o charmoso “Fernandes Vieira, para desembarcar e descansar em Corumbá. Nesta cidade portuária ficou hospedado no Hotel Galileu, que abrigou todas as figuras ilustres que passavam pela cidade. Chama também a atenção do leitor mais atento as referências que o autor faz, por exemplo, da Royal Geographical, ora como Society (p. 93), ora como Institute, ou mesmo quando se refere à maleita (p. 66), e à malária (p. 68), como se fossem doenças diferentes.
Além disso, a par da seriedade com que o trabalho foi concebido, o autor comete leviandades que revelam um oportunismo desnecessário. Um exemplo disso encontra-se na p. 81, ao referir-se aos primeiros tempos da colonização e ao personagem Diogo Alvarez, identificando a índia Paraguaçu como Pocahontas (um senso de oportunidade de gosto duvidoso, aproveitando a recente onda da imprensa internacional e as repercussões da divulgação maciça de um desenho animado). Na verdade, um afirmação desse tipo pode levar o leitor a desacreditar da seriedade da pesquisa exigida para a elaboração do livro. Porém, a questão mais passível de crítica está no próprio subtítulo "A verdadeira história de Indiana Jones". A possibilidade de Spielberg ter se inspirado em Fawcett para criar o personagem Indiana Jones não justifica, com toda a certeza, identificar o aventureiro inglês com o famoso personagem de ficção. À primeira vista, parece ser uma jogada de marketing para a venda do livro, o que é, no mínimo, lamentável e desnecessário, já que o tema abordado por si só é interessante e atraente.
Uma outra questão que também não ajuda o leitor é a falta de referências claras sobre as fontes bibliográficas de apoio, por exemplo, ao referir-se ao diálogo entre o presidente da República Epitácio Pessoa, o marechal Rondon e o próprio Fawcett, fato elucidativo que mostra o lado obscuro da História do Brasil sobre a subserviência das autoridades diante dos interesses e pressões externas. No caso, o presidente Epitácio Pessoa, truculento representante da elite oligárquica que notabilizou seu governo pela repressão e perseguição aos operários, tendo aceitado a pressão do embaixador inglês, financiou a expedição de 1920 e também permitiu a sua penetração pelo interior do país sem o acompanhamento de militares brasileiros, que era uma exigência do próprio Rondon.
A expedição de 1920, segundo Hermes Leal, veio confirmar uma faceta obscura da personalidade de Fawcett, que por sua pretensão e orgulho jamais assumiu sua completa ignorância da realidade e dos costumes da região interiorana brasileira, com repercussões negativas em sua popularidade, demonstrada, por exemplo, pela população de Cuiabá.
Contudo, o livro de Hermes Leal, de agradável leitura e interesse para o leitor que gosta do gênero de aventuras e mistério, vem somar com outros autores preocupados não somente com as peripécias do desastrado aventureiro inglês, como também desvendar a misteriosa névoa que envolveu a sua morte e demais membros de sua última expedição, inclusive seu filho. Podem ser citados o jornalista Edmar Morel, que, na década de 40, fez uma série de reportagens para os Diários Associados e o escritor Antonio Callado, que escreveu o livro Esqueleto na Lagoa Verde (Um ensaio sobre a vida e sumiço do Coronel Fawcett. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1953), além, é claro, dos próprios relatos de Fawcett (FAWCETT, P. H. A expedição Fawcett. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1954).
Infelizmente o trabalho de Hermes Leal, como todos os outros, não foi conclusivo para desvendar o local e os verdadeiros restos mortais do desventurado inglês. Afinal, a ossada encontrada nas selvas do Xingu era ou não de Fawcett? A dúvida continua apesar dos relatos indígenas insistirem em sua confirmação. Com certeza, os novos avanços da tecnologia, através de exames de DNA poderão em breve dar uma resposta definitiva.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 6 de janeiro de 2008.

Sonhar é preciso. Uma escola solidária e desafiadora é possível (*)

A educação é matéria diária estampada nos jornais brasileiros, em seus diversos veículos. A maioria dessas notícias, infelizmente, não é positiva e, de um modo geral, há um consenso de que a educação anda muito mal das pernas entre nós.
Nosso estado e nossa capital, Campo Grande, não fogem a esta regra. A cidade tem, atualmente, uma população de 724.524 habitantes (fonte IBGE, 2007) e quase a metade dela (aproximadamente 40%), corresponde ao universo de estudantes da educação básica, infantil e média. E, este percentual corresponde a um dos alvos prioritários do sistema de educação pública, municipal e estadual, visando a preparação de crianças e de jovens para o mundo do trabalho e para a cidadania. E, como é sabido, a legislação vigente das diretrizes e bases da educação determina que as crianças desde a mais tenra idade sejam, de fato, a meta primordial da educação formal ou não formal promovida através de políticas públicas no âmbito municipal.
A realidade da escola pública, de um modo bem geral, é complicada, para dizer o mínimo. Sua crise é profunda e estrutural, arrastando-se por longos anos e não será solucionada em curto espaço de tempo. A começar pela situação de desprestígio e má remuneração dos docentes e dos operadores da educação infantil que, por outro lado, nem sempre estão em situação tão difícil quanto os do sistema estadual. É sabido, também, que alguns poucos municípios sul-mato-grossenses conseguem oferecer melhores condições de trabalho (entenda-se condições estruturais e salariais) aos seus docentes do que o estado.
Por isso, no âmbito municipal, é possível fazer alguma coisa de significativo, inclusive almejar e até sonhar com uma escola de alta qualidade.
As questões mais relevantes da educação básica, entretanto, não se confinam dentro dos muros da escola, embora nestes limites muitas coisas devam ser mudadas ou aperfeiçoadas. Diante de tantas mazelas expressas nas avaliações de alunos (o fraco desempenho de crianças em leitura e raciocínio matemático, por exemplo) e no descontentamento crônico dos professores, para citar apenas alguns dos problemas, uma solução a ser desenvolvida em curto prazo é a política de redução de danos.
No âmbito interno da escola, a mudança fundamental e viável a ser realizada é a valorização do professor enquanto eixo fundamental do processo da educação. Esta valorização não passa necessariamente por melhorias salariais imediatas, planos de carreira e capacitação, concursos para ingresso ou gestão democrática, tais como são discutidas e realizadas hoje nas escolas públicas.
Claro que tudo isso é importante e necessário, a começar pela formação/capacitação do docente. Mas, o foco deve ser outro: a valorização do docente pode ser alcançada através da transformação do professor em protagonista real da educação, constituindo-se também em objeto da educação continuada. Os alunos, crianças e pré-adolescentes, são os alvos primordiais deste agente educador e solidário, mas sua atuação necessita estender-se pelas famílias dos alunos e por todo o bairro a que pertence a sua escola.
Como protagonista, o professor necessita apresentar um perfil de competências e de habilidades, permanentemente treinadas e avaliadas, no âmbito de sua sala de aula, no âmbito de sua escola e no âmbito da sua sociedade. Na sala de aula o alvo é a formação moderna e, ao mesmo tempo adequada ao mundo real do aluno, bem como o combate à desmotivação para os estudos e ao fracasso escolar que desembocam na repetência e na evasão. Na escola, o docente deve protagonizar a denominada (e mal compreendida) gestão democrática, compartilhando todos os problemas e soluções para o funcionamento da sua unidade, cumprindo metas da proposta político-pedagógica da escola e participando de forma integrada e integral de tudo que se relaciona a este lugar: da limpeza do prédio aos critérios de seleção de novos docentes e funcionários.
Todavia, considerando que a escola é parte de uma trama social muito mais ampla e complexa, a atuação dos docentes da educação básica acaba estendendo-se até as famílias que já não desempenham mais o papel clássico da formação das crianças. As carências detectadas nesta formação vem sendo transferidas para a escola, que além de ser um conveniente depósito de crianças passam também a substituir quase que integralmente pai e mãe (ou avós, ou responsáveis) no processo de transmissão de valores e de princípios de convívio humano e de cidadania. E a escola faz isso de forma mal ajambrada, posto que os cuidados da família são insubstituíveis.
Na perspectiva de uma política de redução de danos, dos portões para fora da escola, o docente protagonista da educação deve representar uma escola cidadã-solidária e dirigir seu trabalho em direção à família de seu aluno, integrando e articulando a educação em sentido mais amplo e abrangente. Dessa maneira estará formada uma rede solidária articulada à economia solidária, que tem por metas gerar emprego e renda às famílias, capacitar adultos trabalhadores, crianças e jovens para as mais diversas formas alternativas de organização do trabalho, promover a cidadania e a solidariedade e manejar de forma responsável os recursos da natureza.
Não se trata de uma política educacional voltada para pobres (não se trata de assistencialismo), mas para toda a sociedade que deveria poder contar com uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos, indistintamente. A chamada “classe média”, por exemplo, que contribui com uma larga fatia dos altos impostos deste país, poderia optar pela escola pública, sem ter que arcar com o alto custo da escola privada, nem sempre a melhor opção para uma educação de qualidade.
Uma escola solidária é uma escola teoricamente sem muros, aberta e comprometida com as necessidades do bairro em que se situa, tendo como ator e diretor desse processo o professor-solidário, o profissional diferenciado e agente transformador dentro e fora do prédio escolar. A escola cidadã e solidária é concebida como um pólo articulador e irradiador de ações que promovam a discussão, o conhecimento e a solução criativa para os problemas de violência e segurança dos alunos e de sua família, da necessidade de prevenir o tráfico (e a dependência) de drogas que não apenas circundam, mas também adentram as escolas.
Além disso, como tarefa social e educativa, o professor solidário pode desenvolver, além da escola, os temas transversais do ensino fundamental, como a prevenção e preservação da saúde coletiva (sexualidade e combate às diversas formas de DST, por exemplo), que atinge diretamente alunos na fase de passagem da infância para a adolescência. Ou ainda, ampliar um trabalho de conscientização para o uso responsável do solo, das águas, das fontes naturais de energia e do ambiente como um todo, focando o problema do lixo no meio urbano (uma questão que demanda educação ambiental, cidadania e criatividade). Outro exemplo de ação cidadã é a promoção de atividades de lazer e cultura para a inclusão de idosos, portadores de deficiências físicas ou mentais, jovens e adultos portadores de doenças advindas do sedentarismo e má nutrição/má educação alimentar (obesidade, pressão arterial alterada e outros). E, também, a difusão permanente dos valores éticos que fomentam a solidariedade e a tolerância, promovendo uma vida social compartilhada e com respeito a multiculturalidade de raças e etnias que formam o povo brasileiro e sul-mato-grossense.
Este docente necessita ser capacitado e valorizado, antes de qualquer coisa.E, estas idéias não são novas. Nova pode ser a forma de praticá-las e colocá-las a favor da população (uma experiência que Campo Grande pode desenvolver) e que precisa superar a barreira da má qualidade de vida. As possibilidades de sucesso da escola solidária são múltiplas e viáveis, uma vez que haja a mudança fundamental no eixo da educação: no caso da escola pública municipal, a criança (seu mundo, sua família e seu bairro) representa o coração da escola; o professor-solidário é a sua alma.
O desenvolvimento sustentável e solidário só se realiza tendo suas bases sólidas na educação em sentido mais amplo, no processo de conscientização da população para a conquista responsável de uma vida melhor e mais saudável, com a preservação da harmonia na convivência humana, no ambiente da natureza e no ambiente da cidade. A criança cidadã tem de ser, portanto, o objeto principal de uma política municipal e a educação seu mais eficiente instrumento de valorização da vida e do ambiente. E inclui famílias pobres, médias e ricas. Isto é um sonho possível.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 30 de dezmebro de 2007.

Minas do Urucum: as veias abertas de Corumbá (*)

Após a fundação do Forte de Coimbra (1775), o capitão-general Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, então governador da capitania de Mato Grosso, ordenou aos seus servidores portugueses que procurassem na sua fronteira sul um “local aprazível”, segundo documentos da época, para a fundação de um povoado. No ano seguinte, o sertanista Leme do Prado encontrou o lugar desejado numa região de altas barrancas, na margem direita do rio Paraguai. Porém, retornando a Cuiabá não obteve apoio imediato dos cuiabanos para a sua empreitada.
Prado esperou mais dois anos para retornar ao local, limpou o terreno, e como não era propício ao desenvolvimento de uma plantação de subsistência por ser basicamente de solo calcário, desceu alguns quilômetros. Ali preparou as condições para a vinda de colonos e, finalmente, atender as orientações do capitão-general. Este local veio a ser chamado Ladário muito tempo depois.
