domingo, 7 de dezembro de 2008

Meu velho álbum de figurinhas (*)

Em minha biblioteca, junto dos clássicos do pensamento econômico e político, mais os livros de história do Brasil e um precioso e extenso acervo bibliográfico sobre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, existe um cantinho que trato com muito carinho, onde fica uma coleção iniciada nos tempos de menino, no interior de São Paulo, com mais de 80 álbuns de figurinhas. Parece coisa de criança, mas não é. Tanto é verdade que em 1985 foi defendida na USP uma dissertação de mestrado, na área de comunicação, justamente fazendo uma análise de álbuns de figurinhas.
As figurinhas surgiram na Europa em 1872 como cartões de propaganda contendo assuntos não comerciais, em embalagens de extrato de carne. No Brasil, os cromos começaram a sua distribuição em 1885. As figurinhas passaram a ter uma função de educação complementar, sobretudo pela escassez de bibliotecas e de circulação de livros, justificando assim o seu caráter enciclopédico.
Os assuntos eram os mais variados como plantas, flores, pássaros, animais, geografia e história, entre outros. Vinham gratuitamente em balas, como as famosas “holandesas” (1930), ou em caixas de produtos como as estampas que se encontravam nas caixas do sabonete Eucalol. A partir de 1949 as figurinhas também passaram a ser vendidas acompanhadas de balas. As balas eram de péssima qualidade e melavam facilmente, manchando inclusive as próprias figurinhas.
Depois vieram as figurinhas em envelopes. Existiam as figurinhas carimbadas que criavam um grau de dificuldade para o preenchimento das páginas do álbum. Muitos álbuns davam prêmios, mas o gostoso mesmo era completá-los. Para colar as figurinhas era preciso fazer cola de farinha de trigo ou polvilho, ou usar a famosa “goma arábica”. Hoje são autocolantes e com isso perderam muito do seu charme.
Passo a folhear um velho álbum de futebol, o famoso “Ídolos do Futebol Brasileiro”, de 1956, que os editores alardeavam ser o “mais completo álbum de craques dos nossos gramados”. Além de belas figurinhas, todas coloridas, medindo cada uma 7 x 4,5 cm., este album traz em sua parte final as regras oficiais do futebol, um histórico das copas do mundo e dos craques brasileiros. Ali estavam registrados muitos jogadores que hoje fazem parte da própria história do futebol brasileiro. Foi uma época em que o Brasil já havia superado o trauma de 1950, quando em pleno Maracanã perdemos a copa do mundo para o Uruguai.
De acordo então com este álbum de 1956, a seleção de Mato Grosso tinha uniforme azul com uma faixa transversal branca, com o distintivo “FMD” e era formada por Dito, Hélio Nunes, Uir, Samuel, França, Totó, Nelsinho, Leônidas, Batista, Jaquinha e Vidal Ibanhez. Abaixo de cada figurinha estava registrada também uma pequena biografia do jogador.
Continuo a folhear o álbum e vejo outros times e jogadores conhecidos. O Corintians, por exemplo, consagrado campeão do quarto centenário da fundação de São Paulo em 1954, contava com Cláudio, Luizinho e Baltazar. O São Paulo aparecia com De Sordi, Pé de Valsa e Dino Sani; o Palmeiras com Liminha e Jair da Rosa Pinto; o Flamengo com Dequinha e Joel; o Fluminense com Castilho, Tele e Didi; o Vasco com Bellini, Ademir e Pinga; o Botafogo com Nilton Santos e Garrincha; o Bangu com Zizinho e Zózimo.
A velha Portuguesa de Desportos contava com Djalma Santos, Juninho e o corumbaense Airton Diogo. Na sua biografia constava: “atacante. Nasc. em Corumbá (M. Grosso) em 23.11.929; Slt., 1,80 m. de alt.. Surgiu no Corumbaense F. C. em 1947, jogando depois no Fluminense do Rio, no E. C. Pelotas, Internacional de P. Alegre e, desde nov. de 1954, na Port. de Desp. Campeão amador em Corumbá em 47, vice-aspirante do Rio, campeão de Pelotas em 51, gaúcho em 53 e do Rio São Paulo em 55”.
No Linense, time do interior de São Paulo, aparecia também o corumbaense Fragão. Na sua biografia constava: “(José Gonçalves de Carvalho). Centromédio. Nasceu em Corumbá (M. Grosso) em 7.9.926; casado, 1,78 m. de altura. Surgiu no E. C. Motorista de Corumbá em 1945, jogando depois no Bauru A. C, onde se fez profissional em 1946, e desde 1949 no Linense. Campeão pelo Brasil em 1946, pentacampeão de setor em 1949/50/51/52/53”. Também aparecia nesta galeria o técnico do América F. C. de Belo Horizonte, o polêmico corumbaense Yustrich (Dorival Knippel). Nascido em Ladário, ficou registrado como corumbaense porque a pequena cidade, nessa ocasião, integrava o município de Corumbá.
Termino de folhear o meu velho álbum de figurinhas e sonho. Sonho que Mato Grosso do Sul conta hoje com mais campos de futebol de várzea e que as autoridades ligadas ao esporte, estaduais e municipais, passem efetivamente a estimular a prática de esportes amadores. Torço para que em um dia Mato Grosso do Sul tenha um forte esporte profissional e com isso as crianças passem a colecionar álbuns sobre esporte, troquem figurinhas ou joguem “bate e vira” (ou “bafinha”) com figurinhas de craques também daqui do estado.

Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 6 de abril de 2008.

Meia gravidez não existe (*)

Tem uma anedota antiga, passada de geração a geração, sobre uma jovem que chega para a mãe e diz de sopetão: “mãe, estou grávida”. A mãe tem de imediato uma reação forte, com choro, gritaria e ranger de dentes. Para acalma-la, a filha tenta explicar a situação: “a senhora não entendeu, estou grávida só um pouquinho”. Isso reflete uma meia verdade. Porque não existe “meia grávida”, ou seja, ou se está grávida ou não.
Pois bem.
Penso nesta piada, de gosto duvidoso, ao ler um comentário do nosso presidente que afirmou em 18.3.08, que as iniciativas governamentais objetivando a expansão de vagas no ensino universitário irão provocar uma “pequena revolução” no processo educacional brasileiro.
Acontece que o significado da palavra “revolução” é bem precisa a partir dos clássicos do pensamento político e econômico, com a construção estabelecida por Marx. Grosso modo, pode ser entendida como uma profunda transformação nas estruturas sócio-econômicas de modo que, a um certo momento, todas as estruturas antigas deixam de existir. Hoje, esta palavra está muito desgastada, perdendo em muitas ocasiões o seu significado. O que mais se pratica nos tempos atuais é o reformismo, ou seja, mudanças muitas vezes superficiais, sem contudo promover transformações estruturais que possibilitem, e é o que se espera, verdadeiras inovações. Não tenho dúvida de que é urgente a prática de uma verdadeira revolução na atual e empobrecida educação brasileira.
Por dever de justiça, é possível reconhecer o esforço do governo com experiências educacionais para superar os entraves até agora enfrentados. Nesse sentido, o presidente referia-se ao Reuni (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão e Expansão das Universidades Federais), que propõe a oferta de mais cursos de graduação, numa perspectiva de ampliação de 100.000 mil novas vagas, isso vindo a somar ao programa ProUni (Programa Universidade para Todos), que atende aproximadamente 60 mil alunos de baixa renda. Porém, não se pode esquecer o outro lado desta moeda, ou seja, o estado de crise das universidades públicas federais.
Mas que crise é esta se a todo o momento é possível ver a sua expansão física e até sucessos pontuais? Este é o primeiro aspecto para quem quer fazer uma “revolução” no ensino universitário. É colocar o dedo na ferida e fazer um corajoso diagnóstico sobre “o que está acontecendo com a universidade pública”. É preciso muito cuidado com as generalizações dos problemas presentes, pois existem peculiaridades de instituição para instituição.
Neste sentido é preocupante o nível da qualidade do ensino apresentado pelas universidades. Alguns fatores, sempre recorrentes, encontram-se nos salários não satisfatórios, bibliotecas não atualizadas, pesquisas limitadas ou, simplesmente, falta de motivação ou distanciamento da cidadania e compromisso com o desenvolvimento da educação do país. Com certeza, falta um mapeamento desses “gargalos” para a construção de um amplo projeto que avance sobre o atual estágio das universidades.
Outros estágios da educação formal vêm enfrentado os mesmos problemas, apesar de também sofrerem tentativas de solução. A ampliação dos benefícios do Bolsa Família é o caso mais visível. Porém, segundo especialistas em educação, não basta expandir programas deste tipo, pois o problema continua o mesmo, ou seja, a questionável qualidade de ensino. Estamos produzindo uma quantidade inimaginável de semi-analfabetos, para dizer o mínimo. Alguém já reparou nos erros de português, os mais elementares, que a televisão expõe ao entrevistar as pessoas que circulam pelas cidades brasileiras? O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão ligado ao Ministério da Educação, concluiu que as crianças das 4a. séries do ensino fundamental não adquiriram sequer os conhecimentos do primeiro ano. Pode uma loucura desta?
Porém, não se pode generalizar esta situação desagradável. Seria uma grande injustiça com algumas experiências pedagógicas que estão por este imenso Brasil com resultados altamente positivos. São idéias simples, mas geniais. Cito dois exemplos: a cidade de Alto Alegre do Pindaré, MA (32 mil habitantes), e a cidade de Sete Barras, SP (15 mil habitantes).
Segundo o jornal Folha de S. Paulo (25.3.2008), na cidade de Alto Alegre do Pindaré, “a biblioteca da escola é transportada de um canto para o outro por um jegue guiado por alunos, professores e diretores. Os mestres passam por avaliações e estão sujeitos a ter de freqüentar aulas de reforço. Um representante visita a casa do aluno que falta dois dias consecutivos para saber o motivo da ausência”. Isto é apenas um aperitivo desta bela experiência. A outra cidade, Sete Barras, a “avaliação dos alunos, recuperação, material didático organizado e formação dos professores são as ações apontadas pelos educadores locais como a explicação para os bons exemplos”. Nos dois exemplos é possível encontrar as raízes de uma “revolução” nas bases da sociedade brasileira: é o comprometimento dos educadores e das famílias com as mudanças esperadas.
Enfim, uma “revolução” na sociedade brasileira passa, sem dúvida, por investimentos transformadores no binômio educação-família. Ou melhor, ela começa pela família que deve dar as noções de cidadania e educação e formação do caráter de seus filhos. A escola não substitui as obrigações familiares, mas reforça e as complementa. E educação não pode ser feita com meias verdades, mas por inteiro.

Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 13 de abril de 2008.