domingo, 26 de julho de 2009

Um tapa na cara (*)

Por essa eu não esperava. Foi uma fotografia publicada na primeira página do jornal Folha de S. Paulo, de 15 de julho. Vi, com um misto de perplexidade e tristeza, aos abraços e sorrisos, o presidente Lula e o ex-presidente Collor. A história é implacável para quem acha que a memória deve ser jogada na lata do lixo, desacreditando ainda mais a política e os políticos neste estágio infeliz do trato republicano do país. São vinte anos de sonhos acalentados e de desencantos e decepções na esperança de um Brasil transformador, moderno, mais justo e defensor da igualdade social.

Retomo os idos de 1982, no governo presidencial do general João Figueiredo e de uma decrépita ditadura que teimava em continuar, mas dava os últimos suspiros de um moribundo rejeitado. O Congresso Nacional havia aprovado uma emenda constitucional reformando a legislação eleitoral e partidária, dando os primeiros passos ao retorno do país aos ventos democráticos. Assim, em novembro daquele ano ocorreram, mesmo com restrições, as mais importantes eleições do período ditatorial. Lembro-me de que a oposição elegeu 10 governadores, entre eles, Wilson Barbosa Martins por Mato Grosso do Sul, e Leonel Brizola pelo Rio de Janeiro, deputados federais, estaduais e vereadores.

O curioso é que, na televisão, os candidatos apresentavam uma foto e um locutor falava o seu currículo. Era o tempo da Lei Falcão. Em Corumbá, por não haver tecnologia adequada na televisão local, os candidatos a vereador tinham que ficar imóveis por alguns segundos para a filmagem. Mas, apesar dos pesares, parte dos sonhos começou a se realizar para alguns; para outros, essa época foi mais trágica pois morreram pela conquista da democracia e por seus ideais.

Dois anos depois, o país foi varrido por um verdadeiro terremoto popular com uma emenda constitucional idealizada inicialmente pelo deputado Dante de Oliveira, de Mato Grosso, a histórica “Diretas-Já”. Foi uma festa democrática, que infelizmente foi rejeitada pelo Congresso. A frustração foi geral, mas o sonho continuava a orientar os passos e os caminhos à democracia.

Como estava em vigência a reforma eleitoral, a eleição presidencial ocorreu no âmbito do Congresso, saindo vitorioso Tancredo Neves contra Paulo Salim Maluf identificado com a ditadura militar. Por um acaso do destino, Tancredo veio a falecer antes da posse, assumindo o seu vice, José Sarney, esse mesmo que está sendo alvo de inúmeras acusações no Senado Federal, neste momento.

No governo Sarney foi implantado um Plano de Estabilização Econômica contra uma galopante inflação, popularizado como Plano Cruzado. Foi um sucesso para uma população cansada em sofrer os males desta inflação galopante. Mas, para muitos, foi uma tapeação, prejudicando poupadores e enchendo as “burras” dos bancos. E, até hoje, os pequenos poupadores estão lutando na justiça para reaver o que lhes foi tirado. Nesse período, o esperto Sarney conseguiu ampliar em um ano o seu mandato indireto, mas também teve a constituinte e a aprovação de uma nova constituição para o país.

Com a nova constituição a nortear os destinos políticos, o ano de 1989 foi o divisor de águas da história brasileira com as eleições presidenciais, onde se apresentaram 22 candidatos. Chegaram ao segundo turno Lula, representando a esquerda e o desejo de mudança, e Collor, representando as camadas mais conservadoras e atrasadas do país. Lula, oriundo do recente sindicalismo brasileiro, representava o sonho da esquerda, da juventude, dos intelectuais, dos trabalhadores de modo em geral, de todos que sonhavam com mudanças nas estruturas sócio-econômicas do país, e de outro, um jovem político ex-governador de Alagoas, oriundo das oligarquias deste pequeno estado e que se dizia “caçador de marajás”; enfim, um aventureiro irresponsável, como se viu no seu governo com o confisco de poupança de pequenos poupadores, muitos chegando ao desespero com as perdas repentinas.

O país não pode esquecer o esbulho que foi o debate transmitido pelo Globo, onde Collor, sem pejo de decência e ética, levou uma mulher (onde será que está escondida esta triste figura?) que denunciou uma filha do candidato Lula. As consequências deste fatídico debate já fazem parte da história e das lágrimas e tristeza de uma significativa parcela do povo brasileiro.

Agora essa infeliz fotografia me fez lembrar tudo isso. É como levar um tapa na cara.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 26 de julho de 2009.

