segunda-feira, 21 de setembro de 2009

"Brasil já vai a guerra" (*)

O ano de 1956 foi uma nova fase da história brasileira com a política desenvolvimentista do governo Juscelino Kubitschek. Superando a etapa tumultuada da era Vargas, JK propôs para o seu governo um programa de metas concentrado em cinco itens: energia, transportes, alimentos, indústrias de base e educação. O que marcou seu governo, de fato, foi a opção dos investimentos na área da indústria automobilística e na construção da capital, Brasília. A partir de então, o Brasil nunca foi mais o mesmo. Viveu-se uma época de muita euforia, onde muita gente ficou rica, especialmente quem se envolveu com a construção da nova capital.

Ainda nesse ano, o governo adquiriu da Inglaterra um navio porta-aviões, encostado desde a 2a. Guerra Mundial e que era na realidade uma sucata reformada pouco usada pelo seu alto custo operacional. Este verdadeiro “elegante branco” motivou uma avalanche de protestos e, ao mesmo tempo, provocou ondas de chacotas pela pretensão das autoridades civis e militares do país. No ano seguinte, o hilário menestrel Juca Chaves, atingiu o máximo do deboche em relação ao velhusco porta-aviões com a música “Brasil já vai a guerra”. A música, que não levou o belicismo tupiniquim a sério, começava assim “Brasil já vai a guerra, comprou porta-aviões, um viva para a Inglaterra de 82 bilhões, oh! mas que ladrões. Quem viveu aquela época, com certeza, nunca esqueceu esta gozação.

No governo Fernando Henrique também foi comprado um porta-aviões da mesma velha França, empurrado aos brasileiros pelo seu alto custo operacional. Por sua vez, os alemães também empurraram um submarino, cuja revisão custava quase o preço de um outro submarino. Tudo isso com a promessa de transferência de tecnologia, nunca concretizada, deixando os brasileiros com cara de otários.

Reforço com essas histórias caricatas que a corrida bélica, por ser perigosa, não é assunto para brincadeiras. E o que está acontecendo hoje precisa ser encarado com muita seriedade. Mesmo que muita gente não queira enxergar, os países da América Latina estão se armando para a alegria das indústrias bélicas dos países capitalistas. Por muitas décadas, esses mesmos países se locupletaram, e continuam se lambuzando, fomentando guerras e revoluções em países miseráveis da África e da Ásia. E o que é pior, ainda continuam.

Países como Venezuela, Colômbia, Bolívia, Argentina, para citar apenas alguns, elegeram nos últimos tempos como prioridade a compra de armamentos, apesar da miséria de suas populações. Com certeza não é uma política pacifista que está em jogo. Agora, chegou a vez do Brasil também entrar nesse mercado bilionário, é óbvio, para os outros.

Esse pacote de compras em proposta pelo governo brasileiro pode chegar à pequena cifra de 22,5 a 31 bilhões de reais, correspondendo a 36 caças de combate, 50 helicópteros e 4 submarinos e, ainda, a construção de uma base, de um estaleiro e de um submarino de propulsão nuclear. Segundo o governo, a França, possivelmente a escolhida, passaria toda a tecnologia desses produtos bélicos para o Brasil.

Será mesmo? É claro que levar a sério esta fantasia é o mesmo que acreditar em Papai Noel. Qualquer inocente percebe que nenhum país entregaria uma tecnologia de ponta, com anos de pesquisas, o verdadeiro “pulo do gato”, para um país estrangeiro. O mais grave, é que a preferência brasileira está no caça francês que nenhum país ainda comprou, além de ser o mais caro do mundo.

É uma polêmica e tanto para um país como o Brasil, que ainda tem problemas graves em sua estrutura sócio-econômica. A compra deste entulho militarista pode demonstrar que está sobrando muito dinheiro. Aliás, é o que está fazendo este governo em sua política internacional, investindo (ou melhor, dando) dinheiro nos países sem perspectiva de retorno.

