quarta-feira, 26 de março de 2008

O rei chegou! Viva o rei! (*)

Dentre as brincadeiras de criança, dos idos de antigamente, quando se brincava nas ruas com “bolitas” e com figurinhas, muitas delas difíceis ou carimbadas, e disputadas com o “bafo” (jogo que consistia em virar figurinhas com a mão espalmada). Havia a pergunta: “qual é a cor do cavalo branco de Napoleão”? Para os espertinhos a resposta era fácil. Mas, na verdade, não era não. A resposta certa era preta, pois “branco” era o apelido do seu cavalo.
Folclore ou não, a referência infantil tornava presente uma das grandes figuras do fim do século XVIII e início do XIX na história européia. Era o corso Napoleão Bonaparte que assumiu com mão forte o governo francês depois da Revolução de 1789, e com seus exércitos pôs a correr os representantes da nobreza absolutista, permitindo o avanço dos interesses políticos da burguesia européia.
Bonaparte pressionava as velhas monarquias européias antes de invadir seus territórios, para que rompessem com o absolutismo e repassassem o poder à burguesia local. Foi o que aconteceu com Portugal, que desde séculos anteriores era aliado e dependente político da Inglaterra (ferrenha adversária da política expansionista francesa.), e, por isto, recebeu um ultimato de Napoleão para fechar seus portos aos ingleses ou seria retaliado com a invasão. O que Bonaparte desejava era estabelecer estrategicamente um bloqueio continental para impedir os ingleses de comercializar suas mercadorias e asfixiar seu crescimento in-dustrial.
Pressionado pela França e impossibilitado de contrariar sua forte aliada, a Inglaterra, D. João, que na época governava Portugal como príncipe regente no lugar de sua mãe, a rainha Dona Maria I (chamada injustamente de louca), viu-se obrigado a tomar uma decisão que mudaria os destinos da metrópole e de sua colônia, o Brasil. Aliás, D. João que era avesso a grandes decisões, tomou tais atitudes em virtude da pressão dos ingleses serem superiores às de Napoleão. Na verdade, a Inglaterra estava de olho na colônia portuguesa para escapar do bloqueio aos seus navios mercantes. Não foi à toa que a primeira medida após a chegada da família real portuguesa ao Brasil, devidamente escoltada por embarcações inglesas, foi decretar a abertura dos portos às nações amigas (leia-se aos ingleses). Dessa maneira, as bases do antigo sistema de monopólio de Portugal foram para o brejo.
Pois bem. Começou, então, uma corrida para o embarque nos navios aportados em Lisboa, já que D. João vacilou até o último momento para definir a sua estratégia de fuga (ops.!), diga-se, de transferência. Foi um desespero e uma total debandada. Bagagens, pratarias, até mobiliário e obras de arte, documentos e tudo o mais foi colocado de qualquer jeito nos navios, que estavam já entulhados de nobres, funcionários, apaniguados, além é claro, da família real. Muitos, deixados para trás, pulavam desesperados no mar e morreram afogados. O porto lisboeta era a imagem refletida do caos, em meio a baús abandonados e gente se lastimando da má sorte. Segundo a crônica da época, diante de todo aquele tumulto, a rainha, que parecia muito lúcida gritava, “não corram, pois pode parecer que estamos a fugir”.
Quando os navios zarparam já se ouvia o barulho dos canhões do comandante francês Junot, nas vizinhanças de Lisboa. Enquanto isso, muitos portugueses se organizaram para oferecer uma resistência. Entre eles, o cientista e professor José Bonifácio, mais tarde conhecido como o patriarca da independência do Brasil.
Apesar de planejar o desembarque no Rio de Janeiro, parte da comitiva real desgarrou-se da frota e aportou antes em Salvador. Somente em março de 1808, chegaram então ao Rio de Janeiro e, por isso, existe toda essa festa neste mês pela comemoração dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil. Com certeza, a viagem não foi uma festa. Pelo contrário, foi de dificuldades e atribulações.
Quando as mulheres embarcadas desceram em terra firme, usavam panos enrolados à cabeça. Isso bastou para que as mulheres da colônia, ávidas em copiar a moda européia e, em especial, da nobreza portuguesa, passaram também a usar os panos como turbantes à cabeça. A bizarrice dessa situação decorreu da precária higiene durante a viagem nos navios, que provocou um surto epidêmico de simplórios piolhos nas cabeças reais. Em vista disso, D. Maria I e as demais mulheres da realeza cobriram as suas cabeças na intenção de protegerem-se.
Ao chegarem ao Rio, foi preciso acomodar os novos e nobres moradores da colônia. Aí, deu no que deu. As melhores casas cariocas foram requisitadas compulsoriamente para agasalhar os privilegiados e novos “sem-tetos”. No início, os bajuladores de plantão (e de sempre) cederam honrados suas próprias moradias à nobreza portuguesa. Depois, caindo na real, chegaram à dolorosa conclusão que estavam, isso sim, passando por otários.
Ao tomar uma residência, D. João mandava colocar bem visível no imóvel as letras PR (Príncipe Real), como se fosse um privilégio (ilusório, é claro) aos proprietários. Para os espoliados e ressentidos, as letras significavam “Ponha-se na Rua” ou “Prédio Roubado”. Esta história do governo ser sócio dos contribuintes, como se viu, não é de hoje. Que o diga o dono da Quinta da Boa Vista, que se tornou palácio real e hoje é um dos principais museus do país. O dono da quinta foi pros quintos...
A família real trouxe consigo também os costumes europeus para o desfrute da fascinada colônia. Todos queriam aproximar-se dos nobres e testemunhar seus hábitos e requintes europeus”. Assim, nos mais distantes pontos da colônia foi despertada a curiosidade dos súbitos, levando os mais abonados a visitar a nova sede da monarquia portuguesa, instalada no Rio de Janeiro. As crônicas dos costumes de Cuiabá, por exemplo, relatavam a freqüência de viagens de cuiabanos ao Rio, para ver a nobreza, sentir-se perto dela e copiar na capitania, deslumbrados, as vestimentas e “trejeitos” da realeza lusitana.
Tantos despautérios e idiossincrasias provocavam na ralé miúda reações através do deboche e das piadas. E essa é uma das heranças da família real no Brasil do século XIX que até hoje caracteriza a capacidade do brasileiro de rir e brincar com suas próprias mazelas, até virar brincadeira de crianças.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 23 de março de 2008.

