Muito se tem estudado e escrito sobre a revolução constitucionalista de São Paulo e pouco se tem dado valor à participação do sul de Mato Grosso neste movimento revolucionário. Parece que São Paulo, sozinho e heroicamente, fez frente às forças federais e dos seus aliados civis de outros estados, mais numerosos e melhor equipados, e comandadas pelo novo homem forte da república, o então vitorioso da revolução de 1930, Getulio Vargas. No entanto, torna-se necessário ver este movimento revolucionário por outro ângulo, recuperando também o importante e heróico papel do sul de Mato Grosso nesta história.. É possível inclusive afirmar que sem esta participação a revolução de 1932 não teria atingido a dimensão até hoje reverenciada.
Tudo começou em 9 de julho quando São Paulo tomou armas em defesa de uma constituinte, que vinha sendo postergada por Vargas. Mesmo esperando a adesão de outros estados, os paulistas apenas contaram com os voluntários do sul de Mato Grosso. A adesão teve início com um pronunciamento do general Bertoldo Klinger, então comandante das tropas militares no sul estado, e com o apoio de uma liderança civil, Dr. Vespasiano Barbosa Martins. Mesmo sendo exonerado e reformado do serviço ativo do exército, Klinger teve a seu lado grande parte das tropas federais acantonadas no estado e de significativos batalhões de voluntários civis. Já o interventor do estado, Leonidas de Matos, em Cuiabá, coordenava as forças governistas em defesa do governo federal.
Desconsiderando o governo instalado em Cuiabá, em 11 de julho, em Campo Grande, foi instalado o governo civil revolucionário, sendo empossado como governador Vespasiano Barbosa Martins, estabelecendo de imediato ligações com o governo revolucionário paulista.
Do lado dos governistas, a resistência envolveu forças da marinha em Ladário, do 17 BC de Corumbá e parte do 10o Regimento de Cavalaria de Bela Vista, além de voluntários gaúchos na fronteira. Houve grandes combates na região de Quitéria (divisa de Mato Grosso com Minas Gerais) e em Porto Murtinho. Porém, em pouco tempo, o isolamento de São Paulo e do sul de Mato Grosso, e o cerco das forças aliadas governistas, levaram à derrocada dos revolucionários, cujos líderes paulistas se exilaram na Europa e os mato-grossenses na fronteira paraguaia.
Em termos regionais, a adesão do sul do estado representou ainda mais o distanciamento já existente, entre a região sul e o norte do estado, sedimentando ainda mais as seqüelas dos interesses divergentes tanto políticos como econômicos. Porém, o governo de Vespasiano Barbosa Martins, ao contrário do que se escreveu mais tarde, não foi separatista com relação ao norte, e nem tampouco criou o estado de Maracaju.
Nos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul existe um jornal autêntico que pode elucidar as reais intenções do governo revolucionário de Vaspasiano. Trata-se do “Diário Oficial do Estado de Mato Grosso”, editado em Campo Grande, número 19, de 18 de agosto de 1932, órgão do governo revolucionário (o seu primeiro número saiu em 21 de julho, sendo diretor Dr. Francisco Bianco Filho). O próprio título já é revelador das intenções dos revolucionários sulinos, que assumiram o governo de Mato Grosso, desconsiderando o papel do governo cuiabano do interventor Leônidas de Matos. Além disso, este exemplar transcreve um artigo reafirmando que “o movimento revolucionário não é separatista”, desqualificando qualquer menção a um possível estado de Maracaju. Também comenta um editorial anteriormente publicado, em que “mais uma vez fizemos sentir que jamais pensaram os leaders do movimento constitucionalista em qualquer separatismo ou esfacelamento da integridade territorial do nosso Estado, que seria, além de irrisório, profundamente impatriótico”
Ainda neste exemplar do “Diário Oficial”, foram divulgados um decreto confiscando armas de civis para equipar as forças revolucionárias e uma campanha “Ouro para a Vitória” com a arrecadação de fundos para a sustentação das forças revolucionárias. (este tipo de campanha foi utilizado novamente bem mais tarde, pós o golpe de 1964, com uma outra roupagem: “Ouro para o bem do Brasil”).
Enfim, a leitura deste jornal faz cair por terra qualquer argumento de que a adesão do sul de Mato Grosso à revolução constitucionalista de 1932 tinha um caráter separatista, e os historiadores devem rever criticamente a historiografia a respeito. Essa é uma das missões da história e dos que a fazem: rever os documentos, analisá-los e enriquecer o conhecimento que temos de nosso passado.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 02 de novembro de 2008.
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