É o caso de perguntar: está tão fácil a vida por aqui? Então por que a proposta de taxar a poupança e recriar a mal fadada CPMF? Muita água ainda vai correr embaixo da ponte até alguém responder a estas questões.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 20 de setembro de 2009.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Um circo sem pão (*)

Nos tempos do Império Romano, para compensar a miséria e a exploração de sua população, foi construído o Coliseu, teatro que dava diversão e alienação aos romanos. Nessa época foi cunhada a frase “pão e circo”, como fórmula para controlar a diversidade de povos sob o domínio do império. Os espetáculos eram promovidos por lutas de gladiadores, escravos preparados para lutar e morrer, para o divertimento da turba ensandecida. Depois foi a vez dos cristãos serem comidos por leões, novamente para o prazer de pessoas ávidas por violência e sangue.

Muito tempo depois, na época da Revolução Francesa, o populacho enraivecido pela fome e pela miséria, provocado pelo luxo de uma nobreza inconseqüente e exploradora, rompeu o medo e mudou a história da humanidade. Em resposta aos que gritavam de dor pela fome, Maria Antonieta, a jovem e bela rainha francesa, aquela que perdeu a cabeça na guilhotina, cunhou com desdém a frase, “Quem não tem pão que coma brioches” (segundo o Aurélio, “pãozinho muito fofo, feito de farinha de trigo, fermento, manteiga, sal e ovos”). Se as frases foram de fato verdadeiras, ninguém sabe com certeza. Porém, vale a versão.

Faço essas reflexões históricas (reconheço, meio amalucadas), ao ler uma notícia divulgada pela imprensa local, sobre um jogo da seleção brasileira aqui no Morenão. Foi divulgado pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira, aquele mesmo que deu uma rasteira em Campo Grande que pleiteava ser subsede da Copa do Mundo de 2014. Será um confronto entre o Brasil, já classificado, contra a Venezuela, último jogo do calendário das Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo de 2010. Penso ser uma passada de mão na cabeça dos sul-mato-grossenses para compensar o menosprezo com que foi tratada a nossa capital. É claro que muita gente vai cantar e dançar de felicidade ao assistir o espetáculo da seleção brasileira no Morenão. Mas, nada vai mudar a situação de constrangimento que passou a população do estado. Nem mesmo o sorriso irônico de Ricardo Teixeira, há muito controlando com mão-de-ferro a CBF, além do fato de ter entre seus méritos o fato de ser genro do todo poderoso João Havelange.

No fundo eu preferia que Campo Grande fosse escolhida como subsede da Copa do Mundo, mesmo que tivesse de assistir jogos de timinhos da África ou da Ásia. Isso por uma razão muito simples, isto é, pelos altos investimentos que, a pretexto de melhorar a estrutura esportiva, espalhariam também na estrutura hoteleira, na infraestrutura de transporte para corrigir o caótico trânsito da cidade, em melhorias na saúde e na educação e, por aí afora. Com certeza, tais perspectivas permitiriam um grande salto de qualidade de vida da região. Como os estados digladiaram-se por este espólio, Mato Grosso do Sul ficou com as migalhas. Ou melhor, um joguinho só que não provocará mudança nenhuma.

Vi também dirigentes esportivos locais anunciando melhorias que farão no Morenão, como mais cadeiras e lugares numerados nas gerais, na iluminação, nos vestiários e no gramado. Já vi tudo: será mais uma justificativa para aumentar os preços dos ingressos. Mas, o mais importante até agora ninguém falou. São as medidas urgentes para garantir a segurança dos torcedores. Cito como exemplo o jogo entre o Corinthians e o Misto de Três Lagoas. Ao chegar ao lado do estádio, os estacionamentos de carros estavam interditados, ficando todos à mercê de ameaçadores guardadores de carros. Irá acontecer a mesma coisa?

Depois, a irresponsabilidade continuou com a abertura de só um portão de entrada das gerais, onde se concentra o maior número de assistentes. Tal desmando provocou filas quilométricas, testando a tolerância de mais de uma hora de espera, sem contar a incontrolável ação dos espertos fura-filas. Fico a perguntar por que os dirigentes do Morenão não abriram outros portões para facilitar a entrada dos torcedores? No entanto o mais grave ficou na saída após o término da partida. Por uma irresponsabilidade criminosa, apenas um portão ficou aberto, obrigando os que saíam das gerais a andar em um corredor apertado e escuro. O resultado seria uma tragédia sem tamanho se houvesse apenas um princípio de tumulto.