terça-feira, 25 de março de 2008

O Comandante Vive! (*)

Depois de 49 anos à frente do governo cubano, Fidel Castro, muito doente e debilitado, renunciou ao comando do governo. Este acontecimento tomou conta da imprensa nacional e internacional, motivando comentários, muitos passionais, sobre um dos grandes mitos do século XX. A partir de uma pequena ilha do Caribe, este líder incomodou (e ainda incomoda), os grandes líderes mundiais que, na disputa imperialista da “guerra fria”, separou o mundo em dois blocos de influência liderados pelos EUA e pela URSS.
Esta política insana só trouxe prejuízos aos povos do chamado Terceiro Mundo, subdesenvolvido, produzindo ditaduras, violência, mais pobreza e fome. Neste espectro, Cuba surgiu como um perigo aos interesses norte-americanos e um exemplo de idéias e práticas revolucionárias a ser coibido no plano internacional. Até então, nos anos 50, Cuba estava sob a ditadura brutal de Fulgencio Batista, paraíso de corrupção, jogatinas, prostitutas e mafiosos. Cuba, então submissa, era um quintal dos EUA, onde tudo era permitido, a ponto da máfia deslocar seus negócios de Las Vegas para a ilha, fugindo do cerco das leis americanas.
Em um primeiro momento, o movimento guerrilheiro, que entrou em Havana em 1959, contou com a simpatia em todas as partes, inclusive nos EUA. Para a política norte-americana, a ação revolucionária não mudaria a sua influência na ilha. Foi, com certeza, um erro de avaliação.
As primeiras medidas do novo governo assustaram e atingiram os bolsos dos capitalistas, dos banqueiros e mafiosos americanos que não imaginavam que ações revolucionárias viriam e que poderiam ser copiadas por outras nações periféricas, já num período de avanço de ditaduras de direita e reações guerrilheiras de esquerda. As medidas que se tornaram assustadoras foram o controle de tarifas de telefonia e de energia (em mãos de estrangeiros); cortes nos preços de aluguéis e de medicamentos; nacionalização de grandes fazendas de cana-de-açúcar e fumo. Porém, o que criou maior impasse foi a estatização de grandes empresas privadas, como as petrolíferas. Isso demonstrava que o governo de Fidel escapava do controle e das garras norte-americanas. Foi o fim do idílio e do namoro entre os dois governos.
Em setembro do ano seguinte (1960), Fidel pronunciou na Assembléia Geral da ONU um duro discurso contra o governo norte-americano. A resposta veio quase imediatamente, com um embargo comercial à ilha e no ano seguinte o rompimento das relações diplomáticas com Cuba (além da desastrada tentativa de invasão na baía dos Porcos por exilados cubanos treinados pelos próprios norte-americanos). Em fevereiro de 1962 os EUA praticam a mais impiedosa e cruel política asfixiante contra uma população independente: o embargo econômico total à ilha, o que levou o governo cubano a procurar o apoio do bloco socialista soviético.
A opção dos cubanos para superar as dificuldades impostas pelo embargo, foi um investimento maciço na educação, a partir da alfabetização, e na saúde, tornando-se referência mundial nessas áreas, inclusive exportando conhecimentos. Um exemplo disso foi a vinda do professor cubano Jose Sallas, que participou ativamente da revolução como soldado de comunicação e esteve em Campo Grande por duas temporadas com autorização do governo cubano. Sallas contribuiu em muito com a graduação e a pós-graduação primeiro na UFMS, e depois na UCDB. Faleceu em Campo Grande enquanto desenvolvia suas atividades acadêmicas.
Sallas enquanto vivo, manifestava sua grande preocupação com o futuro de Cuba e não se cansava de relatar as dificuldades da população com o embargo norte-americano; mas não desanimava e nem perdia o ânimo em defesa dos princípios revolucionários. Outros vieram ao Mato Grosso do Sul e em muitos outros estados brasileiros para transferir um conhecimento de ponta com base na experiência sofrida de desenvolvimento cubano, excluída do sistema capitalista.
A vida continuou e o povo cubano resistiu até hoje. O tempo e a história confirmam a liderança de Castro, por mais que critiquem seus opositores. Seu valor, seus acertos e desacertos se expressam nas reações que desperta: não há meio-termo, ou é amado ou odiado. Essa é a principal característica do mito, que supera a vida, a morte e a própria história.
A esperança é que com um novo governante renasça também a possibilidade de mudanças internas e externas na ilha, para que as conquistas inegáveis na educação, na saúde e nos esportes cubanos não sejam perdidas.
Valmir Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 16 de março de 2008.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Magistério é sacerdócio. Será? (*)

