sábado, 5 de abril de 2008

Meninos, eu vi e vivi (*)

Um dos mais importantes jornalistas contemporâneos, Joel Silveira, falecido aos 88 anos em agosto do ano passado, além de ter desenvolvido com brilhantismo um jornalismo investigativo a partir da cobertura da Segunda Guerra Mundial, e de análises ferinas dos acontecimentos sociais, influenciou gerações e gerações de jovens jornalistas. Segundo a Folha de S. Paulo (16.8.2007), “tinha um faro de repórter, olhar de escritor, idéias de jovem socialista”. Ajudou também a fundar o Partido Socialista Brasileiro.
Publicou romances, contos e crônicas superando a marca de 40 publicações. Em um dos seus livros, “Meninos, eu vi” (1967), reuniu corajosamente crônicas publicadas pelo jornal carioca “Correio da Manhã”, com ácidas críticas sobre o golpe militar de 1964. Não deu outra, com o Ato Institucional n. 5, Joel Silveira foi preso pelos militares de plantão.
Pois bem! Peço licença ao velho mestre para usar parte do título do seu livro para encabeçar este artigo.
Com emoção e nostalgia assisti na Câmara Municipal de Campo Grande, na manhã de 15.03.2008, a uma sessão solene comemorativa de 25 anos da posse de Wilson Barbosa Martins no governo do estado de Mato Grosso do Sul e da professora e vereadora Nelly Bacha como a primeira prefeita da capital, Campo Grande. Foi emocionante a singela homenagem. Vi alguns companheiros da época. Poucos, é verdade. Muitos, que oportunamente apoiaram e usufruíram do novo poder estabelecido, esqueceram da necessária homenagem. É o mal dos homens: a ingratidão.
Enquanto os discursos se arrastavam, comecei a navegar nas asas da memória. Era professor do Centro Universitário de Corumbá e, junto com outros dois professores idealistas, Celso Panoff Philbois e Eduardo Gerson do Saboya Filho, estivemos numa reunião com o pré-candidato Wilson Barbosa Martins, na biblioteca anexa ao seu escritório, na rua 15, em Campo Grande. O sonho e a proposta feita ao candidato era romper com a prática política até então existente em Corumbá e provocar uma mudança política e social na velha e histórica Cidade Branca. Voltamos intrépidos, confiantes e passamos a confrontar a emaranhada prática política da cidade enfrentando desafiadoramente o medo e os ranços ainda muito fortes da ditadura militar. Não foi fácil, e o medo ainda era muito forte, em especial por ser Corumbá uma área de segurança nacional e base de contingentes do exército e da marinha.
Mas, mesmo assim, a campanha eleitoral “A hora é agora”, comandada pelo líder carinhosamente chamado de “velho” Wilson foi uma bela festa democrática. E olha que o povo sul-mato-grossense não estava acostumado a isso. O PMDB da época representava uma postura de vanguarda e reação às forças ditatoriais e aos seus adesistas de plantão (aliás, ainda presentes na nossa tão conturbada e deprimente política).
Em Corumbá a campanha foi árdua e sofrida, pois era preciso superar o temor incutido nas pessoas pela repressão militar, a intranqüilidade frente a possibilidade de perder privilégios e cargos, e a perseguição policial em cima de jovens militantes partidários. Até um processo foi instaurado na polícia federal pela colocação de cartazes nas ruas da cidade. Por ser uma campanha sem recursos, esses cartazes eram frutos de doações de amigos e simpatizantes e vieram do Rio de Janeiro, onde foram produzidos (hoje, são médicos residentes em Corumbá).
Porém, o que mais dificultava a campanha era a própria divisão interna do partido que, em Corumbá, apresentou-se com duas alas. Uma, com uma chapa encabeçada pelos candidatos a deputado estadual, Joilce Viégas de Araújo, e ao senado, Antonio Mendes Canale. Contando com apenas 8 candidatos a vereador, esta ala elegeu 2 vereadores, Rubens Galharte e Valmir Corrêa. A outra chapa, encabeçada pelo então polêmico deputado e candidato à reeleição, Cecílio de Jesus Gaeta (um político que está a merecer um estudo sócio-político), e ao senado, Marcelo Miranda, apresentou-se com 21 candidatos a vereador. Desta ala, foram eleitos com Jesus Gaeta, os vereadores Luiz Alberto Pinto de Figueiredo, Vicente Alves de Arruda, Assunção do Carmo Vieira e Augusto Fernandes Gaeta.
Foi uma eleição onde militantes tiveram um papel fundamental como voluntários que sonhavam com uma mudança política, com professores e estudantes universitários, professores da rede municipal e estadual, jovens, e de modo geral, a população envolvida no processo eleitoral. Até os meus filhos, de 4 e 7 anos na ocasião, entraram na disputa usando camisetas com as palavras “vote no papai” nas costas.
Foi uma luta sensacional porque aliava posições ideológicas bem definidas, criatividade e despojamento da militância e dos que, de fato, engajaram-se no apoio a Wilson Martins.
A vitória foi uma festa, comemorada tardiamente pois, em Corumbá, Wilson Martins não foi majoritário e demorou muito para que o resultado das urnas de Campo Grande fosse conhecido. E, no final das contas, quando se oficializou a vitória do PMDB em Corumbá, apareceram apoiadores de todos os cantos numa espetacular enxurrada de adesistas pós-eleições. Nunca se viu tanta gente de “oposição” enrustida!
Os jovens idealistas que empunharam a bandeira das mudanças desde a primeira hora ficaram a ver navios (lá na curva do rio Paraguai...). Seus sonhos esmaeceram e Corumbá, como sempre em sua história, tornou-se a mais situacionista das cidades, aliás como ocorreram muitas outras vezes mais...]
Valmir Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 6 de abril de 2008.

Uma bolsa em questão (*)

A bolsa como parte do vestuário humano existe desde o início da civilização, tendo nomes e destinos os mais variados. Usadas por civis ou militares, por mulheres, homens e crianças, as bolsas tornaram-se enfim indispensáveis ao cotidiano moderno. Hoje, este complemento é utilizado em sua expressiva maioria pelas mulheres, apesar de ser também usada por homens. Aliás, nos anos 70 foi moda usar bolsas enormes como marca registrada de estudantes e intelectuais. Bons tempos aqueles em que barbas por fazer, sandálias, jeans e bolsas a tiracolo quase sempre identificavam um contestador do “establishment” e do regime militar.
A palavra bolsa também adquiriu uma conotação de apoio ou benefício. A chamada bolsa de estudos foi, e ainda é, um artifício para ajudar, como investimento, a complementação de estudos desde os primeiros passos da formação educacional, passando pela fase de graduação em curso superior ou até mesmo de pós-graduação. Gerações de estudantes obtiveram desta maneira a conclusão seus cursos, possibilitando com isso uma contribuição importante ao desenvolvimento sócio-cultural do país. Essas ações sociais, sobretudo no âmbito da graduação em cursos superiores e de prós-graduação, são oferecidas quase sempre com contrapartidas contratuais. Assim, após a conclusão de seus cursos, os gastos com as bolsas são ressarcidos com a prestação de serviços sócio-comunitários ou o resgate do valor investido em inúmeras prestações mensais.
Mas o Brasil é o país das ironias e dos paradoxos. Nem sempre os formandos conseguem encontrar empregos nas profissões escolhidas e obtidas com bolsas. Aí começa o terror para pais, jovens, e, (epa!) fiadores.
Nos últimos tempos, a palavra adquiriu um outro sentido de “salvação da lavoura”. É o Bolsa Família, o mais importante programa social do governo federal que atende aproximadamente 46 milhões de pessoas. É um assunto perigoso, incomodo e de difícil discussão. Não é fácil criticar um programa que, apesar de declaradamente assistencialista, leva um pouco de comida à população marcada pela miséria. E olha que a fome é dolorosa e trágica.
Porém, o que ninguém quer enxergar, apesar de estar à vista de todos, é que a necessidade de tal programa tem uma outra resposta: o que falta no Brasil é a oferta de empregos para uma população menos preparada. Então, uma pergunta que teima em não se calar: Que país é este que não tem um efetivo programa de crescimento gerador do emprego? Ninguém crê, em sã consciência, que o assistencialismo seja a solução a médio e longo prazos para o país.
Agora, um alerta foi publicado pela imprensa nacional. Com o limite de 15 anos para o estudante credenciar a sua família ao Bolsa Família, que tem como especial compensação a evolução educacional, o jovem passou a enfrentar um novo problema. Junto do cancelamento da bolsa também perde o “estímulo” para completar o ensino fundamental e galgar o ensino médio. Havia um forte gargalo no programa governamental, de alto investimento aliás, alimentado pelos nossos impostos. É preciso ter coragem para assumir que priorizando o assistencialismo, não se está colhendo o que é mais importante: a conquista de cidadania e de consciência política.
Será que cidadania e consciência política não produzem votos? Mas o Bolsa Família dá voto e isso já se comprovou. O que de fato a pesquisa vem assinalando é que este problema traz em seu bojo uma trágica evasão escolar que atinge os beneficiados pela bolsa, alunos e suas famílias de uma só vez.
É chato dizer, mas o governo tem que enfrentar o problema de forma corajosa, sob pena de reforçar uma geração de semi-analfabetos e ignorantes. Como diz uma velha frase, “a quem interessar possa...”.
Segundo o jornal Correio do Estado (10.03.08) a evasão escolar tem uma conseqüência perversa, mas lógica: as famílias obrigam as crianças com idade até 15 anos a ficarem na escola só para ganhar o benefício, liberando-as dos estudos a partir dos 15, uma idade em que a maioria não conseguiu passar da 5a. série, mas é quando o programa social deixa de pagar pelos estudos. Esta arrepiante afirmação coloca em xeque o badalado programa governamental. Toda esta luta é para receber uma bolsa de 58 reais e mais 18 reais para famílias com renda até 120 reais.
Em 2007, 1,4 milhão de famílias deixaram de receber os benefícios do programa por ter superado a renda per capita de 120 reais. Mas a miséria continua a mesma, até porque nenhuma política assistencialista é capaz de resolver o problema. Agora, o governo define novas mudanças no programa, permitindo a revisão de variações de renda após 2010, além do pagamento de 30 reais a jovens de 16 e 17 anos que estejam matriculados na escola. Ufa!. A lavoura está salva! A questão é estrutural e este esforço apenas está postergando um problema maior em futuro breve.
Mas, ao mesmo tempo em que o governo “distribui renda” e benefícios aos miseráveis, promove a continuidade das discrepâncias sociais do país. Veja o caso do Tocantins, que a Folha de S. Paulo publicou em 13.3.08, onde no município de Dianópolis o governo entregou títulos de propriedade de 2,2 mil hectares a 58 famílias. Porém, no mesmo ato o governo oficializou os títulos de 5 empresários que ocupam 2,3 hectares de terra. Imagine isso convertido em bolsa?
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 30 de março de 2008.