domingo, 25 de outubro de 2009

Um país do futuro? (*)

O escritor austríaco de origem judaica, Stepan Zweig, foi um dos milhões de perseguidos pelo regime nazista. Teve inclusive seus livros proibidos e incinerados em praça pública. Foi o preço que pagou pelo combate sistemático com seus escritos ao avanço dos regimes nazi-fascistas. Não agüentando tanta perseguição, Zweig e sua esposa vieram para o Brasil em 1941.

Em pouco tempo ficou maravilhado com país e escreveu um livro que marcou a época, “Brasil, país do futuro”. Morando na bela cidade serrana de Petrópolis-RJ, no ano seguinte, deprimido pelo avanço do totalitarismo no mundo, Zweig e sua esposa suicidaram-se. Independente deste trágico desfecho, a idéia do “país do futuro” marcou gerações de brasileiros. Em síntese, era a ilusão de que se o presente não estava bom, com certeza no futuro a situação iria melhorar.

O tempo passou, e a busca de um Brasil melhor passou a ser a esperança de todos. Com certeza, o país deu um salto de modernização; significativa parcela da população transferiu-se do campo para a cidade, teve acesso às delícias da modernidade tecnológica, é verdade, a preço de altos juros e prestações a perder de vista. O país tornou-se uma potência, participando do jogo político internacional junto das nações mais ricas do planeta. Mesmo assim, permanece um país com uma das maiores desigualdades sociais que se tem notícia, mesmo com uma espetacular política de assistencialismo, “nunca vista neste país”, com a distribuição de dinheiro através de “bolsas”.

Com uma indecente carga de imposto e arrochos fiscais, parece até que está sobrando muito dinheiro. Basta acompanhar a política externa brasileira, fazendo a delícia de países da África e América Latina com perigosa distribuição de incentivos financeiros. Diversos países africanos já receberam benevolências do Brasil, como a doação de 50 mil dólares para a Fundação para a infância da república de Mali. Também tem feito a alegria de grandes empreiteiras brasileiras como a proposta da construção de uma hidrelétrica em Gana pela bagatela de 50 milhões de dólares. O governo brasileiro ainda doou, recentemente, 50 mil dólares para atenuar as enchentes no Tadjiquistão.

Em relação à América Latina, para citar alguns exemplos, basta ver a construção de uma hidrelétrica na divisa com a Venezuela, onde o presidente Chaves está dando o maior cano nos cofres brasileiros, isso sem contar com a rasteira que Morales deu no governo brasileiro e na Petrobrás, e as ambições do Paraguai sobre Itaipu.

Lembrando aquela comediante que dizia “como o brasileiro é bonzinho”, o governo pretende agora doar 27 aeronaves, entre helicópteros e aviões, para a Bolívia, Equador e Paraguai. Deve estar sobrando mesmo dinheiro, pois o governo pretende ainda gastar bilhões de dólares nos próximos anos com aviões de caça, submarinos, Copa do Mundo de futebol de 2014 e Olimpíadas de 2016.

Então como explicar que o Brasil está colocado no vexatório 75o lugar no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas? É a pobreza, a desigualdade e a baixa qualidade de vida da população brasileira que fala mais alto. Assim, a pretexto de atingir o grau de “Brasil Potência”, muitos e graves problemas sócio-econômicos têm sido relegados e não resolvidos pela atual política brasileira.

Agora, como um soco no estomago, foi divulgada uma pesquisa sobre a juventude brasileira divulgada pelo IBGE. Esta amostra demonstrou que 63% dos jovens entre 18 a 24 anos deixam de terminar o antigo 2o grau para trabalhar. Também foi rastreado que mais de 800 mil jovens não trabalham e nem estudam, talvez, por falta de oportunidades. Além disso, descobriu-se que 44,7% das crianças e jovens até 17 anos viviam, em 2008 em situação de pobreza e assim por diante.

Como poderemos ser o país do futuro, com uma multidão de jovens sem futuro?

