segunda-feira, 13 de abril de 2009

A bolsa da (in)segurança alimentar (*)

A velha história de confiar desconfiando está atormentando, nesses novos tempos bicudos, a vida de uma massa de bolsistas brasileiros, não aqueles ditos estudantis, mas uma imensa massa de desesperançados e prováveis eleitores ou cabos eleitorais. Refiro-me aos beneficiários da ação política mais importante do governo, o mais eficiente "ovo de Colombo" eleitoral contemporâneo: o programa Bolsa Família que começa a ser corroído pela inflação.

Mesmo com garantias do governo, que não admite qualquer fragilidade em seu programa, segundo pesquisa recente do Ibase 28% dos beneficiados com a Bolsa Família, também chamada de programa de segurança alimentar, temem (e com muita razão), o retorno tenebroso e assustador da fome cotidiana. E olha que esta bolsa, na verdade uma bolsinha, "quebra um galhão" enorme. Quem já passou fome sabe como é duro olhar para os filhos e não ter o que comer. Esse é o medo que se avizinha. Além disso, esta pesquisa divulgada pelo Ibase concluiu que no universo dos beneficiados somente 17 % atingiu a total situação de segurança alimentar. É muito pouco para tanto esforço.

É claro que esta aflição não se compara ao estágio de milhões de pessoas da Ásia e África que estão morrendo de fome a cada segundo. Mas o duro é saber que mesmo recebendo a ajuda do governo, uma parcela dessas famílias não consegue contar com todas as refeições diárias. Segundo ainda o mesmo Ibase, 21 % dos pesquisados encontram-se nesta inaceitável e terrível situação. Além do mais, é assustador que milhares de famílias abaixo do nível de pobreza sequer são beneficiados com a Bolsa Família.

Ao mesmo tempo, está renascendo um monstro há muito esquecido ou até mesmo desconhecido dos mais novos, a indesejada inflação, que não é um problema somente brasileiro mas, com a globalização, é um problema atual e mundial.

De fato, a perspectiva inflacionária (já é um dado real e assustador), não pode ser minimizada. Pelo contrário, parece que a sociedade brasileira não está preparada para enfrentar esta inesperada situação, esquecida da famosa maquininha de remarcar preços dos supermercados, que era um mecanismo de defesa e manutenção dos lucros de empresários e comerciantes. Explico melhor: no passado, para enfrentar os avanços da inflação, os mais diversos setores da economia capitalista impunham aumentos de preços preventivos, como forma de resguardar os seus investimentos e margem de lucros.. Era um mecanismo de aumento de preços com base na inflação passada, e antes até dos índices atualizados de inflação, provocava uma terrível e malfadada indexação de preços. É o que os economistas chamam de inércia de inflação.

Parece, infelizmente, que isto já está acontecendo neste Brasil, que alguém algum dia disse que era do futuro. Eu prefiro o presente, pois ninguém pensa em comer no futuro. A fome não espera

A disparada dos Índices Gerais de Preços (IGPs) já tem mexido com o bolso dos consumidores. E o próprio governo, com certeza, será um dos vilões da inflação com os constantes reajustes de tarifas públicas. Se o governo não descarta a sua sanha desmedida em arrecadação tarifária, garfando o bolso do desprotegido cidadão, como ficará então o resto da economia nacional? Sai debaixo.

Hoje, o dinheiro que se gastava antes numa feira livre não dá para encher a metade das sacolas do consumidor. Os aumentos são visíveis nos produtos horti-fruti-grangeiros, além dos nossos velhos conhecidos arroz e feijão, só para listar alguns. Ora, se os fertilizantes tiveram um aumento de 83% em um ano, imagino como serão em 2009 os seus duros reflexos na produção agrícola.

Agora, o susto veio maior com a divulgação do índice de aumento da cesta básica nos últimos 12 meses que chegou ao patamar de 52%. Coitado do pobre que depende do programa Bolsa Família que sentirá o peso deste infeliz e difícil momento. E o resto da população também, em especial as camadas mais sofridas da população.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 03 de agosto de 2008.

Nenhum comentário: