segunda-feira, 13 de abril de 2009

Esse filme eu já vi (*)

Vendo as recentes imagens das TVs brasileiras sobre os preocupantes acontecimentos políticos na Bolívia, lembrei-me do clássico filme político “Chove em Santiago”. Um dos ícones da década de 70 do século passado, este filme faz parte hoje da estante clássica da cinemateca política contemporânea. O filme, imperdível, retrata com emoção os últimos dias do sangrento golpe de estado ocorrido no Chile, comandado pelo general Augusto Pinochet contra o governo democrático do socialista Salvador Allende.

Unida numa ampla aliança de esquerda, a Unidade Popular chilena levou Allende ao governo do país, que propunha uma administração socialista voltada para as camadas mais pobres da população. Havia, no entanto, uma dificuldade em administrar o país pela existência de uma direita rancorosa e violenta, e por uma esquerda que não se entendia. Isto fazia lembrar a piada de que a esquerda somente se unia na cadeia e, ao serem soltos seus membros, cada um pegava um táxi e seguia em direção distinta, quando não oposta.

Porém, era uma época da guerra fria, uma insana concorrência entre interesses internacionais polarizados entre os EUA e URSS. Como o marisco que ficava entre a rocha e as ondas do mar, os povos pobres e subdesenvolvidos em especial da América Latina também ficaram à mercê dos interesses desta política internacional. Pobre da América Latina. Foi esse um tempo que ainda continua presente em todo o mundo, basta ver os acontecimentos no Iraque e no Afeganistão, onde a política norte-americana avançou suas garras sobre governos democráticos (ou não, mas é a soberania dos povos que interessa), permitindo a implantação de sangrentas ditaduras com a conivência das elites e de uma população alienada e manipulada.

As conseqüências desse processo no Chile foram greves, passeatas, saques, violências, mortes e paralisação de caminhoneiros, tudo isso financiado pelo dinheiro norte-americano e capitaneado por agentes da CIA. O resultado foi a tragédia de toda uma população. A história está aí e deve ser lembrada, para não ficar todos esses acontecimentos no limbo do esquecimento.

Agora, os tempos são outros, é verdade, parecendo até que a guerra fria é algo anacrônico. Creio, no entanto, que esta disputa por espaços vitais ainda está presente com outra roupagem e ainda assusta. O caso da Bolívia está aí para alertar que os inimigos da democracia também não são coisas do passado, o mesmo ocorrendo em outros países como Colômbia e Venezuela. Por coincidência, são países ricos em recursos naturais.

Na verdade, a história republicana boliviana sempre foi tumultuada, com violências e golpes de estado, permeada por relações preconceituosas entre regiões de grande predominância indígena e regiões de influência marcadamente européia. De fato, a disputa de poder entre o altiplano andino (carregado por populações indígenas) e a região de Santa Cruz já produziu conflitos, mortes e golpes de estado. Basta ver a quantidade de governantes que já se alteraram à frente do poder boliviano.

O presidente Evo Morales, de origem indígena, assumiu o poder com um discurso em defesa de sua gente. O que se esperava aconteceu, aliás, desde o início de seu governo, em especial, pelo fato de sua política social ir de encontro dos interesses das elites bolivianos. Mais recentemente, Morales saiu fortalecido de um plebiscito.

Mas, de forma paradoxal, a oposição ao seu governo também.

Talvez, até o presente momento, já tenha ocorrido o mais grave conflito, beirando uma guerra civil. Está evidente que vai acabar em sangue, suor e lágrimas para os bolivianos.

Por isso lembrei-me dos idos de 70 e do infeliz Chile. Além desta conflagração civil, com mortes e prejuízos extrapolando até para o Brasil (com a aventura do gasoduto), a Bolívia expulsou de seu território o embaixador americano. Como retaliação, o mesmo ocorreu com o embaixador boliviano nos EUA. Colocando mais lenha na fogueira, Hugo Chaves, da Venezuela, já expulsou também do país o embaixador americano.

Isso é somente o começo. E o pior. Esse filme eu já vi.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 14 de setembro de 2008.

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