Não quero trazer mau agouro neste espetáculo esportivo, mas até mesmo o “pão e o circo” merecem respeito.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 13 de setembro de 2009.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Uma pesquisa em busca do óbvio (*)

As pesquisas de opinião e seus resultados são instrumentos imprescindíveis para decisões importantes a serem tomadas em todos os campos da sociedade. Em qualquer disputa eleitoral, são as pesquisas que norteiam as estratégias das campanhas dos políticos. Os governos federal, estaduais e municipais não conseguem caminhar sem acompanhar os humores, aprovações ou reprovações da população. Mesmo acontecendo denúncias de manipulação das pesquisas por espertalhões, elas estão presentes a todo o momento no nosso cotidiano.

Por isso, pareceu uma notícia agradável e necessária a contratação feita pela Secretaria Estadual de Educação de uma empresa para avaliar o desempenho educacional dos estudantes sul-mato-grossenses. A um custo de R$ 1,03 milhão, a pesquisa pretende diagnosticar o estágio educacional de 63,6 mil alunos em várias faixas: 3o ano do ensino fundamental, 1o ano do ensino médio e 1a fase da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Segundo a assessoria do Governo do Estado, a pesquisa pretende traçar um perfil do aluno, mostrando as deficiências e as melhorias necessárias para corrigi-las. A feliz empresa que venceu a licitação, “Avalia Qualidade Educacional Ltda.”, que receberá R$ 16,28 por aluno, deverá aplicar provas de língua portuguesa e de matemática no próximo mês de novembro e será responsável pela elaboração, fiscalização e correção dos testes.

Até agora apenas vi críticas do presidente da Federação dos Trabalhadores em Educação de MS, professor Jaime Teixeira, afirmando em síntese que este dinheiro gasto com uma empresa poderia ser aplicado aqui mesmo, com docentes e técnicos do próprio Estado, que possuem capacitação suficiente e à altura para desempenhar tal tarefa. Portanto, um desperdício de dinheiro público e, de certa forma, um desprestígio para os que aqui “ralam” no dia-a-dia das escolas estaduais. Também alerta sobre a falta de investimentos, recuperação, material didático que poderiam ser contornados com esta vultuosa verba.

Compreendo as preocupações e as desesperanças deste dirigente sindical. Porém, gostaria de fazer uma reflexão sobre o assunto e caminhar em outra direção. Partindo do princípio de que o aluno está no ponto final de uma longa cadeia educacional, já existem dados e indicadores suficientes para analisar como os alunos estão saindo dessas etapas. Sem desmerecer a pesquisa, muito provavelmente o resultado será o óbvio sabido e comprovado. Creio que o mais sensato seria a realização de pesquisas nos outros vários estágios da educação, contabilizando seus efeitos para uma melhor preparação do aluno.

Os primeiros passos para uma verdadeira revolução na educação e na sociedade sul-mato-grossense devem começar por uma ampla pesquisa no tripé família-escola-professores. A pesquisa nas famílias que têm filhos na rede estadual poderia detectar problemas, salários e desempregos, arrimos de família, interferência social do estado, relações e incompatibilidades entre pais e filhos, violência, drogas, responsabilidade dos pais perante a escola e, finalmente, a concepção de cidadania no viver da família. Os indicadores extraídos desta pesquisa inovadora poderiam ajudar a compreender a família em sua essência e como melhorar suas relações com a escola.

No caso da escola, não se deve somente objetivar na pesquisa questões materiais, computadores, etc. Isso é importante, mas não é objetivo fim da escola. A pesquisa deve ser mais ampla, sobretudo detectar o que a família espera dela (não a visão equivocada de substituir a função e a responsabilidade que cabe ao núcleo familiar), na sua transformação em um centro social de alternativas de lazer, trabalhos comunitários, cursos de crescimento social e de qualidade de vida. Enfim, transformar a escola em uma instituição da qual a família possa se orgulhar, conservar e preservar.

Agora, me parece fundamental, é fazer uma pesquisa com os professores, verdadeiros esteios de uma boa e profunda educação. Não acredito que o problema seja apenas salarial. Uma pesquisa que com certeza indicará seus desejos, sonhos, aspirações, frustrações e os quesitos necessários para a valorização e o resgate do orgulho de “ser professor”. Tais pesquisas poderão mostrar o que é preciso modificar para chegar, no final da cadeia, à uma educação de qualidade e de valorização da cidadania.

Caso contrário, sei não...

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 06 de setembro de 2009.