"Estou me lixando", disse uma cara de pau (*)

A cada momento novas notícias aparecem na imprensa enxovalhando, ainda mais, a classe política brasileira. A corrupção, que não é coisa nova e parece que está fora de controle é reforçada por uma total e escandalosa impunidade. E o que espanta é que esses atores da má política, sem qualquer pudor e vergonha na cara, continuam a se manifestar publicamente.

Há quase dois meses, um acontecimento na Câmara do Deputados causou profunda perplexidade pelo modo com que deputados federais encaram a opinião pública. Não faço aqui generalizações para não cometer injustiças. Foi o caso dos cinco minutos de triste fama de um deputado, Sérgio Moraes, totalmente desconhecido no cenário nacional, que faz parte do chamado “baixo clero” do Congresso. Fez carreira política em Santa Cruz do Sul/RS, onde foi prefeito, e traz contra si denúncias de corrupção administrativas e criminais. Na época, foi relator, depois defenestrado, do processo contra o deputado Edmar Moreira, aquele curioso senhor que construiu um castelo em Minas Gerais, e usando a tal “verba indenizatória” em sua firma de segurança. É a já famosa e perversa mistura do público e do privado. Colocando a ética em baixo do tapete, Moraes, antes do término do processo, já inocentava o seu amigo Moreira. Indagado se não tinha medo de responder pelos seus atos perante os eleitores, simplesmente disse que estava se “lixando para a opinião pública”. Depois, tentou desdizer esta infeliz frase, mas a coisa já estava feita. Mesmo assim, o homem do castelo foi inocentado.

Agora o dep. Sérgio Moraes voltou à carga elogiando o seu amigo, na televisão, ao afirmar que “v. ex. tem que andar de pescoço erguido”. E foi além no seu desprezo pela opinião pública, ou melhor, pelo eleitorado de Santa Cruz do Sul, ao afirmar que nas próximas eleições ele tinha certeza de que voltaria à Câmara dos Deputados.

Esse deboche demonstra uma verdade cruel da política brasileira: a falta de consciência política do eleitorado nacional. Existe uma distância incomensurável entre o que se faz no parlamento e a realidade municipal, onde os políticos têm as suas bases eleitorais. De fato, posturas de estadista, defesas intransigentes das questões nacionais, combate sistemático à corrupção são valores que infelizmente não se levam em questão ao assinalar o voto na urna eletrônica. A política está tão desgastada e desvirtuada que o grosso do eleitorado é movido por benefícios imediatos, mesmo sendo “proibido” pela legislação eleitoral. Se a corrupção continuar a persistir nas grandes cidades é possível imaginar as ocorrências nos grotões mais distantes e isolados. Por isso, a certeza do deputado Sérgio Moraes em sua reeleição.

A falta de educação política é a irmã siamesa dos partidos políticos e também sua fragilidade representativa. Creio mesmo que esta fragilidade está em consonância com os interesses da máquina partidária de manter a alienação da consciência do cidadão, seja ele filiado ou um simples eleitor. Desse modo, qualquer reforma política passa, necessariamente, pelo fortalecimento dos partidos políticos, que deveriam se transformar em escolas de cidadania e de participação política além, é óbvio, de uma seleção séria e criteriosa de seus candidatos.

Mas como acontecer esta revolução no trato político-partidário, se são esses mesmos políticos que estão envergonhando o país, os legisladores de leis e das reformas exigidas pela Nação. Esta é a encruzilhada política que enfrenta hoje o País e o seu futuro. Antes chamada com orgulho e admiração como a Casa de Leis, pelos mais recentes acontecimentos, tanto a Câmara Federal como o Senado transformara-se em casas de maus exemplos. Ou melhor, em casos de polícia. Até quando? Só existe uma resposta e esta fica com a consciência do povo brasileiro.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 19 de julho de 2009.

Do nada a lugar nenhum (*)

Um verdadeiro papelão, isso é o que se tornou o Trem do Pantanal. E ninguém, em sã consciência, pode demonstrar surpresa. Isto porque se trata de um vexame anunciado. E o fiasco começou pelo fato deste trem não ter nada a ver com o seu próprio nome, Pantanal.

São muitas as questões problemáticas, para não dizer outra coisa, que envolvem este projeto turístico. Uma delas é a preocupação de algumas autoridades em usar e abusar da história e das tradições de nosso estado, em nome de um falso compromisso com a cultura e com a identidade de Mato Grosso do Sul. Digo falso porque diante de qualquer revés essas mesmas autoridades tiram do armário a malfadada proposta de mudar o nome do estado, como se isso fosse solução de todos os seus problemas, como foi o caso da exclusão de Campo Grande dos jogos da Copa do Mundo de 2014. A bem da verdade, pouca gente está de fato preocupada com a cultura e com as tradições dos sul-mato-grossenses, e como cultura não dá voto.....

