Até que em fim uma boa notícia para quem defende a preservação da memória histórica de Mato Grosso do Sul.
No dia 3 p.p. foi liberado pelo Conselho Deliberativo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional o tombamento do complexo ferroviário da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Aliás, na verdade, o que restou da ação dos depredadores de colarinho branco que trataram com desconsideração uma das referências históricas mais importantes do estado. Até então esta memória ferroviária estava protegida por leis de tombamento municipal e estadual. Mesmo assim, este espaço corria riscos, como a idéia de “jerico” da construção em seu interior de uma grande arena para shows musicais. Com o tombamento, tudo estará definitivamente protegido.
É óbvio que somente isto não soluciona a sua preservação, pois vai ser preciso uma soma considerável de recursos para restaurar parte do que foi degradado desde a sua privatização. Não custa ressaltar que a privatização foi um dos maiores desatinos em nome da modernização do estado e os prejuízos provocados jamais serão recuperados. Uma bela história acompanhou a construção da cidadania sul-mato-grossense e foi jogada no lixo pela truculência dos governantes da época. E o que é pior, parecia pela maciça propaganda que os opositores à privatização, que varreu o país de norte a sul, eram contra os interesses nacionais. Pelo contrário, foi uma batalha perdida para os que realmente defendiam os interesses nacionais contra os verdadeiros entreguistas que, com uma política de “terra arrasada”, desnacionalizaram grandes e ricas empresas de vital importância econômica para o país.
Como é triste ver, ao longo dos trilhos que restaram, estações abandonadas à mercê de vândalos e de ladrões que se aproveitam da situação para roubar telhas, telhados, móveis, tijolos. É uma pena não preservar uma história construída desde os primeiros tempos do século XX, de muitos sacrifícios e de muitas históricas alegres e românticas. Por tudo isso, é preciso entender que o tombamento do IPHAN de parte da ferrovia, por circunscrevê-lo somente à estação central de Campo Grande e ao seu entorno, não soluciona o problema do extenso patrimônio de toda a ferrovia. Entendo ser preciso continuar a campanha para que toda a NOB seja preservada pela legislação do tombamento e não se pode iludir tolamente com o pouco que está sendo feito, sem correr o risco de ir de encontro aos que os espertos chamam de “politicamente correto”.
Também defendo de forma intransigente a existência de uma política estadual de tombamento de bens histórico-culturais e que possa assessorar a prefeituras na conscientização popular e na montagem de legislações municipais de preservação, em que Corumbá foi pioneira.
O casario do porto de Corumbá também foi beneficiado com o tombamento nacional do IPHAN, além do Forte de Coimbra e das grutas de Bonito.
Como um estado com fortes raízes históricas, seus pioneiros também deixaram marcas arquitetônicas que devem ser preservadas, a exemplo de Porto Murtinho, Bela Vista, Nioaque, Miranda, Aquidauana e Anastácio. Nesta última cidade existe um conjunto único onde funcionou, e ainda funciona, a histórica Casa Cândia. Não se pode entender a história política e econômica das cidades gêmeas, Aquidauana-Anastácio, sem passar pelas portas da Casa Cândia que, com outros prédios, são preocupações dos preservacionistas da prefeitura municipal.
Como a palavra “tombamento” ainda provoca arrepios em certos proprietários que imaginam perder seus direito de propriedade, creio ser sensato, além de uma política de esclarecimentos e de debates públicos, a inclusão na legislação de contrapartidas como abatimento de IPTU e outros impostos. Cada imóvel tombado também necessita de um projeto de uso sem a perda de suas características históricas e o máximo de sua originalidade, pois preservação não significa imobilização. Seria um bom começo.
Valmir Batista Corrêa
(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 27 de dezembro de 2009.
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