terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A perigosa vulgarização da imagem (*)

O gaúcho Getúlio Vargas que assumiu o governo da República com a Revolução de 1930, impôs anos mais tarde a ditadura do Estado Novo (1937-1945). Foi um ditador contraditório, maquiavélico, contrapondo de um lado como um político bonachão e simpático e de outro, enchendo as masmorras com opositores e com uma polícia habituada a utilização de práticas de tortura. Baixinho, com uma imensa barriga e fumando um enorme charuto que alternava com largo sorriso, Vargas estabeleceu toda uma legislação em benefício dos trabalhadores, ficando assim chamado de “pai dos pobres”.

Sem contar com recursos modernos de propaganda e marketing, Vargas soube usar com maestria sua imagem em benefício próprio, tanto que após quatro anos da queda do seu governo ditatorial, voltou à presidência pelos braços do povo. A violência do Estado Novo não foi suficiente para impedir a sua vitória.

De fato, foi um político populista que sabia manipular como ninguém as massas populares através do DIP (Departamento de Imprensa de Propaganda). Reunia, por exemplo, em espetáculos circenses, milhares de trabalhadores na comemoração de 1º de Maio no estádio do Vasco da Gama, distribuía fotos e simpáticos bonequinhos brancos com sua imagem. Apesar da ferrenha censura imposta, também permitia a divulgação de paródias e piadas especialmente musicadas pela dupla caipira Alvarenga e Ranchinho. Chegava a ponto de convidá-los para shows no próprio palácio do Catete, onde dava boas gargalhadas. Teve, porém, um fim trágico ceifando a sua vida com um tiro. Depois de Vargas, muitos políticos usaram, de forma populista, uma imagem popular como forma de projeção política e eleitoral, entre eles Adhemar de Barros e Jânio Quadros.

Agora, no atual estágio de modernização tecnológica e de globalização, com acesso facilitado pela multimídia, o presidente Lula tem sabido utilizar a sua imagem com maestria. Longe dos tempos de combativo líder sindical e da criação de um partido que propunha um ideal de uma sociedade mais justa e solidária, o Lula de hoje pouco difere dos políticos que tanto combateu. Não passa um dia em que ele não aparece nos meios de comunicação dando as mais diversas opiniões, muitas delas de uma fragilidade espantosa. Mas parece ser uma prática que dá bons resultados, pois basta ver os altos índices de popularidade “nunca antes visto neste país”, apesar do risco da vulgarização de sua imagem. Para quem acreditou e já votou nele, não deixa de ser uma situação de alto risco.

Tempo atrás, uma emissora de rádio européia transmitiu uma longa entrevista com o presidente, falando dos mais diversos assuntos de interesses internacionais. Dias depois, descobriu-se que era um gaiato fazendo-se passar pelo presidente. Que eu saiba não aconteceu nada com este irresponsável falsário, que poderia ter provocado um constrangimento internacional para o país. Dias atrás, o presidente e sua candidata Dilma Roussef foram envolvidos numa propaganda sobre papel higiênico. Usando imitadores, uma agência de propaganda simulou uma cena, é claro, de banheiro, para vender o papel Neve. Também não houve uma resposta firme do Palácio do Planalto para tão descabida propaganda. Além disso, em discurso recente Lula falou palavrões, sem o menor pejo.

Entretanto, não creio que esta é a melhor forma de reforçar a popularidade do presidente. Acresce à minha perplexidade o lançamento do filme “Lula, o filho do Brasil”, de Fábio Barreto, que usou a prática corriqueira da bajulação, para arrecadação financeira, aliás, filme financiado por empreiteiras que tem relações empresariais com o próprio governo. Ainda não o assisti, mas pelo que diz a imprensa, é um filme direcionado para fins eleitorais. A criação do mito, na história da humanidade, nem sempre acaba bem. Apesar dos elogios fáceis dos áulicos, creio que está na hora de retornar aos caminhos da sensatez.

Finalmente, levei um susto ao ler uma matéria assinada pelo ex-preso político e ex-petista César Benjamin (Folha de S. Paulo, 28.11.09) que relatou uma conversa que teve com Lula, em 1994, em que este afirmou ter tentado “subjugar” sexualmente um colega de cela. Fica a pergunta, porque somente agora, depois de tanto tempo, esta conversa simplesmente inacreditável veio a público? É um assunto escabroso que não pode ser varrido para debaixo do tapete. O que está em jogo é a imagem do presidente da república e não pode ficar sem uma resposta rápida e enérgica, sob pena de permanecer uma mancha nesta terrível história.

Os homens passam, mas a história julga e, se preciso, condena. Assim, os mitos são desmascarados.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 13 de dezembro de 2009.

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