quinta-feira, 4 de março de 2010

Um marco histórico na fronteira oeste (*)

A presença do Forte de Coimbra em Mato Grosso do Sul representa um dos mais importantes marcos para o desenvolvimento histórico da nossa fronteira oeste.

Fundado na margem direita do rio Paraguai, por orientação do capitão-general Luiz de Albuquerque em 1775, teve de início um grande tropeço. A orientação era fundá-lo num estratégico local conhecido dos portugueses, chamado Fecho dos Morros. Por um erro do encarregado desta tarefa, capitão Matias Ribeiro da Costa, as suas paliçadas foram construídas 44 léguas antes, numa região que lembrava o Fecho dos Morros. Como era de se esperar, Matias Ribeiro entrou numa fria e perpetuou-se na história como o primeiro servidor público demitido por incompetência.

Desde o início, os militares conviveram com civis e seus familiares, partindo da premissa que, além de objetivos defensivos, as autoridades desejavam também o estabelecimento de assentamentos coloniais nesta região lindeira. Portanto, a convivência de militares e civis no forte de Coimbra data desde os primeiros tempos. Dois anos depois de sua fundação, as suas toscas paliçadas e os alojamentos cobertos de palhas de acuri foram consumidos por um incêndio. Este foi um dos muitos dissabores na história do velho forte.

Em 1778, um fato inusitado aconteceu com o massacre de 54 soldados pelos índios guaicuru (segundo um acordo entre os antropólogos usa-se a terminologia no singular quando se refere a tribo ou nação). Usando como isca as suas próprias mulheres, os índios conseguiram atrair para fora das paliçadas os soldados que, envolvidos pelas formosas índias, foram mortos a pauladas. Assim, marcados pelo abandono e isolamento, os soldados não resistiram ao encanto feminino e, literalmente, perderam a cabeça.

Em fins do século XVIII, assume o comando do forte Ricardo Franco com o projeto da construção das muralhas, agora de pedra. Por esta época, o velho forte não ficou imune aos conflitos coloniais das nações européias, o que levou o governador do Paraguai, Lázaro de Ribera, a subir o rio Paraguai com uma frota para atacá-lo, enquanto ainda existiam as velhas paliçadas. Ricardo Franco tinha sob seu comando 49 praças e, mais uma vez, 60 civis para a sua defesa e, mesmo assim, conseguiu segurar Lázaro de Ribeira que atacou o forte com uma grande força.

Bem mais tarde, em 27 de dezembro de 1864, novamente o forte foi colocado à prova com o ataque dos paraguaios. Estava no comando o tenente-coronel Hermenegildo de Albuquerque Portocarrero com uma guarnição de 115 soldados e um grupo de índios e civis. Após a resistência inicial, não restou a Portocarrero senão a retirada de todos os defensores do forte para Corumbá. Estava se iniciando a trágica guerra entre o Paraguai e a Tríplice Aliança.

Este resgate reforça a idéia de que a aplicação no entorno do forte de Coimbra da legislação federal, que prevê a desocupação de terras da União, vai de encontro às próprias raízes históricas da região. A primeira idéia foi transferir 75 famílias de civis ali residentes para uma região urbana de Corumbá. Seria quebrar a convivência secular de militares e civis que, unidos, lutaram e resistiram em defesa dessa região fronteiriça.

Parece, no entanto, que prevaleceu o bom senso e vai ser mantida no local essa população civil. Afinal, a existência de população nessa região é, de certa forma, uma garantia a reforçar os direitos do país em faixa de fronteira que já foi questionada um dia, a despeito de tratados e acordos internacionais. Essas questões fronteiriças ainda são muito delicadas em toda a América Latina, haja vista o que vem ocorrendo entre a Venezuela e a Colômbia. De qualquer forma as fronteiras são focos permanentes de tensão. E todo cuidado é pouco.

Valmir Batista Corrêa

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade (http://www.jornaldacidadeonline.com.br/), de Campo Grande (MS), em 28 de fevereiro de 2010.

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