segunda-feira, 13 de abril de 2009

O grande irmão mora ao lado (*)

Dizem que a democracia é um regime cheio de imperfeições, mas ainda não inventaram algo melhor. Na história da humanidade, desde a época grega, ocorreram as mais diversas variações e formas de democracia. Muitos morreram e sofreram em nome dela, como também muitos se frustraram em seu nome. Porém, não existe uma fórmula acabada de democracia, pois ela mesma continua em constante evolução. De fato, no processo histórico de curta ou longa duração, a percepção humana sempre foi procurar a utopia de uma sociedade mais justa, humana, fraternal e solidária. Enfim, enquanto o homem existir, esta luta histórica continuará.

Aqui perto de nós, no Brasil, a história não foi e não será diferente. Mas a democracia brasileira traz, historicamente, em seu bojo ranços autoritários. No período colonial, por exemplo, a sociedade patriarcal era autoritária e machista, mesmo com as atenuações relatadas no clássico livro “Casa Grande e Senzala” do mestre Gilberto Freyre. Com o Império mudou-se o regime, mas persistiram as mesmas estruturas sócio-econômicas, apesar de muitos monarquistas defenderem o Segundo Império como um exemplo de democracia, como fez o historiador João Camillo de Oliveira Torres, com o seu importante livro “A Democracia Coroada”. Já na República, os ventos autoritários mostraram-se visíveis desde os primeiros tempos, com os governos de Deodoro e Floriano Peixoto. Na seqüência, pouco se modificou o ranço autoritário da sociedade, sendo que o presidente Arthur Bernandes, por exemplo, teve seus quatro anos de governo sob o tacão da violência de “estado de sítio”, chegando inclusive a instalar um campo de concentração em Clevelândia, às margens do rio Oiapoque. O que pouca gente sabe é que corumbaenses morreram naquele campo de horror. Seguiram-se depois as ditaduras de Getúlio Vargas e dos militares.

Pois bem. Hoje vivemos uma democracia. Será?

O que assusta é que em seu nome se tomam medidas de caráter autoritário e parece que tudo isso é visto com espantosa normalidade. O exemplo mais acabado é a divulgação pela imprensa da existência do funcionamento no país de mais de 400 mil grampos telefônicos legais (autorizados pela justiça) e ilegais (na verdade não se sabe o quanto), com os mais inconfessáveis interesses. Essa paranóia começou em nome da segurança pública e se alastrou como uma praga maldita.

Talvez você não saiba, mas neste momento seu telefone pode estar sendo monitorado. Pode ser até que você não seja o alvo do monitoramento, mas inventaram um aparelhinho infernal, chamado “guardião”, que passa a liga-lo a um telefone monitorado. Isso se você tiver o infeliz palpite de ligar para um telefone que está sendo vigiado por autorização legal da polícia, ou de forma clandestina.

É a presença em nossas vidas do “big brother” (grande irmão), previsto no livro futurista “1984” de George Orwell e publicado em 1948. Um dos mais importantes escritores britânicos de sua época, Orwell (seu verdadeiro nome era Eric Arthur Blair) previu com 60 anos de antecedência uma sociedade controlada pela tecnologia (o mundo da utopia negativa), onde o “grande irmão” entrava em todos os lugares e vigiava todas as pessoas através de um partido que tinha chegado ao poder por uma revolução. Neste caso, o mecanismo de controle era um telão (“teletelas”), que ficava nos locais de trabalho, praças, bares, etc. e captava e enviava voz e imagens, permitindo o controle e a manipulação dos cidadãos. Este livro, que marcou e assustou muitas gerações de leitores, sempre foi visto como uma critica a uma indesejável sociedade autoritária, mas distante de uma realidade concreta.

Agora, o uso dos grampos controlados pela justiça, ou não, mostra que o “grande irmão”, descrito por Orwell em “1984” já mora ao nosso lado. É mais assustador e perigoso ainda achar que isso é normal, natural ou uma forma de se obter mais segurança.

E lá se vai a nossa democracia rolando escada abaixo...

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 28 de setembro de 2008.

Nenhum comentário: