segunda-feira, 13 de abril de 2009

Os que não comem e os que não dormem (*)

A hipocrisia está sempre presente quando a tônica é discutir a fome que vem se ampliando e massacrando populações nas mais diversas partes do mundo. Este flagelo sempre foi considerado como problema local, fruto do atraso regional e de uma natureza ingrata.

A participação dos países que se consideram distantes da miséria e da fome coletiva, além de decisões de cúpula sem efeito, se deu através de grandes festivais e shows liderados pelo mundo pop para arrecadação de fundos destinados aos povos famélicos. O resultado disso evidentemente foi bem passageiro, e a fome continuou deixando o seu rastro de miséria e de sofrimentos. Ficaram famosos esses shows, com cobertura da mídia internacional, com CDs e DVDs vendidos no mundo inteiro para a salvação de milhares de famintos de Bangladesh e da Biafra, para citar alguns exemplos. Aliás, muita gente não sabia sequer onde ficavam estas regiões. Esses eventos espetaculares ainda ocorrem, porém mais raramente. Entretanto, a fome não diminuiu, pelo contrário, ela se espalha em escala mundial, como uma praga de Deus.

Mas agora, quase numa grande catarse coletiva, parece que todos os países mais fortes e poderosos estão mais sensíveis com a atual crise de falta de alimentos e a ampliação da fome que assola populações pobres dentro desse mesmos países, ditos ricos. Ou melhor, a miséria cresce no próprio quintal dos “senhores do mundo”. E quem são esses “senhores” poderosos? Melhor seria perguntar: o que produz a fome e o crescimento da miséria pelo mundo afora?

A resposta é óbvia e simples: são os países ricos os verdadeiros produtores da fome, especialmente por que utilizaram à exaustão os artifícios e mecanismos de salvaguarda do (seu) capitalismo. A grosso modo, ao longo da história do sistema capitalista, as suas típi-cas crises econômicas, que os abalavam de tempos em tempos, são ardilosamente repassadas aos países pobres que, em última instância, acabam pagando a fatura dos prejuízos.

Isso ocorre mediante um perverso mecanismo de dependência das nações mais po-bres (que no passado foram muito ricas em recursos naturais e matérias-primas), vinculadas de forma desigual ao comércio internacional, com visível e descarada vantagem para os países capitalistas. A dependência, mantida pela força e dissimulada em políticas de intercâmbio e cooperação internacionais, não permitem sequer que os países pobres superem o estágio de inanição econômica, da qual o continente africano está repleto de exemplos.

Enquanto a fome assolava regiões longínquas e miseráveis, a situação não era considerada alarmante. Os países ricos mantinham uma confortável e lucrativa rapinagem, inclusive criando barreiras às exportações de alimentos e desenvolvendo políticas de subsí-dios à suas próprias produções agrícolas. Agora, porém, parece que esse “equilíbrio da desigualdade” está ficando de “pernas para o ar”.

A crise financeira que se alastra hoje sem barreiras e o preço “enlouquecido” do petróleo acenderam, como dizem os economistas, uma “luz amarela”. Essa preocupação bateu nas portas da recente reunião do chamado G-8 (reunião dos 7 paises mais ricos do mundo e a Rússia). Conforme manifestação do presidente do Banco Mundial, a serviço dos interes-ses dos países mais fortes, evidentemente, Robert Zoellick, a chamada “crise alimentícia global” pode incorporar ao universo da fome 100 milhões de pessoas ao já número assombroso de 854 milhões de subnutridos em todo o mundo, números detectados pelo FAO, organismo da ONU que trata dos problemas da agricultura e da alimentação.

Nesses trâmites das relações internacionais, e para fazer frente ao G-8, os países que se auto-denominam emergentes, compõem de maneira informal o G-5 (Brasil, México, Chi-na, Índia e África do Sul), mas são considerados pelos primeiros como um grupo de “2a divisão”. Segundo a imprensa brasileira a esse respeito, na próxima reunião do G-8, em 2009, os emergentes unidos (jamais serão vencidos???), somente participarão da reunião no último dia, depois de já ter sido aprovado e divulgado o documento final do evento. Esta luta vai ser difícil, longa e inglória, pelo visto..

Enquanto o G-8 discute e decide no andar de cima, aqui embaixo, no resto do mundo, a situação de crise e fome tende a se agravar. E a barbárie também. Como uma onda no mar revolto, do jeito que a água vem, ela volta num refluxo de maior intensidade. A fome sempre se faz acompanhar de outros horrores e das estratégias extremadas de sobrevivência acabando por atingir a todos indistintamente, a ponto de o mundo, num futuro muito breve, dividir-se em dois: o mundo dos que não comem e o dos que não dormem.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 10 de agosto de 2008.

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