Recentemente, os jornais de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul registraram três casos de pessoas atacadas por onças no Pantanal. O mais recente caso envolveu um peão de fazenda no Jacadigo. Outro caso aconteceu na região do Paiaguás (como o Jacadigo, uma região próxima da cidade de Corumbá), quando um ribeirinho lutou com uma pintada e conseguiu sobreviver para contar a história. Esta situação, aparentemente inusitada para os dias de hoje, permite perceber o precário equilíbrio entre o modo de vida do pantaneiro e o que sobrou da natureza selvagem ainda preservada.
A região do Paiaguás foi, outrora, uma área de grande significado econômico para o município corumbaense onde, além de grandes fazendas de gado, colônias palmilhadas de pequenas propriedades dedicavam-se às culturas de sobrevivência e até produziam alimentos para abastecer o mercado de Corumbá. No porto corumbaense, era comum ver a chegada de “chalanas” abarrotadas de bananas, mandioca, carne seca e outros produtos. E assim, esses ribeirinhos viviam e conviviam com a exuberante natureza pantaneira, por muito tempo.
Na década de 1970, uma grande crise abateu-se sobre essa população ribeirinha. Foi a tragédia maior do rio Taquari e de seu entorno, provocada pela interferência inconseqüente do homem no desenvolvimento tecnológico e agropecuário do estado. A abertura dessa nova fronteira agrícola resultou no assoreamento de seu leito principal, provocando a vazão de suas águas e uma permanente enchente das suas regiões mais baixas. É importante lembrar que o Taquari sempre foi um rio de grande delta, apresentando, conforme a estação de águas do Pantanal, grandes áreas inundadas. Porém, é também sabido que há muito tempo os fazendeiros da região interferiram nesse processo natural, para salvaguardar suas terras das enchentes duradouras. A grande enchente de 1974-76 acarretou o processo irreversível de arrombamento e de cheia permanente em extensos campos e, ainda, a expulsão de seus moradores, a destruição de suas atividades econômicas, levando muitos deles a migrarem e a viverem marginalizados nas cidades. Alguns, porém, mais teimosos, persistiram na tentativa de sobreviver do que a natureza lhes pode ainda oferecer.
Um destes literais sobreviventes é Gregório Costa Soares, com seus fiéis e destemidos cachorros vira-latas e uma incrível história de ataque de onça. Mas, ataques de onças em animais domésticos ou em seres humanos estão cada vez mais recorrentes. Esses confrontos sempre existiram na história pantaneira, desde os remotos tempos da ocupação luso-brasileira e até mesmo antes, com as comunidades de índios, como os Guaikurú, conforme relatos muito antigos. Mas era uma história diferente.
Com o avanço da pecuária foi-se restringindo a área livre de sobrevivência dos animais selvagens. Cada vez mais acuados e cerceados em sua opção por alimentos, o inevitável ocorreu com a proximidade desses predadores por natureza nas regiões de ocupação humana. É sabido que, em grande parte, os felinos predadores atacam por sentirem-se ameaçados em seu habitat e pelo rompimento de sua cadeia alimentar. O perigo persiste ainda com a existência de áreas de preservação ambiental, marcadamente nas regiões norte do Pantanal, em áreas de mata virgem. O problema é que esses magníficos felinos, em busca de alimentos, permanecem em constante movimento e se deslocam numa área de até 50 quilômetros quadrados.
Hoje existe uma dura legislação punindo severamente a eliminação de animais selvagens, isso sem contar com a lei do desarmamento que rompeu com a tradição centenária do uso de armas pelo homem do campo. Como se defender nesta nova situação?
Pode ser também que a natureza esteja dando um troco indefensável, seja pelas águas do Taquari, seja por ataques de onça-pintada, cobras e outros bichos e fenômenos naturais. A verdade é que o abate de animais selvagens também fez parte do cotidiano do pantaneiro, seja como fonte de alimento ou mesmo como moeda de troca no comércio de abastecimento ribeirinho e das fazendas mais distantes dos centros urbanos.
Nas primeiras décadas do século passado, uma matança indiscriminada ocorreu na região pantaneira para atender o mercado internacional, transformando a ação dos caçadores em rendosa atividade econômica. Milhares de peles de animais silvestres curtidas artesanalmente e penas de aves embarcaram no porto de Corumbá, alimentando a fortuna de comerciantes e aventureiros. A matança acelerava-se em períodos de seca, quando as raras áreas com água transformavam-se em abrigo e concentração compulsórios dos bichos de todo o tipo, facilitando a ação dos caçadores. No porto de Corumbá, uma pele de onça custava 10 mil réis, em 1880, e seu preço multiplicou-se quase mil vezes no ano de 1937.
Também a caça serviu como atrativo turístico e divulgação da região pantaneira no país e, sobretudo, no exterior atraindo aventureiros de toda a espécie.
Hoje existe um processo de conscientização sobre a necessidade de preservar o que ainda sobrou da natureza selvagem. Mas é preciso ter duas coisas em mente: a primeira é que os estragos causados à natureza, de qualquer tipo ou forma, não retroagem. A segunda: é preciso aprender com o pantaneiro que, mesmo de aloite com os bichos (conforme linguajar cuiabano), vive e convive nestes magníficos pantanais há 200 anos e, antes da modernidade, aprendeu a respeitar os ciclos naturais da sua vida. A cada erro pode advir uma tragédia e por isso, não se deve cutucar a onça (natureza), com vara curta.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 05 de outubro de 2008.
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