Campo Grande é uma cidade curiosa. Mescla de cidade interiorana com metrópole moderna, nos últimos tempos deixou de ser pacata e agradável. Serão os novos tempos de crescimento e desenvolvimento? Não sei se essa modernidade é boa ou ruim. De qualquer forma, a observação dessas mudanças vem acompanhada de um sentimento de perda para o bem estar social.
Um caso exemplar desse sentimento é o que vem ocorrendo com a sua cobertura arbórea, que já não é a mesma, pela irresponsabilidade e apetite destruidor dos lenhadores urbanos, ou melhor, dos que odeiam árvores e buscam quaisquer justificativas para cortá-las, como por exemplo dizer que as árvores sujam as calçadas.
O aumento da temperatura da cidade, nos últimos anos, que inferniza a vida dos campo-grandenses em cada verão, já demonstra na pele o resultado do corte voraz e indiscriminado das belas árvores da cidade. E olhe que não faltam campanhas e leis que coíbem o desmatamento e a agressão ao meio ambiente. Parece que não estão sendo suficientes.
Para o espanto geral, já se projetou inclusive o estreitamento do canteiro central da avenida Afonso Pena, o que vai acabar no corte das frondosas e maravilhosas árvores, para privilegiar o fluxo de carros barulhentos e, claro, altamente poluidores. E não se trata de uma questão de estética e de visual. A cobertura verde melhora substancialmente o ambiente, permite a permeabilidade das águas, agrega passarinhos e beleza em nossas vidas e é um patrimônio dos cidadãos campo-grandenses. E, se a cidade e seus governantes, desejam ser modernos e inovadores, inspirem-se nas cidades mais desenvolvidas do mundo, como Vancouver e Toronto no Canadá ou cidades grandes européias, que organizam trânsito com prioridade para a qualidade de vida e do patrimônio ambiental e cultural da coletividade.
É uma atitude insana permitir a destruição do mais belo cartão postal da cidade. È contraproducente e antieconômico destruir esse patrimônio, a menos que existam outros interesses por detrás....
Há ainda uma outra situação de desconforto para a população da cidade: o assustador aumento de carros e motos pelas ruas e a falta de planejamento para suportar esse trânsito. Com uma cidade grande e com tanto espaço a ser aproveitado, parece um absurdo. O aumento da frota de veículos foi resultado da política de liberação de créditos e parcelamentos a perder de vista, inundando as ruas de carros e seus motoristas de dívidas. Assim, o caos no trânsito, que é uma questão nacional, instalou-se também na nossa cidade.
Além disso, no trânsito campo-grandense apareceu uma prática assustadora e perigosa. Sempre se soube que nas três cores do semáforo, o amarelo significa alerta e atenção, que intermedia o vermelho (para parar) e o verde (para seguir). O sinal amarelo serve para que os motoristas diminuam a velocidade e fiquem mais atentos aos cruzamentos. Pois é, deveria ser assim. Mas, na prática a lei foi modificada. Agora o sinal amarelo significa “rápido, seja mais esperto que os outros, aperte o acelerador”!
Assim, essa atitude insana transforma cada sinaleiro num verdadeiro jogo de “pimbolim”, um “videogame” ao vivo para os que querem levar vantagem em tudo, com inconseqüentes acidentes, feridos e mortes. Lembram-se da “lei de Gerson”? Podre Gerson, grande jogador de futebol da seleção brasileira de 1970, mas que ficou muito conhecido por uma propaganda de cigarros que fez na TV. Ele dizia que o brasileiro gostava de levar vantagem em tudo para vender o tal cigarro, e esse slogan acabou se tornando a filosofia dos espertalhões.
Isso sem contar que os motoristas que convergem à direita, afastam-se primeiro para a esquerda ultrapassando a faixa intermediária, para depois virar à direita, como se o carro não fosse capaz de virar sem avançar na calçada. Aprenderam a dirigir em carroças ou os instrutores de direção estão ensinando errados os novos condutores? Alguma coisa anda bem errada.
Para conter a insanidade do trânsito, a solução dos legisladores foi estabelecer uma verdadeira indústria de multas, seja pelos radares móveis ou não, e também pela polêmica atuação dos “marronzinhos”. É a mentalidade da educação pela punição, com a vantagem de render muito aos cofres do Detran. No entanto, a repressão pura e simples jamais será uma solução pedagógica para coibir irregularidades e mostrar o caminho da obediência às regras de trânsito. Basta ver que, com o passar do tempo, a famosa “lei seca”, lançada com grande estardalhaço por governantes e policiais, está destinada ao esquecimento. E, convenhamos, direção e álcool não combinam de jeito nenhum e, neste caso, eu concordo plenamente que dirigir bêbado é caso de polícia, por que é um crime, devendo ser punido com muita severidade.
É preciso, portanto, haver mais empenho das autoridades na aplicação de leis do trânsito e mais responsabilidades dos condutores e pedestres. A população tem que fazer a sua parte. Diga-se, de passagem, que a gente também vê pelas ruas abusos absurdos por parte de pedestres e de ciclistas, estes os campeões das irregularidades, inclusive andando comumente na contra-mão.
Mas, é preciso desenvolver seriamente uma política pública que fortaleça a educação, a solidariedade e a cidadania na convivência entre as pessoas nas ruas. Ou seja, longe de uma ideal sociedade solidária e igualitária, o que se vê é o individualismo exacerbado do “salve-se quem puder”, do “levar vantagem em tudo a qualquer preço”, fruto da sociedade individualista e egoísta que está aí. Este é, enfim, o perfil refletido das ruas da cidade, com um alto e assustador índice de violência e perdas humanas. Todos perdem quando cada um pensa e age em seu próprio e exclusivo benefício. Esse é o grande problema de nossa cidade e de nossa sociedade brasileira, infelizmente, toda contaminada com essa mentalidade.
Além do mais, é preciso reconhecer que é cada vez maior o contingente de motoristas mal preparados, sejam de carros (incluindo ônibus, vans, caminhões e possantes camionetes) ou motos, que transformam os seus veículos em verdadeiras armas de combate. No caso das motos o que se vê pelas ruas da cidade é um horror: todo dia morre um motociclista, na maioria dos casos por pura imprudência. Aliás, são as motos as que mais furam os sinaleiros e fazem ultrapassagens perigosas.
Atenção: sinal amarelo para Campo Grande e para todos nós!
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 13 de janeiro de 2009.
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