Dias depois, em setembro de 1778, Marcelino Rodrigues Camponês, vindo do Forte de Coimbra com um pequeno grupo de colonos, fundou no “local aprazível” anteriormente escolhido, uma posse portuguesa que recebeu oficialmente o nome de Albuquerque. Mais tarde, a partir de meados do século XIX, o povoado passou a ser conhecido por Corumbá. O calcário ali existente serviu, em contrapartida, aos interesses da colonização portuguesa. Foi dali que imensos blocos de calcário foram extraídos e embarcados rio Paraguai acima, passando pelo rio Jaurú até o rio Guaporé (hoje Rondônia), para serem utilizados na construção do forte do Príncipe da Beira (1782).
Os representantes da coroa portuguesa que optaram por esse lugar, não tinham clareza de que garantiam dessa forma a posse definitiva de uma grande região para o império colonial (e, mais tarde, para o estado brasileiro), incluídas ai reservas incalculáveis de riquezas (manganês e ferro) a serem exploradas futuramente: as minas do maciço do Urucum, em Corumbá.
A exploração dessas reservas somente ocorreu a partir da época da chamada Segunda Revolução Industrial e do avanço tecnológico nas últimas décadas do século XIX. Foi a época do neocolonialismo, quando as nações industrializadas buscaram obter o controle direto das fontes de matéria-prima.
Em Corumbá, superada a fase da grande crise provocada pela guerra com o Paraguai, o governo começou a distribuir as primeiras concessões de direito de lavras estimulando iniciativas de exploração dos minérios do Urucum, inclusive para a viúva do Barão de Vila Maria. Contudo, estas iniciativas foram infrutíferas. Em 1906, uma companhia belga adquiriu uma concessão de lavras e conseguiu ir um pouco mais além. Aliás, os belgas já haviam estabelecido negócios na região matogrossense, com a compra da gigantesca fazenda de Descalvados, ao norte do Pantanal, para a produção de charque e outros derivados da pecuária bovina. Infelizmente, a falta de capital levou-os a abandonar a concessão do Urucum em 1918. E, nessa situação, o manganês que chegou a ser extraído ficou acumulado na boca das minas por mais de 30 anos.
O governo de Mato Grosso passou então a lutar, judicialmente, pelo direito da concessão das jazidas, o que obteve somente a partir de 1943. Entretanto, a exportação dos minérios foi paralisada com a crise advinda da Segunda Guerra Mundial na Europa. Após o conflito, as explorações foram retomadas, incluindo a produção de ferro gusa. Em 1952, finalmente, Mato Grosso obteve a posse definitiva das reservas minerais do maciço do Urucum e do Jacadigo.
A partir daí, algumas companhias alternaram-se na exploração, porém sem regularidade em suas atividades. As condições ambientais da região do Urucum e do Jacadigo, bem como os inúmeros contratempos de ordem logística e até política, não facilitaram uma exploração viável e, de certa maneira, estas riquezas minerais foram preservadas, constituindo, ainda nos dias de hoje, um potencial econômico de grande significado para Corumbá. Mesmo assim, incontáveis quantidades de toneladas foram extraídas dessas montanhas, deixando extensos túneis e fendas que aviltaram a beleza natural dos morros. Corumbá quase nada usufruiu desse processo, a não ser a oferta de empregos periódicos que animavam a população local, apenas temporariamente. Isso sem lembrar a tão sonhada (e frustrada) promessa de instalação na cidade de um pólo siderúrgico.
Além do manganês, ferro e calcário, há uma outra riqueza no solo corumbaense pouco divulgada, considerada estratégica para a segurança nacional. Para a surpresa de muita gente, Corumbá possui uma reserva de calcita ótica de valor incalculável. Trata-se de uma grande reserva, de rara incidência no mundo, talvez a última que sobrou da sanha dos exploradores. E, para quem não sabe, a calcita ótica é um mineral utilizado na confecção de lentes de alta precisão para a mira de armamentos e de raio laser. Durante a Segunda Guerra, os americanos chegaram a dinamitar uma grande reserva existente na Europa, com receio deste minério cair em mãos dos nazistas.
Ainda sobre as minas do Urucum e do Jacadigo, com a criação do estado de Mato Grosso do Sul, iniciou-se uma longa disputa pelo controle entre os dois estados dos 46,6 por cento das ações da Urucum Mineração S.A, sob o domínio da Companhia Matogrossense de Mineração S.A. – Metamat. A Comissão Especial para dirimir dúvidas quanto à distribuição dos bens entre os dois novos estados não conseguiu, por mais de dez anos, convencer os cuiabanos dos direitos sulinos sobre as minas do Urucum.
Em 1985, o governador de Mato Grosso, Julio Campos, tentou vender as ações da Urucum Mineração à Companhia Vale do Rio Doce, o que foi impedido por ação enérgica do então governador de Mato Grosso do Sul, Wilson Barbosa Martins. Até 1990, o governo do MS continuou a lutar pela posse das ações da Metamat.
Mas foi em 1994 que se travou em solo sul-mato-grossense a maior batalha pelas ações das minas do Urucum. O embate deu-se na Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul, para a permissão de ir a leilão na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, na qual seriam vendidas 28% das ações da Mineração Matogrossense (Metamat) e 18,66% das que estavam em poder de Mato Grosso do Sul. Dos deputados estaduais, apenas 8 votaram em apoio aos interesses do estado e da expressiva maioria da população, entre eles o atual governador André Puccinelli e o velho guerreiro Armando Anache. Ao mesmo tempo, um grupo de políticos, entre eles o ex-governador José Fragelli e o médico Moisés dos Reis Amaral, entrou com um processo para impedir a realização do leilão. Curiosamente, o leilão não ocorreu por falta de compradores mas, mais tarde, a própria Vale do Rio Doce comprou as disputadas ações. A novela continuou, pois em 1999, o estado ainda tentava reverter o processo da venda das ações cobiçadas.
E Corumbá? Continuou a ver as chatas abarrotadas de minérios escoarem pelas águas do rio Paraguai.
Mas a história não parou por ai. Mais recentemente, a imprensa noticiou com certo destaque a sonegação fiscal das mineradoras em Corumbá, que pode atingir a cifra escandalosa de 22 milhões de reais. Parece também que o atual prefeito de Corumbá quer recuperar o tempo perdido e cobrar dois reais (isso mesmo, dois reais) por tonelada de minério extraído. A briga parece que vai ser boa na justiça. Pobre Corumbá.
