Para uma situação muito feia e difícil existe um ditado popular que a define: “a vaca foi pro brejo”. Não sei quem foi o inventor, mas não deixa de ser uma expressão curiosa e explicativa. Tomo então a liberdade de usá-la, com uma substituição, para exprimir um acontecimento preocupante nesses tempos bicudos.
É a crise batendo nas nossas portas. Coitado do consumidor que acreditou que este terremoto na economia internacional entraria no Brasil como uma “marolinha” presidencial. Isso faz lembrar uma antiga comediante de TV que, com sotaque americano, referia-se à ingenuidade do brasileiro com um refrão que ficou famoso, dizendo “como o brasileiro é bonzinho”. Era uma forma jocosa de dizer que o brasileiro era trouxa e que acreditava em tudo.
O tempo passou, mas não a ingenuidade (a de sempre acreditar nas coisas boas) do brasileiro. Estimulados pela propaganda e pela facilidade de conseguir empréstimos bancários, consumidores em larga escala concretizaram o sonho de conseguir um carro novo, desfazendo-se de seus carros usados, como parte inicial do empréstimo. O que eles não previam é que a tal “marolinha” chegariam às suas garagens, vindo em ondas o aumento do desemprego e o alto custo do dinheiro emprestado. Mesmo com as prestações a perder de vista, esses compradores começaram a ficar impedidos de cumprir seus compromissos.
Como é bem sabido que os bancos não estão aqui para perder dinheiro (basta ver seus balanços anuais publicados na imprensa), começou um festival de tomada dos carros dos incautos consumidores. De fato, a inadimplência atingiu seu maior nível nos sete últimos anos. É claro que os bancos nada perdem, pois além de receber parte dos empréstimos e altos juros ainda ficam com os carros para serem vendidos novamente em leilões altamente lucrativos. Já os compradores... Bem, perdem as prestações já pagas, o seu carro novo e, o que é pior, já não mais possuem seus velhos carros. Segundo informações públicas, nos últimos meses, mais de 75.000 carros já foram tomados pelos bancos, pela inadimplência de seus clientes. Parece, infelizmente, que esta onda vai demorar a passar. O jeito é se fingir de morto e torcer para não ser também atingido.
Para Roberto Troster, da consultoria Integral Trust (Folha de S. Paulo, 27.02.09), “as pessoas estão se endividando no cheque especial e no cartão de crédito para pagar outras dívidas. Isso só agrava o problema da inadimplência”. A situação é grave e precisa de imediato novas e rigorosas medidas corretivas por parte das autoridades governamentais para impedir o aumento da crise e a evolução de suas consequências. É bom lembrar que tudo começou nos EUA, no setor imobiliário com uma especulação desenfreada. No começo a situação foi subestimada e em pouco tempo revelou-se uma avassaladora bomba de efeito retardado e que se espalhou por todo o mundo. A cada hora, novas notícias assustadoras sobre crises, falências e desempregos aparecem na imprensa, provocando cada vez mais intranqüilidade aos trabalhadores e suas famílias. O caso mais recente, com graves consequencias para a economia brasileira, foi a demissão em massa dos empregados da Embraer, aliás, mito do orgulho e da patriotada nacional. E Mato Grosso do Sul não conseguiu ficar blindado perante o avanço da crise, com um aumento visível do espectro do desemprego, com fechamento de firmas, falências, e um assustador “cano” aos fornecedores, em especial, no setor agropecuário.
Neste rastilho de pólvora, estado e município começam a sofrer as agruras impactantes na arrecadação fiscal, que tendem a cair ladeira abaixo. Como sempre, quem vai pagar o “pato” serão os trabalhadores. Por fim, a vaca para o brejo... ou será a boiada toda?
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 08 de março de 2009.
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