O crescimento sócio-econômico de um país está necessariamente ligado ao seu desenvolvimento educacional e tecnológico. Nesta perspectiva, uma boa qualidade de ensino básico e de investimentos na área da pesquisa básica e fundamental, com certeza, tira do estágio da ignorância e do atraso parcelas importantes da população. Tais premissas parecem ser óbvias, mas para os governantes nem sempre são compreensíveis. Isso porque as volumosas verbas exigidas para a sua manutenção, à primeira vista, parecem ser um desperdício frente a outros graves problemas enfrentados pela administração pública.
Neste país do “toma lá, da cá”, foi preciso estabelecer a obrigatoriedade de transfe-rências constitucionais de parcelas dos tributos arrecadados para a educação. Os gastos com educação, que seriam práticas usuais, nem sempre foram levados a sério. Para os governantes, o que se visualiza, infelizmente, é o alto volume de recursos despendidos com infraestrutura educacional e com a manutenção de professores e de funcionários administrativos. A obrigatoriedade desses gastos constitucionais tornou-se de fato uma arma fundamental para superar a falta de consciência dos políticos que controlam a máquina de governo em todos os níveis, de federal a municipal.
A história sempre registrou os conflitos e os descasos dos governantes com a educação. Na República Velha, por exemplo, os professores contratados pelo estado para o ensino das séries iniciais ficavam à mercê dos interesses dos coronéis e políticos ligados às administrações estaduais. Dependendo do humor dos políticos ou dos detentores de poder de plantão, os professores conservavam seus empregos ou não. Era comum encontrar em Mato Grosso “professorinhas” trabalhando a cada quatro anos, conforme a gangorra política dos governadores eleitos e dos compromissos com os seus “eleitores”. Isso sem contar com um irrisório salário sempre justificado pelo falso moralismo que entendia ser a missão de ensinar um “sacerdócio”, isto é, uma missão vocacional que exigia grandes sacrifícios e parca remuneração. Mesmo assim, por intermináveis anos, nos sertões do país, a chegada de uma professorinha numa cidadezinha provocava uma grande comoção social por representar uma oportunidade de casamento (visto como um grande “partido”) para os jovens sem emprego que ali viviam. A professora ganhava pouco, mas desfrutava de prestígio e crédito na comunidade.
Com o passar do tempo, nada mudou para os educadores, ou melhor, a situação piorou. Ainda é uma categoria que enfrenta baixos salários, condição de trabalho nada condizente com a sua importância na sociedade, convivendo com baixa estima e em muitos casos, com doenças crônicas e suicídios.Esta retrospectiva vem a propósito de mais um fato provocador de intranqüilidade que atingiu o magistério estadual no início deste ano letivo. São normas duras que provocam de um lado desemprego de professores convocados e, de outro, a aceleração de uma já preocupante evasão escolar.
A primeira situação, em nome de uma melhor equação dos gastos públicos, está na extinção de salas de aulas com número inferior a 25 alunos. Isto provoca de imediato um remanejamento dos alunos para outras salas de aulas ou escolas, independente do seu estágio educacional desenvolvido até aquele momento. E os professores, passam a “caçar” aulas em escolas distantes ou não, para completar sua carga horária (isso no caso de professores efetivos). E outros ficarão “a ver navios”.
A segunda situação de conflito é a possibilidade (em debate ainda) da ampliação e duração das aulas do período noturno, propondo o inicio às 18:30 hs. e terminando depois das 23:00 hs., esquecendo que aproximadamente 72% dos alunos trabalham durante o dia. Numa escola sem grandes atrativos, com certeza, a evasão escolar teria dimensões incalculáveis. Porém, o bom senso prevaleceu e a carga horária do período noturno continuará flexível, permitindo uma maior adequação da relação trabalho-escola-residência.
A questão fundamental é a qualidade do ensino, para transformar a escola em insti-tuição atrativa, e não os horários ou a aplicação de verbas. Técnicos e políticos adoram obras e tecnologia, especializando-se em construções de salas de aulas e compra de computadores. Mas tudo isso é inútil (e dinheiro jogado fora) se o professor não estiver devidamente preparado e aparelhado para cumprir o seu papel. Daí, é preciso com urgência rever as funções dos docentes da educação básica e, claro, valorizar este trabalho dignamente.
Nesta perspectiva é necessário transformar a escola em um espaço a ser defendido, valorizado e preservado pela comunidade, tornar-se edificante e dignificante para o professor (não é admissível que o professor vá à escola temeroso de sofrer uma violência) e, enfim, resgatar a função social do mestre prioritária para uma sociedade democrática e pluralista.
O que se espera é uma profunda revolução no sistema educacional, envolvendo professores, funcionários, alunos e comunidade. Porém, para tanto, é preciso ter coragem. E sem essa de sacerdócio.
Valmir Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 9 de março de 2008.

terça-feira, 4 de março de 2008

Pena de morte em Corumbá (*)