O caso da ferrovia, numa tentativa de resgatar o trem de passageiros da Noroeste, de saudosa memória para os mato-grossenses e sul-mato-grossenses, é a repetição da manipulação e do descompromisso de políticos e de empresários que realizam parcerias e negócios da China. É até possível que tenha havido algumas boas intenções (das quais o inferno está repleto), mas também é possível que o resgate do trem da Noroeste tenha sido engendrado para aliviar o peso de consciências depois da privatização da empresa ferroviária. Entretanto, se não fazia sentido colocar novamente nos trilhos um trem que já era obsoleto e sucateado há vinte anos atrás, os idealizadores desse projeto deveriam ter tido ao menos um pouco mais de bom senso e de responsabilidade com os seus resultados.

Está claro para qualquer leitor assíduo de jornais que um projeto de restauração de patrimônio histórico e cultural custa muito dinheiro. E a restauração só faz sentido se o bem cultural ou histórico adquirir uma nova função social. A idéia de recriar o trem do Pantanal, nome sentimental dado por artistas à Estrada de Ferro Noroeste do Brasil que, aliás, já não mais se chamava assim quando foi paralisada, é genial, porém inviável. E a inviabilidade não é apenas financeira, é histórica também, porque o passado não se repete.

Quando me refiro aos custos/prejuízos deste trem, aponto também um dos resultados deprimentes deste projeto. Como o dinheiro foi curto, a despeito de toda ajuda pública e privada, foi feita uma verdadeira “gambiarra“ na máquina, nas composições, nos trilhos de bitola estreita e antiga demais, não permitindo nenhum melhoramento tecnológico, incluindo a refrigeração eficiente dos vagões. Houve, de fato, uma “maquiagem” que acrescentou em sua pintura externa alguns bichos tipicamente pantaneiros. Além disso, o trem do Pantanal anda devagar, não porque não tem pressa, mas porque não tem fôlego. E para que houvesse um trem moderno, bonito e veloz seria preciso construir uma outra ferrovia, e um novo trem, coisa absolutamente desnecessária para os objetivos deste projeto e inviável para o estado de Mato Grosso do Sul, carente de tantas outras coisas mais importantes ao seu desenvolvimento.

E a paisagem? O Pantanal não é aqui em Campo Grande, muito menos em Indubrasil, em Terenos, em Dois Irmãos do Buriti e em Aquidauana, pelo menos não no percurso dos trilhos até esta cidade. A paisagem é bonita, mas o trem do Pantanal vende gato por lebre. Isto é um engodo, percebido claramente até por aqueles que não fizeram esta viagem. E quanto a chegar até Corumbá, nem os corumbaenses mais crédulos e inocentes caem nesse conto...

O projeto Trem do Pantanal, muito provavelmente idealizado para alavancar uma imagem positiva e encantadora de Mato Grosso do Sul rumou para o brejo, precocemente, neste mês de junho passado, quando, emblematicamente, um grupo de turistas da chamada melhor idade, comprou o pacote e embarcou numa roubada. E pensar que nunca antes neste país a vida de velhinhos aposentados foi tão difícil: eles recebem aposentadorias aviltantes depois de trabalhar de 3 a 4 décadas; são presas fáceis dos bancos e financeiras que os atraem com a arapuca dos empréstimos consignados; são, na maioria das vezes, excluídos das políticas publicas; são desrespeitados pelos mais novos, sobretudos os jovens que não sabem, nem querem saber, que serão velhos um dia; são ainda arrimos de família em decorrência de uma economia em crise que produz desempregados aos montes; e, finalmente, são clientes preferenciais de agências de turismo fora de temporada, para ocupar as vagas ociosas em hotéis, restaurantes e receptivos de lazer.

Deveriam ser muito bem tratados, mas parece que o grupo da terceira idade que veio ao Pantanal não se sentiu contemplado com o trem do nada que vai a lugar nenhum.

O grupo desembarcou em Aquidauana e fez o resto do percurso por rodovia, recusando-se a entrar novamente de gaiato no navio, digo, trem.

A notícia saiu nos jornais regionais e eletrônicos, o que equivale circular pelo mundo. Pobre Mato Grosso do Sul. Vai continuar a ser matéria de páginas policiais, incluindo uma nova modalidade, um turismo enganoso.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 12 de julho de 2009.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Uma cantoria além da modernidade (*)

Revivendo o maior evento folclórico de Mato Grosso do Sul, ocorrido na centenária Corumbá, que é o festejo profano/religioso de São João, deparamos com a oportunidade de conhecer outros folguedos populares como o Siriri e o Cururu.

