segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Como se constrói uma oligarquia (*)

Esta “coisa” não é nova e esteve presente em todo o desenrolar da História do Brasil e seu auge, historicamente, aconteceu no período da chamada República Velha. Era o tempo do poder personalista dos coronéis, com seus compadres e afilhados que, junto de outros coronéis e clãs familiares exerciam com mão de ferro o poder oligárquico estadual. Sem contestação e sem piedade, esses coronéis controlaram a polícia, a máquina administrativa e os seus empregos em suas respectivas regiões.

O município era a base da política coronelista, de onde emanava todo o poderio dos coronéis, como explicou Victor Nunes Leal em seu clássico livro “Coronelismo, enxada e voto”. Motivados por interesses políticos e familiares, todos se uniam em torno do chefe mais poderoso, extrapolando os limites municipais e dominando uma vasta região correspondente aos territórios estaduais.

Essas oligarquias eram, portanto, formadas pelos “Donos do Poder”, de acordo com o vasto e também clássico livro de Raymundo Faoro.

Esta etapa histórica, marcada pelo patriarcalismo e pelas ações paternalistas como características comuns desse tipo de poder, aparentemente foi interrompida com a Revolução de 1930, com a vitória de Getúlio Vargas e a derrota das práticas políticas tradicionais dos coronéis, predominantes na velha República. A causa revolucionária soprava ventos de renovação na política brasileira. Mas o gérmen do poder local, tão bem estudado pela socióloga Maria Isaura Pereira de Queiróz em seu ensaio “O poder local na vida política brasileira”, manteve-se vivo, com novas roupagens sobre antigos métodos de domínio oligárquico, superando o centralismo de poder da ditadura do Estado Novo.

Hoje, depois de tanto tempo e apesar do avanço histórico das relações sociais, da modernização da sociedade e da globalização que permitem divulgar e interligar informações e notícias em tempo real, alguns “bolsões” brasileiros conservam o ranço dos velhos tempos. Refiro-me, especificamente, ao estado do Maranhão, mas sabe-se que essa situação pouco difere de outros estados brasileiros.

A história começou, de forma coincidente, em 1930, quando nasceu o menino com o nome de José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, aliás, nome totalmente desconhecido do público brasileiro. Usou, entretanto, um outro nome e foi um homem de sorte, político de longa carreira, chegou à presidência da república, foi ainda senador, presidente do senado e construiu um forte poder oligárquico, com enorme controle político e econômico, distribuindo favores e empregos públicos. Além disso, mediante métodos políticos à moda antiga, ainda consegue manter ao seu redor políticos de projeção nacional e grandes empresários. Alia suas atividades políticas com as literárias como escritor de inúmeros livros publicados e ocupa uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Para quem não ainda não adivinhou, refiro-me ao senador José Sarney.

A trajetória e a formação desta oligarquia maranhense, aliás maléfica para a democracia brasileira, pode ser acompanhada no livro recentemente publicado, “Honoráveis bandidos – um retrato do Brasil na era Sarney”, do escritor Palmério Dória.

Cheguei a acreditar que o livro provocasse uma batalha judicial contra o autor pelos personagens ali citados. E olha que são muitos. No entanto, o tempo está passando e até agora nada foi publicamente informado sobre alguma reação por parte desses personagens reais do livro de Dória. Como o autor fez uma exaustiva pesquisa em jornais e contou com depoimentos orais, penso estar funcionando o velho ditado: “quem cala, consente...”.

Sei não....

Creio ser o livro uma grande contribuição para a compreensão de como ainda é feita a política no Brasil. É surpreendente como sobrevivem as formas mais arcaicas e espúrias de praticar uma espécie de política que gera desigualdades, distorções e corrupção.

Desse modo, o livro de Dória merece ser lido e é, ao mesmo tempo, sugestivo para outros autores fazerem o mesmo em seus estados. Lamentavelmente, o fenômeno Sarney tem seus seguidores pelo Brasil afora.

Seria engraçado se não fosse trágico para todos os brasileiros e para as conquistas realmente democráticas que já alcançamos...

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 10 de janeiro de 2010.

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