Passou o furacão das olimpíadas e os resultados foram nada animadores para os brasileiros. Poucas medalhas, mas revestidas de galhardia, despojamento e muita coragem. Mesmo com as decepções de praxe, os brasileiros receberam (e deviam mesmo) esses jovens, com medalhas ou não, como verdadeiros heróis que honraram e dignificaram a camisa verde-amarela. Mas isso tudo traz uma necessária lição de realidade às nossas autoridades que devem encarar com muita seriedade e planejamento a preparação esportiva da juventude brasileira.
Em primeiro lugar, exagerou-se nas comemorações dos honrosos resultados dos jogos pan-americanos, sobretudo, criando uma falsa imagem de superioridade de nossos atletas, onde não participaram estrelas esportivas de primeira grandeza das
Américas. Isso sem listar os “fenômenos” esportivos de outras partes do mundo. Além do mais, e de um modo geral, o brilhantismo da nossa participação em Pequim não foi um conseqüente resultado de planejamento público de longo prazo, mas da superação motivada pelo voluntarismo e o individualismo de poucos. Recuso-me a comentar neste quadro o vexame da seleção masculina de futebol, da mediocridade de seus dirigentes e da apatia dos jogadores “estrangeiros”, que muito vem envergonhando o “futebol arte” brasileiro.
Agora está na hora do Comitê Olímpico Brasileiro dar uma satisfação aos brasileiros sobre o que aconteceu com a preparação dos nossos atletas que resultou em grandes vexames e perdas inesperadas. O primeiro ponto, diga-se de passagem, não faltou dinheiro público. Para se ter uma pálida idéia, por dados oficiais, cada uma das 13 medalhas conquistadas custou aos cofres públicos a cifra estratosférica de 50,4 milhões de reais, observando a não computação nesta cifra das duas seleções de futebol que não recebem dinheiro público. É preciso também saber como o COB distribuiu esta dinheirama toda às entidades esportivas, que também devem explicações públicas, transferidas de loterias, empresas estatais, Fundo de Incentivo Fiscal, Ministério dos Esportes, entre outras fontes. O que é pior, tremo até em pensar na existência de dinheiro não contabilizado. Mas isto é outra história. A verdade nua e crua é que houve uma grave distorção nesta distribuição, privilegiando mais umas entidades do que outras. Sobre isso, pouca coisa “vazou” na imprensa. Sabe-se que um lutador de judô não tinha sequer dinheiro para comprar a sua faixa preta, necessária à sua participação nas olimpíadas. Aí vem uma pergunta incômoda, como era a sua alimentação e preparação? Outra teve até que rifar uma bicicleta para arrecadar fundos. Pode? Para não ser inconveniente, cito apenas mais um exemplo: “vela”, um dos esportes com mais premiações olímpicas sequer teve patrocínio.
Nesse evento global esportivo ficou patente o compromisso da China com os esportes, com um espetáculo cinematográfico, uma “enxurrada” de medalhas de ouro, com um investimento bilionário, em especial na preparação de seus atletas. E o Brasil ainda tem a pretensão de sediar a olimpíada de 2016. É preciso acordar e sentar na realidade.
A saída tem que estar numa preparação a longo prazo da nossa juventude, ou seja, um urgente e necessário projeto social para as novas gerações, com preparação atlética, cultura, inclusão social e cidadania. O resultado será a construção de um atleta competitivo. O investimento, com certeza de grande vulto, não deve preparar somente atletas, pois segundo pesquisa recente, numa preparação de um atleta olímpico, numa geração de 2000 jovens envolvidos, somente um consegue chegar ao topo de uma competição. É isso mesmo, pois este deve ser o papel de um país comprometido com a sua juventude, ou seja, com a desejada inclusão social.
O país precisa acordar e aplicar melhor o dinheiro público.
Para encerrar, cito o exemplo de Mato Grosso do Sul e dos Jogos Estudantis Estaduais. Nesses jogos, em todas as categorias, envolvem-se duas categorias, infantis e juvenis, quando os alunos atingem aproximadamente 16 anos. E depois? Nada.
Isso mesmo, nada. Como estimular a continuidade esportiva desses jovens?
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 31 de agosto de 2008.
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