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 25 de outubro de 2009.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Uma aventura espacial e olímpica (*)

Há quarenta anos atrás (29.07.1969) ocorreu um fato histórico que, depois disso, o mundo não foi mais o mesmo. Concretizando um sonho que envolveu toda a humanidade, o homem pisou pela primeira vez na Lua, ou melhor, os americanos pisaram. Era a época da política da “guerra fria”, onde os maiorais eram os EUA e a URSS, que haviam dividido o mundo, pós Segunda Guerra Mundial, em duas áreas de interesses e de predomínio. Essa disputa acirrada entre “democracia versus comunismo”, que na verdade escondia uma política imperialista de ambos os lados e justificava a corrida armamentista, golpes de estado, ditaduras sanguinolentas e finalmente, a busca do controle do espaço cósmico.

Este avanço criou a necessidade de novas tecnologias para a sobrevivência dos astronautas que foram muito bem aproveitadas no cotidiano do homem comum. Foram alimentos, chips, meios de comunicação entre outros. Bilhões de dólares foram gastos, mas a humanidade no seu conjunto foi indiretamente beneficiada.

Este espetáculo extraordinário do homem deixar as suas pegadas na superfície da Lua foi visto em todas as partes do globo, pois a televisão já estava ajudando a globalizar o mundo. Aqui, na nossa vereda tropical, a rede Globo já colocava a sua marca no evento, com uma audiência nunca vista, transmitida pelo jornalista Hilton Gomes. Emocionado com fato, o jornalista gritou: “chegamos à Lua”!

Nós quem cara-pálida? Este modo subserviente de encarar o feito dos americanos tão distante levou, com certeza, muitos incautos brasileiros a encherem-se de orgulho. O tempo passou e até hoje, que eu saiba, nenhuma espaçonave brasileira chegou sequer perto da Lua. O oba-oba da rede Globo alardeou uma mensagem subliminar de apoio à expansão dos EUA que os brasileiros ingênuos incorporaram. Entretanto isso não tirou a dimensão deste avanço extraordinário que representou a conquista simbólica da Lua pelo planeta Terra.

Nos dias de hoje é comum ver fatos localizados internamente, ou mesmo em outros continentes, transformarem-se em questões nacionais. Chego a pensar que a necessidade de mostrar uma “pátria grande” encontra suas raízes na preconceituosa superação da herança de séculos de colonização. Prá mim, isto é uma grande bobagem e já foi superado desde muito tempo. No entanto, continua presente nesses tempos a necessidade de mostrar uma emergente liderança continental, a despeito da política das relações internacionais do Brasil estar sofrendo reveses, como o caso da embrulhada que o país arrumou em Honduras. É inegável, entretanto, que nos anos do governo Lula o país deu um salto para o seu reconhecimento em todo o mundo, em diversos setores.

É a velha história de perder o pêlo sem perder a pose. Veja o extraordinário feito da escolha do Brasil para sediar os Jogos Olímpicos em 2016, a primeira vez em um país da América do Sul. Confesso que torci também e fiquei emocionado (não foi só o Lula), orgulhoso da minha terra. Mas isso cria uma responsabilidade de dar frio na espinha. O que será que acontecerá com este país nos próximos sete anos?

A experiência com os Jogos Pan-Americanos de 2007 não encoraja ninguém. O orçamento previsto em 2002 de 410 milhões chegou em 2007, em gastos reais, com um salto 8 vezes maior, atingindo a cifra estratosférica de 3,7 bilhões de reais. E mesmo aquela balela de que os investimentos iriam melhorar a qualidade de vida dos cariocas, a cruel verdade é que os graves problemas sociais continuaram insolúveis, como a “guerra civil” que ocorre nos morros, a violência cotidiana, a miséria, os transportes deficientes entre outros. O pior é que até hoje ninguém sabe onde foi aplicada essa fortuna, muito menos o TCU, e ninguém foi até agora punido.

Se não foi resolvido o caos carioca, então, o que sobrou para o resto do país? A fonte dos recursos deverá vir da dilapidação dos impostos escorchantes pagos as duras penas pelos brasileiros. Agora vem a imprensa divulgando que a previsão de gastos com as Olimpíadas está estimada por volta de 29 bilhões de reais. Pobre de nós. Pelo exemplo do Pan isso não resolverá os problemas do Rio de Janeiro e muito menos do resto do país.