Se Deus é mesmo brasileiro, concedendo a graça de uma natureza rica e exuberante a todos os rincões do país, esqueceu-se, porém, da gente corumbaense. Corumbá segue sendo carente da justiça dos homens e bem longe da divina.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 23 de dezembro de 2007.

O agiota não é mais aquele (*)

Duas figuras sempre povoaram as minhas memórias. Uma delas existia na pequena cidade em que me criei, mas o fenômeno ocorreu em todas as cidades deste território varonil. Em muitos lugares, dependendo do tamanho da população, não existia apenas um, mas eram inúmeros. Era a figura sinistra e execrada do agiota. Aliás, a agiotagem existe desde que o homem descobriu que podia viver as custas do desespero dos outros. Era o calvário dos endividados, a última esperança de quem já havia perdido a fé em Santo Expedido ou Santa Edwirges, dependendo da predileção e da crença.
O agiota representava, contraditoriamente, o salvador da pátria e o carrasco sem compaixão. Sabia atender com gentilezas a quem precisava, porém cobrava a dívida com mão de ferro e contava, muitas vezes, com a ajuda de “funcionários” sombrios e mal encarados. Cobrava juros escorchantes e não tinha piedade de tomar bens materiais, deixando famílias mais empobrecidas e na rua da amargura. Alguns agiotas tornaram-se poderosos e ricaços, acumulando também contra si o ódio da comunidade. Entretanto, era visto como um mal necessário, em especial, para quem não tinha mais crédito na praça.
A outra figura em questão, mais freqüente nas grandes cidades e diferente do agiota representava uma chance aos endividados de alívio à pobreza: era o bicheiro. Fazer uma “fezinha” significava arriscar pequenas quantias em palpites muitas vezes revelados em sonhos, sob a forma de uma seqüência numérica sorteada no jogo popular criado ainda nos tempos do Brasil imperial. O criador do famoso jogo do bicho foi um senhor de terras do Rio de Janeiro, João Batista Viana Drummond, o barão de Drummond, cujo título de nobreza foi recebido por libertar escravos antes da Lei Áurea. O barão inventou o jogo para arrecadar dinheiro para salvar e custear um zoológico carioca em dificuldades. Por isso, identificou os números do jogo com os bichos ali existentes.
O bicheiro que controlava a banca do jogo, mesmo sendo um contraventor pela legislação brasileira, passou a ser uma figura respeitada pela sociedade, fazendo trabalho assistencial em sua comunidade melhorando as condições das pessoas carentes, onde era flagrante a ausência dos aparelhos estatais. Naqueles tempos, esta figura genuinamente brasileira, cercava-se por um batalhão de agregados e empregados, e também foi retratada na literatura, no cinema e na televisão, com seus anéis, colares e dentes de ouro. Muitos bicheiros tornaram-se sustentáculo do brilho das escolas de samba pelo Brasil afora, responsáveis pelo embelezamento dos carnavais de rua. Era o estereótipo do bom e bem sucedido malandro.
Porém, essa figura arcaica e paternalista, não conseguiu fazer frente à onda do tráfico de drogas e, praticamente, foi perdendo terreno no cenário da malandragem nacional. No entanto, essas figuras ainda resistem sendo freqüentes as suas presenças em páginas policiais de jornais. Basta ver o destaque na imprensa nacional dos bicheiros do Rio de Janeiro.
Surgiram novos tempos. O malandro pra valer não existe mais, como diz o samba do Chico. Agora o que impera é a malandragem oficial e oficializada. Assim como os clássicos bicheiros, os agiotas também sofrem pesada concorrência e estão em risco de extinção, perdendo espaço nas relações financeiras do dia-a-dia do brasileiro comum. A agiotagem, que era crime contra a economia popular, passou a ser hoje um bom negócio e, pasmem!, lícito. O alvo principal é o(a) velhinho(a) aposentado(a) ou pensionista, com a eterna fama de pobre, porém bom pagador. Uma avalanche de comerciais nos meios de comunicação bombardeia a todo instante os incautos aposentados, com promessas maravilhosas, atraindo também a atenção dos seus dependentes, pois se sabe que muitas famílias pobres neste imenso país vivem as custas de aposentadoria ou pensão de seus velhos. O que não impede de serem maltratados dentro de suas próprias casas.
Pobres velhos que nunca antes neste país sofreram tanto. Primeiro, teve um ministro que obrigou os velhinhos a ficar na fila da previdência para recadastramento, debaixo de sol e chuva. Agora, o apetite voraz dos novos agiotas (digo, financeiras), reinventa o ovo de Colombo: prometem emprestar dinheiro aos velhinhos com a garantia de desconto na folha de pagamento. Os velhos agiotas jamais imaginaram ou aplicaram tamanha esperteza. E os ingênuos aposentados e pensionistas que caíram no conto do vigário “da hora” são tomados de assalto e espanto quando recebem seus contra-cheques já minguados, menores ainda.
Outros espertinhos entraram na mesma jogada. Lojas de departamento, especializadas em vendas a prazo de eletrodomésticos, por exemplo, passaram a explorar esse novo nicho de mercado, tendo também como alvo os funcionários públicos, antigamente chamados de barnabés. Com a mesma estratégia, diga-se de passagem muito conveniente a quem empresta, do pagamento descontado em folha. A propaganda chega ao despudor de informar que o primeiro pagamento somente será descontado no próximo ano. Algumas delas dizem até que compram as dívidas anteriores dos seus clientes. Que bonzinhos, não?
Esta orgia não para por aí: hoje é possível comprar carro sem entrada e com dezenas intermináveis de prestações; pode-se comprar casas ou apartamentos em parcelas a perder de vista, para dizer somente algumas “maravilhas” deste mercado hipócrita, sem mencionar que nos preços finais estão embutidos juros pornográficos. Isso sem falar também nos custos estratosféricos do cheque especial, tão fácil de sacar e difícil de cobrir.
O atual governo entende que a economia brasileira é um sucesso e um de seus benefícios principais é a expansão do crédito. Mas, o resultado dessa farra geral é um perigoso endividamento interno que pode fazer a casa ruir a qualquer momento, e com muito estrondo e poeira. Nenhuma medida está sendo tomada para salvaguardar os direitos e a segurança das famílias endividadas. E o que mais assusta é o cheiro de que há algo de podre no reino da Dinamarca, como já escreveu o velho e sábio Shakespeare.