A dança do Siriri, folclore típico de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, guarda profundas semelhanças com o, “Cateretê”, dança muito difundida no interior paulista. Curiosamente, esse tipo de dança foi usado na catequese jesuítica pelo fato do índio ter um gosto incontido pela música e pela dança. Com o tempo, o cateretê passou a fazer parte dos festejos do Senhor Divino, da Festa de Santa Cruz, de São Gonçalo, de São João e outros. Assim, é possível supor que o Siriri seja uma variação, ou tenha apenas assumido uma nova denominação em substituição ao Cateretê.

Já o Cururu é oriundo da corrente migratória que veio de Poconé a Corumbá, trazendo consigo, além das cantorias com temas pantaneiros, um instrumento musical maravilhoso chamado Viola de Cocho, considerado patrimônio imaterial da região centro-oeste. Esses cururueiros, que habitam em sua grande maioria a região portuária, possuem uma particularidade praticamente desconhecida.

O contato com o Cururu deu-se no Arraial de Tanque Novo, alguns quilômetros distantes da sede do município de Poconé, onde vivia uma médium, conhecida como Doninha, que tratava de pessoas doentes. Isso nos idos de 1930. O arraial transformou-se num grande aglomerado de pessoas, sobretudo pela divulgação do aparecimento de uma “santa” no local. Provocando uma rivalidade política com Poconé, o arraial foi atacado e destruído pela força militar da cidade, com mortes e prisões inclusive da própria Doninha. O cotidiano deste arraial resumia-se a orações, musicas religiosas e Cururu e Siriri. Mesmo com a repressão brutal, essas manifestações folclóricas foram preservadas e difundidas por várias regiões do Centro-Oeste, como aconteceu com Corumbá.

No entanto, a valorização e o reconhecimento de sua importância enquanto manifestação folclórica marcante de Corumbá deu-se algumas décadas atrás, pela ação de uma pesquisadora, uma verdadeira fada madrinha para os cururueiros. Havia na época preconceito e intolerância em relação a essas expressões culturais, até mesmo em parte da população que integrava a comunidade de pescadores e ribeirinhos, reduto dos tocadores da viola de cocho. Considerada música e dança e dança dos velhos, havia rejeição dos mais jovens que se envergonhavam das apresentações públicas de Cururu e Siriri.

Faço, como uma homenagem, o registro da coragem e persistência desta pesquisadora em resgatar este folclore, em prejuízo muitas vezes de suas atividades profissionais e arcando até com gastos do próprio bolso para alavancar a pesquisa e tornar o Cururu uma vitrine folclórica e turística de Corumbá. Refiro-me à professora aposentada da UFMS e historiadora Eunice Ajala Rocha, que se dedicou anos a fio aos estudos folclóricos contando com a ajuda do conhecido cururueiro Agripino Magalhães. Foi a Dona Eunice, como é carinhosamente conhecida, que deu visibilidade ao grupo, levando-o a apresentações por diversas vezes no Centro Universitário de Corumbá-UFMS e em outros espaços do estado. Esses cururueiros, com o já conquistado orgulho e seriedade em manter viva esta manifestação folclórica, foram levados pela mesma professora a uma apresentação oficial na capital federal, Brasília.

O seu amor às manifestações folclóricas motivou a criação na cidade de um grupo de dança do Siriri entre os universitários do curso de História e a elaboração de uma dissertação de mestrado sobre a original festa de São João de Corumbá. Graças ao seu exaustivo trabalho, esses folguedos populares passaram a ser um marco na cultura corumbaense ajudando a compor o mosaico cultural sul-mato-grossense. Porém, como a memória do povo é fraca, neste São João de 2009 não vi nem li, nenhuma referência ao trabalho desta fantástica pesquisadora e defensora da cultura das terras corumbaenses. É uma flagrante injustiça que deve ser denunciada e que não se pode calar.

Além disso, como muitos jornalistas não se pautam por informações bem fundamentadas, muitas bobagens são divulgadas como verdades e as novas gerações correm o risco de perder as referências culturais de nossa região. Talvez por isso ainda exista tanta preocupação em encontrar uma “identidade” sul-mato-grossense. Ninguém se reconhece sem cultura e sem memória.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 05 de julho de 2009.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O santo ladeira abaixo (*)

Quem nunca viu a festa de São João de Corumbá, perdeu a oportunidade de assistir a uma das mais significativas festas folclóricas do Centro-Oeste. Esta festa, com origens na colonização portuguesa, estendeu-se como manifestação popular em todos os cantos do país. Na cidade de Corumbá, a festa de São João tornou-se numa manifestação única, com formas próprias, com coloridos locais e o profano superando o religioso.