A primeira coisa que me assusta com a aventura das Olimpíadas foi, já de início, a ida para Copenhague de uma caravana de mais de cem pessoas, entre dirigentes, políticos, artistas, com todas as despesas pagas pelos impostos do coitado do contribuinte. Até eu, que sou bobo, estaria feliz pulando de alegria, como vi pela televisão esses felizardos, todos com a mesma linda gravata de seda pura distribuídas gratuitamente. Depois, a comemoração da vitória, em um hotel de muitas estrelas, com boca-livre que se estendeu noite adentro, alegrando uma multidão de mais de 300 pessoas, engrossada por vivaldinos penetras, com farta distribuição de vinhos espanhóis.

Assim, até eu gritaria: “ganhamos as Olimpíadas!” Resta saber em qual mundo vivemos: no mundo real de pés no chão e a cabeça no lugar ou no “mundo da Lua” e da farra dos orçamentos....

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 17 de outubro de 2009.

sábado, 10 de outubro de 2009

A banalização da violência (*)

Nos anos 50 do século passado, um crime hediondo ocorrido na cidade do Rio de Janeiro teve repercussão nacional. Foi a morte da menina-moça Aida Curi, levada e violentada num terraço de um prédio por dois playboys (termo utilizado na época) e o porteiro. Depois de currada (como era chamado o estupro coletivo), o desespero da jovem levou-a a voar para a morte. Ninguém soube se foi suicídio ou se foi jogada por esses marginais. A violência sexual assustou a sociedade da época. A revista O Cruzeiro, a mais importante da época, dedicou em vários números extensas reportagens sobre o fato.

É claro que crimes existem desde o aparecimento do homem, mas sempre teve aqueles que se sobressairam pela dimensão adquirida. Este foi o caso da garota Aida Curi. Lembro que as mães falavam nas salas, onde se reuniam por ainda não ter TVs, em voz baixa para as crianças não ouvirem sobre o horroroso crime. Eu fingia que brincava, mas tinha uma orelha cumprida, conseguia ouvir os cochichos dos mais velhos. Porisso não esqueci esta triste história. Outros crimes também tiveram repercussões nacionais, como a morte de Claudia Lessin, e de uma mulher da alta sociedade mineira assassinada por Doca Street, só para citar alguns casos. No entanto, a maioria dos crimes ficava circunscrita ao seu lugar de ocorrência.

Hoje, o mundo mudou com uma sociedade globalizada e os crimes mais banais entram a todo momento em nossas casas pelas TVs e internet, tudo em tempo real. O caso mais recente foi o de um marginal ao seqüestrar uma comerciante no Rio de Janeiro com uma granada nas mãos. As tristes imagens invadiram todas as casas, das mais humildes aos palacetes, e foram repetidas até à exaustão nos mais diversos horários. Os telespectadores, de todas as idades, ficaram à mercê do “belo” exemplo produzido por uma sociedade marcada por uma violência sem limites. Foi mais um espetáculo deprimente disseminando uma imagem da banalização da violência e de crimes.

Cansada de sofrer violências, as vezes até gratuitas, a sociedade tem aplaudido a política do “olho por olho”, o que demonstra descrença, infelizmente, na força das instituições sociais. É preciso estabelecer uma política dura de combate à criminalidade para defender uma sociedade indefesa. Fico a pensar onde este marginalzinho de meia tigela conseguiu uma granada? Onde está a tal política do desarmamento forçando as pessoas de bem a devolver as armas que tinham em suas casas? Com certeza, os marginais estão até hoje sorrindo e agradecendo esta medida que facilitou a sua “profissão” de roubar, de matar, e assustar a população brasileira.

O espetáculo televisivo mostrou que enquanto a polícia tentava negociar com o marginal para salvar a indefesa sequestrada, aglomerava-se ao redor uma assistência ávida para ver o desfecho daquele espetáculo.E ele veio de maneira surpreendente com um tiro certeiro na cabeça do seqüestrador disparado por um atirador de elite (sniper). Para uma platéia, querendo sangue, o resultado foi uma forte seqüência de aplausos. Isso tudo sendo mostrado ao vivo e a cores pela TV. Um triste exemplo para as famílias que se sentem acuadas em suas residências.

