terça-feira, 5 de maio de 2009

Será que este é o preço do progresso? (*)

O que traz satisfação a um articulista é saber que suas idéias e posições estão sendo observadas pelo leitor. Isso fica mais forte ainda quando o leitor abre as cortinas do anonimato para expor as suas idéias no espaço reservado aos leitores da coluna. Desse modo, agradeço a leitora Leila (foi a sua identificação) pela coragem e resistência em chegar até o fim de um dos meus artigos e, acima de tudo, fazer um significativo comentário. É por este estímulo que continua viva, todas as semanas neste jornal, a coluna Faca Amolada. Aliás, coleciono todos os comentários dos leitores que são inseridos nesta coluna.

O motivo da manifestação da amiga Leila foi um artigo sobre a violência no trânsito, permitindo a ela uma reflexão sobre a violência que tem marcado o cotidiano de nossas vidas. Uma violência presente a todo instante e mais próxima de nós como muita gente não percebe. De fato, é comum sentir a violência quando se é atingido. Parece que nesse mundo de individualismo exacerbado, a solidariedade e o humanismo deixaram de ser praticados por todos.

Lembro de uma antiga história, que reserva uma moral política, contada por um observador. Penso (se a memória ainda vale alguma coisa), que a li em algum escrito de Brecht (os meus leitores que me perdoem). É uma historinha longa, mas vou resumi-la com as minhas palavras. “A Polícia veio um dia e prendeu o meu vizinho. Ele era judeu. Como não sou judeu, não gritei. No dia seguinte, a polícia veio outra vez e prendeu outro vizinho. Era um comunista. Como não sou comunista, também não gritei” A história continua com o vai-e-vem da polícia e de suas prisões. E a história termina de forma melancólica: “Finalmente, a polícia veio outra vez e eu fui preso. Aí, não tinha mais ninguém para gritar por mim”.

Esta fábula retrata o nosso mundo, uma sociedade onde predomina o egoísmo e individualismo. É sempre pensar que a brasa que queima o pé do meu vizinho não vai também me queimar. A moral disso tudo é que não se pode ser conivente com a injustiça e com atos de violência. É preciso gritar e fazer cobranças ao poder público, pois, quem sabe, os governos de plantão possam ouvir o clamor do povo.

Na verdade, a população de nossas cidades vive acuada, intimidada pela violência das ruas, transformando suas residências em verdadeiras prisões, com muros altos, cerca elétrica, circuitos internos de televisão, guardas e outras invenções de segurança. Será isso o preço do progresso e da modernidade? No entanto, os altos impostos que pagamos não são investidos em mecanismos necessários para garantir o mínimo de segurança e qualidade de vida urbana.

O fato da leitora Leila fazer um desabafo sobre a violência, que vitimou um de seus familiares, já a voz de quem não quer se calar. Ela relata que a vítima estava na calçada em frente à sua casa com amigos, tomando tereré (um hábito fronteiriço que se alastrou por todo o estado), e foi abordada por dois assaltantes armados que, além do prejuízo material, agrediram-na de forma física e psicológica. E conclui, com tristeza, que Campo Grande tornou-se uma cidade fria, perigosa e violenta. Taí uma situação revoltante que pode e deve ser enfrentada por uma sociedade organizada e solidária.

Fico a pensar como este país tropical é incoerente. O governo fez uma campanha para o desarmamento. Tudo bem. Mas a piada é que só devolveram as armas pessoas de bem. Desconheço um só bandido que tenha devolvido a sua arma. O resultado está aí para todo mundo ver: a bandidagem está mais armada do que nunca e os homens e mulheres de bem, indefesos. Só nos resta gritar...

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 22 de fevereiro de 2009.

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