Voltou com força total a proposta do estabelecimento da igualdade do fuso horário de Mato Grosso do Sul com Brasília. Esta proposta é antiga e sempre foi descartada e até ridicularizada por argumentos econômicos. Parlamentares que encamparam esta proposta sofreram amargas críticas, ficaram isolados e sem base de apoio. Entendo que esta proposta de mudança era de difícil sustentação quando o sul pertencia ao extenso Mato Grosso unido.
Agora esta perspectiva geográfica modificou-se e muito. Porém, com a criação do estado perdeu-se, naquele momento, a grande oportunidade para também se discutir e definir o fuso horário do novo estado. Era uma época de grandes mudanças. Tudo era possível.
Agora, quem pode decidir a questão são os próprios interessados, ou seja, os sul-mato-grossenses, através da proposta de plebiscito apresentada pelo senador Valter Pereira.
O primeiro passo já foi dado pelo Senado Federal. Em reunião recente da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, foi aprovado um projeto de Decreto Legislativo, no 55/2008, que estabeleceu a realização de um plebiscito em que a população decidirá, por maioria simples, se a gente sul-mato-grossense deseja ou não essa mudança. Pode ser que se aproveite as eleições municipais para também realizar a referida eleição plebiscitária. No entanto, o risco é deslocar a discussão sobre necessidades e problemas municipais (o que é muito importante neste momento), para a escolha do melhor horário para a região. È óbvio que muitos políticos-candidatos gostariam que efetivamente isso acontecesse. Seria a “salvação da lavoura” para os maus políticos, que se agarram como podem aos cargos públicos.
O relator da matéria, o senador sergipano Antônio Carlos Valadares (do velho PSB), favorável ao plebiscito, defendeu a consulta através do voto popular como a forma mais democrática e legítima para uma escolha que mudará, sem dúvida, a vida e o dia-a-dia de toda uma população, no caso, de Mato Grosso do Sul. É de se esperar que toda a sociedade sul-mato-grossense, a dita sociedade civil organizada (expressão que não quer dizer nada), passa a envolver-se nesta ampla e necessária discussão. O assunto já se encontra no seio da Federação das Indústrias de Mato Grosso de Sul, em vista de seus filiados sofrerem prejuízos econômicos com os desencontros de horários com outras regiões, em especial, o estado de São Paulo.
A polêmica já está posta, evidentemente, com prós e contras, apesar da população sul-mato-grossense vivenciar todos os anos a mudança de horário(e olhe, há muito tempo), o inexplicável horário de verão. Desse modo, a coincidência de horário com Brasília, com o aumento em uma hora nos relógios não é uma prática totalmente desconhecida. É uma questão de costume e de ajustes, como sempre ocorreu com a acomodação dentro do “horário de verão”.
O que realmente pode estar em jogo é um assunto totalmente desconsiderado pela população e sobretudo pelos políticos, mas de fundamental importância para o crescimento econômico de Mato Grosso do Sul e que diz respeito à integração populacional e cultural do estado. Olhe bem, não estou me referindo a uma hipotética identidade cultural.
Parece até brincadeira, mas em alguns municípios fronteiriços com São Paulo e Goiás, as pessoas convivem com dois horários. È comum ouvir, ao se marcar uma reunião, o pedido de definição: “é horário de Mato Grosso do Sul ou de São Paulo?” Pode uma maluquice desta? Pois bem, entendo que este plebiscito deve levar em consideração à necessidade ou não desta já tardia integração regional.
Está posta então uma colher nesse doce, e agora precisa ser mexido. Vamos ver no que vai dar.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 27 de julho de 2008.
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