Sem medo de ser considerado politicamente incorreto, ouso a comentar que os aplausos vistos não se resumiram apenas aos expectadores próximos do marginal morto. Tenho escutado em rodas de amigos, das mais diversas camadas sociais, que a sociedade chegou ao seu limite, agredida em seus direitos pela impunidade crescente, predisposta a aplaudir o primeiro vingador da esquina.

É uma pena, mas não se pode esquecer que a barbárie mora ao nosso lado. Essa é uma sujeira que não pode ser varrida para debaixo do tapete, pois a qualquer momento ela aparece e cada vez pior.


Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 11 de outubro de 2009.

domingo, 4 de outubro de 2009

Começou em Campo Grande a corrida presidencial (*)

Domingo passado, aqui em Campo Grande, iniciou-se com uma concorrida reunião política como se dizia no passado, a campanha eleitoral para presidência da República com a presença do pré-candidato do PSB, Ciro Gomes. Além de filiados e simpatizantes, o que surpreendeu aos analistas de plantão foi a presença de um grande número de políticos de outros partidos, como presidentes de siglas partidárias, prefeitos, vereadores e o governador do estado, que é do PMDB, André Puccinelli. Porém, não marcaram presença neste evento os deputados estaduais, que perderam uma rara oportunidade de externar suas opiniões políticas.

O que motivou esta participação eclética para ouvir um pré-candidato de um pequeno partido com parcas estruturas estaduais? Em primeiro lugar por ainda não estar de forma consolidada as candidaturas para o pleito do ano que vem. Depois, por existir uma verdadeira areia movediça no caminho das coligações partidárias. Além disso, existe uma grande distância entre os interesses nacionais na montagem de coligações do que realmente acontece nos estados para superar as diferenças pessoais e partidárias locais.

Não é sem razão que Puccinelli fez um marcante discurso, realçando a parceria que a prefeitura de Campo Grande e o estado estabeleceu com o visitante quando foi ministro do governo Lula, que resultou em grandes investimentos na região. Grato por esta ajuda, Puccinelli disse ainda do seu interesse em apoiá-lo e acompanha-lo em sua caminhada rumo à presidência da república, realçando a coragem em ser um dissidente. Creio ter sido um recado, devido às embrulhadas regionais, sobre as dificuldades de apoiar a candidata do governo, Dilma Roussef, apesar de uma possível coligação PT-PMDB.

Para o deputado federal Ciro Gomes, o uso da tribuna demonstrou que é um candidato maduro, com um longo caminho político, desde muito jovem exercendo cargos parlamentares e executivos. A sua visibilidade está demonstrada na última pesquisa sobre candidatos à presidente da república em 2010, divulgada pela imprensa nacional, com alto índice de aprovação eleitoral, aparecendo em 2 cenários diferentes muito bem colocado: num deles em 2o lugar e no outro, em empate técnico com a pré-candidata do governo Lula..

Em seu discurso, demonstrou claramente o seu projeto político. Defendeu com seu apoio político o governo atual dizendo que melhorou a situação brasileira em todos os níveis, depois da tragédia do “desastre socioeconômico” por oito anos do governo da “turma de FHC”. Fez um alerta para que o eleitor não deixe “o Brasil andar para trás”, o que pode acontecer, segundo suas palavras, com José Serra ou Aécio Neves. Economista, com sólida formação acadêmica em nível nacional e internacional, Ciro recheou o seu discurso com informações econômicas, o que também demonstrou já estar formatando uma proposta de governo a ser apresentado à sociedade brasileira.

Mesmo assim, apesar de declaração de apoio ao atual governo, o espinhoso caminho da luta eleitoral poderá coloca-lo frente a frente com a candidata de Lula. Por outro lado, existe um suposto plano B de alça-lo como candidato oficial deste governo, caso se inviabilize eleitoralmente a atual ministra da Casa Civil. Mesmo com esta declaração de amor ao Lula, Ciro tem colocado que o seu projeto pretende avançar além do que alcançou o atual governo, com profundas reformas sócio-econômicas e políticas.

Este é apenas um difícil começo, que dependerá em última instância do eleitorado brasileiro e das propostas dos outros candidatos, que deverão passar por esta bela capital. De qualquer forma, Ciro Gomes é um grande tribuno, polêmico e brilhante, que poderá avançar muito na preferência dos eleitores caso tenha espaço na TV e na internet, está prometendo ser a grande novidade na propaganda política entre nós brasileiros.

