terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Assim a vaca vai pro brejo (*)

A escolha da cidade histórica de Copenhague para a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática levou a população mundial, pelas facilidades permitidas pela globalização dos meios de comunicação, a interar-se do grave problema dos desastres climáticos. São cenários apavorantes visualizados para o futuro: enchentes, secas, degelo polar, aumento do nível dos oceanos, ilhas e pequenos paises desaparecendo debaixo d água. Parece até o “fim do mundo” bíblico. A coisa é séria e os responsáveis são bem conhecidos.

A resposta é simples, pois os maiores culpados pelo desastre da natureza são os países ricos e industrializados que movidos pela ganância e pelo controle de poder estão destruindo o nosso planeta. Antes tarde do que nunca, busca-se uma solução em Copenhague onde estão reunidos representantes de 192 países além de uma multidão de pessoas não convidadas que fazem um barulho danado pelas ruas da velha cidade, enfrentam a polícia e, apesar da doce ilusão, não influenciam em absolutamente nada nas decisões dos governantes.

Isso faz lembrar o velho Congresso de Viena de 1815, uma reunião realizada nessa mesma cidade para refazer o mapa europeu após as guerras napoleônicas. Em tese, todos os atingidos pelo expansionismo napoleônico estavam envolvidos, fossem nações, povos, tribos, clãs familiares e demais atingidos. Mas, o que se viu foi o controle dos grandes países que manobraram as decisões em benefício próprio e em detrimento dos pequenos.

Creio que em Copenhague não será diferente. Basta relembrar o Protocolo de Kyoto, de 1997, que pretendia, ou melhor, exigia que os países industrializados reduzissem em 5,2 suas emissões de gases de carbono, ou seja, de gases estufa na atmosfera, em relação aos níveis de 1990. Sabe o que aconteceu? Os EUA da era Bush recusaram-se a ratificá-lo com a alegação hipócrita de que seria danoso à economia norteamericana, sem levar em conta que o país, na época, era responsável por 36,15 % da emissão do gás estufa em todo o planeta.

Desse modo os países ricos querem dividir os prejuízos com os chamados países emergentes (na época da “guerra fria” eram chamados de países em vias de desenvolvimento). Como era de se esperar, o Brasil está na alça da mira, pelo preço de sonhar em viver no mesmo plano que as nações ricas e poderosas. E parece mesmo, pois levou para Copenhague uma “pequena” comitiva de aproximadamente 800 pessoas. Os gastos podem ser imaginados por qualquer cidadão que paga seus impostos e não é sem razão que um canal de televisão acompanha um “impostódromo”, demonstrando que o país já arrecadou mais de um trilhão em impostos neste ano.

Esse encontro serviu também para mostrar um fato, relativo ao efeito estufa, no mínimo inusitado. Um estudo lá apresentado, produzido por pesquisadores da Universidade de Brasília, chegou à conclusão que somente a pecuária é responsável por 50% do gás estufa emitido no Brasil. Nisso está incluído o desmatamento para a formação de pastos e as queimadas provocadas para a renovação do capim. Nessa composição desastrada, que parece cômica se não fosse trágica, está a fermentação intestinal bovina que produz quantidades surpreendentes de gás metano, um dos gases de maior efeito negativo sobre o aquecimento global. Em recente jornal televisivo, a Globo, por autocensura afirmou que eram os “arrotos” dos bois. Não é não. São os fétidos “puns” dos bois. O que me assusta é que só no Pantanal existe mais de 20 milhões de cabeças de gado, produzindo gases fedidos e, por conseqüência natural e fisiológica, muita matéria fecal.

Mas creio que não preciso ficar preocupado, pois o presidente Lula já está falando abertamente na merda, só não sei se é de boi ou de gente mesmo. Por isso não me surpreendi em ler nos jornais de todo o país, que no dia 10 de dezembro passado, na assinatura de contratos do programa Minha Casa, Minha Vida, no Maranhão, o presidente disse em seu discurso: “Eu quero é saber se o povo está na merda e eu quero tirar o povo da merda em que ele se encontra”.

Digamos que a primeira parte ele acertou, posto que disse o que todo mundo sabe. Já a segunda ..., sem comentários!

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 20 de dezembro de 2009.

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