O contato com a história e com a literatura sul-mato-grossossense é uma oportunidade gratificante como uma viagem cheia de aventuras, perigos e grandes emoções. Porém, apresenta-se de forma desafiadora pela dificuldade de seu acesso. E o que pouca gente sabe, é que existe, desde meados do século XIX, um “caminhão” de livros produzidos sobre a região. Porém, poucos felizardos conseguem até hoje arrebanhar livros regionais, muitos deles raríssimos, formando belíssimos acervos bibliográficos. Mesmo assim, por ser em sua expressiva maioria propriedades particulares, o seu acesso torna-se infelizmente muito seletivo.
Algumas publicações tiveram, de forma curiosa, uma história paralela e desconhecida desde a sua produção e publicação até chegar ao público leitor. Um exemplo disso foi o famoso “Álbum Graphico do Estado de Matto-Grosso”, publicado na cidade de Hamburgo em 1914. Foi um arrojado empreendimento editorial e comercial e refletiu a expressão econômica, na época, do porto corumbaense. Teve um apoio ostensivo do governo estadual e demandou dois anos de trabalhos e pesquisas. No entanto, as pretensões de seus idealizadores foram tolhidas pelo rompimento da Primeira Guerra Mundial, que fez com que o navio utilizado em seu transporte de Hamburgo para o Brasil retornasse à Inglaterra. Assim, somente após o término do conflito, esta pesada e volumosa mercadoria chegou ao porto de Santos. Aí começou uma nova dificuldade para o governo estadual que teve de arcar com onerosa tarifa de armazenamento pela demora em sua remessa para Mato Grosso e também com os custos de seu transporte. As dificuldades não pararam por ai. O tamanho da obra e seu peso excessivo inviabilizaram a sua distribuição através dos serviços normais do correio da época.
Sabe-se que grande parte desta obra foi consumida por vorazes insetos em um improvisado depósito em Corumbá. Outra parte foi vendida aos passageiros do navio Fernandes Vieira que fazia o trajeto do ponto final da Estrada de Ferro Noroeste, em Porto Esperança, até Corumbá. Assim, esta belíssima obra chegou até hoje, sendo vendida a peso de ouro em sebos.
Bem mais tarde, nos anos oitenta do século passado, foi feita uma nova edição, em xerox, sendo vendida em Cuiabá pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso. Mas o “karma” do “Álbum Graphico” não terminou. No final do governo estadual passado, foi feito um acordo interestadual e o “dito cujo” foi reeditado, também em xerox, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Parece que não houve um feliz entendimento, pois a obra não chegou até nós e está sendo vendida no estado visinho.
Outra obra, também de extrema importância, surge agora republicada por uma iniciativa arrojada do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul. Trata-se de uma belíssima edição das obras completas do escritor Helio Serejo. Na verdade, uma obra imperdível, para ler e guardar.
Nela encerra-se uma carreira brilhante de escritor que soube com maestria contar a história da fronteira sul-mato-grossense. Com uma vida intensa, que daria um romance, Serejo participou de eventos importantes da história brasileira, e escreveu mais de 60 livros e artigos, de todos os tamanhos e números de páginas. Num trabalho relevante e meritório, o IHGMS transformou esta vasta produção na edição de 9 volumes, muito bem cuidada em termos editoriais e fartamente ilustrada. Também, por iniciativa desta relevante instituição cultural, o seu presidente, prof. Hildebrando Campestrini, escreveu um 10o volume, que também faz parte da coleção, com informações preciosas e significativas para a bela obra de Serejo.
Creio que outras instituições também deveriam entrar neste mutirão de reedições de obras clássicas sobre a história e a cultura sul-mato-grossense. Para a alegria dos estudiosos e colecionadores, ainda este ano, o IHGMS lançará ainda um primoroso volume contendo a edição completa das “Ruas de Campo Grande”, do escritor Paulo Coelho Machado.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 09 de novembro de 2008.
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