Talvez, por estar localizada na fronteira permeada por pantanais, a festa corumbaense não atinge a atenção da mídia nacional como as festas nordestinas, muito embora apresente originalidade e dimensão popular. Com certeza, faltam a Corumbá mais investimentos públicos e privados para incluir a festa no calendário dos mais importantes eventos nacionais. Por outro lado, em vários estados do nordeste, o São João transformou-se num grande espetáculo (distanciando das festas folclóricas originais), no mesmo patamar do carnaval do Rio de Janeiro e da festa do boi de Parintins. Não é sem razão que a Petrobrás alardeia investimentos nas festas juninas em mais de 41 municípios nordestinos, aliás, alvos de uma CPI no Congresso Nacional que o governo federal não quer nem ouvir falar.

Consta que no pós-guerra com o Paraguai, no século XIX, a festa de São João passou a fazer parte da paisagem histórica corumbaense. Em 1909, o militar Annibal Amorim registrou em seu livro de memórias suas impressões sobre a festa, as procissões em direção ao rio Paraguai e os rituais de banho do santo que se perpetuam até hoje. Via também, como acontece até hoje, o espírito democrático e popular da festa participando “pessoas do povo e até as melhores famílias do lugar”. Mais tarde, em 1932, o viajante Rezende Rubim ao passar pela cidade deixou um detalhado relato sobre a festa de São João, que também pouco difere das manifestações atuais, inclusive nas suas características comunitárias e democráticas. Escreveu em suas memórias que “em tal instante tudo se nivela, não há cotejo pobre ou rico. Todas as classes levam a sua imagem ao rio e todas, desde a mais modesta até a mais suntuosa, recebem dos fiéis a homenagens a que tem direito”.

A imprevidência dos homens (em especial, os públicos) tenta intervir nesta autêntica e natural manifestação do povo corumbaense. Na década de 1960 a festa descambou para uma batalha campal, quando contendores de cima da ladeira lançavam foguetes aos de baixo ou que subiam com seus andores e que respondiam aos ataques. Nem foi preciso reclamar com o bispo, que interferiu junto da polícia para acabar com aquela “farra”. A ação do bispado de Corumbá provocou em contrapartida o afastamento da participação de católicos e a “repressão” quase acabou com esta festa popular. Na década de 1990, administradores locais introduziram nesta festa grupos baianos de “axé music” e trios elétricos, nada tendo a ver com as raízes históricas do folclore corumbaense, inclusive mudando a localização das barraquinhas de comida típica e dos espaços para bailes.

Para atender também aos interesses da midia televisiva e captar boas imagens, houve uma intervenção em certa época, com a determinação da descida do santo às 22 horas. Tem gente que não aprende mesmo, mas que nem sempre a tradição respeita tais mudanças. É a moda (e o poder) da televisão mudar o horário das coisas e dos acontecimentos para captar audiência, sem interferir na sua programação de novelas, o que já aconteceu com as partidas nacionais de futebol. Mas, acho que o santo não gostou dessas novidades para as indesejáveis mudanças e como alerta neste ano São Pedro interferiu a favor de seu companheiro de céu, João, e fez cair um “toró daqueles”, como dizem os corumbaenses, fazendo as luzes das ruas se apagarem e trazendo um “friuzão” que o povo local detesta. O brilho programado deu “chabú”, mas a festa aconteceu assim mesmo. Eu não vi, mas sei que o pior, como sempre, ficou para os vendedores ambulantes e os comerciantes de barraquinhas alugadas a Cr$ 400,00 (uma exorbitância), que amargaram um nada folclórico prejuízo.

Lembro-me, nos idos de 1970 quando cheguei a Corumbá para trabalhar na antiga Universidade Estadual de Mato Grosso, quando me deparei pela primeira vez com essas festas, ainda sem interferências exógenas de políticos, administradores públicos e imprensa. Sinto uma enorme saudade dos festejos juninos do Barro Preto, da Cacilda e do Dr. José Sebastião Cândia, do Arraiá da Shá Onça da Helô e da Peninha, todos irmanados no compromisso de pagar com muita alegria suas promessas ao querido santo. Foram muitos banhos de rio e muitas mudanças, sem afetar, entretanto, o espírito da comemoração dos corumbaenses, festeiros por natureza.

“Deus te salve João Batista sagrado....”. Ano que vem estarei lá, para ver o São João, rever os amigos e renovar minhas energias à beira do rio Paraguai.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 28 de junho de 2009.