Parece que o calvário que resultou no atual estagio de degradação do rio Taquari e seus arredores não terminou e muito menos serviu de alerta à convivência das atuais gerações com o ecossistema pantaneiro. Na histórica ocupação luso-brasileira da região dos pantanais mato-grossenses (refiro-me à época da existência de indígenas nesse mesmo espaço geográfico, antes da conquista européia), o rio Taquari já tinha um papel fundamental como via de comunicação e transportes.
Porém, o Taquari que por natureza é um rio de delta espraiado, não resistiu à secular agressão dos homens e o resultado todos nós estamos assistindo. No século XIX, um presidente da província de Mato Grosso já se preocupava com o assoreamento deste rio e alertava para os entraves da navegação naquela época, vital para a sobrevivência de todos os seus habitantes. Hoje, não é muito diferente, apenas piorou a sua situação.
Pobre Taquari, nos últimos tempos esteve à mercê de projetos mirabolantes que não saem do papel e de verbas que nunca chegam. Mas, já está se desenhando um “projetão” em 2009 para salvar o Taquari na ordem de R$ 54 milhões. Será que desta vez vai?
De fato, um projeto de tal envergadura, para reverter o processo de degradação da região, requer como contrapartida uma parceria e um comprometimento de toda a população sul-mato-grossense. Ou seja, o renascer do Taquari deve ser uma questão de honra para todos nós. Porém, é triste constatar que esta esperança não se confirma no dia-a-dia. Parece até que a questão da sobrevivência do Taquari é algo muito distante e que não nos diz respeito. Diz sim, e não pode ser tratado como uma questão isolada.
O primeiro passo é o governo estadual desenvolver uma política pública prioritária, com uma maciça divulgação sobre a necessária recuperação e preservação do Taquari e seu entorno, entre seu próprio corpo administrativo. Depois, estende-la à sociedade organizada, como associações e sindicatos, clubes de serviços e entidades religiosas. E, finalmente, transformar a questão em matéria obrigatória de discussões, estudos e trabalhos escolares. Somente as novas gerações, marcadamente crianças e adolescentes estudantes, desenvolverão uma nova atitude diante do problema, com consciência política, manifestações de cidadania e, em especial, com a possibilidade de viver um novo tempo de valorização e preservação do meio ambiente, ou do que vai sobrar dele.
Não me refiro à atitude xenófoba que defende o meio ambiente de modo intransigente e intolerante, excluindo a presença humana. A solução viável é a convivência possível do homem com a natureza e a interação harmoniosa de ambos, respeitados os dois lados desta mesma cadeia de vida. A ciência e a tecnologia que o homem desenvolveu até agora pode e deve ser o elemento transformador que torne realidade a preservação dos recursos naturais. É o que se chama de desenvolvimento sustentável. Aí, sem dúvida, a questão do Taquari deixa de ser uma questão localizada e passa a ser um problema de todos os brasileiros, em todos estágios, do regional ao nacional.
Mas, infelizmente, parece que a tragédia exemplar do rio Taquari não serviu ainda para conter a sanha dos gananciosos. Outros rios da bacia do Paraguai também estão sujeitos ao mesmo risco e encontram-se hoje no limiar do enfrentamento com a irreversível degradação ambiental.
Recentemente, o jornalista Silvio Andrade publicou uma assustadora reportagem sobre o perigo que enfrenta o rio Miranda e o seu já atual estágio de degradação (Correio do Estado, 14.12.2008). Pobre rio Miranda, apesar desta impactante reportagem, parece que o problema passou de forma despercebida. Nenhuma repercussão se viu até agora, nenhuma manifestação do poder público sobre o assunto, seja para contestar ou para tomar alguma providência.
De fato, é a demonstração, mais uma vez, da ausência de uma política consistente de preservação ambiental, pois o que está ocorrendo com o Miranda não é novidade, é fato recorrente em várias partes do país. Parece que o jornalista registrou fatos comuns e repetitivos ocorridos em todas as regiões em processo de ocupação desenfreada: assoreamento incontrolável dos rios, no caso o Miranda, a extinção de suas matas ciliares para a implantação da pecuária e atividades turísticas, provocando a consequente ocupação desordenada de suas margens e trazendo como parceria maléfica a contaminação das suas águas (acrescido, mais recentemente pela implantação da cultura de arroz irrigado). Cabe ao poder público uma resposta imediata ao alerta de Silvio Andrade com uma fiscalização rigorosa e também, é óbvio, com uma ação de orientação educacional. Caso contrário se verá uma triste reedição do drama interminável do velho Taquari.
Contudo ainda está em tempo de evitar o pior. Basta querer.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 18 de janeiro de 2009.
Nenhum comentário:
Postar um comentário