segunda-feira, 13 de abril de 2009

Sonho de um partido dos pobres (*)

Até o aparecimento dos grandes partidos nacionais republicanos como PSD, UDN, PTB e outros, as agremiações partidárias brasileiras tinham características nitidamente locais. Esses partidos, cujas bases atendiam normalmente aos interesses das oligarquias estaduais, dificilmente conseguiam extrapolar os seus próprios limites regionais. Os Partidos Republicanos (PRs) estaduais surgiam motivados por dissensões internas dentro de um mesmo partido, para disputar uma eleição ou mesmo para fazer oposição ao grupo oligárquico encastelado no poder. E tão logo desapareciam tais motivações, esses partidos extinguiam-se para nascerem posteriormente com outra roupagem, mas dentro das mesmas características partidárias.

Os PRs regionais nem sempre demonstravam claramente seu papel político, seus programas, plataformas e objetivos. E, utilizando comumente o jornalismo como veiculo de propaganda política ou defesa de suas posições partidárias, os PRs marcaram época na vida política após a proclamação da República pela agressividade que eventualmente assumiam.

Nos primeiros tempos da República em Mato Grosso, dentre os muitos partidos surgidos nesse período, tiveram destaque o Partido Republicano Nacional, Partido Autonomista, Partido Republicano Constitucional, Partido Coligação Mato-Grossense, Partido Republicano Conservador, Partido Liberal, Partido Republicano, Partido Liberal Mato-Grossense e Partido Constitucionalista, sendo que estes dois últimos conseguiram eleger deputados para a Assembléia Constituinte de 1934.

Nesse mesmo ano, em 18 de fevereiro, fundou-se em Campo Grande um partido sui generis chamado Partido Nacional dos Pobres. O caráter político deste partido aparece desde o início quando Prudêncio Soares da Silva, seu presidente, em ofício de 28 de fevereiro de 1934 comunicava ao Interventor Federal em Mato Grosso, Leônidas de Mattos, a “fundação de um Partido político e protetor dos pobres nacionais”.

A proposta de um partido político, com características assistencialistas e de defesa dos direitos dos pobres, leva a crer que a esses desprivilegiados não restava outra alternativa senão tentar resolver através da própria união seus urgentes problemas. Assim, esboçando uma consciência não muito clara de seus principais problemas, demonstravam sensibilidade política frente à sua realidade sócio-econômica, contrapondo a miséria à riqueza. Nesse sentido, o convite distribuído na cidade pela Comissão Organizadora já definia que o partido tinha “o colimado fim de contribuir para amenizar as agruras dessa classe, que, com perfeita união de vistas poderá grandemente contribuir para uma paz duradoura, libertando-nos de constantes perturbações econômicas, e mais ainda das constantes mistificações da verdade para produzir efeito deprimente aos nacionais pobres; vem pelo presente convidar a todos os brasileiros que se julgarem nas condições acima manifestadas, para uma reunião que terá lugar à rua D. Aquino, às 14 horas do dia 18 do corrente, a fim de em plenário discutir-se as bases de sua fundação e organização”.

Tendo por fim (Art. 3) “zelar pelos interesses de seus filiados”, “defender os direitos de seus filiados perante a justiça”, “dar assistência médica aos filiados e seus familiares”, “e manter uma escola gratuita”, o Partido Nacional do Pobres esboçava uma tentativa de determinar os pontos nevrálgicos da camada pobre da sociedade campo-grandense.

Com características essencialmente nacionalistas, o PNP estabelecia já como uma das condições básicas para o ingresso no partido (Art. 6), “ser brasileiro nato, pobre e maior de 21 anos”. Nessa mesma perspectiva, o partido “prestará apoio aos Governos sempre que periclitar a ordem e a segurança do País, máxime em se tratando de nacionalização” (Art. 37). A Comissão elaboradora dos estatutos procurava ainda evidenciar a condição de defesa dos pobres, sem permitir a filiação de elementos portadores de moléstia contagiosa, invalidez ou que fossem mendigos (Art. 6).

Um aspecto curioso era que os filiados, apesar de pobres, estavam obrigados ao pagamento de mensalidades, sendo prevista uma tolerância máxima de três meses de atraso. Os benefícios previstos pelos estatutos (Art. 6) do partido referiam-se à criação de uma escola diurna para os filhos dos filiados com gabinete médico anexo, a contratação de advogado para respaldo jurídico e defesa dos interesses dos filiados e a criação de um jornal para ampla publicidade de suas atividades.

A despeito da precariedade das informações acerca do original Partido Nacional dos Pobres, ao que tudo indica, esta agremiação partidária de Campo Grande teve existência bastante efêmera.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 21 de setembro de 2008.


Um comentário:

Trainsppotting disse...

Faz todo o sentido um PNP.

Os bilionários controlam os milionários que controlam a classe média, que por sua vez controla os pobres que pos sua vez controlam os bilionários através do PNP.


Os EUA estão quebrados, porém é considerado o maior aparato militar do planeta e em plena expansão a exemplo do último porta avião com o singelo nome George H. W. Bush.

A industria bélica é uma industria, a exemplo de qualquer industria, como o agronegócio - por exemplo, e como tal necessita de investimentos e, considerando que o país esta quebrado quem financia tal industria?

Obviamente que não são a classe média nem os pobres que sofrem as mazelas que não atingem os milionários, muito menos o bilinários.

Portanto é necessário o partido dos pobres, aqueles que tem acesso direto aos bilionários como babas, enfermeiras, empregados domésticos que podem de forma, organizada através do PNP, traçar ações que minem atividades de financiamento "politicamente incorretas"

Quem sabe, um PCC para cidadãos civis de bem.