A década de 1920 foi marcada em todo o país por agitações políticas e revoltas militares. Assim, em 1922 ocorreu no Rio de Janeiro o levante militar no Forte de Copacabana, dando início ao movimento tenentista. Neste mesmo ano fundou-se o Partido Comunista. Dois anos depois, o general Isidoro Dias Lopes iniciou uma revolta militar em São Paulo, cujo rastilho propagou-se por vários estados. Era também uma reação aos políticos e ao governo de Arthur Bernardes, que só conseguiu governar o país sob estado de sítio.
No estado de Mato Grosso, o governador Pedro Celestino, do Partido Republicano Mato-Grossense, herdou do governador D. Aquino Corrêa um estado falido e em crise econômica.
O jornal “A Cidade” de Corumbá, de 01.11.1924 afirmava: “Estamos numa época negra. Tudo está rareando de tal forma que estamos no direito de nos manifestar um tremendo pessimismo pelos dias que virão. De modo como vai subindo o preço de todos os artigos, podemos dizer que o povo, amanhã, não poderá suportar as dificuldades da vida”. O funcionalismo estadual estava com oito meses de atraso em seus salários. Em Cuiabá, a Força Pública revoltou-se, sendo logo debelada pelo governo.
Em Corumbá, na madrugada de 27 de março de 1925 revoltaram-se os soldados do 17 BC, que tinham fortes ligações com o movimento tenentista. O sargento ajudante Aquino Pompeu de Barros (que depois virou nome de rua em Corumbá), de tradicional família cuiabana, juntamente com o cacerense sargento Alberto Granja lideraram a revolta no quartel. Com apoio de populares prenderam o seu comandante capitão Luiz de Oliveira Pinto, e ocuparam militarmente o correio e o telégrafo. Segundo o Boletim Diário n. 82, também publicado no jornal “A Cidade”, de 08.04.1925, participaram da liderança da revolta os sargentos João Leite de Figueiredo, Marcondes Fontes Esperidião Ferraz, Bertholdo de Souza Papa e o cabo Arlindo.
No entanto, os revolucionários não impuseram restrições aos direitos e liberdades dos corumbaenses. Até o próprio comandante preso ficou em liberdade dentro do quartel, o que lhe permitiu articular uma contra-revolta com apoio de amotinados arrependidos e prendendo os cabeças, inclusive os sargentos Aquino e Granja.
O levante deixou um saldo de quatro mortos e duas dezenas de feridos com combates não só no quartel como também nas ruas Frei Mariano e Antonio Maria.
Por outro lado, desmentindo boatos da adesão da marinha aos revoltosos, o monitor “Pernambuco” posicionou os seus canhões no porto da cidade contra os revoltosos. O primeiro ato do comandante Luiz de Oliveira Pinto foi mandar fuzilar os dois cabeças do levante. Instalou-se, assim, a pena de morte em Corumbá, executada no 17 BC. Segundo tradição oral, o primeiro pelotão de fuzilamento recusou-se a cumprir tal ordem. O segundo pelotão, comandado pelo sargento Antonio Pécora, cumpriu a ordem do comando e o sargento Aquino morreu fuzilado nas barrancas do rio Paraguai, ao lado do quartel. Já o sargento Granja num golpe de audácia, conseguiu escapar atirando-se no rio Paraguai.
Com relação à inusitada fuga do sargento Granja, circularam versões não oficiais que ele teria desaparecido após ficar escondido no pantanal, na fazenda Alegria. Contudo, evadiu-se para São Paulo, onde foi preso e depois deportado para o campo de concentração de Clevelândia, às margens do rio Oiapoque (Amapá).
Granja faleceu nos campos insalubres de Clevelândia entre 1925 e maio de 1926, junto também com outro militar do 17 BC, Nestor da Costa Magalhães. Também foram mandados para este mesmo campo de concentração os irmãos Ângelo Cuviglio Torre e Giuseppe Cuviglio Torre, italianos presos no hotel Colombo, de Corumbá, filhos do propri-etário do jornal “A Tribuna”. O sumário fuzilamento do sargento Aquino, sem qualquer julgamento, somente se explica pela grande liderança que exercia sobre seus comandados. Esta liderança militar, por certo, tornava-o um exemplo perigoso para a ordem estabelecida e precisava ser eliminado.
Por outro lado, o movimento de rebeldia, que se enquadrou dentro do movimento maior do tenentismo, colocou em lados opostos famílias e tradicionais laços de amizade na cidade. O tenente Arthur Xavier Sobrinho, por exemplo, que participou diretamente no combate aos revoltosos, era parente do próprio sargento Aquino. Além disso, os que mais sofreram foram as famílias dos militares envolvidos na revolta. Sem amparo, ficaram totalmente desprotegidas. Sem pensão ou qualquer outra remuneração, a família do sargento Aquino, que deixou filhos pequenos, passou grandes privações nessa época. Já o sargento Marcondes Fontes da Costa e Silva, como outros militares, preferiu emigrar para a Bolívia onde constituiu família.
Bem mais tarde, com a anistia, muitos militares foram reincorporados ao exército, inclusive sendo promovidos, como o caso do sargento Marcondes. Assim, a viúva do sargento Aquino passou a receber uma pensão referente a patente de capitão.
Por ironia do destino, descendentes dos envolvidos neste episódio histórico encon-traram-se décadas depois numa situação traumática e adversa. O neto de um dos comandantes da repressão, já oficial do exército, veio até Corumbá fazer uma inspeção no 17 BC, onde morreu com a explosão de uma granada. Alunos do Colégio Santa Tereza foram convidados para formar uma guarda de honra no velório e, entre eles, encontrava-se um bisneto do sargento Aquino.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br), de Campo Grande (MS), em 2 de março de 2008.