Vamos esperar pra ver...

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 04 de outubro de 2009.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Qual é o preço de um prêmio de consolação? (*)

Depois de derrubar as pretensões de Campo Grande de ser uma das subsedes da Copa do Mundo de 2014, a CBF escolheu a cidade para sediar o jogo do Brasil com a Venezuela. Um premio de consolação... Este jogo é válido para a etapa das eliminatórias, apesar do Brasil já estar classificado. Parece o mesmo que dar um pirulito para acalmar os ânimos de um menino birrento. Mesmo assim, acredito que o Morenão poderá ficar repleto de torcedores.

Mas, pelo andar da carruagem nem tudo são flores, pois o velho estádio deverá passar por uma reforma emergencial, no mínimo uma maquiagem, por um custo orçado em R$ 660 mil. Quem vai pagar esta bagatela? Pelo que se sabe, haverá uma melhoria na iluminação, que atualmente é precária; na recuperação do gramado que, com suas falhas mais parece um queijo suíço; na reforma dos vestiários entre outros benefícios. Tudo isso para melhorar as condições de recepção da seleção de Dunga.

Mas esta festa tem um gosto amargo ao barrar a participação de torcedores pelo alto custo dos ingressos. Segundo o que está ventilando na imprensa, o ingresso mais barato, das duras e desconfortáveis arquibancadas, custará por volta de 100 reais, impedindo o trabalhador de levar a sua família ao espetáculo. Já as confortáveis cadeiras, em número de 5.000, custarão o dobro. O jeito será levar almofadinhas para aliviar o assento nas incômodas arquibancadas. Além disso, como já existem em alguns estádios, pretende-se também construir uma área vip, com ar condicionado, garçom e bebidas ao preço módico de 500 reais por pessoa. Será que a elite não quer sentir a vibração das arquibancadas, o calorzinho típico da nossa terra e o cheiro da plebe ignara, como dizia o mestre Nelson Rodrigues?

Até aqui, para quem tem dinheiro, tudo bem. Mas como chegar ao estádio? Sabe-se que não será permitido o estacionamento de carros no campus da UFMS e também em frente ao estádio, o que já vem acontecendo nos últimos jogos nacionais. Parece que a sugestão para se chegar ao estádio será a locomoção de ônibus até o Terminal Morenão e, depois, seguir a pé, ou chegar o mais próximo possível do estádio por ônibus. Acho que haverá uma bela confusão e mais um sacrifício para o torcedor. Também ouvi uma outra sugestão, de um tremendo gozador com certeza, da utilização de estacionamentos aos redores do Parque Laucidio Coelho, chegando ao estádio através da conexão com ônibus especiais. Parece mesmo uma piada de péssimo gosto, sem contar com o fato do incauto torcedor ficar à mercê de nada amistosos flanelinhas, como aconteceu recentemente com a Expogrande. A solução de todos esses problemas ainda não veio a público, apesar de faltar pouco tempo para a realização do jogo.

Tudo isso basta para se ter uma pálida demonstração das dificuldades que enfrentarão os organizadores deste evento esportivo. Enfim, apenas voluntarismo não é suficiente para encarar uma promoção deste nível. É preciso muito mais do que isso.

O certo é que sendo o futebol uma paixão popular, o que vai restar ao povão será ver a seleção brasileira pela TV. A festa emocionante será só para quem tem bala na agulha.

E, quem tem hoje um dinheirinho sobrando?

Vamos imaginar as contas:

Arquibancada de concreto: 100 reais.
Almofadinha para os glúteos: 15 reais.
Estacionamento: 10 reais.
Flanelinha que vai ficar te assediando: 5 reais.
Ônibus especial: 5 reais.
Ir ao estádio a pé: solas do tênis e pernas acabadas.
Copinho de água: 5 reais.
Latinha de cerveja: nem pensar....
Boné ou peruca verde/amarela: 10 reais.
Bandeira brasileira: melhor levar aquela desbotada da última Copa...

Ver a seleção do Dunga jogando aqui no Morenão: não tem preço?????


Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 27 de setembro de 2009.