Após a guerra com o Paraguai, a primeira medida do governo imperial foi a internacionalização das águas do rio Paraguai até Corumbá. Tal medida, que atendia aos interesses do comércio externo, permitia que navios de qualquer nação estrangeira subissem com mercadorias sem restrições até o porto corumbaense. A partir daí, as mercadorias passavam a ser distribuídas pelos mais diversos pontos da província de Mato Grosso. Esta situação privilegiou Corumbá, que de uma tímida vila comercial antes da guerra transformou-se em um grande centro importador e exportador. O esplendor daquela época pode ainda hoje ser medido pelo conjunto arquitetônico da região portuária, que antigamente sediava os grandes armazéns das casas comerciais.
Este grande impulso econômico de Corumbá trouxe consigo uma nova fase na vida política, artística e cultural. Um exemplo da força deste poder foi o aparecimento do primeiro jornal, O Iniciador, em janeiro de 1877, sendo proprietário e redator Silvestre Antunes Pereira Serra e editor Manoel Antônio Guimarães. Nessa fase predominou uma imprensa política, muitas vezes exaltada, que procurava defender por todos os meios seus pontos de vista. Imprensa nitidamente partidária que com suas campanhas adquirira importância no desenvolvimento político dessa região mato-grossense.
No caso do O Iniciador, a regularidade da navegação do rio Paraguai permitiu que o material tipográfico fosse importado de Assunção. Surgiu como um “órgão comercial, noticioso e literário”, impresso em 4 colunas. Como o material era estrangeiro, não possuía sinais gráficos próprios da língua portuguesa, o que o levava, por exemplo, a utilizar o algarismo 5 invertido para substituir o cedilha.
Pensar apenas no renascimento comercial seria ter uma idéia falsa da localidade. Ao lado da riqueza dos comerciantes do porto havia a pobreza de boa parte de seus habitantes. Um viajante da época, João Severiano da Fonseca em seu livro “Viagem ao Redor do Brasil, 1875-1787”, dizia que nas ruas de Corumbá predominava a mendicância, com grande contingente de homens, mulheres e crianças, ainda reflexo da guerra que assolou a região. De acordo com este viajante, em artigo no O Iniciador, “quanta miséria vive por ahi, ao ao idear quanta dor cruciante, quanta agonia, quanta angustia atroz, quanto drama de episódios horríveis não terá por bastidores os ermos das mattas ou as taipas da arruinada palhoça, onde o sol e a chuva vão tão bem como o ar livre. Entregues á sua sorte, adoecem e morrem sem mesmo procurarem um medico, sem tentarem a salvação da vida ou ao menos buscarem lenitivos na medicina”. Viviam maltrapilhos, sem alimentação regular e moravam em choças ao redor da vila. Segundo este viajante, por sinal um médico, muitos já tinham contraído doenças crônicas enquanto outros viviam em total inércia frente à fome e à miséria. Isso explicava também o alto índice de mortalidade da vila nesta época.
Mesmo com situação tão contraditória, a vila foi se desenvolvendo e, no ano seguinte à fundação de O Iniciador, Corumbá foi elevada à condição da cidade. Em 1879, apareceu um novo jornal, O Corumbaense.
As manifestações políticas que tanto marcaram a província de Mato Grosso adquiri-ram em Corumbá uma nova coloração com a participação ativa da imprensa.
Curiosamente, a existência tardia de uma rivalidade entre portugueses e brasileiros, agora sob a roupagem da disputa pelo predomínio comercial do porto, dava motivo a constantes atritos políticos. E, como os dois jornais existentes representavam interesses desses grupos econômicos, acabaram por envolve-los na luta partidária, levando O Iniciador a defender os interesses dos portugueses e O Corumbaense, os dos brasileiros.
Em 25 de maio de 1879, à noite, a tipografia do jornal O Iniciador foi assaltada. O atentado, atribuído a oficiais e praças do Terceiro Regimento estacionado na cidade, foi conseqüência da campanha que O Corumbaense fazia contra o seu concorrente. As medi-das tomadas pelo governo provincial não foram suficientes para descobrir e punir os responsáveis pelo atentado, mas conseguiram conter os ânimos provocando o fim precoce do jornal O Corumbaense.
No ano seguinte, O Corumbaense voltou a ser editado sob nova direção e caracterizado como “órgão dos interesses do comércio, da lavoura e da instrução pública”, sendo uma sociedade anônima, mas ainda vinculado aos comerciantes locais. Desta forma, desapareceu o antagonismo da imprensa local entre grupos de detentores do poder econômico portuário.
Neste mesmo ano surgiu o jornal semanário A Opinião. Também foram editados pequenos jornais, tipo pasquins, liderados por jovens da cidade como O Calabrote, Athle-ta, O Mephistopheles e Diabinho. O jornal O Mephistopheles (do mesmo editor de O Iniciador), que se autodenominava “hebdomadário satyrico, joco-serio”, dedicava-se a satirizar a sociedade corumbaense além de combater o jornal O Calabrote, por ser um jornal satírico mais agressivo.
As disputas entre os partidos Liberal e Conservador também repercutiram em Corumbá. Assim, em 1884 apareceu como órgão oficial do Partido Liberal o jornal A Gazeta Liberal, fundado pelo delegado de polícia, coronel João Antônio Rodrigues.
Este, sendo abolicionista, defendia as suas idéias no jornal. Posteriormente, em 1888, também fundou o jornal abolicionista O Escravo.
Em 1886, pela terceira vez, reapareceu O Corumbaense, nesta ocasião como órgão oficial do Partido Conservador e protegido pelo chefe do partido local, coronel Antonio Joaquim Malheiros. Este jornal desapareceu em 1890 com o assassinato de seu redator, o tenente Francisco José Rodrigues. Além das disputas entre os representantes dos dois partidos, a imprensa corumbaense marcou, no final da época imperial, posições nitidamente abolicionistas, como o Echo do Povo, Oásis e o já citado O Escravo. Com a abolição, a maior parte deles deixou de existir.
Desse modo, mesmo com vida e sobrevida efêmeras, a imprensa de Corumbá na época do império mostrou uma força que poucas cidades do sertão brasileiro tiveram. E também deu início a uma história marcante no jornalismo mato-grossense e sul-mato-grossense.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 26 de outubro de 2008.
Nenhum comentário:
Postar um comentário