Se no Brasil até a máfia esculhamba, como diz um humorista, só nos resta gritar como em outro samba do Chico: socorro, chame o ladrão, chame o ladrão! A verdade é que esta política econômica atual, que beira a irresponsabilidade, sobretudo por que é imediatista, está transformando uma parcela significativa de aposentados e funcionários em endividados crônicos. Com certeza, num futuro próximo haverá a necessidade de criar um Serviço de Proteção aos Endividados. Mas aí, já será tarde.
Na outra ponta desta ciranda desvairada, o próprio Brasil do faz de conta já se transformou em um grande cassino. O jogo é ilegal, mas existe! De todas as modalidades, porém, controladas pelo estado. Oficializou-se agora a malandragem no país em que a fezinha foi considerada contravenção desde os tempos do governo do presidente Eurico Gaspar Dutra. Dutra e a hipocrisia reinante acabaram com o jogo e o glamour do famoso Cassino da Urca e, com isso se foram as festas e as suas belas coristas. Mas até hoje os saudosistas lutam pelo seu retorno. Ainda tramitam projetos no Congresso Nacional com propostas de liberação de cassinos, mais fortemente em balneários e cidades fronteiriças. Isso pode mudar o perfil sócio-econômico de cidades como Bela Vista, Ponta Porã e Corumbá.
Mesmo escamoteado, o falso moralismo e a hipocrisia reinante impedem a privatização dos jogos ditos de “azar”. Mas o Estado todo poderoso pode. E uma pergunta fica no ar: alguém sabe quanto o governo federal arrecada por semana do suado dinheirinho dos esperançosos apostadores? Perguntar não ofende.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 16 de dezembro de 2007.

Nos trilhos da história (*)

Escrever sobre a velha Estrada de Ferro Noroeste do Brasil é sentir o doce amargo da nostalgia, em especial, pelo fato de ter sido um autêntico patrimônio histórico, muito caro aos sul-mato-grossenses, que acabou sendo pulverizado pelos ventos modernizantes do neoliberalismo e por uma de suas variantes, a privatização.
De forma concreta, a história de Mato Grosso do Sul confundiu-se em muitos momentos com o passar sonolento e barulhento das velhas máquinas, chiando e arranhando trilhos e dormentes, testemunhos da “teoria da curva como a menor distância entre dois pontos”, ou melhor, de muitas e infindáveis curvas.
O resultado da privatização da “Noroeste”, desmascarando a propaganda oficial, é o estágio de sucateamento do que restou da ferrovia, além de outros males como a ausência de novos investimentos (apesar de muitos anúncios em sentido contrário), a depreciação do seu imenso acervo arquitetônico e patrimonial e o desemprego dos ferroviários. Isso sem lembrar que a desativação de inúmeras estações trouxe consigo a decadência econômica de regiões que até então viviam de suas atividades. Esta tragédia também se abateu sobre toda a malha ferroviária brasileira. Contudo, o futuro fará o julgamento dos que participaram desses desatinos neoliberais na vida política brasileira.
Quem teve o privilégio de viajar nos vagões da Noroeste, sem dúvida alguma, viveu uma experiência que não se apagará jamais da memória. Quem não se lembra, por exemplo, do bom bife a cavalo velho de guerra, regado à cerveja quente e temperado pelas conversas alegres e descontraídas que ajudavam a passar o (interminável) tempo e a distrair o coração e a mente com o balanço “desse velho trem que atravessa o Pantanal”, como diziam os poetas Paulinho Simões e Geraldo Roca.
Quem não se recorda da sensação, difícil de descrever, de ser acordado pela voz fanhosa e estridente do garçom que vendia um famigerado café requentado, encarregado de despertar os passageiros sonolentos e renitentes em aceitar (ou acreditar) que a viagem es-tava terminando? Ou ainda, quem não se lembra dos teimosos amantes que realizavam suas fugazes e amorosas fantasias no recesso das cabines mal-cheirosas e desaconchegantes, partilhadas com mosquitos e outros seres miúdos, convenientemente ignorados, mas que insistiam em quebrar o “clima” de alcova?
Muitas lembranças povoam nossas memórias do trem da Noroeste, como a venda de chipa e de peixe frito pelas populações locais que gravitavam em torno das pequenas estações de lugar nenhum. Outras recordações do trem noturno remetem ao coaxar dos sapos e ao barulho de milhares ou milhões de seres notívagos da natureza, além dos ruídos das águas que cobriam os trilhos na época das cheias do pantanal, quando o velho trem então navegava como uma bizarra e fantasmagórica embarcação. E por fim, havia também o pontual atraso de seus horários de partida, sem nenhuma perspectiva quanto aos horários de chegadas (só Deus sabia!), hora ansiada e anunciada, invariavelmente por um longo e cansado apito da Grande Máquina Vermelha e pelo ruído crescente de suas anti-quadas engrenagens, que pareciam afinar seus estranhos sons até encontrar o ritmo uniforme e alucinante de sua velocidade máxima. Não se pode ainda esquecer do Grande Hotel Gaspar, local obrigatório dos viajantes que demandavam, ou debandavam de Corumbá, inesquecível pelo seu café da manhã com queijo e goiabada. Infelizmente, de modo melancólico e equivocado, os mesmos trilhos que representaram no passado o progresso do hoje Mato Grosso do Sul, agora estão relegados a um plano secundário, em nome da modernidade preconizada pelo velho (neo)liberalismo.
Esta memória sentimental que reflete a história recente da Noroeste num momento da sua prolongada agonia não se desvincula da própria história da região sul de Mato Grosso (hoje, o nosso teimoso e valente Mato Grosso do Sul). Esta longa história, teve início em maio de 1908, quando foi oficialmente lançada a construção da estrada a partir de Porto Esperança, que iria ao encontro de outra, vindo em sentido contrário, a partir de Campo Grande.
No entanto, os ventos da história esvairam-se da memória coletiva e caiu no esquecimento a corajosa luta para mudar a idéia do seu traçado inicial, que pretendia ligar Bauru à capital, Cuiabá. De fato, a mudança de seu trajeto para Porto Esperança, cortando e con-quistando o velho pantanal, e que reordenou uma significativa fase da história da região, deve-se à luta titânica de José de Barros Maciel, que defendeu no Clube de Engenharia, no Rio de Janeiro, a alteração do trajeto proposto inicialmente.
Contrariando expectativas e esperanças, reforçadas pelo senso comum de que a ligação de uma região por trem ou por estrada de rodagem traz necessariamente o progresso e a modernização, a inauguração do trecho ferroviário até Porto Esperança, em 1914, trouxe de maneira contraditória resultados amargos e negativos para Corumbá.
Para Campo Grande, os resultados foram outros. A estrada de ferro facilitou o seu intercâmbio comercial com centros paulistas, mudou o perfil urbano da cidade e facilitou o fluxo de migrantes para a região, deixando de ser um ponto de passagem, sobretudo de boi-adeiros e mascates. Já para Corumbá, esses benefícios ficaram distantes pela prolongada interrupção dos trilhos em Porto Esperança.
A nova rota de intercambio comercial, mesmo com a precariedade de seu funcionamento, aliada aos reflexos negativos da Primeira Guerra Mundial que diminuiu o fluxo de navios mercantes em Corumbá, via rio da Prata e rio Paraguai, fez com que esta importante região portuária perdesse o “bonde da História” e entrasse num processo de letargia econômica. É claro que o intercambio fluvial pelo Prata continuou a existir, mas já não monopolizava a rota das mercadorias para a região.
Por outro lado, pela nova rota, via Noroeste, as mercadorias que supriam o mercado de Corumbá, e da região norte do estado, eram trazidas também por navios, nem sempre de grande calado como era comum na extensa via fluvial do Paraguai. Os passageiros, que vinham de Bauru, cansados e sujos de fuligem, eram transportados pelo lendário navio Fernandes Vieira com a possibilidade de banhos e de mudança de roupas em Porto Esperança ou no próprio navio.
Desse modo, como a complementação da ferrovia até Corumbá somente foi finalizada bem mais tarde, sendo inaugurada em dezembro de 1952, os quase quarenta anos que separaram as duas datas não permitiram, de fato, a Corumbá usufruir de imediatoos efeitos benéficos e econômicos desta ligação ferroviária, como era esperado. Mas isso é outra história.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 9 de dezembro de 2007.

Era uma vez... (*)

Uma das alegrias das crianças, numa época em que se brincava nas ruas, era correr arrastando balões coloridos inflados a gás. Era uma festa a chegada de circos e parques de diversões trazendo o homem das “bexigas” e o seu enorme cilindro de gás. E o descuido das crianças era fatal, quando um o balão sumia no céu para o desespero de seu pequeno condutor. Com os circos vinham os indefectíveis palhaços e mágicos para a diversão e admiração da garotada. Hoje raramente se vê crianças admirando esses balões coloridos.
Houve ainda uma época em que automóveis de passeio e de trabalho começaram a ser objetos de desejo de muito poucos endinheirados. Era o sensacional “Ford Modelo T” ou “Ford bigode”. Aliás, diga-se de passagem, esses fordinhos trilharam e forjaram as estradas da fronteira e dos pantanais, substituindo os antigos carros de bois que traziam e levavam mercadorias e passageiros. Ao mesmo tempo e ao passar do tempo, o mundo também mudou acelerado pelas transformações e rupturas provocadas pelos avanços da tecnologia no campo das comunicações, da energia, dos transportes e outros mais, e pelos conflitos mundiais que aconteceram até meados do século XX.
A Segunda Guerra Mundial foi um desses acontecimentos que afetou o Brasil, que enviou soldados para o “front” europeu, onde muitos deixaram lá suas próprias vidas. Enquanto o território brasileiro permaneceu distante do dia-a-dia da crueza da guerra, esse grande conflito, ao mesmo tempo, permitiu que o país se voltasse para o esforço de guerra produzindo bens de consumo para o abastecimento das áreas conflagradas. Isso permitiu, coisa rara na história brasileira, um acúmulo favorável no saldo da nossa balança comercial. Com o fim da guerra, as nações vitoriosas e poderosas, mas endividadas, passaram a “empurrar” sucatas industrializadas e quinquilharias diversas a países como o Brasil. Em pouco tempo o país voltou a amargar o velho e histórico déficit em sua balança comercial. Era presidente, na época, o general Eurico Gaspar Dutra, cuiabano de “chapa e cruz”. Em contrapartida, e de forma positiva, a modernidade espalhou e democratizou bens de consumo por todo os rincões brasileiros.
O velho fogão de lenha foi rapidamente superado pelos fogões a gás. As primeiras geladeiras domésticas que surgiram na praça podiam funcionar a gás ou a querosene, onde a energia elétrica ainda era um luxo. O petróleo tornou-se vital, com seus derivados, na construção e desenvolvimento das grandes potências. Foi a peça fundamental na mobilização das tropas no conflito mundial, e motivou muitas outras guerras pelo seu controle. Vale lembrar que, durante a guerra, a escassez no Brasil deste combustível levou a sua pequena frota de carros a utilizar um estranho combustível, o gasogênio.
Pouco tempo depois, o governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira com seu plano de desenvolvimento de avançar o Brasil no prazo de “cinqüenta anos em cinco”, teve como prioridade alavancar o setor de transportes com a implantação de indústrias estrangeiras de montagem de carros. O país foi paulatinamente inundado de automóveis de todos os tipos, mas com uma malha rodoviária muito limitada, frágil e esburacada como queijo suíço. Esses esforços desenvolvimentistas dos governos que se seguiram a JK acabaram por implantar um sistema de transportes no Brasil baseado quase que totalmente nas rodovias, relegando num plano secundário de investimentos o sistema ferroviário existente desde o século anterior.
De lá para cá, dependendo do fornecimento e das oscilações no mercado internacional de petróleo, e sofrendo suas cíclicas crises, o Brasil buscou outros caminhos (incluindo a Petrobrás e seus esforços para desenvolver tecnologia de ponta), como o surgimento de uma idéia luminosa: utilizar o gás como alternativa mais barata para movimentar a gigantesca frota de veículos que circulam pelos buracos brasileiros. Assim, incentivados pelo merchandising do governo, muitos proprietários de veículos embarcaram nessa canoa, diga-se, furada. Mas, ao “vender” no mercado interno a panacéia do gás, esqueceu-se do pequeno detalhe de que é preciso desenvolver o setor das indústrias de base e de infraestrutura, com a construção de diversas termoelétricas, fundamentais para desenvolver a economia nestes tempos de crise energética e “apagões”.
