domingo, 9 de maio de 2010

O roubo de um tesouro (*)

Como em diversos outros lugares do planeta, está cada vez mais explicita a roubalheira neste país. Dizem até que a ladroagem brasileira é uma antiga e triste herança colonial deixada pelos colonizadores portugueses. Talvez, por isso, exista no Brasil bem enraizada a promiscuidade entre o público e o privado. Ou, numa linguagem popular, é o particular, político ou “civil”, passando a mão no dinheiro público, aquele sofridamente pago pelo suor nosso em forma de impostos. Isso ficou tão banal que político que rouba o erário público é tido como esperto e goza de declarada impunidade. Basta ligar a televisão ou ler um jornal, e ser inundado por esta podridão.

Agora, a ladroagem atingiu o grau máximo de “caradurismo”. Isso mesmo. Não é que um grupo de 5 homens armados invadiu uma distribuidora e roubou um lote de 135 mil figurinhas da Copa do Mundo de Futebol, distribuídas em 135 caixas. Parece uma piada. Até o delegado que atendeu essa ocorrência inusitada também achou. No entanto, para colecionadores trata-se, com toda a certeza, de um verdadeiro tesouro. A confusão ocorreu no município de Santo André, na Grande São Paulo e parte das figurinhas já foram recuperadas em uma favela da região .

Essas figurinhas têm provocado uma verdadeira febre nos colecionadores da 1ª, 2ª e 3ª idades e em todas partes do país. Refiro-me às figurinhas do Álbum oficial da Copa do Mundo 2010, produzidas pela editora multinacional Panini e que detém o monopólio mundial desse comércio.

Na copa de 2006, estava eu em Toronto, no Canadá, e entrei numa loja especializada em venda de cards e lá estavam elas, imponentes, as figurinhas das seleções de futebol e seus álbuns. Segundo o vendedor, era o grande sucesso do momento entre os canadenses. Ao retornar ao Brasil, em São Paulo, presenciei o meu sobrinho colando as referidas figurinhas em um álbum que, para a minha surpresa, era idêntico ao que vi no Canadá. Depois, chegando a Campo Grande, vi o “dito cujo” sendo vendido na minha banca predileta, onde compro diariamente os meus jornais.

Fico a pensar com meus botões: este é um negócio de bilhões de dólares, pois é um truste que envolve o mundo inteiro. É a mina de ouro controlada pela editora Panini, que começou a circular na copa do mundo de 1970 e é sempre um tremendo sucesso, a cada campeonato mundial..

O interessante é que os colecionadores de hoje não são somente crianças e estudantes do ensino fundamental. São empresários, universitários, donas de casa, aposentados, enfim pessoas de todas as idades e condições sociais, que não precisam usar as velhas desculpas esfarrapadas de que estão adquirindo os pacotinhos para filhos ou netos. Também o sistema de trocas de figurinhas repetidas ampliou-se com o avanço tecnológico. Assim, através de ferramentas na internet como Twitter e Orkut, marmanjos internautas estão trocando figurinhas e completando seus albuns. São os novos tempos.

Creio que esse revival deve-se ao fato de que albuns de figurinhas são fascinantes e tem gosto de infância e de fantasia de tempos passados. Minha geração, com certeza, está se divertindo muito com a febre das figurinhas de jogadores que tomou conta do país e provocou até mesmo golpes extraordinários como o roubo em Santo André.

Eu ainda me lembro com saudade de um jogo de virar figurinhas batendo com a mão sobre elas, a famosa bafinha. E foi com surpresa que soube que em escolas e próximo das bancas de jornais, que promovem as trocas, tem crianças jogando bafinha.

Que saudade...

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 09 de maio de 2010.

domingo, 2 de maio de 2010

Era uma vez um sonho... (*)

Segundo o querido poeta Manuel de Barros, Corumbá é o lugar onde as coisas desacontecem. Penso nisso quando, novamente, ressurge a discussão da implantação de uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE) nessa região. Esta questão é historicamente recorrente e aparece sempre em momentos de crise econômica na cidade. Aliás, essa idéia salvadora não é uma novidade recente na história corumbaense.

