O Banco Central divulgou recentemente que mais de 15 milhões de clientes da rede bancária contraíram dívidas acima de 5.000 reais. Ou melhor, estão enforcados e presos à juros bancários escorchantes. Não é a toa que a cada balancete bancário divulgado pela imprensa, os lucros dos bancos assumem dimensões estratosféricas. Creio que, para os banqueiros, o paraíso não está nas distantes ilhas caribenhas, mas aqui mesmo, na linha abaixo do Equador. Ainda me lembro do terrorismo verbal de um representante da Fiesp, que afirmou que se Lula ganhasse a presidência da república (isso no primeiro mandato), empresários e banqueiros brasileiros migrariam em massa para Miami. Ledo engano. Agora é só sorriso.
Mas no andar de baixo a coisa está feia e preocupante, como afirma o Banco Central. O assustador é que a expansão do crédito neste país varonil já chegou a 1 trilhão de reais, propiciando a extensão de prazos de financiamento. Basta ver o estímulo à compra de carros com prestações “a perder de vista”, e, conseqüentemente, o aumento avassalador do endividamento das famílias. Isso, com a conivência do governo que, para atender aos interesses empresariais, não permite um basta nesta farra consumista.
Ainda segundo dados do Banco Central, nos últimos dois anos houve um crescimento da “república dos endividados”, com dívidas de clientes acima de 5.000 reais, em 47,17%. Pode uma loucura desta? É claro que isto vai acabar mal. Num universo maior, clientes com qualquer tipo de dívida, seja pequena ou grande, já estão atingindo a cifra alarmante de 80 milhões de pessoas.
Como isso pode acontecer? Pela expansão do crédito, é possível endividar-se ao financiar um carro, uma casa e somar a tudo isso novas dívidas com operações de crédito como empréstimo pessoal, uso de cheque especial e o famoso rotativo do cartão de crédito. Esta ciranda financeira transforma-se em uma bola de neve de difícil e amarga solução. Para superar a inadimplência o jeito é cortar ao máximo as despesas domésticas, devolver compras não pagas e planejar uma vida simples e frugal para, por alguns anos, quitar suas dívidas.
Quem caiu nesta armadilha vai sentir que o crédito fácil é uma faca de dois gumes, boa no início e ruim com o passar do tempo. Na verdade, existe uma contradição nesta situação financeira. Por um lado, a expansão do crédito estimula o avanço da economia. Era comum notícias na imprensa relatando a euforia (como se viu, falsa) dos comerciantes acabando com seus estoques de fogões, geladeiras e outros bens de consumo. Por outro, levaram esses imprevidentes consumidores a um caminho sem volta. Era previsível, mas ninguém acreditou que isso fosse acontecer.
Parece que os bancos ainda pretendem retirar as últimas gotas de sangue dos incautos consumidores. A todo instante, o seu telefone pode tocar e uma voz amável e carinhosa propõe um grande negócio e grandes vantagens com novos cartões de créditos e outras coisas afins. É sempre uma chateação e uma inconveniência, sobretudo nos horários de refeições.
Num plano mais amplo, apesar dessas contínuas crises domésticas, o mundo continua a girar. Ou melhor, de crise em crise o capitalismo vai se safando e empurrando com a barriga a velha máxima: um belo dia o sistema gera sua própria destruição. Contudo, essa onda vai varrer quase todo o planeta globalizado pelo capitalismo. Quem é que vai sobreviver??
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 20 de julho de 2008.
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