O governo tirou ainda outro coelho da cartola: investiu nas reservas de gás boliviano e na construção de um imenso gasoduto. Mas esqueceu de combinar com os bolivianos o que eles deveriam fazer diante dos interesses e investimentos brasileiros em seu país. O atual presidente da Bolívia, Evo Morales, cumprindo promessas de campanha e, portanto, anunciando a “tunga”, deu uma rasteira na política energética brasileira, quebrou contratos, nacionalizou a Petrobrás em seu território, impôs arrochos tributários e provocou um desastroso prejuízo na economia (diga-se, no bolso dos contribuintes) brasileira. Até os corumbaenses ficaram no prejuízo, pois esperavam uma injeção de desenvolvimento a partir do gasoduto e da frustrada construção de termoelétricas na região.
Além do fantasma do “apagão elétrico”, tivemos agora um “apagão de gás” no eixo Rio-São Paulo, deixando donos de carros movidos a gás veicular a pé e com cara de trouxas (“eu acreditei”), e ainda empresários e responsáveis por termoelétricas apavorados. Foi um susto só.
O presidente Lula reagiu de imediato com declarações minimizando a crise do gás e afirmando que foi uma “coisinha de nada” e que não faltará gás até 2.012. Mas, ao contrário do que defendeu o presidente, foi grave este aviso, acedendo uma luz amarela no planejamento energético do país. Na contramão dessas declarações, o ministro de Minas e Energia, Nelson Hubner, deitou falação desaconselhando novas conversões de carros para a utilização a gás, esquecendo que só em Mato Grosso do Sul mais de 6.000 veículos circulam movidos a gás, e dos empresários que acreditaram na propaganda do governo e investiram na prestação de serviços para a modificação dos carros e na adaptação de postos de combustível. E não ficou só nisso. O próprio governo estadual gastou milhões para quebrar o asfalto e instalar uma caríssima rede de distribuição.
Foi ainda divulgado que a Petrobrás pretende nos próximos anos aumentar em 25% no preço do gás, trazendo como efeito cascata uma alta de preços, como por exemplo o aumento no custo da energia distribuída pelas termoelétricas.
De repente, não mais que de repente, no miolo do furacão, no meio de um mar revolto de dúvidas e, num passe de mágica, Lula transformou a crise em espetacular notícia de última hora vindo a público, através de simpática e doce figura feminina de seu governo, aliás chamada pelos políticos de “dama de ferro” (epa!), divulgar a maior descoberta de reserva de petróleo e gás natural “nunca antes feita na história do país”, estimando a boa nova em 8 bilhões de barris. Trata-se do campo de Tupi, na bacia de Santos (SP), mas que levará anos e anos para ser explorado, além de necessitar muito dinheiro e tecnologia aplicada. Vai dar para esperar?
Até a minha sogra, Dona Maria Ignez, que não é a velhinha de Taubaté mas acredi-ta em tudo que vê e ouve na televisão, ficou ressabiada diante do anuncio feito pela ministra Dilma Roussef, solenemente rodeada pelo primeiro escalão do governo. Esse espetáculo televisivo poderia ser comparado ao show da então ministra Zélia Cardoso de Mello anunciando os planos mágicos e mirabolantes do governo Collor para salvar a pátria da economia brasileira, de triste memória.
A escalação da ministra Dilma, para ter o privilégio de soprar ventos alvissareiros, reforça a discussão da sua possível candidatura à presidência da república apoiada por Lula. No entanto, a imprensa nacional não jabaculizada noticiou que a novidade não é tão nova assim, pois a primeira perfuração na jazida do campo de Tupi, de assustadora profundidade, já havia ocorrido com sucesso há, aproximadamente, dois anos. Esses jornalistas (sérios) são mesmo uns desmancha prazeres...
A euforia oficial dessa descoberta pode embaçar, em curto prazo, a menina dos olhos do governo Lula, que é a energia limpa dos biocombustíveis, hoje a principal plataforma da política externa do governo. Tem gente acreditando e investindo. É torcer para não ficar pior do que já está e não deixar o balão (de gás) subir aos céus, esvaindo o sonho de superar definitivamente a crise energética.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 2 de dezembro de 2007.

A farsa do continuísmo (*)

A “história só se repete como farsa”. Esta conceituação, consagrada desde o século XIX e marcadamente ideológica, serve como uma luva para explicar algumas das transformações econômicas e sociais no mundo de hoje, em situações onde interesses escusos pessoais ou de grupos determinados se sobrepõem aos interesses da coletividade. Claro, sempre em nome das conquistas democráticas. Senão, vejamos.
Nos estertores do Estado Novo, eufemismo usado para denominar a ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945), começaram a soprar os ventos contrários ao seu governo discricionário tanto na política interna como na externa, quando a aventura totalitária de Hitler chegava ao fim. Nos primeiros tempos do nazi-fascismo, setores influentes do governo Vargas chegaram a demonstrar uma franca simpatia para com os regimes autoritários europeus, chegando inclusive à discussão de possíveis alianças.
Entretanto, tal desatino foi duramente combatido pela “voz rouca das ruas”, através da mobilização, em especial, de estudantes e distintas categorias de trabalhadores, identificados com o que se chamou de classes médias urbanas da época. O ponto agudo desta mobilização foi o impacto causado pelo ataque de submarinos alemães a navios na costa brasileira, com saldo de muitos mortos, versão que ainda sofre algumas contestações de historiadores. A comoção então estabelecida obrigou o governo a decretar guerra aos países do eixo, enviando pracinhas da Força Expedicionária para os campos da Itália.
O retorno dos pracinhas, chegando ao Rio de Janeiro em julho de 1945, aprofundou uma contradição interna no país. Deixando brasileiros mortos nos campos de batalha em nome de ideais democráticos, os pracinhas regressaram a um país ainda sob regime ditatorial. Assim, uma conjunção de fatos e fatores delineou-se para provocar o enfraquecimento e o desmoronamento do poder e da política getulista.
Pressionado, Vargas promulgou uma lei constitucional que estabeleceu eleições presidenciais e uma Assembléia Constituinte, decretando também ampla anistia aos acusados de crimes políticos desde 1934. Com essa abertura democrática e mais algumas mudanças institucionais, organizaram-se 12 partidos, entre eles UDN, PSD, PTB e PCB.
