Sonhos para uns, nostalgia para outros, depois de uma longa espoliação histórica, o Trem do Pantanal deslizou pelos antigos trilhos da Noroeste. Não falo que voltou porque muita água ainda passará sob a ponte, ou melhor, sob os trilhos. Correndo nos seus acanhados trilhos que cortavam o Pantanal, com a ligação de Campo Grande à Porto Esperança em 1914, o trem da Noroeste esteve intimamente ligado à história e à construção de Mato Grosso do Sul. Porém, a insensibilidade e a ganância dos homens, ligadas unicamente aos interesses do mercado e da defesa do Estado Mínimo (pilares do neoliberalismo) e não aos interesses da sociedade como um todo, levaram ao desmonte e a privatização de instituições estatais. O país perdeu, o estado endividou-se, os serviços essenciais ficaram com preços proibitivos, a população pagou o “pato”, mas muita gente encheu as suas “burras”. Parece até anacronismo falar sobre esse passado que não volta mais, mas como sou teimoso, continuo a falar. O caso da Noroeste é emblemático, pois todos nós saímos perdendo.
No entanto, quem viveu este período jamais esquecerá o balançar e os apitos “daquele velho trem”, como registrou uma belíssima canção regional. Sem romper este cordão umbilical nasceu o “trem do pantanal”. Entendo até que esta proposta é superação de um peso na consciência de uma geração que não soube, ou não teve condições de preservar o velho trem da Noroeste.
Sou um dos defensores deste evento, porém, não posso deixar de fazer algumas considerações. Em primeiro lugar houve um equívoco em denominar, como propaganda, “a volta do trem do Pantanal”, pois não se retorna o que, historicamente, não existe mais. O trem da Noroeste, como existiu, transportando cargas e passageiros, já faz parte do passado da região. Este novo trenzinho, que fez uma recente primeira viagem, tem uma nova concepção de utilização. Como diz um velho ditado, é “a volta dos que não foram”. Em fim, a utilização da palavra “volta” é complicada e induz às pessoas desavisadas a nostalgia de resgatar algo que não será efetivado.
O segundo ponto de preocupação é o batismo de trem do “Pantanal”, que induz a pensar que o passageiro usufruirá das belezas naturais (exaustivamente divulgadas pela mídia) que, na verdade, não serão mostradas por uma razão muito simples: o trem do Pantanal não corta o Pantanal nesta primeira etapa. O término desta viagem, na cidade de Miranda, demonstra que as grandes planícies alagadas ficaram de fora do projeto.
Esta primeira viagem, com autoridades que incluiram os presidentes do Brasil e do Paraguai, mostra o perigo da utilização de uma propaganda enganosa. O presidente Lula, com sua verve conhecida, chegou a dizer: “serei o garoto-propaganda do Pantanal no mundo”, que ele, na verdade, não viu. Também chegou a prometer que no próximo ano o trenzinho do Pantanal chegará a Corumbá. Será? Pobre cidade de sonhos perdidos, pois espero que não demore 40 anos, como no passado foi o tempo de implantação dos trilhos entre Porto Esperança e Corumbá. Que o diga o presidente da ALL (América Latina Logística) Bernardo Hess, que em recente entrevista, jogou água fria na possibilidade do trenzinho do Pantanal chegar a Cidade Branca a curto espaço de tempo.
Outras perguntas que não podem calar sobre a questão da segurança dos usuários e turistas, aliás, nem o próprio presidente da ALL conseguiu uma explicação plausível. A empresa não explicou até agora quantos dormentes foram trocados, trilhos revisados, além dos trabalhos de conservação das velhas obras de arte. Além disso, ninguém também explicou porque este trem, com poucos vagões, não ultrapassa a velocidade de 30 kilômetros por hora, tornando a viagem um tormento aos passageiros. Até o velho trem da Noroeste desenvolvia maior velocidade, e olhe, com a infraestrutura de 1914. Será que maior velocidade provocará a saída do trenzinho de seus trilhos? Num primeiro momento, segundo um mote da novela, foi um fato “auspicioso”, agora a realidade é mais dura e as críticas já começaram a aparecer. Discursos na Assembléia Legislativa dos deputados da oposição chegaram até a afirmar que o próprio presidente da república foi enganado por este danado trenzinho...
Ainda é tempo de fazer um planejamento conseqüente para o uso desta ferrovia, não provocando uma indesejável propaganda negativa e contrária aos interesses de Mato Grosso do Sul. Senão, será mais um trem a perder os trilhos da história.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 24 de maio de 2009.
Um comentário:
Oi Valmir. É muito boa esta teimosia em falar do passado, mesmo porque o perigo de não o fazer é justamente que ele volte - ou seja, os mesmos erros sejam repetidos.
Aqui é o Daniel, amigo do Rafa, quebrando o silêncio dos comentários para dizer que sou assinante de seu blog há um tempo.
Um abraço
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