Existem informações de que algo parecido já era sonho dos corumbaenses no ano de 1932. É claro que não eram idéias tão avançadas e modernas como as propostas e as facilidades econômicas que envolvem uma ZPE hoje.

Naquela época pensava-se que a tábua de salvação de Corumbá era a criação de um “Porto Livre”. É evidente que esta idéia não frutificou, mas permaneceu latente como um desejo precioso a ser realizado.

Em 1967, este sonho voltou a ser revisto pela sociedade corumbaense, como registrava o jornal corumbaense O Momento, de 21.09.1967. Entre as idéias citadas pelo jornal estava a esperança na ligação terrestre de Corumbá com o resto do país, cortando o Pantanal.

Ainda segundo o mesmo jornal, com a implantação do porto livre viria ainda, além dos benefícios trazidos pela estrada, a construção de uma refinaria de petróleo com o óleo trazido da Bolívia; a implantação da Companhia Siderúrgica Mato-Grossense (Cosima), para a utilização da montanha de minério (manganês e ferro), infelizmente hoje extraída e vendida a tonelada por um preço aviltantemente menor que uma dúzia de bananas; e, é obvio, a implantação de outras indústrias. Como a história registra amargamente, nada disso aconteceu.

Faço a ressalva de que, em 1970, no governo de Pedro Pedrossian, foi inaugurada a estrada da Integração, passando pelo Porto da Manga, onde o rio Paraguai era atravessado por uma vagarosa balsa. Passei pela primeira vez nesta malfadada balsa em 1971, quando iniciei a minha carreira docente em Corumbá, na antiga Universidade Estadual de Mato Grosso. Por diversas vezes, cruzei essa poeirenta estrada da Integração em velhos ônibus da Empresa Mato Grosso. Era uma verdadeira odisséia.

Para efeito de registro histórico curioso, quando cheguei em Corumbá, fiquei sabendo, para o meu espanto, que um grupo de corumbaenses (seria mesmo?) tinha feito um abaixo-assinado para que essa estrada não fosse construída, sob a alegação de que a cidade ficaria vulnerável aos bandidos e aventureiros. Teria sido um posicionamento de um grupo que desejava impedir a vinda de concorrentes aos melhores empregos públicos criados na cidade, como se possível fosse manter uma “reserva de mercado”, no linguajar de alguns docentes do antigo Centro Pedagógico de Corumbá-UEMT (hoje UFMS).

Segundo esses “conservadores”, era preciso defender os direitos e status da “prata da casa” para impedir que novos “paus rodados” (aqueles que vinham de fora) ocupassem esses postos, sobretudo os de nível federal, melhor remunerados. A bem da verdade, havia quem temesse perder o controle da cidade e o monopólio de cargos e empregos considerados mais nobres e pré-requisito do poder local.

Nos anos de 1990, em pleno governo Collor, o então deputado federal corumbaense Elisio Curso tirou aquelas idéias de 1932 e 1967 do armário, agora com uma nova roupagem, mais moderna, e o pomposo nome de Zona de Processamento de Exportação. Foi uma bandeira sem sucesso, muitas vezes ridicularizada pelos próprios corumbaenses. Mesmo assim, a idéia teimosamente continuou a persistir. Em 1993, por decreto do governo de Itamar Franco, foi criada a ZPE, mas ainda dependendo de leis complementares e regulamentadoras.

E, assim, a coisa continua se arrastando. Em 2007, foi então aprovada a ZPE, com emendas, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Vocês pensam que este calvário terminou? Os jornais estão noticiando que Bataguassu poderá ser a primeira cidade de Mato Grosso do Sul a ter uma ZPE em vista dos processos de Ponta Porã e de Corumbá arrastarem-se nos escaninhos do Planalto e não terem sido analisados.

Como dizem os mais crédulos, parece que existe uma caveira de burro enterrada nesses lugares. Vade retro!

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 02 de maio de 2010.