A UDN, de radical oposição a Vargas, era formada em suas lideranças por banqueiros e capitalistas ligadas ao setor privado (banqueiros e empresários), e contava como pré-candidato à presidente o brigadeiro Eduardo Gomes. Por outro lado, o PSD, visceralmente ligado à máquina estadonovista, apresentava como candidato o general Eurico Gaspar Dutra, cuiabano que desfrutou do apoio do próprio Getúlio. O PTB, representando a massa dos “trabalhadores do Brasil”, desempenhou o papel clássico do populismo getulista. E o PCB, finalmente na legalidade, lançou o engenheiro Yedo Fiúza que, curiosamente, teve uma votação muito expressiva na longínqua cidade da fronteira mato-grossense, Porto Murtinho.
Mesmo diante da maré democrática e antiditadura, Vargas incentivou oficiosamente uma campanha popular para continuar no poder, usando, sobretudo a sua imagem populista de “pai dos pobres” e benfeitor das classes trabalhadoras. O projeto continuista ficou conhecido como “queremismo”, ou seja, “queremos Getúlio” que propunha, em síntese, estabelecer os trabalhos de uma assembléia constituinte e, somente depois, convocar as eleições presidenciais com o próprio Vargas como candidato, sob fortíssimo apoio popular, a uma espécie de “reeleição”. Pelo rádio, de alcance inigualável entre os grotões da sociedade brasileira à época, os comícios apoiados pelo PTB e pelo PCB eram transmitidos e fizeram muito sucesso.
Mas as vozes que se fizeram ouvir mais altas e contrárias a esse projeto foram as dos quartéis e, sob pesada pressão militar, Vargas acabou renunciando e abortando o queremismo. Diga-se de passagem, não foi a primeira vez que o barulho dos quartéis foi contundente na vida política nacional, nem seria a última.
Contudo, se a história é implacável com os poderosos de plantão, a memória nem tanto. A idéia golpista do continuísmo viceja exatamente porque o Brasil é um país de desmemoriados. E, a cada aproximação de processos políticos eleitorais, assiste-se a uma enxurrada de propostas insensatas e oportunistas. É a recorrência da farsa e da tentativa de golpe.Só para lembrar alguns dos exemplos mais significativos em tempos de avanços democráticos, em 1982 deu-se o prolongamento do mandato dos vereadores, de 4 para 6 anos, sob o pretexto de estabelecer coincidência de mandatos. Nas eleições seguintes, o mandato de vereadores retornou aos 4 anos de duração.
Outro caso de “repeteco” oportunista foi a mudança constitucional que criou o artifício da reeleição dos detentores do poder executivo sem a desincompatibilização dos respectivos cargos, beneficiando direta e escandalosamente o então presidente Fernando Henrique Cardoso, para constrangimento de muitos homens de bem, sobretudo professores universitários, intelectuais e cientistas que o apoiavam. A partir de então, as práticas golpistas e espúrias da política brasileira ganharam mais e mais notoriedade, merecendo até mesmo mudar das páginas políticas dos jornais para as páginas do noticiário policial.
Mais uma vez, lamentavelmente, os bajuladores e serviçais do poder, tal qual moscas varejeiras, voltam a rondar a carniça do continuísmo, plantando propostas que permitam a continuidade do governo Lula. E, para não escandalizar a opinião pública com a indecência de um lançamento do terceiro mandato, atropelando escandalosamente a Constituição, esses “soldados de partido” tiram do baú empoeirado da história política a grande novidade do velho queremismo: quem disse que Lula não pode permanecer no poder, se ele tem apoio cego e certeiro dos pobres do Brasil, beneficiados com as “bolsas família da vida”?
Apesar do noticiário nacional ressaltar as reações contrárias e, pode-se dizer, até pudicas, incluindo as falas recentes do principal interessado, a idéia e a possibilidade do terceiro mandato consecutivo são altamente nocivas a democracia, e a oposição nesse sentido deve ser levada muito a sério.
O deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) em ato de puro desatino e, muito provavelmente no intuito de obter seus 15 minutos de fama, apresentou projeto de emenda constitucional permitindo a Lula o sonhado terceiro tempo. Não conseguiu nem ser original, já que se trata de projeto antigo e arquivado. Outro destaque do baixo clero ficou por conta do deputado Fernando Ferro (PT-CE), que, sendo um pouco mais criativo, solicitou o desarquivamento de projetos no mesmo teor e, parmem!, foi sem alarde atendido pelo presidente da Câmara Federal, Arlindo Chinaglia (PT-SP). No bojo da sandice, foi incluído em pauta o projeto do ex-deputado Inaldo Leitão (PR-PB) que permite a reeleição de cargos majoritários do executivo indefinidamente, com a ressalva da obrigatoriedade de licenciamento do cargo pelo menos 6 meses antes da eleição.
No instante em que essas matérias vieram a público, não apareceu mais candidato a amarrar o guizo no rabo do gato. O presidente Lula, do alto de sua sabedoria, interferiu no açodamento da peonada do partido e declarou ser uma insensatez a busca de reformas constitucionais que permitam mais de uma reeleição consecutiva, dizendo solenemente que “não procura sarna pra se coçar”. Como trair e coçar é só começar, deve vigorar ainda a temporada de caça ao bom senso e à transparência política.
Segundo declarações da senadora Marisa Serrano (PSDB-MS) a reeleição sem limites para cargos do poder executivo, em todos os seus níveis, não recebe apoio da bancada federal de Mato Grosso do Sul. Menos mal. Deve-se ressaltar que presidentes nacionais de todos os partidos políticos também se manifestaram contra os riscos dessas idéias estapafúrdias e extemporâneas de continuísmo.
O que mais assusta em nosso tempo é crer que a democracia, com todos os seus defeitos e problemas, ainda é a melhor forma de regime político, no qual deputado como esse Ferro (eu heim!) afirma: “fui oposição muito tempo. Agora sou governo e gosto muito. Não pretendo mais deixar de ser. Desejo longa vida à oposição... na oposição” (Folha de S.Paulo, 4.11.2007). Merecia ser julgado por atentado violento ao pudor ético e político.
Bem, meus amigos: pra não dizer que nunca antes neste país se falou de flores da democracia, só se destacando os espinhos, a sociedade brasileira tem dado exemplo de sensatez, a despeito de algumas encenações de farsa na história brasileira. Afinal, nada é para sempre. Nem Getúlio, nem outro salvador da pátria da vida.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 25 de novembro de 2007.